quinta-feira, 18 de julho de 2019

"Governo contratará pastores da Universal e da Mundial pelas curas que promovem em seus templos"!

Já pode estar na cabeça de alguém a ideia de transformar em projeto de lei a contratação de pastores milagreiros pelo apoio que eles dão ao Sistema Único de Saúde (SUS), por causa de seus ministérios de curas e milagres. Certamente, a ideia nasce da constatação de que a prática da cura realizada por esses pastores segue um lastro de cultura tradicional de milênios (o que muitos defensores têm chamado de “medicina tradicional”). Assim, deve haver reuniões de muitos antropólogos e estudiosos do assunto e demais representantes da área de saúde para decidirem como viabilizar essa contratação.

Antropólogos reunidos podem defender que a cultura milenar do pastor-curador deve ser preservada e protegida pelo Estado uma vez que eles pertencem a uma minoria desprivilegiada e oprimida no Brasil. É histórico e notório o fato de que o Estado brasileiro sempre privilegiou a Igreja Romana com seus feriados nacionais religiosos e com a construção de seus templos em áreas públicas ligadas ao Estado. Portanto, como compensação e para pagar essa dívida histórica com a minoria evangélica, os especialistas de plantão deverão estudar um meio de oficializar as práticas de cura e o show de milagres que vêm ocorrendo do Oiapoque ao Chuí. Representantes do Governo podem reconhecer também o fato da imensa ajuda desses ministérios, que resultam em hospitais vazios, em alas para doentes terminais fechadas e em filas inexistentes do SUS.

Muitos poderiam ficar preocupados com a classe médica, mas, segundo as ultimas informações, é a própria classe médica que vem apoiando trazer para suas equipes os pastores contratados e regulamentados pelo Governo Federal. O que está acontecendo é uma mudança de paradigma tanto no Governo como na Medicina, que quer apoiar os pastores como “medicina alternativa” ou, ainda, como “medicina tradicional”.

Evidentemente, a tendência de um projeto de lei como esse é que, quando chegar à Câmara dos Deputados para ser votado, seja dilatado para abarcar outros promotores de milagres de outras religiões. O pai-de-santo, os médiuns-cirurgiões, as videntes e jogadoras de búzios podem auxiliar no tratamento de doenças que não poderiam ser detectadas com facilidade ou cujos tratamentos seriam muito dispendiosos aos cofres públicos, como, por exemplo, a troca de sexo no SUS.

Todavia, mesmo que nenhuma dessas excêntricas ideias acima já tenham saído de alguma "mente brilhante" do Congresso Nacional, aqui no Mato Grosso, a UNIFESP já se adianta para tornar tudo isso uma realidade dentro de muito em breve. 

Após uma semana de reunião com várias lideranças indígenas, o Hospital de São Paulo saiu daqui com a proposta de contratar os pajés, os raizeiros e as parteiras da Região pelo serviço que prestam em prol da saúde indígena. Não bastasse a total falta de conhecimento das inúmeras diferenças nas relações inter-culturais entre os mais de 10 povos indígenas de línguas e tradições sui generis, o Encontro da Saúde Indígena sai com a proposta de contratar os pajés num momento em que muitas de suas curas já são questionadas por alguns dos próprios indígenas. 

Além disso, o que se quer é criar uma hierarquia no tratamento de saúde, colocando o pajé como a peça principal nesse tratamento, seguido do raizeiro. Todos sabem que as práticas de cura do pajé fazem profundo mal primeiramente a eles mesmos, porque a maior causa da vinda deles para tratamento de saúde na cidade é a quantidade absurda que eles inalam das plantas que fumam durante as pajelanças. Seria de uma irresponsabilidade enorme do Governo contratar pajés. A ideia proposta na Reunião é que se o pajé e o raizeiro não resolverem o tratamento na própria aldeia, aí eles levariam o caso adiante. 

Dois problemas: um, é que as raízes realmente podem curar, mas as doses ministradas pelos raizeiros, historicamente, têm envenenado os indígenas, levando muitos até a óbito; outro problema é que muitas dessas raízes são pingadas nos olhos para tratamento de saúde e há caso mesmo de indígenas cegos por causa disso. Como enfermeiros e médicos em sã consciência podem apoiar uma ideia como essa?! Outra ideia transcultural surgida na reunião de saúde indígena e que fere com a autonomia do hospital em defender a saúde e o bem-estar de todos os seus pacientes internados é a permissão especial para que os pajés venham ao hospital na hora que for para a realização da pajelança. Hoje, o horário de entrada do pajé no Hospital é restrito e feito na área hospitalar ao ar-livre por causa do excesso de fumo lançado no ar. O que querem propor é que o pajé seja recebido na hora que ele chegar (se ele chegar às três da manhã e disser que a pajelança tem que ser feita naquele horário, assim será).

Ainda há um ponto delicado: a contratação das parteiras. Hoje, o que reduz e muito o infanticídio indígena é a vinda das mães para a cidade, onde as mesmas são assistidas durante o parto. A partir do momento em que o Estado validar o trabalho da parteira na aldeia, o índice de óbito infantil por “causas naturais” após o parto tornará a crescer.

Embora muitas das discussões surgidas no Encontro de Saúde Indígena sejam válidas, necessárias e urgentes para a melhoria no atendimento humanitário aos povos indígenas da Região, é preciso bom senso da parte da Área Médica e do Governo Federal para que tais ideias, que se valem da desculpa da tolerância religiosa e do respeito à diversidade cultural, nem sequer saiam do papel.

Isso é um bom exemplo do ponto em que se pode chegar a nossa democracia de minorias. Mais uma vez, faço o alerta de que políticas públicas e leis de proteção às minorias em detrimento do bom-senso de uma população geral são ovos de serpente que apresentarão, a longo prazo, uma colisão social fomentada pelo próprio Estado! Mas, enfim, talvez seja este mesmo o objetivo final de toda essa agenda mundial do Leviatã!

