segunda-feira, 26 de março de 2018

Marxismo e água benta (Percival Puggina)


Quem condena a riqueza, dissemina a pobreza. Sem riqueza não há poupança e sem poupança não há investimento. Sem investimento, consomem-se os capitais produtivos preexistentes, surge uma economia de subsistência, vive-se da mão para a boca, aumenta o número de bocas e diminui o numero de mãos. Quem defende o socialismo sustenta que a ideia é exatamente essa e que assim não há competição ou meritocracia, nem desigualdade.

Quando o LesteEuropeu estava na primeira fase, consumindo os bens produtivos preexistentes, nasceu a teologia da libertação (TL), preparada pelos comunistas para seduzir os cristãos. A receita - uma solução instável, como diriam os químicos, de marxismo e água benta - se preserva ainda hoje. Vendeu mais livros do que Paulo Coelho. Em muitos seminários, teve mais leitores do que as Sagradas Escrituras. Aninhou-se, como cusco em pelego, nos gabinetes da CNBB. Resumidamente: perante a questão da pobreza, a TL realiza o terrível malabarismo de apresentar o problema como solução e a solução como problema. Assustador? Pois é. Deus nos proteja desse mal. Amém.

A estratégia é bem simples. A TL vê o “pobre” do Evangelho, cumprimenta-o, deseja-lhe boa sorte, saúde e vida longa, e passa a tratá-lo como “oprimido”. Alguns não percebem, mas a palavra “oprimido” designa o sujeito passivo da ação de opressão. O mesmo se passa quando o vocábulo empregado na metamorfose é “excluído”, sujeito passivo da exclusão. E fica sutilmente introduzida a assertiva de que o carente foi posto para fora porque quem está dentro não o quer por perto.

A TL proporciona a mais bem sucedida aula de marxismo em ambiente cristão. Aula matreira, que, mediante a substituição de vocábulos acima descrita, introduz a luta de classes como conteúdo evangélico, produzindo o inconfundível e insuperável fanatismo dos cristãos comunistas. Fé religiosa fusionada com militância política! Dentro da Igreja, resulta em alquimia explosiva e corrosiva; vira uma espécie de 11º mandamento temporão, dever moral perante a história e farol para a ordem econômica. Por fim, anula as possibilidades de superar o drama da pobreza. A TL substitui o amor ao pobre pelo ódio ao rico, e acrescenta a essa perversão o inevitável congelamento dos potenciais produtivos das sociedades.
Todos sabem que Frei Betto é um dos expoentes da teologia da libertação. Em O Paraíso Perdido (1993), ele discorre sobre suas muitas conversas com Fidel Castro. Num desses encontros, narrado à página 166, falava-se sobre a TL. Estavam presentes Fidel, o frei e o “comissário do povo”, D. Pedro Casaldáliga, espécie de Pablo Neruda em São Félix do Araguaia. Em dado momento, o bispo versejador comentou a resistência de João Paulo II à TL dizendo: “Para a direita, é mais importante ter o Papa contra a teologia da libertação do que Fidel a favor”. E Fidel respondeu: “A teologia da libertação é mais importante que o marxismo para a revolução latino-americana”.

Haverá maior e melhor evidência de que teologia da libertação e comunismo são a mesma coisa

______________________________
* Percival Puggina (73), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

Texto retirado do blog: aqui!

sexta-feira, 9 de março de 2018

Sou o único reacionário do Brasil!


O Brasil atravessa um instante muito divertido da sua história. Hoje em dia, chamar um brasileiro de reacionário é pior do que xingar a mãe. Não há mais direita nem centro: - só há esquerda neste país. Perguntem ao professor Gudin: - “Você é reacionário?”. Sua resposta será um tiro. Insisto:  - o brasileiro só é direitista entre quatro paredes e de luz apagada. Cá fora, porém, está sempre disposto a beber o sangue da burguesia. Pois bem. Ao contrário dos setenta milhões de patrícios, eu me sinto capaz de trepar numa mesa e anunciar gloriosamente: - “Sou o único reacionário do Brasil”! E, com efeito, agrada-me ser xingado de reacionário. É o que sou, amigos, é o que sou. Por toda parte, olham-me, apalpam-me, farejam-me como uma exceção vergonhosa. Meus colegas são todos, e ferozmente, revolucionários sanguinolentos. Ao passo que eu ganho, eu recebo da Reação.

