quinta-feira, 7 de junho de 2012

Aquele último Natal... (A morte da minha irmã)

Vladimir, Sidnei, Viviane, Jeanine, eu, Lu, Navarro e Mamãe
(foto muito anterior ao Natal de 2008)

Naquela manhã do dia 25 de dezembro de 2008, fomos acordados com a notícia do falecimento da minha irmã mais velha. Ela morria aos 52 anos de idade. Causa? Edema pulmonar, cardiopatia e cirrose avançada. Puro eufemismo médico: minha irmã morreu por causa do uso abusivo do álcool e do cigarro.

As frases que mais ouvimos naqueles dias de luto foram que “Deus a chamou” e que “era a hora dela” e que “Ele quando chama não há como fugir”. Como se o fato de Deus tê-la chamado simplesmente nos isentasse de enfrentar a triste verdade sobre aquilo que destruiu o corpo dela. Contudo, o mais difícil na morte da minha irmã é que, exatamente um mês depois do dia do seu falecimento, eu tive que ir embora de Brasília. Deixei minha mãe e minha irmã naquela situação delicada, mas havia decidido que seguiria o chamado de Deus para minha vida e já não poderia mais adiar. Estava tudo certo para começar a dar aula numa aldeia indígena no interior do Mato Grosso como professor pelo Estado e, então, eu, minha esposa e minhas duas filhas atendemos ao chamado.

A morte é uma realidade, não há como fugirmos dela. Entretanto, por mais aterradora que ela possa ser para alguns, a Bíblia diz que, por causa da Ressurreição de Cristo, a morte perdeu a sua força destruidora. Além disso, Jesus mesmo nos lembra que há alguém a quem realmente devemos temer: “temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer” (Lc 12.5). Em outras palavras, os homens não deveriam mais temer a morte, mas tão somente a Deus. A pergunta do salmista é direta: “Quem subirá ao monte do Senhor? Quem há de permanecer no seu santo lugar?” Ou outra tradução do salmo 24: “Quem tem direito de subir o monte do Senhor? Quem pode ficar no seu santo Templo?” O salmista responde: “O que é limpo de mãos”. Um dia, creiamos ou não, estaremos no monte do Senhor após nossa morte. O salmista reflete sobre quem vai conseguir permanecer na presença de Deus lá no monte santo. “O que é limpo de mãos...”. Há uma data na agenda divina para o nosso encontro com Ele: a isto chamamos Soberania Divina. Mas como estarão as minhas mãos? A isto é que chamamos de responsabilidade humana.

A minha irmã bebia e fumava há anos. O vício do álcool e do cigarro sujou suas mãos, seus pulmões, seu fígado, seu coração, seu cérebro. Mas Deus havia marcado um dia de encontro com ela. O fato de Deus nos levar inesperada e soberanamente ao monte santo não nos isenta da responsabilidade de estarmos com nossas mãos limpas. Assim, segundo a Bíblia, sei que um dia Deus me chamará ao encontro dEle. E ainda que eu não fume e não beba, sei, segundo o que a Bíblia ensina, que as minhas mãos também estão sujas! Sempre que me vejo, sei que não tenho minhas mãos limpas, nem o meu coração puro, nem estou livre das minhas idolatrias e falsidades... Meus pés são de barro (e o resto também!). A isto chamamos de natureza totalmente depravada pelo pecado. Esta é a natureza que está aqui em mim, independente do mal e do bem que eu pratique. É essa a herança que nos torna todos iguais diante de Deus: somos todos pecadores. Fumantes ou não, alcoólatras ou não, sexistas ou não, mentirosos ou não, todos, um dia, nos encontraremos no monte santo do Senhor. Mas quem permanecerá lá? Quem tem o direito de permanecer no Templo de Deus? Sinceramente, ninguém. Isto é o que a Bíblia ensina. Todavia, eis a Boa Nova do Evangelho: mesmo que ninguém mereça entrar no Céu, aquele que teve suas mãos lavadas pelo sangue misericordioso e purificador de Jesus receberá o direito de permanecer na presença do Eterno. A isto chamamos maravilhosa Graça.

Ao conhecer a Graça maravilhosa de Jesus, fui convencido pelo Espírito Santo acerca da minha responsabilidade para com meu corpo, quanto aos meus vícios que o danificavam. Outros pecados também foram abandonados. Há, porém, pecados que insistem e resistem, mas sei que o Espírito Santo luta dentro de mim contra minha natureza pecadora. Hoje, sei que somos responsáveis pelo nosso corpo diante de Deus, um corpo que deve ser entregue à adoração a Deus. Descobri nas páginas da Bíblia que sem o Espírito Santo somos totalmente incapazes de vencer as tentações e, portanto, devemos nos entregar diariamente à ação lavadora das águas maravilhosas do Deus Consolador. A isto chamamos santidade.

Eu oro e aguardo que a morte da minha irmã sirva de testemunho para que as pessoas que a acompanharam naqueles anos difíceis busquem conhecer o Deus da Bíblia. O Deus Pai que nos ama, o Deus Filho que nos salva e o Deus Espírito Santo que nos santifica. O Deus suficiente. O Deus único. O Deus Soberano. O Deus que um dia nos receberá em seu santo monte. E quando lá ouvirmos Sua voz a nos perguntar se temos nossas mãos limpas, que então possamos mostrá-las aspergidas com o sangue carmesim do nosso Redentor, o nosso amado Jesus Cristo.

