segunda-feira, 18 de junho de 2012

Liberdade versus Igualdade - Saindo da gaiola mental (Uma conversa com o sociólogo Demétrio Magnoli)

Por que apresentar o livro “O mundo em desordem”? Porque muitas das nossas discussões bíblicas, teológicas ou sobre fé e prática cristãs quase sempre se dão de dentro dessa gaiola cultural maniqueista Esquerda versus Direita.

E o que a Igreja tem com tudo isso? Bem, muitas vezes, nem participamos das discussões, porque “política e igreja não se misturam”. E assim desperdiçamos a grande oportunidade de não sermos manipulados por quaisquer desses sistemas, até porque nãopercebemos o que eles são de fato e o que subjaz nas suas estruturas mais profundas.

O maniqueismo esquerda-direita, gaiola de dentro da qual muitos discutem teologia, tende a camuflar as duas grandes e reais questões filosóficas que estão em jogo e em tensão constante: Liberdade versus Igualdade - eixo central do livro que apresento hoje aqui.

E é impossível – sob pena de negligenciarmos aquilo que é de nossa responsabilidade espiritual (Mt 25: 14 -30) –o cristão querer passar ao largo dessas duas questões que, veja bem, estão entranhadas na mensagem do Reino de Deus. Por isso mesmo, não é de admirar que os cristãos no correr da história tenham sido usados como carga de canhão ora por um grupo, ora por outro, mas, muitas vezes, sem conseguir apresentar a proposta inovadora e conciliadora entre esses dois pontos, a saber: a fraternidade humana em Cristo Jesus!

A fraternidade da Igreja de Jesus, que precisa ser anunciada em todo o mundo pela pregação do Evangelho, não anula as nossas diferenças individuais. Além do mais, a fraternidade oferecida por Jesus não se assemelha a qualquer proposta que o estado ou um sistema teológico possa oferecer. Antes, a fraternidade evangélica nos alça à condição de iguais entre nós e de reconciliados com Deus para, enfim, exercermos no lugar em que cada irmão se encontra a liberdade responsável que nos foi conquistada na Cruz de Cristo!

Falo, portanto, da solidariedade em Cristo e por Cristo! - pérola de infinito valor e que nenhum esquema religioso, econômico, político, ideológico e estatal pode oferecer ou substituir!

Talvez eu nem precisasse estar escrevendo esta longa introdução à entrevista do autor dada na Revista Veja ao Reinaldo Azevedo, contudo, aos cristãos que vivem a vida como ela é, gostaria de indicar o livro e que você pudesse comprá-lo e dar de presente a si mesmo e principalmente ao seu pastor (e/ou liderança, mentor, pai, padre, rabino, etc), ao professor de Escola Dominical da sua Igreja e - por que não? - ao professor de história do seu filho na escola ou na faculdade.

É com carinho e com expectativa de bençãos sobre nossas vidas pessoais que indico a leitura desse livro do Demétrio e da Elaine Sise Barbosa. Livro que se apresenta como um ótimo ponto de partida para relermos a História - e, no nosso caso, relermos também nossas teologias, sistemas de crenças e a nossa prática cristã - fora da gaiola cultural em que nossos discursos se veem presos. A proposta do livro é a mesma que trago para cada um de nós: reexaminar o que somos, pensamos, cremos e praticamos à luz dos temas da liberdade e da igualdade.

Segue abaixo a entrevista dada na edição do dia 24 de agosto de2011, páginas 136-137. Abraços!

Acaba de chegar às livrarias o volume 1 de Liberdade versus Igualdade, com o subtítulo O mundo em desordem, 1914-1945 (Record; 458 páginas; 46, 90 reais), escrito pelo sociólogo Demétrio Magnoli e pela historiadora Elaine Senise Barbosa. O volume2 – O Leviatã desafiado, 1945-2001 –sai ano que vem. Trata-se de um compêndio de história como qualquer outro, mas diferente de todos os outros. Os autores leram os episódios e conflitos importantes da primeira metade do século XX através da lente do confronto entre o discurso da igualdade, que marcou o socialismo e o fascismo, e o da liberdade individual, base do liberalismo. É um trabalho rigoroso, que liberta os fatos da gaiola mental dos manuais submarxistas que costumam orientar a historiografia, sem se perder, enfatize-se, no proselitismo. Entre suas muitas qualidades, está a preocupação com o leitor. O livro será útil a estudantes, professores e a quantos queiram saber mais sobre o mundo. Com liberdade. Segue uma conversa com Magnoli.