                E, no entanto, vejam vocês: - como é burra a burguesia! Eu, com todo o meu reacionarismo, confesso e brutal, sou o único autor perseguido do Brasil, o único autor interditado, o único que, até hoje, não mereceu jamais um único prêmio. Pois bem. Enquanto a classe dominante me trata a pontapés e me nega tudo – que faz com os outros? Amigos, eis o equívoco engraçadíssimo: - a burguesia os trata a pires de leite, como gatas de luxo. O Dias Gomes, com seu Pagador de promessas, fez um rapa de prêmios. O Flávio Rangel não dá um espirro sem que lhe caia um prêmio na cabeça. O meu amigo Augusto Boal, premiado. O Vianinha, premiadíssimo.

                Há, porém, uma hipótese a considerar: - quem sabe o equívoco não é laboriosamente premeditado? Porque meus colegas citados têm, a um só tempo, um imenso talento teatral e uma imensa burrice política. O talento distrai a burguesia e a burrice a serve.

Texto publicado por Nelson Rodrigues em 07 de abril de 1961.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A Causa Indígena no Brasil: Retórica de uns, trabalho de outros (Rev Ildemar Berbert - Igreja Presbiteriana de Dourados, MS)



Muito se fala hoje sobre a causa indígena no Brasil. A preservação de sua cultura, língua, crenças e costumes. As definições de seus espaços, o modo de vida de seu povo, a preservação de seus hábitos antigos, e há até quem defenda o seu retorno às florestas e ao isolamento do “mundo civilizado”. Quase sempre, por trás desta retórica, as missões cristãs são apontadas como sendo os vilões de um processo de aculturação dos povos indígenas, como quem está sufocando a cultura milenar destes povos. 

Quero destacar algumas ações dos missionários dentro das aldeias e tribos para que o leitor faça a sua avaliação madura e sem preconceitos sobre o trabalho missionário entre os nossos irmãos indígenas, e como esse trabalho é eficaz em preservar a cultura do índio, sem perder a mensagem do evangelho.

Dourados está na rota destas ações. Na década de 1920 o missionário Americano, Rev. Albert Sidney Maxwell percorreu mais de seis mil quilômetros pelo Brasil, numa expedição que durou um ano, andando a cavalo e de barco pelos Estados do Rondônia, Acre, Amazonas e Mato Grosso. Chegou a ser dado por desaparecido. Num barco que fabricou em Porto Velho, ele subiu pelos rios da Amazonas visitando aldeias indígenas, em meio aos perigos comuns desta viagem. E foi o Marechal Rondon quem o aconselhou a visitar Dourados, pois ele queria trabalhar com alguma tribo que estivesse em risco de extinção. Ele veio e se achou em seu projeto entre os índios Kaiwá. Em 1928 fundou aqui a missão Caiuá. Fundou mais tarde, com o apoio de outros missionários, como o Dr. Nelson de Araújo, escola e hospital para atender os povos indígenas e o seu trabalho não foi em vão. O Kaiwá em poucos anos saiu da lista de povos em processo de extinção.

Mais tarde a missionária Americana, Da. Lorena, chegou a Dourados para os trabalhos da missão Caiuá, em 1958. Seu foco era estudar a língua deste povo. Veio sob orientação e incentivo do Educador Darci Ribeiro, um conhecido defensor da causa indígena no Brasil, que a incentivou a escrever uma gramática da língua Kaiwá, para a preservação e desenvolvimento desta língua. Não havia registro da língua que estava se perdendo. Para melhorar seu contato com o índio, ela foi morar entre os indígenas, na aldeia, aprendeu e registrou a língua Kaiwá, fez curso de doutorado em linguística, sendo sua monografia na língua Kaiwá e produziu a gramática da referida língua. Se dedicou depois à tradução da Bíblia, trabalho realizado com o apoio do missionário John Taylor e que veio a ser terminado em 2013 pelo casal de missionários Cristiano e Eliane, da Missão ALEM. Hoje, cerca de 80% do material que o Kaiwá tem em sua língua é traduzido pelos missionários, de conteúdo Bíblico e também de instruções nas diversas áreas da vida. E assim a língua desta tribo foi preservada e ampliado o seu estudo.