Publicado originalmente em 13 de abril de 2012.

Para saber mais sobre a mentalidade revolucionária desse Leviatã, leia nosso post: Há um monstro no mar!

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Rehab* - o monstro sob o mar profundo... (a mentalidade revolucionária sobre a qual se assenta a TMI)

Bem-aventurado o homem que põe no Senhor a sua confiança
e que não respeita os soberbos*, nem os que se desviam para a mentira.
Sl 40:4
Há um monstro no mar! Há uma terrível fera escondida. Ela está submersa no mar da alma humana. Eu não posso resistí-la... Quem poderia? Ela se ergue de dentro das águas. Esse monstro é a serpente, é o polvo, é o dragão marinho, que nos arrasta a todos às águas profundas do mar sem fim.

Ninguém pode vê-lo. A fera diabólica é invisível, contudo eu sei que a sua língua agita, tumultua, convulsiona o mar que há em nós e o mar que é povos, multidões, nações e línguas. É Rahabe o monstro desses mares – um dos sete príncipes infernais. É ele o Leviatã que atormenta desde o princípio. Ele está lá fora e aqui dentro. "O monstro que você viu estava vivo, mas agora não vive mais. Ele está para subir do abismo, e dali sairá, e será destruído. Os moradores da terra que desde a criação do mundo não têm os seus nomes escritos no Livro da Vida ficarão espantados quando olharem para o monstro. Ele estava vivo; agora não vive mais, porém tornará a aparecer. Isto exige sabedoria e entendimento"... E se lhe negarmos a existência, ele nos dominará o mundo. "L'État c'est moi", diz o rei. Rahabe é a Soberba! É a Inveja! É a vaidade dos falsos deuses. Rahabe é a mentira, que nos leva a repousar sobre o nada. Rahabe – este Leviatã – estava ali nos tormentos de Jó, mas também já se encontrava antes. No caos primitivo, havia a besta-fera abaixo das águas sobre as quais pairava o Espírito Santo.

Não há vitória contra o monstro que se vale da depravação da natureza humana contra o próprio homem, apenas o Cristo com seu anzol poderá arrancar de nós a fera imensuravelmente superior ao homem. Rahabe, eu sei que você foi humilhado quando as suas águas se abriram. Sei também, Rahabe, que subjugada foi a sua arrogância quando o obrigaram a ficar olhando impotente aquele povo passar a pé enxuto por entre as suas águas: “Ó, Mar Vermelho! Ó, Leviatã! Onde o seu grilhão? Monstro da minha alma, onde o seu veneno?" Todavia, se o homem não crê em ti, dispensa o socorro de Cristo – o único que pode enfrentar e destruir os egípcios sob o nosso encalço!

“Cala-te! Aquieta-te!” - ordenou o Senhor de dentro daquele barco. E Rahabe foi afugentado: “E o vento se aquietou, e houve grande bonança”... O Oceano e seus demônios. O exército dos soberbos. Rahabe é a rebelião contra tudo o que se chama Deus, por isso diz o salmista: “eu não respeito os desencadeados de Rahabe e nem os que se desviam para seguir as loucuras de suas mentiras”.

Suas carnes, Rahabe, e a carne de seus seguidores e seus sangues serão servidos aos animais. Quanto aos que têm ouvidos para ouvir, a felicidade é tão somente daqueles que depositam sua confiança no Senhor que destruirá a fera que sai do mar.

רהב* - forma plural (raw-hawb): os seguidores de Rahabe. Literalmente: os desencadeados. Os egípcios eram chamados assim e também os falsos deuses dos povos vizinhos. Rahabe~Rehab --> just a fun...


Postado originalmente em 05 de setembro de 2011.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Missões e mentiras

Há alguns anos assisti ao filme chamado "A chave do sucesso". Havia um personagem cujas despesas estavam sendo custeadas para que ele fosse a um Congresso vender produtos da empresa em que trabalhava. Entretanto, durante o Congresso, o funcionário gasta todo seu carisma, simpatia e tempo evangelizando as pessoas às quais deveria estar vendendo o produto do seu patrão. Esta é a questão debatida no filme.

Lembro-me das histórias do "contrabandista de Deus" do irmão André. Histórias fascinantes em que ele contrabandeava Bíblias para trás da cortina de ferro, dando acesso à leitura da Bíblia aos milhões de oprimidos pelo Governo Comunista.

Sei de missionários que vão a países extremamente fechados, nos quais cristãos são perseguidos e mortos caso ousem evangelizar. Nestes países, só é possível entrar como "fazedor de tenda". São missionários bi-ocupacionais. Entram legalmente como médicos, professores, dentistas, enfermeiros, etc. São situações delicadas, uma vez que até suas vidas correm risco.

São exemplos de evangelismo as ações citadas acima, mas todos esses casos (e tantos outros) precisam sempre ser cuidadosamente discutidos no seio da Igreja de Jesus, pois, às vezes, há situações – creio que o exemplo do filme – que correm o risco de se transformar num contra-senso na evangelização cristã: usar da mentira para pregar a verdade. O cuidado com a ética, com o testemunho, com as ideologias e justificativas usadas para a evangelização mundial deve-se fazer presente para que não deixemos que por nossas próprias mãos a mentira situe-se onde ela não deve estar.

"Ilegais, graçasa Deus" de Bráulia Ribeiro, artigo publicado na RevistaUltimato, nº 321, edição de novembro-dezembro de 2009, comete o equívoco de seguir por um caminho em que os fins justificam os meios: abençoar a nação americana legitimaria a ilegalidade evangélica. O título e o texto se juntam numa apoteose apologética a favor da ideia de que Deus está por trás da presença ilegal (portanto, criminosa) de crentes na América. 

