sábado, 22 de julho de 2017

Somos todos mentirosos (a mentira como instrumento nas mãos de um Deus soberano)

Há uma história antiga e já muito conhecida no meio missionário sobre a mentira. É a história de Don Richardson narrada no seu livro O Totem da Paz. Este conta as experiências missionárias do autor entre um povo de canibais na Papua Nova Guiné, cujo valor mais importante era a mentira. O indivíduo que melhor enganasse um outro do povo inimigo, aquele que mais bem tramasse uma armadilha para o seu oponente, enfim, o que soubesse mentir a ponto do outro ser trazido à morte sem perceber que seria o prato principal do jantar, esse, então, seria considerado no meio do seu povo como o verdadeiro herói. Diante disso, não é difícil imaginar quem foi considerado o grande herói na narrativa do Evangelho para aquele povo, não é mesmo?

Por mais surpreendente que seja uma história como essa, ela é real. E, ainda que fiquemos surpreendidos, nós também somos muito semelhantes àquele povo da Papua Nova Guiné. No Brasil, de dois em dois anos, temos um ritual que revela o nosso amor pela mentira e como também valorizamos os melhores mentirosos entre nós. Muitos mentirosos costumeiros vêm com promessas já feitas e não cumpridas e somam a essas outras novas promessas, que, mais vez, não serão cumpridas. E nós sabemos disso! E, ainda assim, esse ritual vem sendo repetido entre nós de geração em geração: apenas mudam-se os mentirosos, mas as mentiras continuam as mesmas de ambos os lados. Um acordo tácito de sobrevivência social em que uma das partes finge que diz a verdade e a outra finge que acredita! 

Aos olhos de um antropólogo extraterrestre, que nos observasse tal ritual, ele iria nos descrever de modo muito parecido com aquele povo de canibais do livro “O Totem da Paz”, pois, no fim, entregamos os nossos votos para aqueles que melhor conseguiram nos enganar, nossos melhores mentirosos. Assim, de eleição em eleição, renovamos o contrato que dá permissão para o Leviatã continuar a nos devorar sob o altar de nossa Carta Magna!

Digo tudo isso, porque, por mais chocante que seja, a Bíblia afirma que independente da nossa classe social, do nosso gênero, da raça, da cultura à qual pertençamos e até mesmo do credo que professemos, a Bíblia afirma com todas as letras que todos nós somos mentirosos.

Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; Cuja boca está cheia de maldição e amargura. Romanos 3:10-14.

Na verdade, Paulo já inicia a sua carta aos Romanos descrevendo a nossa natureza totalmente entregue à mentira:

Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça. Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis; Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis. Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si; Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém. Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro. E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm; Estando cheios de toda a iniquidade, fornicação, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; Sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães; Néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia; Os quais, conhecendo o juízo de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem. Romanos 1:18-32

Não apenas a Bíblia diz que somos mentirosos, mas ela diz que eu e você consentimos, concordamos, apoiamos os demais mentirosos e as mentiras que eles praticam!

E Jesus, o nosso Deus da verdade, conhecendo os corações mentirosos dos homens que se diziam religiosos, quando eles trouxeram a mulher adúltera para ser julgada, Jesus não demorou a revelar as mentiras daqueles corações. Em João capítulo 8, vemos os líderes religiosos armando uma mentira para Jesus, um teatro para testá-lo num crime de adultério flagrante. Aqueles mentirosos trouxeram apenas a mulher para ser criminalizada e morrer apedrejada, quando a lei exigia de forma clara que fossem ambos os adúlteros a pagar pelo crime. O nosso Deus, que conhece as mentiras dos nossos corações, disse para eles: “quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”! Flagrados em suas mentiras, aqueles homens se afastaram um a um. 

Ainda naquele mesmo capítulo, João nos descreve que os mentirosos voltaram com ódio contra Jesus, pois ninguém gosta de ser acusado de mentiroso, não é mesmo? Ocorre um dos embates mais críticos de Jesus, em que aqueles homens acusam Jesus de ser louco e estar possuído por Satanás. E, insistindo em suas mentiras, eles dizem, orgulhosamente, de que são filhos de Deus e, mais uma vez, Jesus arranca a máscara de suas mentiras:

Disse-lhes, pois, Jesus: Se Deus fosse o vosso Pai, certamente me amaríeis, pois que eu saí, e vim de Deus; não vim de mim mesmo, mas ele me enviou. Por que não entendeis a minha linguagem? Por não poderdes ouvir a minha palavra. Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira. João 8:42-44.

Diante desse quadro que a própria Bíblia nos apresenta de quem nós somos, paira uma terrível condenação: Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas. Mas, ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira. Apocalipse 22:14,15

O que eu quero trazer para cada um de nós é que evangelizar, cumprir a Missão que Deus deu à Igreja, será sempre uma batalha espiritual da Verdade contra a mentira. Vivemos em meio a um mundo raivoso contra a Verdade de Deus. Eu e você, até pouco tempo atrás, estávamos presos na teia dessas mentiras, mas, pela Graça de Deus, fomos libertos das mentiras de Satanás pelo sacrifício de Jesus na cruz do Calvário. Contudo, outros ainda se encontram encarcerados nas mãos do diabo e este avança, sabendo que a nossa natureza pecadora ama mentiras. Ele lança contra nós as granadas, os mísseis e sua artilharia pesada contra cada ser humano, para que caiamos por terra. Por isso, por causa deste contexto de guerra em que a Igreja se encontra quando ela evangeliza, é que Paulo nos traz os preciosos versos a seguir:.

Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo. Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais. Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes. Efésios 6:11-13

No original grego, Paulo descreve a atuação das hostes espirituais da maldade usando uma metáfora de guerra, comparando os anjos demoníacos àqueles generais que faziam as estratégias para a batalha. Satanás e seus anjos não deixarão que a Igreja avance sem resistir a ela. Satanás fará de tudo para impedir que você evangelize, pois ele sabe que a Palavra da Verdade tem poder para a salvação de todo aquele que crê. E ele, então, vai nos estudar, vai procurar nossas fraquezas, nossos pontos falhos para nos derrubar. Todavia, a promessa do Senhor Jesus é clara e retumbante para mim e para você: as portas do Inferno não prevalecerão contra o avanço da Igreja (Mateus 16:18)!

O diabo é um estrategista de guerra que fará de tudo para derrubar a mim e a você – como? Usando exatamente este nosso amor à mentira! Ele vai usar mentiras para arrancar você da Verdade de Deus! O diabo sabe que eu e você, por causa da nossa natureza totalmente depravada, desejamos coisas que a Bíblia proíbe, e ele vai tentar enganar a mim e a você com as mentiras dele, assim como fez com Eva.

Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o SENHOR Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim? E disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim comeremos, Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais. Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal. E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela. Gênesis 3:1-6

Eva deu ouvidos à mentira da serpente! Eva meditou na mentira da serpente! Eva acreditou na mentira da serpente! E, finalmente, Eva agiu de acordo com a mentira da serpente (ver "Mentiras em que as garotas acreditam e a verdade que as liberta", de Nancy Leigh DeMoss e Dannah Gresh, editora Vida Nova)! 

Satanás tem lançado sobre a cultura suas mentiras e muitos cristãos têm ouvido essas mentiras camufladas. Muitos cristãos, ao invés de abraçar a verdade de Deus e com esta verdade refutar as mentiras que ouvem, eles meditam nas mentiras de Satanás. E as mentiras buscam a terra fértil de uma natureza que não está tomada, dominada, dobrada, saturada, submissa à Verdade de Deus! Até que Satanás alcança seu objetivo e, de repente, vemos cristãos se afastando da Igreja, cristãos praticando coisas abomináveis a Deus, cristãos que revelam nunca ter feito parte de nós!