Estou falando do Kaiwá, mas esta é a realidade da maioria das tribos indígenas do Brasil. Acabo de chegar de uma viagem pelo Alto do Amazonas, entre os tikunas, uma tribo que pode contar história semelhante.  A revista Veja trouxe recentemente uma matéria do jornalista Roberto Pompeu de Toledo, intitulada “O Último da Fila”, contando a história da etnia taushiro, povo da Amazonas Peruana, que vai se extinguir agora com a morte do ultimo sobrevivente, Amadeo, cujas palavras que ele fala em sua língua nativa são textos Bíblicos fruto dos trabalhos da missionária-linguista Nectali Alicea, uma Americana, que fez o registro desta língua anotando as palavras que lhes eram ditadas pelos nativos.

O que chamo a atenção é para o fato de que grande parte do acervo, registro das línguas e preservação do patrimônio cultural dos povos indígenas, está diretamente ligado ao trabalho dos missionários entre estes povos. Estes missionários não são os vilões da cultura destes povos, mas, em muitos casos o pouco apoio que eles têm para a preservação de suas vidas, e depois de sua língua e cultura. Além de levar o doce presente da mensagem de salvação e esperança a todas as tribos, povos línguas e nações, conforme a ordem de Jesus Cristo.


            Dourados, 16 de fevereiro de 2018

.

sábado, 23 de setembro de 2017

Conservador? Eu?!!!

As pessoas gostam de rótulos. Umas perguntam o que eu sou. Evangélico? Protestante? Calvinista? Outras não perguntam, já dizem logo: burguês, opressor, alienado, coxinha. Já ouvi de tudo.

Um dia, porém, alguém me chamou de “conservador”. Eu não sabia o que era isso, mas pareceu-me melhor do que outro rótulo que já haviam me colocado: “reacionário”.

Para conversar com as pessoas que insistiam em me tratar dentro de algum grupo ao qual elas julgavam que eu pertencesse, tive que ir estudar o que, de fato, essas palavras queriam expressar. Não dá para se lançar ao mar sem saber nadar, não é?

Muitas vezes, por usarmos as mesmas palavras, acreditamos que damos o mesmo conteúdo a elas, quando, na verdade, o outro está falando de outra coisa que não tem nada a ver com o que você está discutindo.

Não só palavras enganam, mas também são mal usadas!

Um exemplo muito simples é a palavra “Jesus”, que para Mórmons, Testemunhas de Jeová, Muçulmanos e Espíritas não se referem ao mesmo conteúdo que a tradição judaico-cristã nos legou.

Outro exemplo. “Justiça”, “igualdade”, “pecado”, “liberdade”, “novos céus e nova terra” que, para teólogos da Teologia da Missão Integral, os autointitulados “teólogos da práxis”, são palavras e expressões que têm um conteúdo radicalmente diferente do atribuído pela tradição judaico-cristã.

Palavras são assim: dependendo de quem as use, podem até significar um xingamento! É o caso da palavra “conservador”. Estudando, descobri que há vários “conservadorismos”.

Todavia, o que eu identifiquei como o mais interessante, pelo menos como ponto de partida para aprender mais sobre essa palavra, foi o conservadorismo de Edmund Burke (autor de “Reflexões sobre a Revolução em França”): que se apresenta, antes de tudo, como uma resposta antirrevolucionária e antiutópica.

Em outras palavras, os novos céus e a nova terra não serão instaurados pela revolução sangrenta, pelo rompimento com o passado e pela crença de que alguém sabe o que é melhor para mim e imporá sua “sabedoria” por força do Estado.

Compreendendo o que eu disse acima, também fica fácil desassociar o conservadorismo do movimento reacionário, que é o extremo oposto do espírito revolucionário e que se apresenta como uma idolatria ao passado, buscando enrijece-lo a todo custo.