Mas qual seria a justificativa para Deus apoiar uma ação criminosa? Segundo o texto, a evangelização de uma América agora decadente. "As casas residenciais estão indo a leilão, negócios estão falindo, fachadas com pinturas gasta, lixo nas ruas", assim a presença ilegal dos imigrantes de fé cristã é justificada porque eles, na verdade, são o "Israel redivivo" que irá reconquistar a América para Deus. Mas a autora parte de uma premissa falsa, pois os brasileiros que entraram ilegalmente nos Estados Unidos não entraram PARA evangelizar ou PARA abençoar a América. Eles não saíram do Brasil apoiados por agências missionárias, Igrejas e muito menos estão num Projeto de Missões para evangelizar os cidadãos americanos. Eles foram para os Estados Unidos por motivos pessoais, do contrário, não estariam na situação de imigrantes ilegais. Eles não são missionários que se encontram em algum país fechado ao evangelho e estão dispostos ao martírio por amor à evangelização daquele povo. Quando confrontados com a pergunta se são missionários, estes estão dispostos a entregar a própria vida, se preciso for, ao responder que sim somos missionários, somos discípulos de Jesus! O mesmo não acontece com os imigrantes ilegais: eles precisam fugir, se esconder, ocultar a verdade e até mesmo mentir para não serem deportados.

Assim, o salto que é dado para explicar a presença abençoadora dos imigrantes ilegais cristãos na América usando o exemplo de Israel é totalmente equivocado. Ao contrário do que o texto da Ultimato diz, Deus não promete "expulsar algumas nações", mas TODAS as nações que habitavam a Terra Prometida. Não era para ficar ninguém daquelas nações pagãs, porque chegara para elas o momento de juízo da parte de Deus (Dt 9.5). Todavia, Israel passa a fazer alianças com os povos que Deus prometera expulsar e esta desobediência é a causa de sua derrocada espiritual. Isto logo se demonstra no livro seguinte ao Deuteronômio, o dos Juízes.

A lei para amar o estrangeiro não estava ligada aos estrangeiros que estavam na Terra Prometida, até porque é óbvio que eles não eram estrangeiros, mas, sim, os donos da terra. Estes deveriam ser expulsos e aniquilados, sem que houvesse nenhuma possibilidade de aliança. Mas, uma vez constituída a nação de Israel, deveria se respeitar o estrangeiro "porque fostes estrangeiros na terra do Egito".

Assim, Israel não entrou na Terra Prometida para abençoar os povos dali, mas para a execução deles. Do mesmo modo também, Deus usará por diversas vezes outras nações pagãs para a execução do seu juízo sobre Israel em tantos cativeiros que virão dali para frente. Agora, transportar tudo isso, que foi exclusivo das promessas de Deus para a nação de Israel, e aplicar à situação dos imigrantes ilegais na América é entortar o texto das Sagradas Escrituras. Pior, se o texto a ser usado é esse mesmo (Dt 9.5), então é de se esperar que a presença cristã na América está só aguardando a bancarrota final para tomar aquele país. É claro que não é nada disso o que se está querendo dizer no texto da autora, mas apenas que Deus apoia a presença ilegal (e até a planeja) para que os criminosos abençoem os donos daquela terra tão carente de evangelização...

"Migração, diversidade e mistura entre povos é coisa de Deus", a premissa é verdadeira, mas ela é usada para justificar a imigração ilegal, a diversidade criminosa e a mistura forçada em um país que tem tanto direito de cuidar do próprio quintal como qualquer outro país no mundo. As fronteiras são direito sagrado, assim como as cercas e as portas que protegem nossas famílias. Fechar fronteiras é o direito das nações. "Pular" fronteiras é crime! É a lógica do invasor, do usurpador: já que está tudo desmoronando, improdutivo, vamos tomar posse! Mas a avaliação do critério "improdutividade" torna-se subjetivo e manipulado. É a mesma moral que rege a ação do MST (Movimento dos Sem Terra). Entretanto, ainda que esta venha defendida por textos bíblicos cavados e manipulados por uma linha católica e evangélica que apoia a invasão de terras, só porque crê na falsa pregação de que "Deus criou o mundo para todos e o homem colocou as cercas", ainda assim esta moral não deixa de ser uma falácia para sustentar crimes. Isto não é abençoar. 


Haveria exceções à mentira? Haveria atenuantes? Se há, não no contexto de um país democrático e livre, cujos cidadãos pagam seus impostos e veem seu sistema de saúde inchar com a presença de quase de 30 milhões de imigrantes ilegais! E, certamente, nesse enorme número será uma minoria infinitesimal o número de cristãos. Logo, deve o Governo americano tratá-los de uma maneira diferenciada só porque, segundo o argumento de Bráulia, eles estariam ali para abençoar? E o que é ainda mais falacioso no texto, tentar ligar por extensão de argumento o direito à defesa nacional de um país soberano e democrático ao que aconteceu na África do Sul durante o apartheid: então, defender os interesses justos de uma nação e seus cidadãos é a mesma coisa que segregar?!

Usar mentiras para evangelizar é uma tentação que precisa ser enfrentada pela Igreja. Se não há teólogos, pensadores, filósofos cristãos para que "a linha de frente" reflita lá no campo sobre suas ações, aqueles existem dentro de nossas igrejas e seminários e poderiam ser ouvidos nessas questões. Mais uma vez, creio que sofremos pela dicotomia antibíblica que insiste em separar a Teologia da Missiologia.

