segunda-feira, 11 de junho de 2018

Afinal, qual é a nossa luta? (ou "Colocando os pingos nos is")

Os líderes cristãos não estão atacando o gay! E isso precisa ficar muito claro, porque o gay precisa de Jesus tanto quanto eu.
Mas, então, o que estamos combatendo? Paulo já respondeu a essa questão lá em Efésios. A nossa luta não é contra a carne e o sangue (por isso, o alvo dos líderes cristãos não é o gay), mas, sim, a nossa luta é contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais (Efésios 6:12). 
Em outras palavras, a nossa luta é espiritual. Ela é contra a carnalidade depravada que atua através das instituições humanas, manipulando-as: a nossa luta é contra partidos políticos, grupos, corporações, ajuntamentos, igrejas, seitas e quaisquer outras manifestações desta mentalidade revolucionária que usa a opressão coletivista e o ópio da massa contra os indivíduos, tragando a estes no ralo roto da corrupção moral e espiritual. 
Então, o que combatemos? Combatemos, neste caso que estou tratando aqui, a DITADURA GAY. Esta é que tem usado o gay contra ele mesmo, impondo sua ideologia totalitária sobre toda a sociedade. 
É contra essa ditadura que quer dominar o Congresso, o Executivo, o Judiciário, os partidos políticos, as Escolas, as Igrejas, as casas, enfim, que quer atuar na cultura como um todo, é contra essa mentalidade, essa cosmovisão perversa, pagã e idólatra que lutamos.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Autoridade e gênero no ofício eclesiástico (Raimundo M. Montenegro Neto)