Este blog é uma homenagem também a Viviane que sonhou por muitos anos contar a história do nosso pai em um livro. Por ser a filha mais velha, ela viu e ouviu mais, testemunhou palavras e lágrimas, absorveu tristezas e, infelizmente, nunca conseguiu superar a morte do nosso pai. Contudo, na última noite em que estivemos juntos, era natal e eu falei à mesa (como fazia todo ano) com toda a família reunida que Jesus foi o único homem que nasceu com a missão de morrer. E nós, ao contrário de Jesus, não sabíamos quando seria chegada a nossa hora, por isso deveríamos estar sempre preparados para o encontro com Deus.

Depois disso, ficamos todos juntos no apartamento em Brasília, brincando, rindo, tirando fotos, distribuindo os presentes até às 3 da manhã, quando, finalmente, fomos embora. Três horas depois, o telefone toca e, estranhamente, eu já pressentia a notícia que me aguardava do outro lado da linha. Minha irmã havia morrido.

7 comentários:

  1. Fabio eu não fumo e não bebo e estou com as minhas enzimas do fígado com problema, ore por mim. Mas o bom é saber que se partirmos estaremos com Ele, isso me emociona tanto, saber que um dia iremos encontrá-lo. Lindo seu artigo. Paz!

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  2. Concordo, Rô. No caso da minha irmã o problema não foi a bebida, mas o alcoolismo, que a definhou por mais de uma década. O vício é algo que arrebenta não somente com o alcoólatra, mas também com sua família.

    Abraços!

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  3. Meu ex marido fuma e bebe ..e por conta da bebida hoje é meu ex marido ...
    lutei por 25 anos mas cansei ..hoje sinto pena dele os filhos vieram comigo e ele esta sozinho .. se fiz certo não sei mas o vício maltrata a familia de quem o tem
    sinto por sua irmã.. quanto a não aceitar a morte do pai .. o meu pai morreu tem 16 anos e eu não aceitei por mais que eu saiba que Deus esta do meu lado ..que isso é a lei da vida .. como dizer ao meu coração a falta que meu pai me faz?
    dificil essa dor so mesmo sentindo
    lindo seu blog as palavras tambem ..
    foi bom ter vindo aqui

    boa semana

    Otilia Lins

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  4. Fabio... Desculpe a franqueza e a interferência, mas fiquei triste e decepcionada ao ler esse seu artigo. Embora franco e verdadeiro, careceu de palavras elogiosas à Vivi e para àqueles que não a conheceram, gostaria de mostrar um outro lado dela. Até o momento em que desistiu de viver ela foi uma professora dedicada e amava o que fazia. Batalhava muito e sem descanso para alncançar seus objetivos. Trabalhou sem descando para conseguir comprar seu apartamento, chegando a dar 44 aulas por semana, tendo que corrigir até 1000 provas num final de semana. Amorosa, preocupada com os outros, quando gostava de alguém era extremada (não conseguiu superar a morte de Cecília - do mesmo modo que não superou a morte do pai). Mãe dedicada (pois seu maior sonho era ter um filho e lutou 10 anos para isso!) Sem dúvida o sedentarismo, os péssimos hábitos alimentares, o alcool e o cigarro abreviaram a sua vida e, no meu entendimento, a vida é feita de escolhas... Ela fez algumas escolhas ruins e pagou por isso... o que talvez a tenha levado ao alcool. Enfim... mais uma vez desculpe ser tão inconveniente mas amava muito Vivi, sofri muito com sua morte e acho que ela merecia que eu fizesse esses apartes. Um beijo

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  5. REgina, seja sempre bem vinda ao blog. Concordo em todas as tuas palavras, por isso tive o cuidado de perguntar a minha mãe e a Jeanine se poderia publicar este post. É evidente que se houvesse algo que não fosse verdadeiro, jamais postaria, contudo, como amabas concordaram, publiquei.

    Mas entendo e concordo com sua visão, pois ser humano algum é apenas um texto ou um post. Viviane era muito mais. Contudo, este blog é o projeto de um livro. E está sendo construido, outros posts virão, até mais sobre Vivi. Peço, então, paciência. Estou na fase de introdução dos personagens principais dessa trama acreana.

    Mas gostei muito do seu comentário. Não deixe de interagir, porque, creio eu, que minha mãe tem muito a dizer sobre o que levou Viviane até o seu desfecho trágico.

    Abraços!

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  6. SENHOR...Purifica e lava as minhas MÃOS.
    Me faça todos os dias entender o valor da GRAÇA...do PERDÃO...da SANTIDADE...da FÉ.
    O CÉU...é, e sempre será o MELHOR LUGAR.
    Nos aguarde SENHOR.

    VAMOS QUE VAMOS!

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  7. Fábio,

    parabéns pelo seu novo projeto.

    Interessante que já há algum tempo tenho acalentado o desejo de contar a história da minha família também, já que a minha mãe está com 80 anos, e ela é a memória viva de toda a família, desde os tempos em que o meu tataravô ou alguém ainda mais distante, um judeu-libanês, aportou em Minas Gerais em meados do sec. XIX. Histórias que foram contadas por avós e bisavós à minha mãe, e que se podem perder, pois mais ninguém deu importância ao surgimento de nossa família. Quem sabe, o "Seringueiro" não seja um estímulo extra de que eu estava precisando?

    Parece-me que mais do que a morte, ainda que a morte de uma pessoa tão querida para você traga sempre lembranças emotivas e a sensibilidade se aflore, o seu coração está cheio é da alegria, esperança e certeza de que ela, a morte, não é o fim último das coisas, e que, por ela, viveremos para sempre com Deus... Como o Senhor nos diz, a boca fala do que o coração está cheio!

    E o que fica evidente é que esta fé tem de ser compartilhada, para que, mesmo na morte, saibamos que há vida, e vida abundante.

    Grande e forte abraço!

    Cristo os abençoe!

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