O conservadorismo de Edmund Burke não é um apelo a uma suposta época de ouro de um passado longínquo, mas, como já coloquei neste artigo ("Por que ainda sou católico?), é uma abertura às mudanças, às reformas necessárias, sem ruptura traumática e irracional com a herança que a Tradição nos ofereceu de melhor.

Assim, percebo como que discursos revolucionários (no pior sentido da palavra) como o da TMI do Ariovaldo Ramos podem enganar pelas palavras que usam, mas que, para o cristão atento, logo se vê que os conteúdos não são bíblicos.

O vídeo (aqui) é um exemplo maravilhoso de tudo o que o pensamento marxista na base da teologia de uma pessoa é capaz de fazer: inversão de valores bíblicos, distorção de conteúdo de palavras e da história, rompimento com o passado, a defesa de que Marx é quem leu a Bíblia e a compreendeu melhor que os teólogos cristãos, fobia teológica a tudo o que é “gringo”, aquele mesmo espírito do “nunca antes na história deste país” (no caso, da América Latina) e muito mais.

Você descobrirá, assistindo ao vídeo, uma informação surpreendente: Marx rompeu com Deus não por que ele se revoltou contra o Deus da Bíblia, mas porque Marx se revoltou com os teólogos do seu tempo (“gringos” para Ariovaldo)! E Ariovaldo se coloca ao lado de Marx e diz que também tem vontade de romper com esses teólogos.

Aliás, você verá no vídeo que o velho marxismo continua o mesmo. No final, os teólogos “gringos” são julgados por Ariovaldo, que dá sua sentença a eles: “eles estão indo para um lugar bastante acolhedor, muito quente”! Chamo isso de xenofobia teológica.

Esta é uma das muitas dicotomias – o bem e o mal – que caracteriza a mentalidade revolucionária marxista aplicada ao Evangelho. O que for “gringo” é mal, destinado ao inferno. O que for latino-americano é bom, destinado à libertação.

No resumo da ópera, o discurso do Ariovaldo revela que a TMI não veio apenas libertar as pessoas oprimidas pelo inferno do “sistema”, mas a TMI veio libertar a própria Igreja Brasileira e Latino-americana da opressão da Teologia “gringa”!

Nem tudo que reluz é ouro. Nem tudo que se esconde sob os rótulos de “gospel”, “de Jesus”, “evangélico”, “reformado”, “cristão” têm o mesmo conteúdo construído pelo cristianismo histórico posto à prova nos últimos quase dois milênios.


Enfim, se quem, naquela primeira vez, me chamou de conservador o fez no sentido que eu tratei aqui neste texto, agradeço, porque este que aqui vos escreve não pode abdicar da característica que se vê mais defendida por Edmund Burke: o direito de pensar.

Este artigo foi originalmente publicado no GospelPrime no dia 19/09/2015.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O Pequeno Príncipe e os teólogos do chapéu

“Se vocês não mudarem de vida 

e não ficarem iguais às crianças, 

nunca entrarão no Reino do Céu” (Mt 18: 3b).


É possível que eu possa me tornar responsável pelo outro? Sem dúvida, a resposta será não, caso eu seja um cogumelo, ou melhor, um adulto que “cresceu” e agora olha apenas para si mesmo e para as futilidades que nos prendem a um mundo tão sem imaginação e criatividade, um mundo sem mistérios.

O parágrafo acima expõe a tese central do livro “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry e que está nas salas de cinema, mas que ainda não fui assistir. Quero prender-me aqui tão somente à obra literária e não à sua interpretação que se encontra nas telas.

Há maneiras corretas de se ler um livro. E também há maneiras erradas de se interpretar um texto. Mesmo um livro como o Saint-Exupéry, que é considerada uma obra aberta a várias possíveis interpretações, há limites regulados pelo próprio bom senso.