Nestes dias nos quais presenciamos discursos e atuações que buscam uma reparação histórica que se mostre mais sensível aos grupos minoritários comumente desassistidos na sociedade, vê-se que na esteira da sensibilidade social, há uma prevalecente ideia de que a sociabilização do poder implica também uma diminuição, ou mesmo eliminação, de diferenças entre as pessoas, como se distinções fossem necessariamente estigmas preconceituosos e anacrônicos. Desta forma, tende-se a acreditar que as únicas diferenças legítimas entre as pessoas seriam as das escolhas pessoais, eliminando-se aquelas originadas fora da volição individual, como as que relacionam os conceitos de papel social, gênero e autoridade, por exemplo. No presente artigo pastoral, pretendo dar início a uma curta série de reflexões mensais transcritas em nosso boletim eclesiástico sobre um dos temas menos conhecidos da teologia cristã, que é o assunto do ofício eclesiástico. Hoje, abordaremos resumidamente o polêmico tema da relação entre o gênero e a autoridade no ofício eclesiástico.
Apesar da potencial polêmica referente às questões de gênero, anuncio que o pressuposto hermenêutico do ensinamento do texto bíblico a respeito dos ofícios eclesiásticos é que estes devem ser exercidos apenas por pessoas do sexo masculino. Tal delimitação sexual não se dá por justificativas teológicas que visam tão somente desculpar as verdadeiras razões de natureza oculta, quer sejam psicológicas, sociais, políticas, ou quaisquer outras. Também não se trata de hierarquização de capacidades, supressão de direitos por autoritarismo sexista abusivo, ou por obtusidade anacrônica que incapacita patriarcas detentores das tomadas de poder à ampliação dos direitos de ocupação dos icônicos cargos dos ofícios eclesiásticos – ocupados exclusivamente por eles – às mulheres, uma vez que praticamente em tudo mais a cooperação feminina é bem-vinda e elas estejam comumente dispostas e atuantes. Portanto, as filhas de Eva não devem ser empoderadas oficiais da Igreja por limitações impostas sem motivos razoáveis, mas por explicitude bíblica, em suas razões exegéticas e teológicas.
A compreensão da Igreja Presbiteriana do Brasil a esse respeito é a visão ortodoxa de que a abordagem escriturística relaciona os ofícios eclesiásticos ao gênero masculino não por acondicionamentos sócio-histórico-culturais, mas sim como expressão de conceituações essenciais de identidade de gênero e papeis relacionados, estabelecidos pelo Criador como axioma diferenciado de atuações da espécie humana conforme a distinção sexual e suas respectivas responsabilidades, ainda que tais competências executadas sejam social e culturalmente construídas e não dadas instintivamente, pois assim funcionamos: temos um potencial natural dado pelos fatores biológicos providenciais, os quais nos constroem, amadurecem e se expressam na sua magnitude através dos atos de elaboração compartilhada pelo grupo do qual fazemos parte. Desta forma, reconhecemos que parte da nossa identidade humana é fruto da nossa construção cultural, o qual não apenas acondiciona o nosso potencial à realidade construída e compartilhada com o nosso grupo. Aos cristãos, tais potenciais humanos são regulados pela Bíblia Sagrada, de tal forma que a liberdade da construção do nosso potencial inato segue os critérios que jugamos poder trazer maior e melhor manifestação possíveis.
Por outro lado, o reconhecimento tanto de que ao longo da História têm sido cometidos abusos, desvios e omissões grosseiras no exercício das funções dos ofícios eclesiásticos por parte dos protagonistas do gênero masculino, quanto de que muitas vezes se percebe maiores disposição ao serviço, sensibilidade empática, capacidade avaliativa e percepções de soluções pacificadoras entre as mulheres da Igreja, não deve ser fator determinante à inclusão de mulheres entre os oficiais eclesiásticos, pois as atuações e acomodações sócio-culturais não são a maneira como devemos interpretar a exclusividade do gênero masculino ao oficialato da Igreja no texto bíblico, uma vez que tal doutrina não está circunscrita a circunstâncias histórico-sociais, mas a identidade do gênero está essencialmente ligada ao papel bíblico da autoridade servil, ordenada por Deus aos de sexo masculino e demonstrada por excelência pelo nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, homem. Portanto, o que imperativamente há de empoderar alguém para bíblica e legitimamente exercer ofícios eclesiásticos não são convenções sócio-eclesiásticos humanas, mas critérios biblicamente estabelecidos, os quais não dizem respeito apenas ao sexo do postulante, mas também às devidas qualificações ministeriais e espirituais que devem ser observadas na escolha dos oficiais da Igreja, se queremos ter um fiel cumprimento da ordenação bíblica neste quesito.
Neste primeiro ensaio sobre ofícios eclesiásticos, o foco esteve na atual polêmica em torno da questão do gênero. Contudo, nos próximos mensais pretendo considerar outros aspectos, especialmente o das marcas ministeriais de tais ofícios e suas respectivas evidências deixadas pela Providência para o devido reconhecimento de como o Senhor continua governando sua Igreja em cada comunidade local constituída sobre a Terra. Que o Eterno nos dê mente aberta para recebermos sua instrução, coração sensível para obedecê-la, disposição de vida para o serviço e maturidade espiritual a todos para nos alocarmos nos lugares, funções e atuações conforme qualificações espirituais e não por outros fatores que embora aparentemente legítimos (como disposição, oportunidade e necessidade) não expressam o legítimo modus operandi da Igreja de Deus.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Marxismo e água benta (Percival Puggina)


Quem condena a riqueza, dissemina a pobreza. Sem riqueza não há poupança e sem poupança não há investimento. Sem investimento, consomem-se os capitais produtivos preexistentes, surge uma economia de subsistência, vive-se da mão para a boca, aumenta o número de bocas e diminui o numero de mãos. Quem defende o socialismo sustenta que a ideia é exatamente essa e que assim não há competição ou meritocracia, nem desigualdade.