Dá-se por certo que a luta por igualdade tem raiz na esquerda. A luta por liberdade, então, tem uma matiz liberal, de direita? Sim. O termo “direita” foi envenenado pelos fascismos e pelo nazismo, que eram anticomunistas, mas, também, visceralmente, antiliberais. O “partido dos liberais” conduziu as revoluções antimonárquicas de 1848 na Europa. Os “pais” da economia neoclássica – os austríacos Mises, Hayek e Schumpter –experimentaram a tragédia que se abateu sobre o seu país no períodoentre guerras: um governo socialista em Viena, o golpe reacionáriode 1934, a invasão nazista subsequente, que os forçou ao exílio. Extraíram a convicção de que as liberdades só poderiam ser salvasse a economia ficasse fora do alcance do estado. Eis o pilar doutrinário da direita liberal.

O livro mostra a aversão que os socialistas tinham à democracia, repulsa compartilhada pelos vários fascismos. O que explica asobrevivência ideológica do socialismo, ainda que como promessa de um passado derrotado? Na Revolução Russa, o socialismo se dividiu em correntes conflitantes. A social-democracia rompeu com os comunistas precisamente em torno do tema da liberdade. Dessa ruptura nasceram os atuais partidos social-democratas, que tentam conciliar o programa da igualdade com oda liberdade. O socialismo soviético sofreu uma derrota fragorosa, definitiva, em 1989. Mas uma entranhada rejeição à liberdade sobrevive em franjas da esquerda, assim como na extrema-direita ultranacionalista. O traço que os une é a aversão ao individualismo e ao cosmopolitismo.

Analistas de diversas tendências afirmam que o democrata Franklin Roosevelt, o presidente que conduziu os Estados Unidos durante a depressão dos anos 30 e que está numa espécie de panteão dos heróis, era autoritário e tinha um viés fascista. Seu livro desqualifica essa crítica como coisa do “fanatismo ideológico”. Roosevelt faz parte de um tempo marcado pela Grande Depressão, de profunda desconfiança no livre mercado. A crença nas virtudes do estado tecia conexões entregovernos democráticos e fascistas, mas sem eliminar as diferençasde fundo entre eles. Roosevelt nunca abandonou o campo das democracias. As raízes do seu pensamento devem ser buscadas na tradição populista americana, da “democracia jacksoniana”, não nos ultranacionalismos europeus. As coisas são complexas: os republicanos americanos, liberais no sentido europeu do termo, tendem ao isolacionismo; Roosevelt enfrentou-os para conduzir os EUA à guerra contra o nazifascismo.

Em seu livro, fica evidente a farsa comunista segundo a qual Stalin fez o pacto com Hitler porque, sendo hostilizado pelas potências liberais, precisava ganhar tempo para a guerra. Esse pacto não revela como a esquerda é a matriz comum do socialismo e do fascismo? Mussolini, antes de ser líder fascista, era socialista e editava um jornal La lotta diClasse. Mussolini, de fato, começou sua carreira na esquerda socialista. Ele formulou o fascismo italiano sobre a base doutrinária do corporativismo, cujas origens derivavam da aversão da esquerda ao individualismo. O fascismo compartilha com o socialismo a opção pela igualdade em detrimento da liberdade. Mas há uma diferença crucial: para os socialistas, trata-se da igualdade de classes sociais; para os fascistas, da igualdade dos nacionais, contra os “estrangeiros”. O pacto de1939 entre Stalin e Hitler evidencia, antes de tudo, o alinhamento de interesses geopolíticos entre a União Soviética e a Alemanha. Stalin e Hitler temiam um ao outro, mas também nutriam mútua admiração, pois reconheciam que tinham uma vértebra ideológica comum.

A tensão entre liberdade e igualdade criou “o mundo em desordem”, entre 1914 - 1945. Que mundo veio depois, a ser tratado no segundo volume? Qual é o saldo desse confronto? O pós-guerra é o tempo da reconstrução dos estados, da ascensão dasocial-democracia, da derrota do comunismo e da contestação liberal ao Leviatã, ou o estado absoluto. O confronto entre os princípios da liberdade e da igualdade abrange múltiplas hipóteses de conciliação. O jogo, eu diria, está empatado. A moeda gira no ar.

3 comentários:

  1. Muito interessante sua página, é o que a internet precisa, menos violência e mais informação, alegria...
    Abraço fraternal
    Nicinha

    ResponderExcluir
  2. Wanderley, adorei assistir o Demétrio em palestras algumas no CPFL e em entrevistas do canal livre. Claro, arguto e um tanto polêmico. O livro deve ser muito interessante.
    Abração!

    ResponderExcluir
  3. Muito bom seu blog !
    aprendi muito com ele ...

    Abraço grande !

    ResponderExcluir

Leia também:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...