sábado, 7 de julho de 2012

A mui piedosa esquerda cristã de Dom Robinson Cavalcanti


"A mui piedosa esquerda cristã", de Dom Robinson Cavalcanti, publicada pela Revista Ultimato (maio -junho/2008) é um texto estranhíssimo já pelo seu título, que me sugerira, inicialmente, uma ironia à dita "esquerda"cristã. Todavia, relendo o texto diversas vezes, constatei que aquele título era aquilo que proclamava mesmo: louvar a esquerda como a própria encarnação do Bem.

A estranheza é exatamente por essa idéia arcaica e preconceituosa de trazer um velho maniqueísmo da luta (de classes?) entre o Bem e o Mal. Assim, aceitando-se que o título versa sobre a tão grande piedade da esquerda cristã, só pode-se concluir sobre a existência do outro lado da força, o lado negro, o lado impiedoso, mau, conformado, que seria uma provável direita cristã. Este maniqueísmo, antes de ser arcaico, é perigoso. Chocante mesmo é vê-lo estampado num título que recria o imaginário de que ser da esquerda cristã é piedoso e ser da direita cristã, segundo o texto de Dom Robinson, é o contrário. Talvez por ter sido apenas uma reflexão, Dom Robinson passa por cima de questões importantes para a honestidade dos eventos ali narrados no texto dele.

O texto traz novamente aquela antiga referência ao texto de Atos, que cita a venda dos bens e a partilha dos mesmos na Igreja em Jerusalém, como sendo o ideal perdido da primeira experiência socialista da história. O que se quer é que as pessoas creiam que o Cristianismo, desde seu nascedouro, seja socialista, entretanto, aprendi que Atos é um livro de narrativa histórica e não de doutrina, por isso quaisquer eventos ali narrados precisam passar pelo crivo das cartas doutrinárias para que possam ser estabelecidos como modelos a serem repetidos na Igreja Cristã. Apenas como exemplo, se fossemos observar o livro de Atos doutrinariamente, teríamos que passar nossos enfermos pelas sombras dos nossos líderes atuais para que fossem curados ou, ainda, sermos adeptos do voto de nazireu, ao qual se submeteu Paulo, após sua conversão, ao menos duas vezes durante o livro. Doutrinariamente, a ordem às igrejas é diversa daquilo que aconteceu em Jerusalém (ver II Ts 3:12 e 13). Mas, além dessa questão doutrinária, também há os fatos históricos que indicam que a experiência que houve na Igreja de Jerusalém não foi repetida pelas demais igrejas e, por isto mesmo, quando a grande fome atingiu o mundo daquela época, as demais igrejas é que precisaram ajudar a Igreja de Jerusalém, que, portanto, fracassara na sua prática "socialista".

É muito forte o poder da cultura ao nosso redor e que insiste em nos moldar pensamentos, filosofias, sentimentos e práticas, ao ponto de proclamarmos com a boca uma fé, mas agirmos na contramão de nossas palavras. Estou falando da insistente interpretação que muitos fazem do texto de Mateus, capítulo 25, especificadamente o texto sobre o Juízo Final. É um texto tão mal digerido por algumas correntes evangélicas, que, antes de abordá-lo, Dom Robinson reafirma sua pública profissão de fé de que as obras não salvam, para, logo depois, entrar em contradição dizendo que "o critério de julgamento será pelas evidências éticas sociais". Quais? Robinson diz "tive sede", "tive fome". A caridade, a obra social, segundo Robinson, será o "critério de julgamento". Pura contradição! Esta exegese romana, mas acompanhada por muitos setores evangélicos, não se sustenta se compreendermos o livro de Mateus como um todo e a seção apocalíptica em que se encontra a narrativa de Jesus em Mateus. O texto é claro (não para a mui piedosa esquerda cristã de Dom Robinson), os pequeninos irmãos do texto são os discípulos de Jesus e não o pobre e necessitado. Jesus está falando que as nações serão julgadas de acordo com a posição que tomarem diante da pregação e testemunho da Igreja Perseguida (esta é que está presa, com sede, com fome e nua). Se há dúvida, compare os seguintes textos de Mateus 10.42; 12.48-49; 18.14 e, ainda, veja como Jesus se identifica com sua Igreja diante de Paulo no caminho para Damasco: perseguir a Igreja é perseguir o Cristo. Mas, como disse acima, a cultura do meio em que estamos é poderosa para moldar a nossa interpretação, mesmo que esta seja contraditória com a fé que confessamos. A cultura na qual estamos inseridos é romana e, não à toa, há poucos anos atrás esse mesmo texto de Mateus foi lema da Campanha da Fraternidade, que visava justiça social.