Quando o LesteEuropeu estava na primeira fase, consumindo os bens produtivos preexistentes, nasceu a teologia da libertação (TL), preparada pelos comunistas para seduzir os cristãos. A receita - uma solução instável, como diriam os químicos, de marxismo e água benta - se preserva ainda hoje. Vendeu mais livros do que Paulo Coelho. Em muitos seminários, teve mais leitores do que as Sagradas Escrituras. Aninhou-se, como cusco em pelego, nos gabinetes da CNBB. Resumidamente: perante a questão da pobreza, a TL realiza o terrível malabarismo de apresentar o problema como solução e a solução como problema. Assustador? Pois é. Deus nos proteja desse mal. Amém.

A estratégia é bem simples. A TL vê o “pobre” do Evangelho, cumprimenta-o, deseja-lhe boa sorte, saúde e vida longa, e passa a tratá-lo como “oprimido”. Alguns não percebem, mas a palavra “oprimido” designa o sujeito passivo da ação de opressão. O mesmo se passa quando o vocábulo empregado na metamorfose é “excluído”, sujeito passivo da exclusão. E fica sutilmente introduzida a assertiva de que o carente foi posto para fora porque quem está dentro não o quer por perto.

A TL proporciona a mais bem sucedida aula de marxismo em ambiente cristão. Aula matreira, que, mediante a substituição de vocábulos acima descrita, introduz a luta de classes como conteúdo evangélico, produzindo o inconfundível e insuperável fanatismo dos cristãos comunistas. Fé religiosa fusionada com militância política! Dentro da Igreja, resulta em alquimia explosiva e corrosiva; vira uma espécie de 11º mandamento temporão, dever moral perante a história e farol para a ordem econômica. Por fim, anula as possibilidades de superar o drama da pobreza. A TL substitui o amor ao pobre pelo ódio ao rico, e acrescenta a essa perversão o inevitável congelamento dos potenciais produtivos das sociedades.
Todos sabem que Frei Betto é um dos expoentes da teologia da libertação. Em O Paraíso Perdido (1993), ele discorre sobre suas muitas conversas com Fidel Castro. Num desses encontros, narrado à página 166, falava-se sobre a TL. Estavam presentes Fidel, o frei e o “comissário do povo”, D. Pedro Casaldáliga, espécie de Pablo Neruda em São Félix do Araguaia. Em dado momento, o bispo versejador comentou a resistência de João Paulo II à TL dizendo: “Para a direita, é mais importante ter o Papa contra a teologia da libertação do que Fidel a favor”. E Fidel respondeu: “A teologia da libertação é mais importante que o marxismo para a revolução latino-americana”.

Haverá maior e melhor evidência de que teologia da libertação e comunismo são a mesma coisa

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* Percival Puggina (73), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

Texto retirado do blog: aqui!

sexta-feira, 9 de março de 2018

Sou o único reacionário do Brasil!


O Brasil atravessa um instante muito divertido da sua história. Hoje em dia, chamar um brasileiro de reacionário é pior do que xingar a mãe. Não há mais direita nem centro: - só há esquerda neste país. Perguntem ao professor Gudin: - “Você é reacionário?”. Sua resposta será um tiro. Insisto:  - o brasileiro só é direitista entre quatro paredes e de luz apagada. Cá fora, porém, está sempre disposto a beber o sangue da burguesia. Pois bem. Ao contrário dos setenta milhões de patrícios, eu me sinto capaz de trepar numa mesa e anunciar gloriosamente: - “Sou o único reacionário do Brasil”! E, com efeito, agrada-me ser xingado de reacionário. É o que sou, amigos, é o que sou. Por toda parte, olham-me, apalpam-me, farejam-me como uma exceção vergonhosa. Meus colegas são todos, e ferozmente, revolucionários sanguinolentos. Ao passo que eu ganho, eu recebo da Reação.

                E, no entanto, vejam vocês: - como é burra a burguesia! Eu, com todo o meu reacionarismo, confesso e brutal, sou o único autor perseguido do Brasil, o único autor interditado, o único que, até hoje, não mereceu jamais um único prêmio. Pois bem. Enquanto a classe dominante me trata a pontapés e me nega tudo – que faz com os outros? Amigos, eis o equívoco engraçadíssimo: - a burguesia os trata a pires de leite, como gatas de luxo. O Dias Gomes, com seu Pagador de promessas, fez um rapa de prêmios. O Flávio Rangel não dá um espirro sem que lhe caia um prêmio na cabeça. O meu amigo Augusto Boal, premiado. O Vianinha, premiadíssimo.