Eu preciso perguntar neste momento em quais mentiras de Satanás você já tem acreditado? Talvez você não perceba que já esteja aceitando mentiras que, até bem pouco tempo atrás, eram mentiras inaceitáveis para você. Satanás usa colegas de sala de aula, usa professores, usa familiares, usa programas de TV e filmes de cinema para semear suas mentiras e ele terá vitória sobre as mentes que não estiveram escravizadas à Palavra da verdade!

Só há uma única maneira de combater uma mentira: avançando contra ela com a verdade da Palavra de Deus!

Ainda um último ponto que me surpreende nisso tudo: Deus está usando a mentira para separar os que são dEle e os que sempre foram de Satanás. Eu e você precisamos saber que Deus está no controle de tudo o que tem ocorrido na Igreja e no mundo. No mundo, portanto, só há dois povos para Deus: os que amam e cometem mentiras e os que amam e praticam a verdade. Leia abaixo.


E então será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda; A esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira, E com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem. E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira; Para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniquidade. 2 Tessalonicenses 2:8-12.

Permaneça, portanto, firme na verdade, pois a mentira é um instrumento para revelar os que nunca amaram a verdade de Deus!

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A TMI e a formação da diabolicíssima trindade (última parte)

A famosa igreja da foice e do martelo.
Obra de Oscar Niemeyer na Pampulha, BH.

Eu ouvi toda sua exposição atenciosamente. Impressionado com aquelas ideias exatas e maravilhosas sobre sua estratégia vitoriosa de encontrar um ponto de contato com pessoas culturalmente avessas ao Evangelho: 1) entrar na comunidade e oferecer a todos uma solução para a falta de água na região; e 2) paralelamente, encontrar um “homem de paz” (Lucas 10:6), que se abrirá para ouvir o Evangelho. Nesta ação, o Evangelho não é oferecido como moeda de troca, pois o benefício é para todos, independentemente de sua posição favorável ou contrária ao trabalho de evangelização, além disso, semeia-se o Evangelho sobre alguém da própria região que dará sequência à plantação da Igreja ali.

A solução para a falta de água na Região consistia na criação de uma “barragem invertida” para retenção do fluxo de água do lençol freático. Simples assim. E, muito mais importante, centenas de vezes mais barato do que se fosse o Governo metendo a mão ali para fazer aquela obra. “Posso fazer uma pergunta?”, disse desconfiado. “Você falou que isso é feito graças a um grupo de Igrejas que financiam o custo da obra, mas vocês também criaram uma ONG para essa ação social, não foi?”, preparei o terreno para a indagação derradeira. “Se vocês fazem esse trabalho da construção do poço (já foram feitos por eles mais de 10 no sertão nordestino), cada poço atende comunidades de 300 até 400 pessoas, mas o fazem como ONG, então com quanto de verba e qual a parceria que vocês fazem com o Estado?”, perguntei, finalmente chegando à caixa de Pandora e insistindo que a abrisse para que a verdade fosse revelada a todos ali. Todavia, inesperadamente, recebi um retumbante “nenhum dinheiro, nenhuma parceria, apenas igrejas”, como resposta!

A TMI em seus projetos e na sua visão de dar conta da demanda social do mundo, ao contrário do que descrevi acima, compreende que o outro tem que ser levado à caridade forçosa, pois o problema do mundo não é "apenas" (!!!) espiritual, mas material. Assim, se eu não posso controlar o resultado do Evangelho, pois não há como prever quem receberá e quem não receberá Jesus como salvador, para, então, trabalhar com esses convertidos, a solução é que eu force o outro para que ele “ame o próximo”. Mas como forçar o outro a amar o próximo, como força-lo a cuidar do outro? É do ferramental marxista que se retirará todo esse “amor”. Qual será a aliança proposta pela TMI? A criação do que eu chamo de “diabolicíssima trindade”: Igreja – Estado -Democracia!

A questão que se deve enfrentar aqui é a seguinte: É certo que você defina o que seja a melhor sociedade para o outro e que o Estado use a Igreja (ou que o missionário use a Igreja ou que esta se iluda pensando estar usando do Estado) para impor o seu modelo de “melhor sociedade” sobre o outro por meio da lei?

Porque só há uma maneira de fazer “parceria” com o Estado: pela lei! O Estado entra nessa parceria como o poder para impor o projeto marxista religioso da TMI de forçar a sociedade a resolver os problemas do outro. Daí, para o adepto da TMI, os exemplos que irão superabundar em seus discursos são Cuba, França e Suécia ou qualquer outro Estado que tenha imposto sobre o seu cidadão a igualdade social, que é para a visão marxista religiosa o suprassumo do exemplo de amar o próximo como a si mesmo. Ora, a realização dessa artificialidade amorosa revela não um ethos cristão, mas o ethos de barrabás.

Todavia, em que podemos tomar Cuba, França e Suécia como exemplos de que a igualdade social, imposta pelo Estado sob a farsa da “democracia”, é a solução para a angústia humana? Ao contrário, estes e quaisquer outros países – e o Brasil é um deles – que têm usado o Estado para impor a igualdade social, na realidade, são exemplos da artificialidade e da bolha de sabão que é tratar o ser humano sob o viés econômico. Justificar ditaduras como Cuba, fechar os olhos para a falência econômica e moral da França, e não enfrentar o vazio da angústia presente em modelos “igualitários” de países como a Suécia, que apresentam um alto índice de suicídios, é a fantasia mítica crida pelos ideólogos esquerdistas da TMI.

E o que é o Estado? O Estado moderno é um mito! O Estado moderno é um polvo monstruoso cujos tentáculos avançam sobre a vida comum e privada dos indivíduos, extrapolando, assustadoramente, os limites bíblicos impostos a esse Estado. Embora não seja o foco deste artigo aprofundar nessas considerações, é preciso que, ao menos, se esclareça que o “Estado de direito”, conforme o conhecemos hoje, é o próprio Leviatã criado por Weber, que investiu nos rumos da centralização consentida, por Marx, que apoiou o Estado sobre a dinâmica de uma hegemonia classista; e por Durkheim, que engendrou o Estado como essa ficção coletivista, na qual temos que crer.

A democracia entra na diabolicíssima trindade para dar aquele ar de que é “vontade do povo” tudo isso que está sendo feito. A democracia cria essa ilusão de que é a maioria que escolhe a direção que está sendo seguida. Este é um outro mito que não resiste a qualquer mínima avaliação histórica de como a democracia, na verdade, tem sido o sistema para entronização do anticristo e de suas políticas públicas de bem-estar social. Aliás, nada mais marxista do que a democracia. “A democracia é a estrada para o socialismo”, pregava Marx. A democracia entra na receita do bolo, porque o Estado tem que criar a ilusão de que sua manipulação, que leva a uma obediência generalizada, não se dá por meio da coerção.

Na contramão da História, a TMI prega a aliança entre o Estado e a Igreja, mas em qual lugar essa relação obscena trouxe resultados benéficos para a missão da Igreja? No Império Romano? Na Idade Média? Nas Grandes Navegações? Nos Estados Absolutistas? No Nazismo? Na Europa? Não! Este casamento licencioso existe apenas na cabeça dos ideólogos da TL e da TMI, que acreditam que podem cobrar do Estado que violente o seu cidadão à uma relação de caridade e amor com seu próximo por meio do uso da lei! Eu mesmo conheço trabalhos missionários em que a Igreja entregou a sua mão em casamento para o Estado e ela hoje paga um alto preço, porque isso não é casamento, mas adultério. E, nessa relação, o Estado usa o nome da Igreja, conseguindo, por causa disso, acesso a regiões no interior do Brasil que antes Ele não tinha. Entretanto, usando o nome da Igreja, o Estado silencia a pregação da mesma (sim, no Brasil, eu li o memorando!) e ainda por cima a envolve em escândalos que os próprios funcionários públicos, que são contratados do Estado, mas que não são evangélicos, criam!
 