O mesmo ocorre com a Bíblia. Um livro formado por tantos livros escritos durante um período de pelo menos 1.400 anos e encerrado há quase 2.000 anos atrás; um livro que retrata tantas culturas tão diversas entre si e tão diferentes das nossas; uma biblioteca de poemas, narrativas, leis, profecias, cartas, literatura de sabedoria, literatura apocalíptica, etc.

É preciso que haja regras para tais leituras. Não é de surpreender o surgimento de tantas faculdades de teologia e seminários com ofertas de cursos de hermenêutica e exegese. Todavia, assim como nem todos os cursos de Letras primam pela qualidade, muitos cursos de interpretação bíblica também carecem da seriedade e profundidade necessárias.

Da mesma maneira, é possível encontrarmos interpretações estapafúrdias sobre “O Pequeno Príncipe”, principalmente por leitores que são cogumelos. Porque, assim como a Bíblia, é preciso algo mais do que apenas boas regras de hermenêutica para participarmos do universo de Saint-Exupéry.

Em outras palavras, o mínimo é imprescindível, mas, infelizmente, nem esse mínimo há em grande parte dos leitores cristãos de hoje em dia. Como esperar, então, que além do mínimo, eles tenham “algo mais”? Sobre o mínimo eu já me referi – uma boa educação para se ler bem e corretamente. E o que seria o “algo mais” para se ler obras como a que estamos tratando aqui?

O próprio livro nos dá essa resposta: a imaginação! Ou como vemos no teste do piloto de avião, o “algo mais” revela-se na diferença entre aqueles que conseguem enxergar o elefante no interior de uma jiboia e aqueles para quem a vida é apenas um chapéu.

Infelizmente, estamos cercados de pessoas – falo de cristãos – cujas teologias, a vida religiosa, a espiritualidade, o cristianismo que elas vivem estão sufocados por uma “teologia do chapéu”. Suas regras, sua exegese, sua hermenêutica podem até ser convincentes, mas a conclusão delas é apenas: “Por que é que um chapéu faria medo?”.

O mistério do Pequeno Príncipe revela-se exatamente no trato com o mundo dos adultos – o rei, o vaidoso, o beberrão, o homem de negócios, o acendedor de lampiões, o geógrafo. Adultos que não tem a mínima imaginação e que estão presos não a pessoas, mas às coisas. A face escura de nos tornarmos adultos da maneira errada é que podemos perder o nosso olhar ao outro e ficarmos presos ao aqui e agora de nosso mundinho egoísta.

E quando começamos a enfrentar essa viagem ao mundo adulto em busca de “participação” (pois, gostemos ou não, é preciso crescer), pode ser que o amigo que estejamos buscando sempre esteve ao nosso lado, mas não nos demos conta, porque o “essencial é invisível aos olhos”.

A rosa possui seus pecados, mas quem não é pecador? A verdade é que a rosa do Pequeno Príncipe reconhece seus erros, sua vaidade, seu egoísmo, suas mentiras, e quantos de nós nem sequer isso fazemos? Esta é a razão de fugirmos: não aceitamos o outro como ele é e nem nos aceitamos como nós somos.

O mistério da amizade reside exatamente nessa aceitação mútua para que possamos crescer juntos e de maneira saudável. Nem que para isso precisemos morrer. Se não aprendermos isso, nossa vida espiritual, nosso cristianismo, nossas amizades e nossos casamentos estarão condenados ao fracasso.

O Cristianismo é a religião da responsabilidade. Não apenas porque devo ser responsável pelos meus atos, mas porque Deus me responsabiliza por amar ao próximo, evangelizando-o e ensinando-o a guardar todas as coisas que tenho aprendido com Jesus. O Estado não pode ser responsável por quem só a Igreja é chamada a ser, entenda isso.

O encontro do Pequeno Príncipe com a raposa fala desse esforço que preciso ter em relação ao próximo, esforço ao qual quase nenhum dos “adultos” do livro se volta. O mistério da amizade com toda sua linguagem do sagrado está ali: o símbolo da raposa e do trigo, a narrativa mítica do livro, a necessidade que temos de ritos e, enfim, a expressão do dogma: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos”!


