quinta-feira, 2 de agosto de 2012

7º Congresso do CONPLEI – do vício às virtudes (3ª parte de 3)


Para ir direto ao ponto, é preciso analisar o discurso do palestrante não indígena (que, doravante, o chamarei de “palestrante universitário”) e a tese central do seu discurso nos dará a dimensão do estrago desse pensamento para a obra missionária e para o próprio futuro da Igreja Evangélica Brasileira. O palestrante universitário é um homem que se encontra numa posição estratégica para o futuro das missões indígenas no Brasil, contudo, por ser um homem de universidade, ele carrega consigo o vício da mentalidade que hoje domina a mente dos nossos “pensadores” acadêmicos.

A tese escandalosa do pregador universitário é que a prioridade na formação do missionário não pode ser a formação bíblica, teológica e pastoral, mas é preciso que a prioridade seja uma profissão, porque, nas próprias palavras do pregador: “a prioridade não é o ministério da Palavra” (!!!).

A partir deste ponto começa o desfile de textos bíblicos fora de seus contextos para respaldar o irrespaldável. Desde Paulo como “fazedor de tendas” (dando o exemplo de que todo missionário para se envolver com o povo tem que pregar através de sua profissão) até Jesus sentando à mesa com os discípulos de Emaús e mesmo a eleição de diáconos no livro de Atos são textos usados para corroborar a tese de que a prioridade missionária não é o ministério da Palavra! 

O fato de Paulo ter colocado em primeiro lugar o ministério da pregação na Igreja em Corínto passa desapercebido pelo pregador universitário. Também foi desconsiderado o kerigma, o anúncio de que só Jesus é o Senhor e causa da prisão e morte de milhares de cristãos nos primeiros séculos da Igreja, assim como se fecha os olhos também para Jesus repreendendo o povo que veio atrás dele só por causa do pão e não por reconhecer quem Jesus realmente era. Nem vou perder tempo refutando o mau uso desses textos bíblicos, mas, só para dar uma ideia ao leitor da fragilidade da hermenêutica usada, a eleição de diáconos em Atos, por exemplo, ocorre exatamente para que o ministério da Palavra tenha proeminência na Igreja de Jerusalém (e não o contrário como nos quis fazer entender o palestrante universitário)!

Realmente, nenhum shalon, nenhuma paz, nenhuma reconciliação será instaurada com um evangelho que prega a ortopraxia antes da ortodoxia – isto é o pecado central da Teologia da Libertação e de uma Igreja que não compreende que o Evangelho é o que é e precisa ser pregado e, sendo pregado, esse evangelho puro e simples responderá às perguntas feitas pelo indivíduo, seja ele grego, romano, judeu, nacional, estrangeiro ou indígena! As transformações sociais virão naturalmente pelo poder regenerador do ES no coração do eleito: aquele que mentia não mentirá mais, aquele que roubava não roubará mais, aquele que adulterava não adulterará mais e os zaqueus convertidos sempre restituirão muito mais do que aquilo que extorquiram antes de conhecer a Jesus!

Como a palestra do pregador universitário foi gravada, fico bem à vontade em analisar seu discurso, sabendo que caberá ao leitor julgar o que digo, conferindo ele mesmo acerca do que foi dito. E o que foi dito no palanque é que estávamos em dívida com os povos indígenas, porque os roubamos, matamos, etc. Ora, que base é essa para se fazer missões?! Será que queremos envolver nacionais e estrangeiros sob a égide da coação? Em qual lugar, no Novo Testamento, se vê os judeus cristãos cobrando dos romanos a dívida histórica de opressão? Em qual lugar, no Novo Testamento, o velho homem é conclamado a cobrar do seu irmão o que aquele lhe extirpou? Será que a missão integral, o evangelho integral, “holístico”, quer reconstruir o muro que a Cruz de Cristo derrubou entre judeus e gentios, entre brasileiros e americanos, entre indígenas e outros? Que evangelho de vingança é esse que tem sido pregado aos nossos irmãos indígenas?! Que modelo tenebroso de missionário queremos formar ao ser esse achado infiel por não saber dominar o ministério da Palavra, o kerigma de Deus, porque a sua prioridade é ser dentista, é ser professor, é ser guarda florestal?!