Portinari na Igreja da Pampulha: obra representativa do marxismo cultural
Os adeptos da TMI gostam de repetir uma frase que, para mim, é simbólica sobre aquilo que é esta teologia de missões: “Pregue o Evangelho o tempo todo. Se necessário, use palavras”! Esta frase é sempre atribuída a Francisco de Assis. Além dela nunca ter sido dita por este santo católico, a frase é uma afronta ao querigma bíblico. Todavia, revela-se mais uma vez o ethos que anima a TMI, que é a práxis marxista.

Enfim, a TMI erra o alvo daquilo que é a própria natureza da Igreja, que não é “fazer missões”, mas glorificar a Deus! Se a TMI colocasse como premissa sustentadora de sua natureza a glória de Deus de fato, jamais ela fornicaria com o Estado e com a democracia para atingir os fins que ela julga corretos.

A TMI revela uma face legalista, autoritária e coerciva, que nasce exatamente de seus pressupostos marxistas e filosóficos. Ela é favorável ao inchaço, ao crescimento do Estado para que ele imponha em todos os setores a caridade e o amor cristãos. E isto, decididamente, não é o Evangelho da liberdade em Cristo. Pois, bem ao contrário, o Evangelho livra-nos exatamente dessa relação amedrontada com a lei. “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como eu amo a mim mesmo” sempre foram a lei de Deus, todavia, a prática dessa lei nunca foi por meio da Monarquia Israelita ou pela manipulação opressiva dos fariseus hipócritas. A lei nunca me salvou de “amar” o próximo por motivos egoístas e equivocados, mas Jesus me salva de usar a lei para fins egoístas e equivocados. Não é e nunca será pelo uso estatal da lei que amarei ao próximo – isto não é Missão!

Missão é descobrir-se amado por Deus por meio de Jesus! E este amor de Deus por mim leva-me a duas atitudes: amar a mim mesmo e ao próximo com o mesmo cuidado que dedico a mim. Esta é a lei – e não a Constituição Federal de quaisquer países ou psicologismos e filosofices antropocêntricas  – essa lei é aquela que nasce não da ação do Estado “evangelizador”, mas da pregação da Igreja sofredora sob o poder do Espírito Santo.

Finalmente, vem à tona porque considero a TMI muito mais perigosa do que a TP que a própria TMI tanto ataca. A TP é um erro, um conjunto de heresias que, assim como quaisquer outras heresias, ela é oferecida àqueles que desejam o que o mercado da prosperidade financeira religiosa tem a oferecer. À luz de Tiago 1: 14-15, a TP atrai o homem pela própria concupiscência desse mesmo homem. Na TP, é oferecida a mentira e esta pode e deve ser combatida pela verdade do Evangelho. Porém, mais do que evangelizar, educar, conscientizar, redarguir, corrigir, instruir em justiçaa Igreja não foi chamada a fazer. 

Do outro lado, há a TMI, que identifica qual o desejo do homem e oferece também uma mentira, que é o evangelho de Barrabás – o paraíso na terra já. Entretanto, não há na TMI o espaço para a escolha do indivíduo, mas o uso do Estado por meio da coerção da lei para que, sobre tudo e sobre todos, seja feita a sociedade igualitária. E aqui, nada mais emblemático do que ter ouvido do adepto da TMI que “liberdade, fraternidade e igualdade é a Missão da Igreja”. Portanto, quem tem ouvidos para ouvir, que ouça.

Leia também:

Livros que indico:

Filmes:
A revolta da saia (trailer).

terça-feira, 18 de julho de 2017

A TMI e a formação da diabolicíssima trindade (parte 3)



Freud foi ateu. Marx foi satanista. Heidegger foi nazista. E achar que nada disso depõe contra ou que, de forma alguma, influencia nas suas produções intelectuais é o mesmo que fechar os olhos para o fato de Kinsey ter sido poliamoroso, Foucalt ser adepto de relações sexuais masoquistas e Simone de Beauvoir ser pedófila. No mínimo, crendo na sentença bíblica de que “Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só" (Romanos 3:10-12), teríamos que olhar para a vida desses homens e de outros e, no mínimo, suspeitar se eles não estariam legislando em causa própria com seus trabalhos. Todavia, não são esses autores o foco desta série de artigos, ainda que eles sejam admirados pela intelectualidade da chamada esquerda cristã e buscados como resposta para as angústias do ser humano na modernidade (no fim deste post, indicarei alguns livros que são literatura obrigatória para sua introdução na abordagem deste parágrafo).

Mas o que fazer, então, diante do homem angustiado, alienado pelas relações trabalhistas do dia a dia? O homem que precisa encontrar a sua identidade diante de uma sociedade que o massifica e o coisifica? Nas palavras de Ariovaldo Ramos, não adianta tirar o homem do inferno, é preciso tirar o inferno do homem. Em outras palavras: só o Evangelho não basta! Se o Evangelho é impotente para a transformação eterna e real do homem, se o Evangelho é incapaz de arrancar esse homem da sua angústia e perda de identidade, se o Evangelho é “apenas” a salvação da alma, então é urgente e preciso que a Igreja complete o que o Evangelho deixou pela metade. Mas o que é isso, afinal, que o Evangelho não resolve? Ora, se o Evangelho é apenas o desatar das amarras eternas do homem diante de sua cadeia universal e eterna, é preciso que esse indivíduo também seja desatado da miséria econômica, política e social que o oprime - esta é a tese da esquerda cristã.

O adepto da TMI se coloca no pátio diante de Pôncio Pilatos e exige que ambos os condenados sejam libertos: o Evangelho que salva a alma e o outro evangelho, que nos salvará da opressão romana. A TMI, portanto, corrobora com o espírito deste século reafirmando a tese materialista de que a origem da angústia humana não é a sua inimizade com Deus, mas é o cárcere da opressão da fome, da injustiça e da desigualdade social. O adepto da TMI quer tudo: Jesus e Barrabás livres!

Se o Evangelho de Jesus não avançar contra a carne e o sangue pouco importa que o faça sobre as potestades e principados deste mundo tenebroso – esta é a pregação da Teologia da Libertação, que, como exemplo, sempre teve Dom Pedro Casadáliga e o movimento revolucionário do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) como defensores do uso de armas e invasão de terras como meios louváveis de se conquistar a igualdade social e a autonomia do outro. A falha constatada pela interpretação esquerdista é que a Igreja reduziu o Evangelho a um mero discurso espiritualista e isso foi o grande responsável pela derrocada da Europa e da África. Uma cruz não se faz com apenas uma trave de madeira vertical, é preciso a trave horizontal para que a mensagem seja completa: foi o amor ao próximo, o cuidado com o outro, a grande falha desse projeto missionário espiritualista, segundo o adepto da TMI. Todavia, isso é uma brutal distorção da história. O que não deve surpreender, uma vez que é comum ao esquerdismo a releitura ideológica do passado. O problema é ver a Igreja corroborando e aceitando essas mentiras.