                Há, porém, uma hipótese a considerar: - quem sabe o equívoco não é laboriosamente premeditado? Porque meus colegas citados têm, a um só tempo, um imenso talento teatral e uma imensa burrice política. O talento distrai a burguesia e a burrice a serve.

Texto publicado por Nelson Rodrigues em 07 de abril de 1961.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A Causa Indígena no Brasil: Retórica de uns, trabalho de outros (Rev Ildemar Berbert - Igreja Presbiteriana de Dourados, MS)



Muito se fala hoje sobre a causa indígena no Brasil. A preservação de sua cultura, língua, crenças e costumes. As definições de seus espaços, o modo de vida de seu povo, a preservação de seus hábitos antigos, e há até quem defenda o seu retorno às florestas e ao isolamento do “mundo civilizado”. Quase sempre, por trás desta retórica, as missões cristãs são apontadas como sendo os vilões de um processo de aculturação dos povos indígenas, como quem está sufocando a cultura milenar destes povos. 

Quero destacar algumas ações dos missionários dentro das aldeias e tribos para que o leitor faça a sua avaliação madura e sem preconceitos sobre o trabalho missionário entre os nossos irmãos indígenas, e como esse trabalho é eficaz em preservar a cultura do índio, sem perder a mensagem do evangelho.

Dourados está na rota destas ações. Na década de 1920 o missionário Americano, Rev. Albert Sidney Maxwell percorreu mais de seis mil quilômetros pelo Brasil, numa expedição que durou um ano, andando a cavalo e de barco pelos Estados do Rondônia, Acre, Amazonas e Mato Grosso. Chegou a ser dado por desaparecido. Num barco que fabricou em Porto Velho, ele subiu pelos rios da Amazonas visitando aldeias indígenas, em meio aos perigos comuns desta viagem. E foi o Marechal Rondon quem o aconselhou a visitar Dourados, pois ele queria trabalhar com alguma tribo que estivesse em risco de extinção. Ele veio e se achou em seu projeto entre os índios Kaiwá. Em 1928 fundou aqui a missão Caiuá. Fundou mais tarde, com o apoio de outros missionários, como o Dr. Nelson de Araújo, escola e hospital para atender os povos indígenas e o seu trabalho não foi em vão. O Kaiwá em poucos anos saiu da lista de povos em processo de extinção.

Mais tarde a missionária Americana, Da. Lorena, chegou a Dourados para os trabalhos da missão Caiuá, em 1958. Seu foco era estudar a língua deste povo. Veio sob orientação e incentivo do Educador Darci Ribeiro, um conhecido defensor da causa indígena no Brasil, que a incentivou a escrever uma gramática da língua Kaiwá, para a preservação e desenvolvimento desta língua. Não havia registro da língua que estava se perdendo. Para melhorar seu contato com o índio, ela foi morar entre os indígenas, na aldeia, aprendeu e registrou a língua Kaiwá, fez curso de doutorado em linguística, sendo sua monografia na língua Kaiwá e produziu a gramática da referida língua. Se dedicou depois à tradução da Bíblia, trabalho realizado com o apoio do missionário John Taylor e que veio a ser terminado em 2013 pelo casal de missionários Cristiano e Eliane, da Missão ALEM. Hoje, cerca de 80% do material que o Kaiwá tem em sua língua é traduzido pelos missionários, de conteúdo Bíblico e também de instruções nas diversas áreas da vida. E assim a língua desta tribo foi preservada e ampliado o seu estudo.