Quero concluir dizendo o óbvio: a fé sem obras é morta, mas o contrário não é verdadeiro – as obras não vivificam a fé! Em outras palavras, fazer caridade e praticar assistencialismo ou ação social com o propósito de “abrir portas” é inverter os binóculos do Evangelho do Reino de Deus e usá-lo de modo equivocado, à moda dos Teólogos da Libertação.

Não podemos transformar casos de exceção em regra geral: há países e regiões em que a pregação é proibida e, ali sim, as obras terão o seu valor ressaltado, ainda que por um período específico de tempo. Não podemos esquecer, todavia, que a Igreja é a única que pode pregar o Evangelho e, graças a Deus, todos os pregadores indígenas do 7º Congresso do CONPLEI ressaltaram esta verdade evangélica: de que de nada adiantará ao indígena receber o pão e não a pregação da salvação. A Igreja de Jesus não pode inverter os valores do Reino. Mesmo em situações de exceção as obras têm como único objetivo a chegada daquilo que é a prioridade: o ministério da reconciliação da Igreja com Deus por intermédio do seu Noivo, que entregou a própria vida, derramando seu sangue para nos comprar por alto preço! Jesus também morreu pelos povos indígenas e não podemos diminuir o efeito maravilhoso desta verdade eterna.

Enfim, o que faliu o nosso modelo missionário é exatamente o veneno com o qual se quer agora medicar o paciente moribundo! Há anos que nossos missionários, pastores, Igrejas e Seminários são convencidos de que precisamos implantar na Igreja uma educação utilitária. Entretanto, colocada em seu devido lugar, a ação social da Igreja ainda assim jamais poderá criar líderes que ocupem os mais diversos lugares estratégicos em suas culturas. Médicos, advogados, enfermeiros e professores conteudistas não geram líderes cristãos, no máximo, eles resolverão problemas pontuais e de curto prazo. As culturas, enquanto isso, sempre exigirão dos missionários e de seus discípulos respostas sobre si mesma (aconteceu na cultura helênica, na Roma dos césares, nos povos bárbaros que invadiram a Antiga Roma e continua acontecendo em cada povo que se vê diante da novidade do Reino de Deus). 

O que constatamos, contudo, é que a mesma negligência que tem sido aplicada ao discipulado nas Igrejas locais tem também ocorrido em áreas transculturais. Precisaríamos sonhar muito mais alto e prepararmos missionários sábios na Palavra de Deus e cheios de habilidade transcultural para auxiliar os novos convertidos ao invés de abandonar estes ao discurso fácil da autonomia e independência teológicas e cultural. Só assim estaremos trabalhando de braços dados por um modelo missionário que seja capaz de atingir raízes profundamente submersas nas águas escuras das cosmovisões que evangelizamos. O modelo missionário, o preparo missionário e a formação missionária precisam alçar suas expectativas para muito além do mero utilitarismo e do pragmatismo que sufoca a Igreja Brasileira! De qualquer forma, indubitavelmente, considerar que o ministério da Palavra não é prioridade no trabalho missionário é uma assertiva que deve ser abandonada urgentemente pelo bem da obra que ainda está por vir! 
"...pelo bem da obra que ainda está por vir"!


Leia também: 

7º Congresso do CONPLEI – do vício às virtudes (2ª parte de 3)


Um comentário:

  1. Não pude ler ainda todas as postagens sobre o Complei [na verdade, esta é primeira], mas a leitura deste seu texto me instigou a ler toda a série... Quero parabenizá-lo pela lucidez e, sobretudo, inspiração para colocar o "dedo na ferida" do trabalho missionário atual [em sua maioria]. Infelizmente, querem fazer cristianismo sem Cristo, como se isso fosse possível. Mas o que se tem, na verdade, são militantes que se utilizam da fé cristã para disseminarem suas ideologias, onde a "salvação" pode ser tudo e acaba por não ser nada [a não ser a difusão do ceticismo, pois crer no humanismo é verdadeiramente não se crer em nada], em um mundo tomado pela pós-modernidade mas eivado por um dogmatismo anticristão... Em suma, faço suas as minhas palavras.

    Gostaria da sua autorização para republicar este texto em um dos meus blogs, o "Guerra pela Verdade".

    Grande e forte abraço, meu irmão!

    Cristo o abençoe!

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