Tudo isso só para entendermos o que todo cristão já sabe de cor, mas que, infelizmente, nem sempre aprendemos: “Se vocês não mudarem de vida e não ficarem iguais às crianças, nunca entrarão no Reino do Céu” (Mt 18: 3b).

domingo, 3 de setembro de 2017

A heteronormatividade realmente é a regra para o casamento cristão?

Ao tratarmos da questão do matrimônio cristão, caímos sempre no engodo de duas situações. A primeira é a ênfase monolítica de que a regra para o casamento cristão é a heterossexualidade. A segunda é o silêncio assustador sobre o número de divórcios no meio cristão. Quero começar falando sobre esta segunda situação.
O casamento cristão deve ser defendido a partir da infância, desde casa até às igrejas. É preciso que se comece uma batalha tenaz a partir das crianças sobre o papel do que é ser um homem e do que é ser uma mulher. Por que estou insistindo nisso? Porque a principal causa dos divórcios não é, como muitos supõem, a traição conjugal, mas – pasmem – a principal causa dos divórcios é a crise financeira.
Assim, enquanto somos iludidos pela sociedade sexista e hedonista de que devemos dar uma educação sexual aos nossos filhos que garanta um casamento pleno de satisfação, o número de divórcios continua a aumentar porque temos gasto toda a munição atirando numa só e única direção.
Os pais precisam investir, desde cedo, na educação financeira dos seus filhos, principalmente ensinando a responsabilidade do homem em suprir materialmente a sua casa. Infelizmente, o que mais encontramos hoje são casais cujos maridos tornaram-se orgulhosamente dependentes financeiros de suas esposas! A tão badalada independência feminina apenas tem contribuído para que muitos homens repassem sua dependência da mãe para a esposa. Ridículo!
Infelizmente, ainda que as finanças sejam a principal responsável pelos divórcios, a Igreja não trata desse tema por não vê-lo como um “assunto espiritual”. Enquanto isso, o materialismo, a avareza e o descontrole financeiro têm sacrificado famílias inteiras no altar de Mamon.
Outra ênfase equivocada na questão do casamento tem sido a defesa conservadora da heteronormatividade como regra para o casamento cristão. E isto é um erro que quero explicar aqui, pois está custando à igreja um desvio de direção que a tem posto cada vez mais distante de fazer aquilo que deve fazer: evangelizar.
Ao lermos a famosa passagem da carta de Paulo sobre o casamento, em Efésios 5:21- 6:4, precisamos ser alertados de que estamos incorrendo em gravíssimo erro e perdendo uma preciosa chance de servirmos ao Senhor. Paulo mostra que a regra e o modelo para o casamento cristão não é a heteronormatividade, pois esta já fora estabelecida como regra para toda a humanidade em Gênesis 2: 18-25.
A regra e o modelo para o casamento cristão ultrapassam, excedem, transcendem o propósito do casamento para todos os povos, que é um homem para uma mulher e uma mulher para um homem. Paulo expõe que o casamento cristão tem como regra e modelo a própria Igreja!
Cada família cristã deve compreender que, partindo do contexto da carta de Paulo aos Efésios, nossa família deve ser um instrumento nas mãos de Deus para a proclamação do Evangelho. As outras famílias devem ser impactadas por verem a própria Igreja de Deus nos nossos lares – esta é a regra e o modelo para o casamento cristão.
Cada família cristã é uma Igreja. O marido assume a sua identidade a partir do exemplo de Jesus, que amou, cuidou e morreu pela Igreja. A esposa, confiante diante de um marido que é líder espiritual dentro de casa, que é o pastor que abre e expõe a ela e aos filhos a Palavra de Deus, terá toda a confiança de se submeter a ele. E filhos criados não para o mundo, mas para a glória de Deus.
Enfim, a comunidade da igreja local precisa se voltar para as famílias, ensinando-as a assumirem o propósito de Deus para elas. E, assim como somos chamados a gerir com responsabilidade os dízimos e ofertas para a glória de Deus nas igrejas locais, deveríamos ensinar a cada família a fazer o mesmo com suas finanças em casa.
Além disso, que cada família seja um modelo da Igreja, porque, esforçando-nos para fazer assim, estaremos evangelizando para a glória de Deus outras famílias de nosso convívio. Que assim seja sob o poder do Espírito Santo!