Estou falando do Kaiwá, mas esta é a realidade da maioria das tribos indígenas do Brasil. Acabo de chegar de uma viagem pelo Alto do Amazonas, entre os tikunas, uma tribo que pode contar história semelhante.  A revista Veja trouxe recentemente uma matéria do jornalista Roberto Pompeu de Toledo, intitulada “O Último da Fila”, contando a história da etnia taushiro, povo da Amazonas Peruana, que vai se extinguir agora com a morte do ultimo sobrevivente, Amadeo, cujas palavras que ele fala em sua língua nativa são textos Bíblicos fruto dos trabalhos da missionária-linguista Nectali Alicea, uma Americana, que fez o registro desta língua anotando as palavras que lhes eram ditadas pelos nativos.

O que chamo a atenção é para o fato de que grande parte do acervo, registro das línguas e preservação do patrimônio cultural dos povos indígenas, está diretamente ligado ao trabalho dos missionários entre estes povos. Estes missionários não são os vilões da cultura destes povos, mas, em muitos casos o pouco apoio que eles têm para a preservação de suas vidas, e depois de sua língua e cultura. Além de levar o doce presente da mensagem de salvação e esperança a todas as tribos, povos línguas e nações, conforme a ordem de Jesus Cristo.


            Dourados, 16 de fevereiro de 2018

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sábado, 23 de setembro de 2017

Conservador? Eu?!!!

As pessoas gostam de rótulos. Umas perguntam o que eu sou. Evangélico? Protestante? Calvinista? Outras não perguntam, já dizem logo: burguês, opressor, alienado, coxinha. Já ouvi de tudo.

Um dia, porém, alguém me chamou de “conservador”. Eu não sabia o que era isso, mas pareceu-me melhor do que outro rótulo que já haviam me colocado: “reacionário”.

Para conversar com as pessoas que insistiam em me tratar dentro de algum grupo ao qual elas julgavam que eu pertencesse, tive que ir estudar o que, de fato, essas palavras queriam expressar. Não dá para se lançar ao mar sem saber nadar, não é?

Muitas vezes, por usarmos as mesmas palavras, acreditamos que damos o mesmo conteúdo a elas, quando, na verdade, o outro está falando de outra coisa que não tem nada a ver com o que você está discutindo.

Não só palavras enganam, mas também são mal usadas!

Um exemplo muito simples é a palavra “Jesus”, que para Mórmons, Testemunhas de Jeová, Muçulmanos e Espíritas não se referem ao mesmo conteúdo que a tradição judaico-cristã nos legou.

Outro exemplo. “Justiça”, “igualdade”, “pecado”, “liberdade”, “novos céus e nova terra” que, para teólogos da Teologia da Missão Integral, os autointitulados “teólogos da práxis”, são palavras e expressões que têm um conteúdo radicalmente diferente do atribuído pela tradição judaico-cristã.

Palavras são assim: dependendo de quem as use, podem até significar um xingamento! É o caso da palavra “conservador”. Estudando, descobri que há vários “conservadorismos”.

Todavia, o que eu identifiquei como o mais interessante, pelo menos como ponto de partida para aprender mais sobre essa palavra, foi o conservadorismo de Edmund Burke (autor de “Reflexões sobre a Revolução em França”): que se apresenta, antes de tudo, como uma resposta antirrevolucionária e antiutópica.

Em outras palavras, os novos céus e a nova terra não serão instaurados pela revolução sangrenta, pelo rompimento com o passado e pela crença de que alguém sabe o que é melhor para mim e imporá sua “sabedoria” por força do Estado.

Compreendendo o que eu disse acima, também fica fácil desassociar o conservadorismo do movimento reacionário, que é o extremo oposto do espírito revolucionário e que se apresenta como uma idolatria ao passado, buscando enrijece-lo a todo custo.

O conservadorismo de Edmund Burke não é um apelo a uma suposta época de ouro de um passado longínquo, mas, como já coloquei neste artigo ("Por que ainda sou católico?), é uma abertura às mudanças, às reformas necessárias, sem ruptura traumática e irracional com a herança que a Tradição nos ofereceu de melhor.

