quarta-feira, 25 de julho de 2012

7º Congresso do CONPLEI – do vício às virtudes (2ª parte de 3)

A vista do mirante da Chapada dos Guimarães
Ao chegarmos no 7° Congresso do CONPLEI, havia uma inesperada massa de ar frio que quase nos congelou, mas que não foi suficiente para esfriar os ânimos e a excitação de estarmos ali. O ônibus parou no mirante da Chapada dos Guimarães para podermos tirar nossas primeiras fotos daquela viagem, mas, ao descer do ônibus e diante daquela paisagem privilegiada acima das nuvens, meus dedos logo doeram devido à baixa temperatura. Ficamos sabendo que, na madrugada do dia em que chegamos, o termômetro marcara gélidos 4 graus!
Clever MaShiant, povo Shuar, Equador

Entretanto, o frio cedeu lugar ao fogo consumidor das palavras de Cléver Shuar do Equador, que conclamava à união as 3 ondas missionárias rumo à tarefa inacabada de evangelização indígena, ressaltando que não devemos apenas começar bem, mas que precisávamos nos esforçar para que a obra terminasse bem. Cléver falou sobre a necessidade de seguirmos o modelo bíblico de Jesus, renunciando à vontade pessoal e perguntando, portanto, qual a vontade de Deus para a ação de todos nós. Precisamos renunciar, segundo Cléver, ao orgulho e aos nossos desejos, se quisermos assumir a vontade do Pai. “Precisamos compreender que, separados do Pai, não somos nada”, alertou-nos o líder indígena sul-americano. E posso mesmo dizer que essa foi a tônica de todas as mensagens indígenas durante o Congresso do CONPLEI. Não somente a diretoria do CONPLEI, nas palestras do Henrique e do Eli, confirmou as palavras de Cléver, mas todos os pregadores indígenas insistiram no tema da unidade entre indígenas, nacionais e estrangeiros. Outro bom exemplo da qualidade evangélica dos preletores indígenas do Congresso foi a palestra de Alfredo Campos Silva, Colômbia, cujo tema da explanação foi “Parceria, Trabalho e Cooperação”. Alfredo frisou mais uma vez que não é bom trabalhar sozinho, por isso as três ondas precisavam cooperar entre si e também considerar a resistência de cada um dos nossos parceiros, porque, se assim seguirmos, seremos mais fortes, teremos mais proteção e também maior capacidade de trabalho. E na noite de sua palestra, do alto do palanque e olhando para todos nós, o Pastor indígena Edmar, cunhado do Henrique Terena, deu-nos a noção exata do que estávamos testemunhando no CONPLEI: “Eu olho para frente e não vejo índios, mas olho e vejo a Igreja”! Ouvimos também o testemunho precioso do Marcos Maiuruna, vindo do Vale do Javari: “Eu não quero morrer pela minha cultura e nem pelo meu povo, mas estou pronto a morrer por Jesus Cristo”! Depois, numa conversa reservada, Marcos me disse que, embora os antropólogos digam que o índio vai perder as festas e as danças por causa da entrada do Evangelho, na verdade, o que os antropólogos não querem é que os índios percam seus costumes, mas no costume do povo dele, o irmão faz sexo com a própria cunhada. E é evidente que costumes assim serão rejeitados quando o Evangelho florescer no seio do povo!
Marcos Maiuruna, do Vale do Javari
Assim, durante aqueles dias preciosos, ouvimos sobre perseverança, sobre a necessidade do discipulado e a importância de uma reação da Igreja em relação ao trabalho missionário indígena. São mais de 200 povos sem presença missionária na floresta amazônica, destes povos 121 estão dentro do Brasil. É um escândalo que um país que se vangloria de ter 30 milhões de evangélicos permita que em seu próprio solo mais de 120 povos estejam sem a luz do Evangelho!

Tribo Xavante entoando louvores em sua própria língua
Contudo, as mazelas do trabalho também foram expostas no Congresso. Hoje, o trabalho missionário indígena sofre das mesmas deformidades que enfrentamos na Igreja não índia em solo brasileiro. Mas cabe aqui dizer que isso não é prerrogativa somente das missões indígenas, mas, obviamente, o campo missionário nacional e transcultural reflete tanto o melhor quanto o pior do evangelicalismo cristão. Mas do que, afinal, estou falando? O duelo denominacional. Para tristeza do Reino e escândalo do Evangelho, sabemos que há casos de povos indígenas separados não por causa da espada do Evangelho mas por causa da vergonhosa luta denominacional. Exemplo disso são os Karitiana e os Tikuna. Este último tem resolvido seus problemas de duas maneiras: primeiro, com os próprios indígenas insistindo em plantar uma igreja culturalmente indígena (músicas, danças, língua e liturgia que reflitam a identidade étnica deles); e segundo, retirando das placas das igrejas expressões como “presbiteriana”, “batista”, “assembleia”, etc, substituindo-as nos contextos das aldeias pelo simples “Igreja Evangélica do povo Tal”. Resolve? Na prática, sim. É mais do que uma simples mudança de palavras, é uma ação que mostra a disposição em reunir o povo por sua identidade evangélica e não por suas diferenças teológicas. É evidente, contudo, que, no interior dessas igrejas, os indígenas precisam ser livres para se organizarem como bem entenderem à luz da Palavra de Deus. Se eles se decidirem por batizar por imersão ou aspersão, se decidirem por um governo congregacional ou episcopal, ou, ainda, se partirem para algo totalmente inusitado (desde que respeitem o lastro histórico que nos identifica a todos como genuinamente evangélicos) é um direito que precisa ser respeitado e compreendido por cada um de nós, nacionais e estrangeiros.
Grupo indígena louvando em sua própria língua

Todavia, no meio de tantas virtudes que pude constatar no CONPLEI, já adiantei no título desta série de 3 artigos que havia um vício identificado. E como todo vício, precisamos tratá-lo para que ele possa ser curado e que não venha a danificar toda a esperança e expectativa erguidas durante o Congresso. Mas, mesmo na constatação desse vício, o meu coração se enche de alegria, porque o vício do qual irei tratar no próximo artigo, não veio da boca e nem do coração de nenhum dos indígenas que ministraram durante o Congresso, mas de um pregador não-índio (mas que, infelizmente, por se tratar de uma liderança nacional na área de Missões Indígenas, precisa ser confrontada para o bem de todos). Assim, mesmo esse vício ideológico só confirma que a Igreja Brasileira precisa urgentemente aprender com sua liderança evangélica indígena, porque a Igreja Indígena está sabendo de maneira madura e bíblica discernir entre o que é o puro e simples Evangelho e o que é o arremedo europeu marxista das ideologias humanas com que muitos não-índios ainda insistem em abordar a obra missionária da Igreja. Parabéns aos nossos líderes indígenas!

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