sábado, 19 de agosto de 2017

Você deseja falar em mistérios? Eu também falo em mistérios - uma palavra missionária para a Igreja

Aquela igrejinha ficava numa viela escura de um subúrbio de Brasília. Ao entrarmos, vimos que só havia mulheres vestidas de branco. Elas estavam prostradas pelo chão. Ficamos ali umas três horas antes que, finalmente, entrassem homens. Eles também estavam todos vestidos de branco e começaram uma coreografia “espiritual” estranhamente erotizada com aquelas mulheres.

Uma das mulheres perguntou-me: “Você quer falar em mistérios?”. Prontamente, respondi que sim. Ela ordenou que um dos homens viesse e me abraçasse. Era um homem alto e forte. Segurou-me e, levantando-me do chão, começou a me rodopiar. Ficamos ali girando e girando com aquela mulher que ficava gritando: “Repete bem rápido, bem rápido, sem parar: “glória a Deus, glória a Deus, glória a Deus””!

Era o ano da minha conversão, 1995. A minha sede espiritual levou-me a experimentar de tudo o que o mundo evangélico poderia me oferecer. Naquela noite, porém, quando entramos no carro para irmos embora, nossos amigos, também recém-convertidos de uma vida de bruxaria em Alto Paraíso (GO), denunciaram que o que viram ali naquela igrejinha, só haviam visto antes num terreiro de Candomblé.

Mas o que é “mistério”? Há inúmeras definições dentro e fora da Bíblia para essa palavra. Ela é usada no Novo Testamento 28 vezes, sendo que é Paulo quem mais a usa: 21 vezes. E ele usa essa palavra em mais de um sentido, dependendo do contexto. Mas no sentido que a mulher daquela igrejinha usara comigo Paulo e o Novo Testamento só o faz em I Cor 14.2.

A experiência do mistério, que nada mais é do que a experiência com o sagrado, fascina o ser humano. E a força disso é tanta que até mesmo ateus se rendem à manifestação do mistério. E, como eu tenho escrito em artigos anteriores, o sagrado se manifesta por meio de uma linguagem específica – o símbolo, o mito, o dogma, o rito: é o próprio mistério querendo sair detrás das cortinas.

O mistério, contudo, só existe para deixar de ser mistério – é o sagrado mostrando a que veio. Não é por acaso que Paulo instrui a Igreja de Corinto, caso não haja quem traduza, a que se cale aquele que faz uso do mistério das línguas ininteligíveis publicamente, pois a função da Igreja é comunicar de maneira clara o Evangelho da Salvação.

Mas eu preciso concluir mais essa abordagem sobre o sagrado explicando o título deste artigo: “Eu também falo mistérios”.

Das 28 vezes em que a palavra mistério ocorre no Novo Testamento, o tal mistério referido é revelado. E das 21 vezes que Paulo usa essa palavra, não há dúvida alguma que, em 14 delas, ele a usa com um mesmo sentido: para revelar que o grande mistério, oculto no passado, mas agora revelado em Cristo, é a entrada dos gentios no povo de Deus por causa da Igreja.

A Igreja é a maneira que Deus estabeleceu de abarcar como povo Seu não apenas os judeus, mas pessoas vindas de TODOS os povos da terra. O véu deste mistério foi rasgado na cruz de Cristo e plenamente anunciado por Deus em Jesus.

A mensagem, portanto, deve ser anunciada a todos os povos. A proclamação do mistério da salvação dos gentios em Cristo é a própria razão de existir da Igreja, porque nisto Deus é glorificado! Então, sem rodeios, vou revelar aqui um grande mistério: se a sua igreja local, o corpo de irmãos no qual você está inserido, não se empenha no esforço missionário de alcançar outros povos, feche as portas do templo e pare de brincar de clubão, porque vocês ainda não entenderam o mistério eterno revelado pelo próprio Deus na pessoa de Seu Filho Jesus.

Publicado originalmente no GospelPrime em 19/08/2015


Leia também:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...