O texto de Dom Robinson desenvolve uma lógica de atirar pedra no próprio telhado (ou melhor, no telhado do que o autor identifica como sendo a impiedosa direita cristã). Começando pela Igreja de Jerusalém e os Pais da Igreja, em seguida ele desenvolve a idéia que a Reforma Protestante foi responsável indireta pelo capitalismo e seus excessos, que foram criticados pelo movimento dos Niveladores, socialista e comunistas, etc. Dom Robinson conclui o parágrafo citando a ladainha desses movimentos que entenderam que a propriedade privada era um mal em si mesmo. Assim, Lutero e Calvino participaram da construção desse mal, para Dom Robinson. Se não foi esta a idéia, então o parágrafo está mal escrito. Contudo, o sistema do pensamento está ali: a igreja começou bem em Jerusalém e depois com os Pais da Igreja, até que vieram Lutero e Calvino que possibilitaram com suas doutrinas o avanço do capitalismo sobre o sistema feudal (mesmo que de maneira indireta e irrefletida), mas que houve movimentos que criticaram esse mesmo capitalismo e o direito à propriedade privada apoiados pela Reforma Protestante. Ora, deveria ser evidente para os cristãos que os Pais da Igreja defenderam a justiça social, não porque havia um "pensamento de esquerda" (como afirma Dom Robinson), mas simplesmente porque pregavam o Evangelho do Reino de Deus. O que Dom Robinson também não diz é que ao lado das ações veterotestamentárias de justiça social (Ano Sabático, Anodo Jubileu, etc), há também a defesa da propriedade particular (ver capítulo 22 de Êxodo). Se a propriedade privada fosse um mal em si mesmo, não haveria a proibição no Decálogo de se cobiçar a casa e as demais propriedades do outro.

Há no texto de Dom Robinson uma confusão do significado das palavras socialismo e esquerda. Esquerda seria um termo que surgiria no período pós-revolução francesa, mesmo que com um sentido totalmente diverso do que se entende hoje. Mas, durante todo texto, Dom Robinson remonta a presença do pensamento de esquerda desde muito antes desse mesmo surgimento. Contradição? Piora quando ele insiste em intercambiar os termos socialismo e esquerda. E piora ainda mais quando ele alega que essa esquerda cristã está presente tanto no catolicismo quanto no meio evangélico de séculos atrás, colocando num mesmo parágrafo o padre Lammenais, a Rerum Novarum e os socialistas cristãos como se todos esses fossem representantes legítimos dessa esquerda cristã da qual ele trata. Ora, o Padre Lammenais teve suas teses atacadas duas vezes pelo Papa Gregório XVI, que as chamou de heréticas. A Rerum Novarum NÃO é uma mudança de direção nos rumos da Igreja Católica Romana como a construção do parágrafo dá a entender. A Rerum Novarum é uma carta encíclica do papa LeãoXIII de 15 de maio de 1891 exatamente para condenar, veja bem, condenar as propostas socialistas que contaminavam as relações entre patrão e empregado e, ainda, traz num dos seus parágrafos a defesa do direito à propriedade privada. Enfim, não dá para colocar a Rerum Novarum no texto de Dom Robinson que louva exatamente aquilo que a carta papal atacara.

Outras contradições do texto de Dom Robinson surgem ao citar a frase de Laski, pois se Laski está certo, o texto de Dom Robinson perde completamente a razão de ter sido escrito, porque, até hoje, as experiências socialistas sempre foram antidemocráticas (ver Stalin, Fidel, Coréia do Norte e China, que juntos mataram mais de 150 milhões de pessoas que não concordavam com seus socialismos).