Assim, percebo como que discursos revolucionários (no pior sentido da palavra) como o da TMI do Ariovaldo Ramos podem enganar pelas palavras que usam, mas que, para o cristão atento, logo se vê que os conteúdos não são bíblicos.

O vídeo (aqui) é um exemplo maravilhoso de tudo o que o pensamento marxista na base da teologia de uma pessoa é capaz de fazer: inversão de valores bíblicos, distorção de conteúdo de palavras e da história, rompimento com o passado, a defesa de que Marx é quem leu a Bíblia e a compreendeu melhor que os teólogos cristãos, fobia teológica a tudo o que é “gringo”, aquele mesmo espírito do “nunca antes na história deste país” (no caso, da América Latina) e muito mais.

Você descobrirá, assistindo ao vídeo, uma informação surpreendente: Marx rompeu com Deus não por que ele se revoltou contra o Deus da Bíblia, mas porque Marx se revoltou com os teólogos do seu tempo (“gringos” para Ariovaldo)! E Ariovaldo se coloca ao lado de Marx e diz que também tem vontade de romper com esses teólogos.

Aliás, você verá no vídeo que o velho marxismo continua o mesmo. No final, os teólogos “gringos” são julgados por Ariovaldo, que dá sua sentença a eles: “eles estão indo para um lugar bastante acolhedor, muito quente”! Chamo isso de xenofobia teológica.

Esta é uma das muitas dicotomias – o bem e o mal – que caracteriza a mentalidade revolucionária marxista aplicada ao Evangelho. O que for “gringo” é mal, destinado ao inferno. O que for latino-americano é bom, destinado à libertação.

No resumo da ópera, o discurso do Ariovaldo revela que a TMI não veio apenas libertar as pessoas oprimidas pelo inferno do “sistema”, mas a TMI veio libertar a própria Igreja Brasileira e Latino-americana da opressão da Teologia “gringa”!

Nem tudo que reluz é ouro. Nem tudo que se esconde sob os rótulos de “gospel”, “de Jesus”, “evangélico”, “reformado”, “cristão” têm o mesmo conteúdo construído pelo cristianismo histórico posto à prova nos últimos quase dois milênios.


Enfim, se quem, naquela primeira vez, me chamou de conservador o fez no sentido que eu tratei aqui neste texto, agradeço, porque este que aqui vos escreve não pode abdicar da característica que se vê mais defendida por Edmund Burke: o direito de pensar.

Este artigo foi originalmente publicado no GospelPrime no dia 19/09/2015.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O Pequeno Príncipe e os teólogos do chapéu

“Se vocês não mudarem de vida 

e não ficarem iguais às crianças, 

nunca entrarão no Reino do Céu” (Mt 18: 3b).


É possível que eu possa me tornar responsável pelo outro? Sem dúvida, a resposta será não, caso eu seja um cogumelo, ou melhor, um adulto que “cresceu” e agora olha apenas para si mesmo e para as futilidades que nos prendem a um mundo tão sem imaginação e criatividade, um mundo sem mistérios.

O parágrafo acima expõe a tese central do livro “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry e que está nas salas de cinema, mas que ainda não fui assistir. Quero prender-me aqui tão somente à obra literária e não à sua interpretação que se encontra nas telas.

Há maneiras corretas de se ler um livro. E também há maneiras erradas de se interpretar um texto. Mesmo um livro como o Saint-Exupéry, que é considerada uma obra aberta a várias possíveis interpretações, há limites regulados pelo próprio bom senso.

O mesmo ocorre com a Bíblia. Um livro formado por tantos livros escritos durante um período de pelo menos 1.400 anos e encerrado há quase 2.000 anos atrás; um livro que retrata tantas culturas tão diversas entre si e tão diferentes das nossas; uma biblioteca de poemas, narrativas, leis, profecias, cartas, literatura de sabedoria, literatura apocalíptica, etc.