Ainda que o paganismo tenha sido fortemente impactado e derrotado pela misericórdia cristã, ainda que hospitais cristãos tenham sido espalhados por toda a Europa e continentes carentes mundo afora, mesmo que a presença maciça das “casas de misericórdia” no interior do Brasil e tantas outras ações humanitárias do cristianismo estejam aí atestando o poder de um Evangelho que não dispensa o homem na paz do Senhor sem também lhe oferecer o pão para o corpo; mesmo que a Igreja Brasileira, sem abraçar a teoria marxista da esquerda cristã, esteja encabeçando projetos sociais de profunda mudança na vida de pessoas sofridas no sertão nordestino, como é o caso do trabalho de criação de reservatórios de água feitos por cristãos que não se renderam à proposta ideológica da esquerda cristã; a despeito dessa realidade histórica de um cristianismo que sempre trouxe mudança total ao indivíduo nestes 2000 anos de cristandade, resgatando mulheres e crianças da opressão e da exploração, sua luta pelo fim da escravidão dos negros, a luta pelo fim do apartheid na América, enfim, é uma lista infinda da ação total de um Evangelho total de poder sem Marx e sem Gramsci. Entretanto, de repente, para o cristão marxista, o Evangelho é um veículo opressor de almas que foram salvas enquanto seus corpos eram lançados ao fosso do esquecimento. 

Como já disse, a distorção da história é outra característica da mentalidade revolucionária que emana dos centros disseminadores do Evangelho de Barrabás. E esta distorção histórica é fácil de se compreender pelo motivo citado no post anterior que é o uso do método científico sobre a realidade da vida humana: o cientista recorta uma realidade e a analisa, lançando sobre o todo as conclusões a que chegou a partir de uma análise feita numa parte. Evidentemente, que o uso farto desse instrumento pelos ideólogos da revolução cristã gerou um discurso e uma prática que manipulam e interpretam os fatos a seu favor. Cabe a pergunta: o cristianismo nunca se viu usado para a opressão do outro? Evidentemente! Porém, a história prova que o marxismo em qualquer dos seus vieses é uma máquina assassina e genocida em nome da igualdade e o Evangelho jamais poderia sequer acatar quaisquer uma de suas pressuposições, por mínima que fosse, uma vez que o preço pago pelo sincretismo do cristianismo com o marxismo e seus filhotes liberais é um fato demoníaco na história recente da humanidade.   

Mais uma vez, ainda que pudesse me aprofundar em todos esses temas, há muita literatura disponível sobre o que estou lançando aqui e caberá ao leitor percorrer por si mesmo os caminhos que eu tenho trilhado nos últimos dez anos. Não posso tornar as digressões, por mais importantes que elas sejam para a compreensão do todo, o meu tema principal, que, na verdade, é a formação da diabolicíssima trindade. Todavia, o mínimo que já expus aqui ajuda-nos a ver o quadro que será usado para a formação de uma aliança necessária para que a esquerda cristã consiga alcançar seus objetivos.

(Continua...)

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Livros e artigos indicados:

domingo, 16 de julho de 2017

A TMI e a formação da diabolicíssima trindade (parte 2)


Toda seita parte de uma verdade. Toda seita é a exacerbação de um ponto doutrinário. Toda seita é uma caricatura de uma religião. O Evangelho do nosso Senhor Jesus é uma tapeçaria de doutrinas que se equilibram entre si e formam um todo belo e verdadeiro. Contudo, a seita elenca um ou dois pontos dentre as verdades de Deus e os extrapola, exacerba-os, acabando mesmo por mutilar a obra da tapeçaria do Evangelho puro e simples devido ao peso excessivo dado a um ponto e não a outro.

A Teologia da Prosperidade é um bom exemplo disso. Há verdade nela. Qual? Deus prospera o seu povo – esta é uma verdade que podemos encontrar na Bíblia. Entretanto, a prosperidade bíblica não é necessariamente financeira. Ao pregar que “Deus tem que prosperar aquele que é filho dEle”, que “Deus tem que suprir as minhas necessidades”, etc, estamos criando um monstro teológico que delimita a liberdade e o poder de Deus, colocando a criatura no lugar do Criador.  

Há verdade na Teologia da Missão Integral também. A verdade da TMI é que o ser humano avança no fosso de sua angústia. E isto é um fato bíblico: somos seres destituídos da amizade com Deus. Somos seres angustiados - esta é uma verdade! Contudo, essa constatação da TMI não é fruto da fé em Rm 3. 10-19, mas ela vem pelo ferramental das ciências sociais forjadas no século XIX na Europa. É a sociologia, a filosofia moderna e a psicologia que revelarão a alma angustiada do homem. Por isso, a abundância de citações, por exemplo, de Heidegger, Freud e a influência do behaviorismo e do existencialismo.

É preciso que o adepto da TMI tenha uma resposta à crise humana. A resposta não se encontra na exposição do Evangelho todo ao homem todo, mas, tão somente, o aspecto da justiça terrena ao homem econômico, que é um mero “produto” do seu meio. Desde a Teologia da Libertação, quando a práxis marxista se tornou o modelo de análise da situação do homem, do “ser-aí”, como diria Heidegger, em detrimento do método bíblico e universal do homem "quedado-em-si", as circunstâncias em que o homem se vê inserido passa a defini-lo para a esquerda cristã. Ora, o que estou querendo mostrar é que se as nossas perguntas estão erradas, obviamente, as respostas também estarão. Em outras palavras, se olhamos para o meio social e a partir desse ambiente deixamos que as perguntas surjam, então as respostas descreverão apenas os aspectos imediatos, sistemáticos e serão respostas de um recorte limitado àquelas realidades. Apenas isso. É o método científico aplicado sobre questões eternas e metafísicas. Realmente, isso não pode nunca dar certo mesmo.

Como resultado de perguntas erradas, teremos que a angústia do ser humano é fruto da exploração trabalhista inerente às relações humanas. Estamos todos explorando a todos: maridos exploram suas esposas, pais exploram seus filhos, avôs exploram seus netos, enfim, todas as relações humanas são reflexos das relações de exploração da eterna luta de classes, luta essa instaurada no Éden, quando o próprio Deus patrão condenou o homem ao trabalho escravo por causa do pecado. Deus é o patrão por excelência e, se isso não está claro para os adeptos da TMI, sempre esteve para Marx.

A TMI, e pra constatar o que vou dizer basta olhar nas bibliografias de seus livros e artigos, está deitada no berço esplêndido da mentalidade anticristã que confrontou e tem lutado para desenraizar os valores judaico-cristãos do nosso mundo. Uma rápida olhada nas referências bibliográficas da produção intelectual desse movimento trará, além de Marx, nomes como Heidegger, Freud e Skinner. Mas qual o mal de beber nas ciências sociais que se desenvolveram a partir dos séculos XVIII e XIX? Sinceramente, se fosse tão somente para perceber que homens descrevem o próprio inferno em que vivem, não veria problema algum. Porém, o que vemos é que não há uma leitura crítica dessa produção intelectual que se posiciona totalmente fora do centro de Deus e que, descaradamente e muitas vezes, confronta de maneira feroz a cosmovisão cristã. 

Aceita-se o diagnóstico de cientistas ateus e, pior ainda, também a prescrição médica que eles repassam à igreja! E o remédio, no fim de tudo, é aplicado onde o Evangelho teria sido incapaz de cobrir com seu discurso “meramente espiritualista”, dizem os adeptos da TMI. O que a TMI finge não ver é que, usando desse arcabouço teórico como um apoio às Sagradas Escrituras, eles violam a doutrina mais emblemática da Reforma Protestante: o sola scriptura, cometendo, assim, o mesmo erro do qual acusam incorrer a TP! Portanto, a TMI é apenas um oposto da TP, um contrário, a outra face de uma mesma lua, filho da mesma Equidna da qual tratei no post anterior.


A esses e outros temas retornarei no próximo post.