Historicamente, tem-se indagado se haveria casos em que as mentiras seriam justificadas: para salvar a vida de um inocente ou para preservar algum valor como justiça, beleza, honra, etc. Desde tempos mais antigos, discuti-se a ideia da "restrição mental", "o direito de se calar", a "ocultação da verdade", entre outras coisas. Hoje se desenvolveu a tese do "mal menor" que se alastra em trabalhos de Mestrado e Doutorado nas Academias. Kant, Tomás de Aquino e Agostinho concordaram que seja qual for a situação é sempre melhor dizer a verdade, independente de quais forem as consequências. Ainda em tempo, um bom ponto de partida é assumirmos que todos somos mentirosos, assim como dizem as Sagradas Escrituras : todos mentem e enganam sem parar (Rm 3:13a). Poderíamos, enfim, caminhar em temor e tremor com a Graça de Deus pelos labirintos e recônditos de nossa natureza pecadora, discernindo e avaliando o quanto temos misturado mentiras à prática da ação missionária da Igreja, reconhecendo onde caímos para, arrependidos, retornarmos ao caminho da piedade. Isto, sem dúvida alguma, exigi-se de cada um de nós como exercício diário.

(Com este texto, eu encerro um bloco de 6 publicações escritas entre 2009 e 2010 e postadas no Blog da Rô, para refutar artigos da Revista Ultimato).

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Deus é pobre?!

Em Mateus, há o encontro entre Jesus e o jovem rico (Mt 19: 16ss) e, nesse episódio, frente às idolatrias das riquezas ao apego cobiçoso pelos bens materiais e à impossibilidade de se livrar das garras materialistas do mundo para seguir Jesus, os discípulos concluem que seria impossível um rico entrar no Reino de Deus. 

Precisamos lembrar que a riqueza era compreendida como benção de Deus e que, obviamente, o rico poderia satisfazer as exigências do Templo quanto aos animais comprados para os sacrifícios por seus próprios pecados. Entretanto, os discípulos são surpreendidos por Jesus, que afirma “que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus”. 

Ora, isto contrariava toda a expectativa da época. Diante das palavras de Jesus, Pedro divaga: “Bem, se o rico não pode entrar por causa do seu apego aos bens materiais, então, eu que larguei todos os meus bens, meu barco, minha casa, minha família, a pesca, a comodidade da Galiléia, certamente entrarei em primeiríssimo lugar no Reino de Deus! Serei o mais importante (Mt18.1). Serei tido como o maior (Mt 20. 26-27)”. Daí esse discípulo se aproxima de Jesus e, tomado pelo mesmo espírito cobiçoso do jovem rico, pergunta: “O que será de nós?”. Assim como o jovem rico, que presunçosamente se apoiara na lei para garantir o céu, Pedro se apoiava agora na pobreza. Em outras palavras, Pedro está dizendo: “Jesus, eu larguei tudo, sou pobre, abri mão de muitas coisas que eu tinha, então, ao contrário do jovem rico, eu mereço o céu!”. À maneira do jovem rico, Pedro esperava lisonjas de Jesus.

Até quando iremos subjugar a verdadeira espiritualidade à questão econômica ou ao economicismo? O céu não é mérito, seja você rico ou pobre. O reino de Deus nada tem com o comer e o beber, mas com justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14:17). 

Diante da presunção de Pedro, Jesus faz duas colocações que explicam as cobiçosas motivações tanto do coração do jovem rico como do coração pobre de Pedro: primeiro, “aos que me seguirem”, estes receberão a glória; segundo, os que largarem os bens materiais, não forem cobiçosos do que pertence ao outro ou do que o mundo tem a oferecer, estes receberão muito mais, mas, ainda assim, só se o fizerem somente “por causa do meu nome”, diz explicitamente Jesus. 

Assim, não há menção alguma de se ter como critério o fato de você ser rico ou ser pobre, mas o amor por Jesus é o que valida nossa caminhada cristã. Seja você pobre, seja você rico, sem amor de nada valerá o seu esforço em cumprir toda lei ou se enveredar numa vida ascética à moda de São Francisco de Assis ou de Mahatma Gandhi. E, por fim, Jesus chama a atenção de Pedro, que estava se apoiando no pretenso mérito da pobreza: “Porém...” (“deh” no grego, partícula de valor adversativo, que foi suprimida na versão da Linguagem de Hoje). “Cuidado Pedro com as motivações do seu coração, porque muitos, que aos olhos dos homens merecem o céu, serão os últimos e muitos, que aos olhos dos homens merecem o inferno, serão os primeiros”, exclama o Mestre. 

E para ilustrar a verdade ensinada, logo após Jesus conta a parábola dos trabalhadores na vinha, que fala dos trabalhadores que confiam nas próprias obras e no esforço pessoal e, por isso mesmo, exigem um pagamento melhor e fala também daqueles que, simplesmente, se alegram, se regozijam pela graça imerecida de trabalhar para o dono da vinha. 

A partir deste ponto, algumas indagações precisam ser feitas no coração de todo cristão que, sinceramente, se preocupa com a situação de miséria extrema pela qual passam milhares de pessoas: Até quando os cristãos preferirão abrir mão da verdade, para justificar uma prática social? Será que é preciso mesmo sacrificar o Evangelho para que se possa pregar sobre justiça social? Será que a Bíblia não é suficiente como única regra de fé e prática para engajar cristãos às boas obras? O que EU estou fazendo na minha vida pessoal para modificar a situação do meu próximo? Se o cristianismo não consegue dar conta filosófica e teologicamente das questões sociais é de se deduzir que ele não deva ser suficiente à humanidade, do contrário, por que precisaríamos nos valer de pressupostos de uma filosofia ateia, para motivar o cristianismo à ação social? Ora, até onde eu sei, deveria ser o Evangelho a reinterpretar o mundo e não o mundo a reinterpretar o Evangelho.

Assim, não podemos jamais esquecer que, ao nos aproximarmos do texto bíblico, antes de nos arvorármos em intérpretes das Sagradas Escrituras, é o texto bíblico que é a interpretação infalível de Deus a nosso respeito!