Difícil aceitar que a esquerda cristã seja formada pelos inconformados com as desigualdades não-naturais, conforme está citado no texto de Dom Robinson. Não posso me conformar com isto! Mais uma vez um maniqueísmo anticristão, que julga as pessoas pelos grupos que participam e não pelos argumentos racionais que elas defendem. Ora, dizer que a esquerda são os inconformados e a direita os conformados é preconceito no melhor sentido da palavra. Porque não posso me conformar com a aliança de uma mui piedosa esquerda cristã com o materialismo e o ateísmo em nome da justiça social e do bem comum. Ainda nesse contexto, qual é a solidariedade que a esquerda ofereceu em Cuba, na antiga União Soviética, na China, na Coréia do Norte? Estas esquerdas foram apoiadas por cristãos piedosos, que sacrificaram a Verdade em trocada Paz. Paz? Nem isso a esquerda imaginada por Dom Robinson pode nos oferecer.

O texto termina falando que a esquerda cristã é essa gente "piedosa e ortodoxa", uma miríade de novos nascidos. Mas não posso me conformar com isto também! Não vejo piedade nem ortodoxia, quando as pessoas são rotuladas e julgadas por não fazerem parte do mui piedoso grupo da esquerda cristã e seu pensamento único. Não vejo piedade nem ortodoxia em pensadores como Leonardo Boff e Rubem Alves que não acreditam na Ressurreição literal de Jesus Cristo e nem no seu sacrifício vicário e, ainda assim, se intitulam esquerda cristã; não vejo piedade e ortodoxia num governo brasileiro que teve o apoio da esquerda cristã para chegar ao poder e hoje luta para aprovar leis contra a família e o Evangelho. Não há piedade e ortodoxia numa esquerda cristã que apoiou um governo que agora quer amordaçar a boca de seus pregadores, enquanto essa mesma esquerda cristã não se empenha para denunciá-lo da mesma forma como outrora se empenhou com tanta veemência para colocá-lo no poder.

Gostaria de encerrar esta reflexão retornando ao título deste meu texto. Adjetivos são palavras que modificam o substantivo, mas que também o diminuem. Uma casa pode ser maravilhosa, bela e sonhada da maneira que pudermos em nossa imaginação. Mas a casa amarela pode ser a mesma casa, mas já diminuída de todas as suas possibilidades. Já não pode ser tudo o que poderia para todos, porque o adjetivo limita. É hora de retirarmos quaisquer cascas de sobre o evangelho, pois seu primeiro anúncio se deu logo após a Queda narrada no terceiro capítulo de Gênesis, muito antes de quaisquer querelas de direita e esquerda. Criar adjetivos como "social", "integral", "holístico" só enfraquecem a novidade das boas novas. Pois o evangelho é supra-ideológico, a igreja é que muitas vezes se faz "intra" e "sub" ideológica (e tem pago um alto preço por isso em todos esses séculos). É preciso que retiremos os adjetivos e retornemos com os genitivos dos textos do grego: o Evangelho do Reino de Deus. Este evangelho que poderá transformar a sociedade em todas as suas instâncias (política, econômica, social, moral, espiritual), não porque seja de direita ou de esquerda, mas porque está sobre e fora destas bandeirolas e, exatamente por isto, como faziam os profetas de antigamente, um Evangelho que está livre para proclamar o bem onde quer que este esteja e denunciar o mal de onde quer que ele venha.

Texto publicado originalmente em 27 de agosto de 2008 na Revista Ultimato online.

Um comentário:

  1. Como sempre o inimigo de nossas almas tentando mudar a ordem correta das coisas, querendo enganar os crentes da atualidade para pensarem que o cristianismo é naturalmente socialista, pois dessa forma, contaminando a igreja, eles poderão concluir seu trabalho e instituirem em nosso país de uma vez por todas o comunismo/socialismo sem nenhum problema. É por isso que sou totalmente avesso à doutrinas estranhas que estão adentrando na igreja, como por exemplo a tal da TMI (Teologia da Missão Integral), como se o evangelho fosse light....abraços mano.

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