Leia o post anterior: 

sábado, 15 de julho de 2017

A TMI e a formação da diabolicíssima trindade (parte 1)

Equidna pariu muitos filhos sobre a terra dos homens. Muitos de seus filhos, verdadeiras aberrações, sobrevivem graças ao poder demoníaco da adaptabilidade e do disfarce. Dentre os tantos filhos dessa criatura, estão a TL (Teologia da Libertação) e a TMI (Teologia da Missão Integral), versão protestante, uma espécie de gêmea siamesa da TL.

Quero apresentar uma série de reflexões nascidas em sala de aula a partir de um curso que tive com um professor adepto da TMI. Nessas aulas, pude ver mais de perto o que vai na mente de um pensador desse movimento e compreender melhor a cosmovisão que subjaz a esse sincretismo perverso entre cristianismo, marxismo e a psicologia moderna. Desejo expor o perigo do viés autoritário e legalista da TMI, todavia, sempre pautado nas minhas anotações e análises das aulas que tive.

A TMI se apresenta como um perigo muito maior do que a perniciosa Teologia da Prosperidade. Para que você compreenda isso, quero explicitar a diferença fundamental, ao meu ver, entre a TMI e a TP e que faz da primeira uma cilada que tem tragado a muitos incautos no meio missionário brasileiro. Muito mais do que usar o marxismo como ferramenta metodológica para uma análise da situação social e econômica do homem no nosso tempo, o verdadeiro perigo se encontra no fim do enredo ao qual pretende chegar a TMI: a criação de uma diabolicíssima trindade. Feita essa introdução, sigamos em frente.

Perguntaram ao Papa Francisco por que ele não se pronunciava mais sobre o terrorismo islâmico e a resposta dada por ele serve para ilustrar a mentalidade do movimento da esquerda cristã: “Por que eu deveria fazer isso? Católicos batizados matam todos os dias suas namoradas na Itália”!

Essa lógica distorcida é a mesma utilizada contra cada brasileiro que começa a cobrar dos políticos uma ética diante dos escândalos da corrupção: “Por que você está reclamando? Você fura a fila todo dia, você avança na via acima da velocidade permitida, você frauda o imposto de renda, você suborna a polícia na blitz de trânsito, você mente, você diz palavrão, etc, etc e etc”. Esse mascaramento intencional dos crimes contra o patrimônio público e do roubo de milhões e milhões, a partir da comparação com os possíveis delitos do cidadão comum, revela a hipocrisia da mentalidade subversiva que se apoderou do Brasil.

A TMI é, antes de tudo, uma teologia antropocêntrica e pragmática. Ela bebe nas fontes das ciências sociais nascidas no século XIX e também no liberalismo teológico europeu. Tudo isso apresentado sob a roupagem de um cristianismo preocupado com a “justiça social”, um cristianismo legal, um cristianismo do bem. Todavia, quando o adepto da TMI usa Cuba e a França como exemplos dessa justiça social e do modelo de igualdade ao qual se quer chegar, ou quando ele silencia diante dos horrores da ditadura venezuelana, logo se vê a artificialidade do sistema ficcional do pensamento dessa trupe de teólogos.

A TMI situa a origem da angústia do homem no “sistema predatório capitalista” e não na natureza totalmente depravada de cada um de nós. Assim, não é de se estranhar que René Padilha desconverse quando é questionado sobre o que ofertaria a um ser humano miserável com quem poderia se encontrar uma única vez na vida: pão ou a pregação do Evangelho. Mas qual é o cerne, afinal, da Missão Integral para os adeptos desse movimento teologal? É o cuidado com o outro! Embora essa resposta tenha seduzido muitos, ela precisa ser compreendida dentro do quadro da cosmovisão da TMI a fim de vermos o que se encontra por trás do véu de tanto amor pelo próximo. 

Quando o marxismo descreve nossas relações humanas como relações trabalhistas, ele estende isso para todos os contextos. Isso é uma maneira de descrever a sociedade em base de uma psicopatia absoluta, onde o homem é o lobo do homem. Porém, querido leitor, fosse assim, a humanidade já teria se extinguido há milênios e os homens não cederiam lugar às mulheres e crianças nos naufrágios mundo afora. 

Ainda que o pecado nos tenha atingido em todas as esferas do nosso ser, de modo algum isso significa que fomos atingidos absolutamente. Não somos monstros ou demônios como a visão marxista prega. Pregar que todas as relações humanas são orientadas pelo viés da exploração é uma doutrina herética de uma seita religiosa chamada marxismo. E transpor essa doutrina para as relações dentro da Igreja, a igreja pecadora, mas lavada no sangue do Cordeiro e santificada/santificando pelo Espírito Santo, é algo extremamente perverso.

Muitos dos pontos que lancei até aqui merecem um aprofundamento, porém, eles apenas são a moldura do foco das minhas reflexões nos próximos posts, que é constatar o ponto final ao qual a TMI quer chegar e que pouquíssimo vejo tratado nos artigos sobre o movimento: a criação da diabolicíssima trindade.


(Continua...)

sexta-feira, 30 de junho de 2017

A fé romana comparada à fé reformada a partir dos sermões de Leão Magno (3ª e última parte): julgados pela fé ou pela misericórdia?

"Juízo Final", de Hans Meling, século XV
Neste último post, gostaria de lembrar que, enquanto eu estava lendo os sermões de Leão Magno, sempre me vinha à mente uma situação que vivi durante minhas aulas no Seminário Presbiteriano em Brasília entre o ano de 2000 e 2005. 

Minha memória foi despertada graças às inúmeras idas de Leão ao texto de Mateus 25:31ss. Portanto, lembrei-me de um professor, pastor presbiteriano, que, em determinada aula, disse que havia textos da Bíblia que ele mesmo não sabia o que eles queriam dizer ou que mostravam que as nossas interpretações protestantes eram falhas. Um dos textos por ele referido foi exatamente a passagem de Mateus, a qual ele dizia mostrar que a salvação era pelas obras (!!!). 

Evidentemente, como ex-católico romano, tendo estudado para ser padre, ouvir aquela asneira por parte de um professor de um seminário teológico e, o que para mim foi ainda pior, diante de uma sala que permaneceu silenciosa, incomodou-me profundamente. Assim, tive que compartilhar com ele o porquê que eu não poderia jamais concordar com aquela posição. Em outras palavras, vi-me tendo que ensinar a missa para o vigário. Veja minha explicação:

Creio que, primeiramente, uma das coisas mais importantes que precisamos fazer é situar a passagem evangélica em questão. Destarte, o Evangelho de Mateus está organizado ao redor de cinco blocos discursivos de Jesus, ou seja, cinco grandes sermões, cada qual com seu objetivo específico. E o nosso texto em questão se encontra no último desses blocos, exatamente nos momentos finais do ministério de Jesus.

Este é o contexto maior: Mateus apresenta aos seus leitores quem é o Rei. O Reino desse Rei possui leis (1º sermão: 5:1 – 7:29); esse reino possui uma missão (2º sermão: 10:1 – 42); possui ensino (3º sermão: 13:1 – 58); esse reino apresenta sua natureza e autoridade específicas (4º sermão: 18: 1- 35); e, finalmente, o reino será plenamente estabelecido no retorno do Rei, que virá para julgar vivos e mortos (5º sermão: 24: 1 – 25: 46). Portanto, o nosso texto em questão é o último pregado antes do encerramento do último bloco.

A parábola do grande julgamento é antecedida por 4 parábolas (a da figueira, a do bom servo e do mau, a das dez virgens, e dos talentos). A parábola da figueira traz um aspecto de julgamento universal, assim como ocorreu no tempo de Noé. Este pregou, mas as pessoas não responderam positivamente à mensagem. É o mundo descrente que rejeita a pregação do Evangelho e vive sem esperar o julgamento, mas este virá “sem que eles percebam”, diz o texto.