No artigo publicado pela Revista Ultimato (setembro-outubro 2008), intitulado “Deus é pobre!”, de Klênia Fassoni e Lissânder Dias, há o seguinte subtítulo: “Evangélicos envolvidos em ação social discutem a opção de Deus pela pobreza”. Realizei uma pesquisa simples: digitei a palavra “opção” no Word. A breve lista que surgiu no dicionário de sinônimos segue: alternativa, escolha, eleição, preferência, seleção. O Word percebeu o campo semântico em que está inserida a palavra “opção”. Insisti no “Aurélio” e as definições são: 1) Ato ou faculdade de optar; livre escolha. 2) Aquilo por que se opta. 3) Preferência que se concede a alguém (para comprar ou vender, pagar ou receber) dentro de determinado prazo e mediante certas condições. 4) Documento que contém essa preferência. 

O “Aurélio” concordou com o Word em identificar “opção” com “preferência”. Vamos, então, dar os quatro primeiros significados do “Aurélio” para “preferência”: 1) Ato ou efeito de preferir. 2) Predileção. 3) Manifestação de agrado ou distinção; 4) Anteposição, precedência, primazia. Enfim, Houaiss segue em semelhante direção, acrescentando uma curiosidade irônica: os puristas da língua consideram “opção” um galicismo. Compreendido o significado da palavra, o que se espera que o leitor entenda quando se afirma que Deus fez uma opção pelos pobres?

“Opção”, “preferência” e, ainda, “preempção” são palavras profundamente ligadas entre si. As três possuem significados que perpassam as áreas econômica, jurídica e, também, teológica. A ideia delas tem a ver com “compra”, ou melhor, “comprar antes”, “ter a preferência de uma compra”, “decidir antecipadamente por algo que se irá comprar” e, ainda, “preferência por comprar com exclusão de outros interessados”. 

Enfim, “opção” é uma escolha. Assim, inevitavelmente, a opção de Deus pela pobreza é uma exclusão dos ricos. Crer e pregar que Deus optou pela pobreza é induzir o outro a acreditar que Deus faz acepção de pessoas baseado em critérios econômicos. Isto, indubitavelmente, é anti-bíblico e anticristão (Rm 2:11; Ef 6:9; Col 3:25; I Pe 1:17). Não há na Bíblia alusão alguma a que Deus escolha pessoas com base na classe econômica a que pertencem. Ora, a idéia de que Deus optou de antemão comprar para si pessoas de uma classe econômica em detrimento de outras só existe na cabeça dos teólogos da libertação, sejam católicos, sejam evangélicos. 

Na pregação de um Deus que opta pela pobreza, não há fraternidade, não há solidariedade, não há justiça, paz e nem alegria no Espírito Santo, há apenas conflito de classes. Uma religião que prega que Deus optou pela pobreza incentiva que seus seguidores façam uma opção que gera acepção econômica e a Bíblia é clara em chamar este ensino de pecado (Tiago 2:9). 

É impressionante o desdobramento teológico que a distorção marxista causa no Evangelho puro e simples de Jesus Cristo e que tantos evangélicos reunidos no Congresso do RENAS (Rede Evangélica Nacional de Ação Social) não se deem conta disso! Insistir em inverdades históricas de que Jesus “se tornou pobre” (como aparece no texto da Ultimato), usando os mesmos parâmetros modernos de pobreza, é uma falácia que nada tem de científica e que distorce a nossa compreensão histórica e social sobre os tempos de Jesus e as matizes da comunidade judaica. Dizer que “Deus expressa entre os pobres quem ele é” é fazer da pobreza a mediadora entre os homens e Deus, pois se a revelação do Ser de Deus está entre os pobres, infelizes dos ricos que se tornaram cristãos a exemplo de José de Arimatéia ou os “da casa de César” e, ainda, das mulheres que sustentavam Jesus e seus discípulos com seu trabalho e suas riquezas (Lc 8: 1-3). Enfim, dizer que “Deus fez aliança com o pobre”, conforme está no texto da Revista Ultimato, é o arremate final de toda distorção possível do que é e do que significa a aliança da Graça feita por Deus em Jesus Cristo para a salvação da sua Igreja. 

Ouça as palavras do pastor luterano Valdir Steuernagel, citadas no texto da revista: “Deus tem coração ou tem só palavra? Deus é muito mais do que conhecimento. Precisamos ouvir o palpitar do coração de Deus. Este é o centro da fé: o Deus que procuro servir é o Deus que me alcançou, que veio, encarnou-se, tornou-se pobre, tornou-se fraco, morreu na cruz”. 

Irônico é que essas palavras tenham sido publicadas exatamente na edição da Ultimato que traz como tema: “Tirem o crucificado da cruz”. O centro da fé do Pastor Valdir está sem ressurreição, sem glória, sem reconciliação. E é exatamente isto o que falta às Teologias marxistas e às suas demais filhas e também à pregação de que Deus opta pela pobreza. Mas as palavras do Pastor Valdir seguem às últimas tendências que insistem que não posso encontrar Deus na sua Palavra, no conhecimento revelado na Bíblia. É a práxis substituindo mais uma vez a ortodoxia da Palavra de Deus. Quem faz esse tipo de inversão? A Igreja Universal do Reino de Deus e a Teologia da Libertação! Aquela prega a riqueza e esta a pobreza, mas o fim de ambas será o mesmo. À impossibilidade de um rico entrar no céu, Jesus responde: “Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível”. À presunção meritória da pobreza, Jesus previne: “Porém...”! 

Respondendo, enfim, à pergunta inicial do título do meu texto “Deus é pobre?”, digo, então, que opto pela riqueza da glória da minha herança nos santos, seja pobre ou rico (Ef 1: 18). Opto pela igreja (composta de ricos e pobres), que é o corpo rico (pleno) daquele que tudo enche (fartura) em todas as coisas (Ef 1:23). Opto pelo Deus que é rico em misericórdia, derramando sua Graça salvadora sobre ricos e pobres (Ef 2:4). Opto pela suprema riqueza da graça e da bondade de Deus em Cristo Jesus que atravessa toda a história da humanidade, seja entre ricos seja entre pobres. Opto pela derrubada da parede da separação entre judeus e gregos, homens e mulheres, ricos e pobres, na Igreja da reconciliação e da paz (Ef 2 e 3). 