É preciso que haja regras para tais leituras. Não é de surpreender o surgimento de tantas faculdades de teologia e seminários com ofertas de cursos de hermenêutica e exegese. Todavia, assim como nem todos os cursos de Letras primam pela qualidade, muitos cursos de interpretação bíblica também carecem da seriedade e profundidade necessárias.

Da mesma maneira, é possível encontrarmos interpretações estapafúrdias sobre “O Pequeno Príncipe”, principalmente por leitores que são cogumelos. Porque, assim como a Bíblia, é preciso algo mais do que apenas boas regras de hermenêutica para participarmos do universo de Saint-Exupéry.

Em outras palavras, o mínimo é imprescindível, mas, infelizmente, nem esse mínimo há em grande parte dos leitores cristãos de hoje em dia. Como esperar, então, que além do mínimo, eles tenham “algo mais”? Sobre o mínimo eu já me referi – uma boa educação para se ler bem e corretamente. E o que seria o “algo mais” para se ler obras como a que estamos tratando aqui?

O próprio livro nos dá essa resposta: a imaginação! Ou como vemos no teste do piloto de avião, o “algo mais” revela-se na diferença entre aqueles que conseguem enxergar o elefante no interior de uma jiboia e aqueles para quem a vida é apenas um chapéu.

Infelizmente, estamos cercados de pessoas – falo de cristãos – cujas teologias, a vida religiosa, a espiritualidade, o cristianismo que elas vivem estão sufocados por uma “teologia do chapéu”. Suas regras, sua exegese, sua hermenêutica podem até ser convincentes, mas a conclusão delas é apenas: “Por que é que um chapéu faria medo?”.

O mistério do Pequeno Príncipe revela-se exatamente no trato com o mundo dos adultos – o rei, o vaidoso, o beberrão, o homem de negócios, o acendedor de lampiões, o geógrafo. Adultos que não tem a mínima imaginação e que estão presos não a pessoas, mas às coisas. A face escura de nos tornarmos adultos da maneira errada é que podemos perder o nosso olhar ao outro e ficarmos presos ao aqui e agora de nosso mundinho egoísta.

E quando começamos a enfrentar essa viagem ao mundo adulto em busca de “participação” (pois, gostemos ou não, é preciso crescer), pode ser que o amigo que estejamos buscando sempre esteve ao nosso lado, mas não nos demos conta, porque o “essencial é invisível aos olhos”.

A rosa possui seus pecados, mas quem não é pecador? A verdade é que a rosa do Pequeno Príncipe reconhece seus erros, sua vaidade, seu egoísmo, suas mentiras, e quantos de nós nem sequer isso fazemos? Esta é a razão de fugirmos: não aceitamos o outro como ele é e nem nos aceitamos como nós somos.

O mistério da amizade reside exatamente nessa aceitação mútua para que possamos crescer juntos e de maneira saudável. Nem que para isso precisemos morrer. Se não aprendermos isso, nossa vida espiritual, nosso cristianismo, nossas amizades e nossos casamentos estarão condenados ao fracasso.

O Cristianismo é a religião da responsabilidade. Não apenas porque devo ser responsável pelos meus atos, mas porque Deus me responsabiliza por amar ao próximo, evangelizando-o e ensinando-o a guardar todas as coisas que tenho aprendido com Jesus. O Estado não pode ser responsável por quem só a Igreja é chamada a ser, entenda isso.

O encontro do Pequeno Príncipe com a raposa fala desse esforço que preciso ter em relação ao próximo, esforço ao qual quase nenhum dos “adultos” do livro se volta. O mistério da amizade com toda sua linguagem do sagrado está ali: o símbolo da raposa e do trigo, a narrativa mítica do livro, a necessidade que temos de ritos e, enfim, a expressão do dogma: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos”!


Tudo isso só para entendermos o que todo cristão já sabe de cor, mas que, infelizmente, nem sempre aprendemos: “Se vocês não mudarem de vida e não ficarem iguais às crianças, nunca entrarão no Reino do Céu” (Mt 18: 3b).

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