Nas 3 parábolas seguintes à da figueira, vemos pessoas que arrefeceram na sua espera, pessoas que conviviam com outras que também eram conscientes da mensagem e todas “sabiam que o senhor, o noivo, o patrão, que eles iriam voltar”. A moldura para as parábolas é o discurso anterior de Jesus, chamado de “discurso profético”, no qual Jesus trata sobre a destruição do templo, o princípio das dores, a grande tribulação e a vinda do Filho do Homem. Assim, as parábolas servem para ilustrar o próprio julgamento daquela geração (a destruição de Jerusalém), mas também a vinda inesperada do Filho do Homem para o grande julgamento de todas as nações. 

A Parábola do grande julgamento, semelhantemente às outras anteriores, fala de pessoas que ouviram a mensagem de que o Filho do Homem iria voltar. Acredito que isso aponta para o fato que o mundo todo já terá sido evangelizado antes da volta do Filho do Homem (veja Mateus 24:14) Não há nas parábolas nenhum grupo reclamando que não havia ouvido a mensagem. Não há ninguém alegando ignorância. O que há é preguiça, maldade, negligência, imprudência, falta de serviço e mordomia pelas coisas do reino e, por essas coisas – frutos da falta de fé e do esfriamento do amor (veja Mateus 24:12) – as pessoas estão sendo julgadas naquelas narrativas contadas por Jesus. Se isso o que eu acabei de falar é verdade nas quatro parábolas, também o será na parábola do grande julgamento. E esse quadro se encaixa perfeitamente com a situação dos judeus que conheciam as Escrituras e não podiam alegar ignorância quanto a vinda do messias prometido. Do mesmo jeito que as parábolas descreviam o judaísmo do tempo de Jesus, também apontavam para a situação que Jesus encontrará na sua segunda vinda. Lembre-se que é o Evangelho de Mateus que faz questão de mostrar ao leitor “a ilegalidade das ações do Sinédrio, a perversão do Antigo Testamento pelos escribas e fariseus e a natureza pactual no modo de Deus tratar com o seu povo” (Bíblia de Genebra, p. 1228) – é debaixo desse grande quadro que estamos. De um modo específico, os judeus estão sendo julgados diante da sua postura para com Jesus, mas, de um modo global, as pessoas do planeta terra serão julgadas pelo mesmo crivo quando esse mesmo Jesus voltar: a sua postura diante de Jesus e da sua mensagem!

Na parábola da figueira, a partir da analogia com o tempo de Noé, vemos que as pessoas serão julgadas por não terem dado atenção à mensagem do patriarca. Noé fora um tipo do Cristo e, assim como as pessoas em seu tempo não deram crédito a ele, as pessoas no tempo de Jesus também não estão dando crédito a Jesus – e este é o crivo! Na parábola do bom servo e do mau (Mateu 24:45ss), o servo que receberá a punição, diz o texto, começara a “espancar os seus companheiros” e a ter uma conduta de vida libertina, “porque ele era mau”! Na parábola das dez virgens, as cinco são punidas por “não esperarem com zelo, elas foram imprudentes, elas não estavam preparadas” para a volta do noivo. Na parábola dos talentos, também não houve esforço, não houve dedicação, zelo durante a espera da volta do senhor.

Tendo tudo isso em mente, vamos nos aproximar do texto e compreender o que realmente ele está falando. A pergunta que quero responder é: seremos salvos pela fé no sacrifício de Cristo ou pela misericórdia praticada ao próximo? Leiamos o texto abaixo de Mateus 25:

"31.Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, sentar-se-á no seu trono glorioso. 32.Todas as nações se reunirão diante dele e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. 33.Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. 34.Então o Rei dirá aos que estão à direita: - Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, 35.porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; 36.nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim. 37.Perguntar-lhe-ão os justos: - Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? 38.Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? 39.Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar? 40.Responderá o Rei: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. 41.Voltar-se-á em seguida para os da sua esquerda e lhes dirá: - Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos. 42.Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; 43.era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes. 44.Também estes lhe perguntarão: - Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, peregrino, nu, enfermo, ou na prisão e não te socorremos? 45.E ele responderá: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer. 46.E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna." 

São Mateus, 25 - Bíblia Católica Online
Leia mais em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/sao-mateus/25/

Lembre-se que o discurso anterior às 4 parábolas de Jesus aponta tanto para o julgamento daquela geração como também para o julgamento de todas as nações. Na parábola da figueira, Jesus relembra que em Noé houve um julgamento global. Nas 3 parábolas seguintes, houve um julgamento bem mais específico de pessoas que “esperavam” a vinda (ou a volta) de alguém. Finalmente, a parábola do grande julgamento retrata um contexto global! Mas o critério para o julgamento sempre é o mesmo: a aceitação de Jesus e sua mensagem! Jesus está presente ali diante dos judeus e eles estão sendo julgados por isso, assim como as pessoas do tempo de Noé também foram julgadas, pois o patriarca representava a Jesus! Todavia, como as pessoas do mundo serão julgadas na 2ª vinda de Jesus? Quem, à semelhança de Noé, pregará a mensagem da salvação e representará Jesus no mundo? Você sabe a resposta e é sobre isso o que nos fala a parábola do grande julgamento. 

As 5 parábolas estão inseridas no nosso tempo – no tempo de Noé, no tempo dos judeus e no tempo da volta do Filho do Homem – as pessoas são julgadas de acordo com o que fizeram diante da mensagem ouvida. Na parábola do grande julgamento, e espero que o próprio contexto de tudo o que foi dito até agora já tenha mostrado que em nenhum lugar estamos falando de salvação pela misericórdia, as pessoas serão divididas em dois grupos de acordo com a postura que tiveram diante da mensagem de Jesus pregada pelo seu representante na terra, a saber, a Igreja. Na parábola, que se localiza na volta de Jesus, há três grupos de pessoas: dois grupos estão sendo julgados e o outro está sendo usado como critério para esse julgamento. Quem é este último grupo? O pobre? O doente? O sedento? Qualquer pobre? Qualquer doente? Qualquer sedento? É claro que não! Pois, fosse assim, todos os que praticam a caridade e a misericórdia com essas pessoas seriam salvas na volta de Jesus! E este ensino é uma heresia!

Quem, então, está preso? Quem, então, está doente? Quem, então, está sedento e nu? Quem anda pelo mundo sem ter onde colocar a cabeça? A resposta não pode ser qualquer pessoa, como afirma Leão Magno, pois a salvação não é pelas obras e nem seria possível afirmar que Jesus está presente nesses segmentos desfavorecidos da parábola. Esta interpretação foi fortemente usada pelo marxismo católico e evangélico, mas é um entendimento totalmente contrário às Sagradas Escrituras. Deus não muda as regras do jogo na história: quando Abraão (o representante de Jesus para os povos) foi chamado em Gênesis 12, ele foi chamado também para ser usado como critério no julgamento dos outros: “abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem: em ti serão benditas todas as famílias da terra”!

Deus continua agindo da mesma maneira que sempre agiu! É por meio da nossa resposta a Jesus e a sua mensagem que somos julgados: Noé e Abraão eram tipos de Cristo. Os judeus no tempo de Jesus estavam sendo julgados pela mensagem que ouviram por toda a Escritura e que Jesus está repetindo! Do mesmo modo, Jesus continua pregando por todos os povos até o dia da sua volta, mas quem prega? O representante de Jesus na terra: a Igreja. E ela, em sua missão de pregar, tem passado fome, tem tido sede, tem andado pelo mundo sem ter onde recostar a cabeça, tem sofrido carência material, tem enfrentado doenças e sido lançada nas prisões! Mas, enquanto tudo isso ocorre, ela não para de pregar e muitos têm reconhecido na Igreja a verdade da salvação e tem, por causa da sua fé, acolhido e se identificado com a Igreja. E estes é que serão anexados à igreja, que serão salvos porque acolheram a Igreja, crendo em sua mensagem! Resumindo: o mundo será julgado pela fé que demonstrará diante da mensagem pregada pela Igreja. 