Deus é pobre? Opto por compreender que paupérrimas são essas teologias que sacrificam a verdade por não discernirem no Evangelho de Jesus Cristo sua única regra de prática para as boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas e, portanto, para que nem nelas pudéssemos nos orgulhar (Ef 2: 10)!

Texto publicado, originalmente, no ano de 2009 na revista Ultimato Online. Posteriormente, em 2011, também foi publicado aqui.

domingo, 14 de julho de 2019

Teologia Negra?! (ou "Onde nascem os discursos equivocados")

Por seus frutos os conhecereis.
Porventura, colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?
Mt 7:16

Nas aulas de fonética do CLM, íamos ao quadro para desenhar o aparelho fonador humano e escrever o nome de cada uma das suas partes. Ao finalizarmos aqueles desenhos, a professora os olhava com um ar muito meigo e alguns de nós terminávamos ouvindo dela: "Está bonitinho, mas totalmente errado!". Pensava comigo: como algo poderia estar "bonitinho", mas totalmente errado? Descobri com o passar dos anos que há muitas coisas "bonitinhas" nos púlpitos de muitas igrejas e escritas em muitos artigos e livros do meio evangélico, mas profunda e perigosamente equivocadas.

Pensando no que disse acima, pergunto-me o que deve surgir na mente dos leitores diante de uma expressão como "teologia negra". Se teologia é o resultado confessional de nossa cosmovisão (segundo Rev. Ewerton Barcelos Tokashiki), deduz-se que toda teologia é um discurso sobre a divindade, sobre Deus, mas sempre como fruto de uma sistematização construída a partir de determinados pressupostos. Mas quais pressupostos?

Pressupostos podem se revelar teístas, deístas, marxistas, antropocêntricos, humanistas, animistas, etc. Daí, ao ouvir sobre uma “teologia negra”, imagina-se haver um discurso negro sobre Deus construído sobre pressupostos raciais? Seria isso? Sendo assim, haverá tantos discursos sobre Deus quanto há etnias e outros grupos sociais no mundo que então sedimentariam teologias negras, brancas, amarelas, vermelhas e - por que não? - gays, pobres, ricas, feministas também? Entretanto, seriam todos esses discursos válidos? Estariam todos esses grupos discursando sobre o mesmo conteúdo? Duvido. O que decorre é que o espaço à Teologia Gay deveria ser o mesmo dado a uma Teologia Negra ou a uma Teologia Feminista. Obviamente, haver uma Teologia Negra implica na existência de outras teologias disputando espaço, seja numa feira de ideias, seja numa luta de ideologias, ou pior, de raças!

Ora, no areópago pós-moderno todos os discursos são válidos, todos são “politicamente corretos”, todos são cobertos pelo verniz do apresentável, do “bonitinho”, ainda que possam ser retóricas perigosamente equivocadas.

O que seria uma Teologia Negra? Se não é outra coisa senão a própria teologia cristã, então por que ser negra? É um novo discurso sobre um Deus negro? Ou o discurso de um teólogo negro sobre Deus? Ou seria a Teologia Negra o discurso de Deus sobre os negros? Sendo isto, é uma teologia desnecessária, visto que Deus fala a todos e acerca de todos independente se somos negros, brancos, indígenas, gays, heterossexuais e até mesmo flamenguistas! Sendo um novo discurso sobre a divindade, equipara-se, como já disse, a tantas outras teologias que não necessariamente são cristãs – são apenas geiseritas sedimentadas à margem da fonte da água viva a jorrar, que é o verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo.

Mais uma vez ainda, o que seria uma Teologia Negra? Pode-se crer que seja uma teologia em oposição ou diferente a uma Teologia Branca? E esta existe? Se, por exemplo, a teologia branca for a teologia de Pipper, Washer, Spurgeon, Calvino, Lutero, Wycllif, Agostinho, Atanásio, seria a teologia negra uma oposição a eles (ou diferente deles)? Julgava que a teologia cristã fosse tão somente supracultural, suprarracial, supragênero, supraeconômico, mas não é o que parece ao lermos o texto de GercymarWellington Lima e Silva (Ultimato online de 18/11/2008), que cita que o melhor exemplo de referência imediata da negritude brasileira é o candomblé!

Ora, é esdrúxulo usar o espaço de uma revista cristã evangélica para discorrer sobre teologia negra e citar que o ponto máximo da cultura negra no Brasil é o candomblé e, ainda, pensar que, como cristãos, deveríamos apoiar as tais “políticas de ação afirmativa” que incentivam um sistema religioso (o candomblé) que produziu grandes teólogos e líderes espirituais de envergadura como... Como... Como quem mesmo?

Os adeptos do Candomblé, da Umbanda e outras quaisquer manifestações religiosas têm toda liberdade de participarem de seus cultos e de promoverem os mesmos como bem entenderem. O que não se pode apoiar é que o dinheiro do povo de Deus seja usado para promover uma cultura anticristã, como já tem sido usado para promover mudança de sexo no SUS, promover kit-sodomia nas escolas públicas, e as cotas da desigualdade nas Universidades, entre tantas outras bizarrices federais financiadas com dinheiro de nossos impostos (dinheiro que declaramos ter sido dado a nós por Deus!). Tudo isto sob a desculpa da laicidade do Estado.