Especificadamente, para essa minha interpretação, há duas palavras às quais quero chamara a atenção ainda: 

Outras versões para o verso 40:

"et respondens rex dicet illis amen dico vobis quamdiu fecistis uni de his fratribus meis minimis mihi fecistis" 
São Mateus, 25 - Bíblia Católica Online
Leia mais em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria-vs-vulgata-latina/sao-mateus/25/

"Et le roi leur répondra: Je vous le dis en vérité, toutes les fois que vous avez fait ces choses à l`un de ces plus petits de mes frères, c`est à moi que vous les avez faites." 
São Mateus, 25 - Bíblia Católica Online
Leia mais em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria-vs-biblia-de-jerusalem/sao-mateus/25/

"καὶ ἀποκριθεὶς ὁ βασιλεὺς ἐρεῖ αὐτοῖς, ἀμὴν λέγω ὑμῖν, ἐφ᾽ ὅσον ἐποιήσατε ἑνὶ τούτων τῶν ἀδελφῶν μου τῶν ἐλαχίστων, ἐμοὶ ἐποιήσατε." 
São Mateus, 25 - Bíblia Católica Online
Leia mais em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria-vs-septuaginta/sao-mateus/25/

40.Responderá o Rei: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.

“Irmãos” e “pequeninos”. A primeira deveria nos colocar diante de duas opções: ou todos os desfavorecidos são irmãos de Jesus e carregam em si a sua imagem e, portanto, serão usados como critério para a salvação pelas boas obras que forem alvo ou, o que é mais coerente com a mensagem do Novo Testamento, Jesus está se referindo aos seus representantes, neste caso, a Igreja e ela sim será usada como critério para o julgamento do mundo (veja: I Cor 6:2 e  Mateus 12: 47-50). 

A palavra “pequeninos” (no grego: ἐλαχίστων) é usada mais outras 2 vezes por Mateus e no sentido depreciativo (sob a ótica do outro, claro, como é exatamente o caso da parábola do grande julgamento, veja: 2:6 e 5:19a). E ainda uma terceira vez, em Mateus, pelo próprio Jesus, também em sentido depreciativo, mas aplicando a palavra não à cidades ou traços da escrita, como foi nos casos anteriores, mas àqueles que ensinarem errado a lei aos seus irmãos. Estes mestres irresponsáveis serão considerados mínimos (pequeninos: veja, a palavra aqui se refere aos seguidores de Jesus) no reino dos céus (5:19b). Cabe, porém, ressaltar que os dicionários apontam um sinônimo para ἐλαχίστων: “mikros”, palavra que é intercambiada em outros contextos de mesmo significado, mas, e isso é o mais importante, no mesmo sentido que “discípulos de Jesus”, que é o usado na parábola do grande julgamento. Veja: Mateus 10: 42, 11:11, 18:6ss). Mas para que não haja dúvida do uso de ἐλαχίστων aplicado também ao discípulo de Jesus, é isso o que, ao falar de si mesmo, Paulo faz em I Cor 15:9. Finalmente, todo este parágrafo vai ao encontro da passagem de Atos 9: 1-9, na qual Jesus se identifica com a Igreja que Paulo está perseguindo, açoitando, lançando nas prisões e mandando matar. Aliás, este é exatamente o contexto da parábola do grande julgamento.

Leia todos os textos anteriores: 


quinta-feira, 29 de junho de 2017

A fé romana comparada à fé reformada a partir dos sermões de Leão Magno (2ª parte): O problema da caridade romana e do amor protestante


“Existe mais perigo num traidor escondido do que num inimigo manifesto” - nesta declaração de Leão Magno podemos ver, embora não fosse essa a ideia original do autor, que o Cristianismo foi muito competente no combate aos inimigos manifestos, mas se deixou envolver pelos traidores escondidos.

Como disse no post anterior, o encontro do Cristianismo com a cultura helênica, especialmente o estoicismo, pode ter marcado muito mais o Cristianismo no seu nascedouro do que a tão comentada influência da filosofia clássica (Platão e Aristóteles). E a Roma pagã, de maneira especial, estava aberta muito mais ao estoicismo do que à Filosofia Clássica, por causa do apelo religioso embutido no estoicismo. Em Ambrósio (339-97) já vemos essa influência do estoicismo (na verdade, Tertuliano, 155-215, é o primeiro que apresenta traços da doutrina do estoicismo no seu cristianismo), assim como o primeiro na Série Patrística a desenvolver a lógica da intercessão dos santos.

O estoicismo tinha muitos elementos semelhantes com o Cristianismo, a começar pela similaridade da ética de ambos. Assim, terminei o último post trazendo que o estoicismo tem grande responsabilidade na construção da mariologia, da supressão dos desejos sexuais, da instituição do celibato e, até mesmo, no mecanismo de mérito e purificação na instituição da misericórdia como elemento para o alcance da santidade.

A presença dos livros de Tobias, Sabedoria e Eclesiástico como Escritura nos sermões de Leão também corroboram ao lado do estoicismo com a construção de uma salvação meritória. Todavia, a mensagem do Novo Testamento é clara ao dizer que o pecador é justificado pela fé (e não pelas obras ou pela “sabedoria”, que, no livro de Eclesiástico é associada à lei e não a um Messias libertador), portanto, era preciso coadunar essas duas doutrinas excludentes: a salvação pelas obras (pregada nos escritos deuterocanônicos) e a salvação pela fé no sacrifício de Jesus ensinada no Novo Testamento. 

A teologia que surge nos sermões de Leão Magno entrelaça essas duas doutrinas: 1) só há salvação em Jesus; 2) as obras fora de Jesus(as boas obras dos pagãos, por exemplo) só tem valor para o próximo, mas não para a salvação; 3) a salvação conquistada por Jesus é para “abrir a porta do céu” ao ser humano; 4) contudo, como o ser humano continua pecador, as boas obras (principalmente as de misericórdia) garantem a purificação destes pecados cometidos pelo crente. Conclusão: a salvação é pela fé, mas é garantida pelas boas obras. O problema é que isso é totalmente diferente do que é pregado no Novo Testamento, onde as boas obras devem ser fruto da verdadeira fé e não meios para garantir o que a fé não seria capaz de dar: santidade.

Na teologia de Leão Magno o sangue de Jesus tem poder para cobrir o pecado original que nos separa de Deus, contudo não garante a salvação final. Esta só é garantida pelas obras de misericórdia (ainda que Leão diga que a esmola e a ajuda ao pobre sejam a maior de todas as virtudes, ele soma à misericórdia o perdão e a denúncia e delação dos hereges escondidos).

O problema natural que aparecerá em Leão é que há pecados graves e pecados leves. Para estes, bastam as obras de misericórdia e penitência (esmola, jejum, oração, perdão), mas para aqueles é necessário contar com a intercessão de homens santos. Para justificar essa intercessão, Ambrósio (aqui e aqui) lembra de Moisés que, diante de um pecado imperdoável, intercedeu e mudou o coração de Deus em favor do povo. 

Os próximos passos na construção das doutrinas alicerçadas nas obras, no mérito (seja no meu ou no mérito do santo) é para dar conta das falhas que irão surgir: e se eu morrer em pecado grave e não tiver tido tempo para pedir perdão, para ter feito penitência ou pedir intercessão? Para responder a essa pergunta é preciso de uma nova doutrina que, até agora, não foi ventilada por nenhum dos livros lidos até aqui na série da Patrística: a doutrina do purgatório. Ora, se o sangue de Jesus me salvou, mas, por alguma situação da vida, eu morri em pecado, sem garantir a minha salvação mediante as obras, então eu irei para o inferno? A doutrina do purgatório surgirá como uma necessidade lógica: as obras de outro (e o meu sofrimento também) serão contadas para livrar os “salvos por Jesus” do purgatório. Como essas e outras doutrinas começaram a ser redigidas pela pena papal, que trazia para si a autoridade de estar no lugar (vigário) de Cristo, ficará cada vez mais difícil voltar atrás sem que todo o castelo venha abaixo. Em outras palavras, voltar atrás em doutrinas assim é afirmar que o papado erra e, portanto, não se poderia mais afirmar que o poder e autoridade conferidos a Pedro, conforme defendido por Leão, estão vivos e ativos in sede sua, isto é, na Igreja Romana.

Temos uma gama de doutrinas meritórias de um lado e, do outro, a única doutrina que verdadeiramente importa: a suficiência de Cristo! Ou Cristo basta e seu sacrifício garante não apenas a “porta aberta”, mas também a própria passagem para o lado de lá ou teremos que construir uma rede de doutrinas que fazem com que a salvação dependa quase que exclusivamente do cristão e não de Cristo! A doutrina da suficiência de Cristo é a fé em toda a extensão, o que, na verdade, revela a Graça de Deus: aquele que começou a boa obra haverá de termina-la! Jesus é o autor e o consumador da nossa fé! O seu sangue não apenas perdoa, mas purifica o nosso pecado toda vez que confessarmos a ele (I João 1:8).

O problema da caridade romana e do amor protestante

Arrisco dizer que é mais fácil compreender a ira do que o amor de Deus. Aliás, o amor é uma exegese complicada e que nos embaralha com diversas palavras associadas na história: amor, caridade, ágape, caritas, misericórdia e compaixão, por exemplo. Por tudo isso, afirmo que o amor bíblico não é algo tão simples assim de compreendermos e, prova disso, é que uma das diferenças cruciais da tradução católica e da tradução protestante se refere exatamente à permuta amor/caridade, que mais do que mera escolha de tradução revela duas cosmovisões que separam católicos e protestantes há meio milênio.

Leão Magno escreve em latim, mas, pela data, será que ele já tinha em mãos a tradução de seu contemporâneo Jerônimo? O que eu sei é que os pais da Igreja não dominavam o hebraico. Contudo, Leão Magno era um homem erudito. Chamo atenção para isso, porque ele vai insistir muito em duas palavras: misericórdia e caridade, em latim elas são misericordiam e caritas. Como se percebe, do latim para o português foi um pulo: misericórdia e caridade. Todavia, as coisas não são tão simples assim. Na versão protestante, caritas é traduzida por amor, ou melhor, as bíblias protestantes não traduzem do latim, mas do grego e a palavra que aparece no texto grego é ágape (ἀγάπη).

Mas, afinal, o que é ágape, que é traduzido por “amor” nas bíblias protestantes e por “caridade” nas bíblias católicas e qual o interesse disso para este meu texto sobre os sermões de Leão Magno? A questão é que a visão de Leão Magno sobre a misericórdia/caridade como a virtude sobre todas as virtudes nasce da compreensão da palavra caritas. Mas o que caritas tem a ver com misericórdia? Em português, na nossa cultura, é muito fácil associá-las e até tê-las por sinônimo. Mas e no tempo de Leão Magno? A ligação entre as duas palavras se dá por causa do grego. Veja, embora o latim tenha uma palavra para misericórdia (misericordiam), o grego no texto de Mateus 5:7 é ελεηθησονται, que deriva de ἐλεέω, que, na maioria das vezes, é traduzido por “compaixão”. Aliás, misericórdia e compaixão são duas palavras similares até em suas composições: miserê (pobre, abandonado, etc) + córdia (coração), que nos traz a ideia de "misericordioso é aquele que se dói com a situação deplorável do outro) e com+paixão (no sentido de dor, sofrimento), que nos traz a ideia semelhante que "compassivo é aquele que está junto, apoiando, se identificando com o outro no seu momento de sofrimento".  Mas o ponto em que quero chegar ainda não é esse. 

Em Mateus 6:2ss, temos uma palavra em grego, ελεημοσυνην, que deriva exatamente de ἐλεέω, mas que é traduzida neste e em tantos outros textos como “esmola”. Pronto! A ligação entre caritas e misericordiam está feita! Na visão de Leão Magno, a caridade e a misericórdia são expressas fundamentalmente por meio das esmolas dadas aos pobres. E será esta compreensão que herdaremos do catolicismo romano em relação à caridade. O problema que reduzir “caridade” ao apoio material dado ao pobre é reduzir o conceito de “amor”, ou melhor dizendo, é reduzir o conceito do ágape de Deus, que é “dar-se em sacrifício ao outro por obediência a Deus e não por um sentimento humano” e nem tão pouco por uma ação de “desencargo de consciência”, mecânica, mercantilista (I Cor 13:3) para garantir a própria salvação.

Sobre o que acabei de dizer acima, gostaria de dizer que discordo de D.A. Carson em muitas coisas e o entendimento dele sobre a palavra ágape é uma delas. Assim, embora a palavra ágape seja utilizada na Bíblia com diversos sentidos, como Carson nos chama a atenção, é para os textos específicos que eu me volto para tratar do ágape no sentido dado no parágrafo anterior (I Cor 13, I Jo 4:8, Rm 5:8 e Jo 15:13, por exemplo).

Assim, ao traduzir ágape por caritas e fazer a redução dessa ao entendimento de mera ajuda ao outro para obter a salvação (Mt 5:7), fazendo da caridade (entenda-se principalmente esmola) a maior das virtudes, pois a esmola, para Leão, era capaz de purificar os pecados, esse entendimento acaba gerando a outra base para uma fé meritória, uma fé pragmática, que completará a construção da fé romana. 

Por outro lado, a tradução “amor” também carrega o peso viciado de uma cultura sentimentalista. Pois Deus não nos manda “sentir” amor pelos inimigos, mas agir em favor deles, independente do que eu sinta no meu coração ou não. Em outras palavras, o “amor” protestante cria a falácia de que o amor de Deus é semelhante ao sentimento humano, quando, na verdade, não é. Quando tratamos “ágape” por um sentimento, uma emoção, interpretamos erroneamente Coríntios 13, como se a tese de Paulo fosse que mesmo que eu faça tudo isso, se não tiver um sentimento, uma emoção, no meu coração de nada adiantará! Ora, um dos erros desse entendimento é que, enquanto eu não “sentir”, então eu não faço, porque, se não houver esse sentimento no meu coração, eu seria um hipócrita se realizasse as coisas para Deus e para os homens. Erro crasso no meio protestante da Igreja Brasileira posso dizer.

Recapitulando: o amor bíblico não é moeda de troca pela garantia da salvação (visão romana) e também não pode ser um mero sentimento (visão predominante no meio evangélico). Enfim, para Deus, o amor é uma decisão racional baseada não no meu coração e nem num desejo de garantir a salvação, mas, ao contrário, o amor deve ser baseado no fato de que Deus nos amou primeiro, isto é, Ele agiu em nosso favor. Assim, a caridade, a misericórdia, o amor que Deus quer que eu tenha pelo próximo, seja ele ímpio ou não (embora eu deva priorizar o bem que posso fazer aos irmãos da fé), é uma resposta à Graça de uma salvação recebida imerecidamente.

Há ainda um ponto que gostaria de trazer à tona num último post sobre essa pequena série de reflexões a partir dos sermões de Leão Magno.

Leia também os dois posts anteriores a este:

Leia também:

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