Deus tem uma interpretação sobre nós, sobre nossa natureza e nossas responsabilidades coletivas e individuais, já escrevi sobre isso no artigo "Deus é pobre?!". O mundo precisa compreender que não é a sua interpretação sobre a divindade o cerne da questão, mas a interpretação de Deus acerca de cada um de nós. Esta, sim, é a teologia fundamental e cristã diante da qual devemos tremer e temer. Quando destruirmos as grades teóricas com as quais nos prendemos e passarmos tão somente a viver o Evangelho puro e simples, surgirão mais testemunhos maravilhosos de transformação cultural como o narrado no ótimo artigo “Receitaafro-brasileira: uma boa alternativa para igreja” (EdiçãoNovembro-dezembro/2008) de SílviaNassif Del Lama: um ótimo exemplo de uma igreja que não se rende ao contexto em que está inserida, mas o transforma aplicando “sermões, publicações, teatro, aconselhamento e programas de oração”. Uma Igreja que simplesmente crê que o Evangelho é o poder de Deus e não discursos humanos!

Teologia Negra... Teologia Gay... Teologia Feminista... O vão escuso dos discursos criados pelo perigo de palavras que, além de informações, estão carregadas de ideologias e bandeiras partidárias. Discursos que pregam mais descontinuidade do que estabelecem pontes entre pecadores e a redenção encontrada nas Sagradas Escrituras. Enfim, discursos bonitinhos, mas, exatamente por causa dos pressupostos que os deu à luz, revelam-se perigosamente equivocados.

Texto escrito no ano de 2009 e publicado na Revista Online da Ultimato e, posteriormente, publicado aqui também.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

E o que é que eu tenho com isso?!

Eu não creio que o romanismo necessite ser reformado, pelo menos não com as reformas propostas por Dom Isnard nas páginas da Revista Evangélica Ultimato (março-abril/2009), que, por mais de uma edição, já gastou páginas e páginas para expor "o drama dos padres celibatários".

Sucumbo, portanto, à perplexidade diante de tantos protestantes e evangélicos que "investem" horas preciosas numa discussão fútil sobre se padres podem ou não casar! Duvido que católicos percam tempo discutindo se presbiterianos deveriam ou não abandonar a prática do batismo infantil dentro dos seus templos. Duvido também que católicos publiquem em suas revistas seus palpites sobre se batistas deveriam ser pastoreados apenas por celibatários ou por mulheres e adotar o batismo por aspersão... 

Eu não creio que o romanismo necessite daquelas reformas ali propostas por D. Isnard. Muito menos creio que os protestantes e evangélicos deveriam se preocupar com as reflexões de D. Isnard. Segundo seus próprios pares romanos, pessoas como D. Isnard são homens que confessam seus crimes na intenção de serem aplaudidos (ver: http://oblatvs.blogspot.com/2009/01/dom-clemente-isnard.html).

Como ex-seminarista católico, entendo que as regras institucionais são previamente estabelecidas: o celibato é prerrogativa do sacerdócio romano. Em outras palavras: só é padre quem quer e ninguém tem nada com isso! Fico perplexo de tantos protestantes e evangélicos discutirem e darem espaço a questões como essa.

Mas eu não creio que o romanismo necessite dessas tais mudanças
, por isso não discuto sobre “o celibato voluntário dos sacerdotes e a ordenação de homens casados” ou sobre “a importância da ordenação feminina” e “a participação popular nas nomeações episcopais” ou “missões católicas”. Não sei quem escreveu o artigo em questão na revista (não foi assinado), mas a frase “as denominações protestantes precisam tomar cuidado para que não aconteça o mesmo problema em seu seio” revela um desconhecimento de quem seja o historicamente insubordinado Dom Isnard ou demonstra cumplicidade com o Bispo.

“Muitos querem falar, mas não podem”, diz o artigo da revista. Não podem por quê? A América Latina sempre produziu bispos que nestas últimas quatro décadas se levantaram pelas mesmas bandeiras de Dom Isnard. Este sempre falou o que quis e nunca foi censurado, basta ver o currículo dele apresentado no próprio artigo.

Aliás, aquela historinha sobre um superior eclesiástico que teria “orientado” uma editora católica a não publicar o livro de D. Isnard só pode ser devaneio, por favor! Dom Isnard foi presidente da Comissão de Liturgia da CNBB por mais de vinte anos, foi membro (nomeado pelo Papa Paulo VI) do Conselho para Execução da Constituição de Liturgia e membro da Congregação para o Culto Divino, será que alguém sabe o poder eclesiástico que estes cargos oferecem?

Eu não creio que o romanismo necessite das reformas de D. Isnard.
 As reformas imprescindíveis são muito mais profundas e essenciais. Entretanto as Reformas Bíblicas o romanismo não quer (e muito menos fazem parte das reflexões de D. Isnard sobre as instituições eclesiásticas atuais): o Papa continua a ostentar o seu Primado e o título de Vigário de Cristo, Maria permanece sendo mediadora entre os homens e Jesus e as “aparições” dela pelo mundo seguem incontestadas a despeito das verdades bíblicas, assim como seguem o culto aos santos e a missa aos mortos, e as tão escandalosas indulgências nunca deixaram de acontecer até os dias de hoje, só para citar alguns exemplos. É o romanismo de sempre que ainda hoje sofre das mesmas mazelas denunciadas pela Reforma Protestante há mais de 500 anos. Roma não foi reformada, mas parece que muitos protestantes e evangélicos já se conformaram com isso.

Além do mais, os Papas Bento XVI, João Paulo II e Paulo VI já declararam inúmeras vezes que os protestantes não podem ser chamados de igreja, pois a Igreja de Cristo só pode subsistir na Igreja Romana (ver a declaração Mysterium Ecclesiae de Paulo 6º, de 1973, e em 2000, a Dominus Iesus, aprovada por João Paulo 2º). Os três Papas citados nada mais fizeram do que corrigir erros de interpretação surgidos com o Vaticano II, que não alterou uma vírgula da sessão XXII do Concílio de Trento em que todos os protestantes já estão excomungados! Está errada a Igreja Católica Romana? Não! O romanismo não está errado, está apenas sendo coerente com suas tradições. 

Eu creio que cada um de nós necessita ser reformado sempre
, mesmo os que se denominam protestantes e evangélicos, mas reformados pelas Sagradas Escrituras somente e não por teologias oriundas de pressupostos ateístas e antropocêntricos, que somente geram pessoas como D. Isnard! Devemos rever nossos discursos para não sermos mais uma voz num coro que fala apenas para não ficar calado (já que Jesus também soube ficar em silêncio e se submeter à vontade do Pai diante do erro dos nossos pecados, Isaías 53: 7), porque, para vergonha nossa, o Evangelho da Graça, a primazia da Palavra e a fé salvadora sem obras meritórias ainda se conservam desconhecidos por milhares de católicos e protestantes de nossa Cristandade, ao mesmo tempo em que muitos se contentam em ficar brincando de ver quem vai ser a mulher do padre. Que Deus tenha misericórdia de todos nós!

Título original deste artigo: A voz de D. Isnard e o silêncio de Jesus (postado no 1º semestre de 2009) 

Postado também aqui

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Eu quero fugir da lógica do negociador

A JESUS CRISTO NOSSO SENHOR, estando o poeta na última hora de sua vida

Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
da vossa alta clemência me despido;
porque, quanto mais tenho delinqüido,
vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
a abrandar-vos sobeja um só gemido:
que a mesma culpa, que vos há ofendido
vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, e já cobrada
glória tal e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na sacra história,

eu sou Senhor, a ovelha desgarrada,
cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
perder na vossa ovelha, a vossa glória.
(Gregório de Matos) 

Mas o que, afinal, significa para nós a cruz de Cristo? O poema de Gregório de Matos é presunçoso, porque tenta fechar Deus exatamente na lógica libertina atacada por Paulo em sua carta aos Romanos: "permaneceremos no pecado para que a Graça abunde?". Lógica que, antes de tudo, é demoníaca, por ser a mesma que o diabo usa ao tentar Jesus no deserto. O poema não foi recitado na hora da morte do poeta, mas foi composto para garantir sua salvação quando a sua última hora chegasse! O poeta pretende levar a sua vida mergulhado nos prazeres, contando que, no momento derradeiro, poderá apelar à glória de Deus. Veja: Se a glória de Deus está em perdoar, então, Deus não colocaria em risco a sua glória, perdendo aquela ovelha por mais pecadora que ela fosse! Em outras palavras, Deus tem a obrigação de perdoar, não por causa da Graça, mas para que Ele não saia envergonhado dessa história...

Eu quero fugir da lógica do negociador. Há no poema de Gregório de Matos um negociador dividido entre os prazeres de uma vida passageira e a esperança da salvação eterna. Perceba que ele está olhando e dialogando com Jesus pregado naquela cruz. Intencional ou não, o fato é que o negociador está ali para denunciar a nossa própria contradição entre o sagrado e o profano, entre o Céu e o inferno, entre o espírito e a carne, entre a razão e a emoção.  

“É um fato que conversão verdadeira (arrependimento e fé) implica uma mudança espiritual e moral, mas não significa necessariamente mudança de cosmovisão”, diz-nos o Rev. Augustus Nicodemus no artigo: “A alma católica dos evangélicos no Brasil”. Neste artigo, o Rev. Nicodemus faz um exame da Igreja Evangélica Brasileira e do por que ela ainda encontra-se tão entranhada na cosmovisão romana. Eu gostaria de confessar aqui que creio que a alma de todos nós seja mesmo, especificadamente, barroca, à semelhança do negociador do poema de Gregório. Explico-me.

O Barroco é a arte da Contra-Reforma Protestante. Há, nesse período histórico entre os anos de 1600 e 1700, mais ou menos, a manifestação dessa tensão do espírito católico-romano em crise: o barroco precisava expressar esteticamente o Concílio de Trento. E conseguiu! O Barroco é o espírito religioso que se depravou na Queda e que, naquele período da Contra-Reforma, finalmente, encontrou o momento perfeito para sistematizar sua teologia e se difundir artisticamente como nunca antes havia conseguido. 


Assim, o espírito da Religião reagiu à Revelação! E esse espírito de contra-ataque foi a Religião que nos catequizou desde a fixação dos portugueses no Brasil. Por isso, afirmo que nossa cosmovisão foi fortemente moldada pelos ditames da religião da Contra-Reforma, especialmente. Daí, em nossas igrejas ou em nossas práticas devocionais, sermos tão parecidos com o negociador presunçoso e soberbo do poema de Gregório. Somos mercantilistas, somos exigentes, somos meritórios em nossas expectativas religiosas e, se preciso for, não tardaremos até mesmo em citar os devidos versos bíblicos contra o Deus da Revelação. Tudo isso é porque existe um outro deus aqui dentro de nós, um deus barroco, um deus torto, um deus religiosamente humanista e presunçoso. Um deus manipulador que surgiu em nós antes do cristianismo existir, mais exatamente, quando nos deixamos levar pela lógica da serpente do Éden. Assim, no fundo, somos todos barrocos. Por isso, precisamos ser resgatados.

Deixo aqui o poema de Gregório, pois sei que, especialmente hoje, muitos de nós olharão para o sacrifício de Cristo na Cruz do Calvário. E sei que, se não nos atentarmos, continuaremos soberbos, presunçosos, arrogantes, querendo fazer com que o próprio Deus tropece na Palavra dEle. A minha carne quer diariamente negociar com Deus, colocando-o à prova e fazendo dele um deus menor, acuado, mínimo, fraco e ainda pregado à cruz daquele calvário. Mas eu quero fugir da lógica do negociador. O meu Jesus já ressuscitou e está vivo e não se renderá à vaidade dos meus argumentos antiéticos, assim como não cedeu no deserto à oratória do diabo.

Originalmente postado aqui (21/04/2011).

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