terça-feira, 28 de agosto de 2012

Você pagaria US$ 5 mil por um pequeno pedaço de papel de 2,5 x 3,5 cm?

FONTE: Tarauacá Notícias



Texto: Evaldo Ferreira
Fotos: Antonio Orlando

Você pagaria US$ 5 mil por um pequeno pedaço de papel de 2,5 x 3,5 cm? Não? Pois saiba que existe gente que pagaria até mais para ter a posse do selo mais raro do Brasil e um dos mais raros do mundo, o Selo do Acre, do qual, 101 anos depois de sua exígua circulação, restam apenas seis exemplares, segundo um dos seus possuidores, o empresário Joaquim Marinho, de Manaus.
 
A história do selo, praticamente enterrada pelo tempo, começou a vir à tona em meados dos anos 70 quando o cineasta e escritor amazonense Márcio Souza, hoje presidente da Funarte (Fundação Nacional de Artes) tomou conhecimento da existência de Luiz Galvez Rodrigues de Arias, advogado espanhol, nascido na cidade de Cádiz, que no final do século passado, envolto numa história de aventura, loucura ou simplesmente esperteza, tentou criar um país na região onde hoje se situa o Acre. O desenrolar dos fatos se mostrou tão fascinante que Márcio Souza não hesitou em pesquisá-los para, em 1976, lançar o livro "Galvez, o Imperador do Acre", o qual se tornou sucesso internacional e o lançou como escritor.

Imperador Galvez
Segundo Joaquim Marinho, quem realmente estava interessado no surgimento de um novo país na região do Acre era o então governador do Amazonas, Ramalho Júnior, tanto que foi ele quem convenceu Galvez a descer o rio Acre com essa finalidade, inclusive financiando-o. No dia 14 de julho de 1899, na cidade de Puerto Alonso, o espanhol proclamava a República do Acre, ou mais propriamente, como ele mesmo quis, o "Estado Independente do Acre", ato que definiu dessa forma: "Ora, a verdade é que afinal quem tem irrefragável direito de posse a estes terrenos somos nós que os descobrimos e os povoamos; se a Mãe-Pátria nos desampara, nós estamos no pleníssimo e incontestável dever de declarar a nossa independência como povo suficientemente orgulhoso para baixar a cerviz ao jugo de um país estrangeiro. O nosso direito funda-se na longa posse de toda esta região consagrada pelo nosso trabalho e pelo sangue generoso de milhares de irmãos; baseia-se na riqueza que aqui fomentamos e adquirimos. Não aceitamos a bruta desnacionalização. A Pátria abandona-nos. Nós criamos outra". Apesar de 101 anos, o discurso de Galvez ainda é bem atual. Naquela época ele se referia à Bolívia, hoje os países são outros, bem mais ricos e poderosos.
 
No dia seguinte à independência do novo Estado, Galvez baixou um decreto determinando os seus limites territoriais e estabelecendo a cidade do Acre, antigo Puerto Alonso, como capital. Na realidade, Galvez se aproveitou da insatisfação da população que não aceitava a presença de bolivianos no local. Ante o total descaso do governo brasileiro, os bolivianos já haviam até instalado uma repartição pública na cidade. Em pouco tempo, o recém auto-empossado presidente fez uma Constituição, criou lei para as terras e organizou a administração baixando 27 decretos. Como precisava do reconhecimento internacional para a existência de direito da nova república, enviou aos reis, imperadores e presidentes das diversas outras repúblicas, ofícios comunicando o surgimento do novo Estado, redigidos em francês, e solicitando o seu reconhecimento. Democrata convicto, Galvez realizou um plebiscito entre seu povo para que decidissem se o Estado Independente do Acre deveria continuar, ou não. Diante da negativa da maioria, após cinco meses e 17 dias à frente do governo, em 1º de janeiro de 1900, o espanhol saiu de cena como entrou, sem nenhum derramamento de sangue.

A história do selo
Durante as pesquisas, Márcio descobrira serem tantas as minúcias de Galvez na constituição do novo Estado, que ele criara a bandeira, o hino, as armas, e mandara imprimir um selo através do Decreto nº 15, onde organizava, também, os serviços de Correios. Amigo de Joaquim Marinho e sabedor do aficcionismo deste por filatelia, Márcio contou-lhe sobre a existência do tal selo. Logo o empresário contatou clubes, comerciantes e colecionadores no Brasil e no exterior. Não demorou muito para surgirem os resultados, conforme conta. "No final de 1977, num leilão da firma J.R.B, em São Paulo, apareceu um envelope com um carimbo redondo, do Governo Militar Provisório do Acre, datado de 1906, despachado do Acre para o Rio de Janeiro, o qual eu arrematei. Passados uns seis meses do leilão, João Roberto Baylongue, dono da firma, me liga contando ter descoberto em seu estoque um selo do Acre, de 1899. Era o procurado selo de Galvez. Ainda sem estimar o seu valor, mas com certeza sabendo ser raro, lhe ofereci um "Olho-de-Boi", o primeiro selo brasileiro, de 1843, que ele achou pouco. Mais dois selos raros colocados em jogo e o negócio estava fechado".

Descrição do Selo do Acre
Impresso em amarelo, com centro verde, tem no medalhão a reprodução de um arbusto, que tanto pode ser de tabaco, de café ou de uma seringueira (o desenho não é dos mais esclarecedores). Vem encimado pela estrela solitária, que até hoje identifica o Acre. Do lado esquerdo, a reprodução de uma casa de caboclo, de palha, e, do lado direito, uma tartaruga, estranhamente, apoiando-se numa só pata e olhando para o alto. Até hoje não apareceu um pesquisador ou historiador que explicasse o fato. Na parte superior do selo o ano da emissão, 1899, e a palavra Correio, na posterior, 300 réis. Um círculo duplo cerca o medalhão central com os dizeres "Estado Independente do Acre", no alto e "Pátria e Liberdade", em baixo. A denteação é 10 1/4 e o processo de impressão usado foi o da litografia em papel linho. Ainda sobre a impressão, Marinho descobriu ter sido feita na Argentina. Galvez morou vários anos lá, onde trabalhou no serviço diplomático. A confecção dos selos foi de responsabilidade da Casa Impressora Monckes, de Buenos Aires, onde foram impressos 50.000 selos em folhas com 50 exemplares, despachados para o Acre, via Manaus, e apreendidos por uma canhoneira brasileira que, após a saída de Galvez, dirigia-se ao Acre para contornar a situação. Os selos foram incinerados, sobrando apenas uma folha de 50 exemplares que havia sido enviada a Galvez como prova. Acredita-se que estas provas foram distribuídas por ele entre os amigos. Em 1978 Marinho viajou até Buenos Aires para pesquisar junto à Casa Monckes, mas esta não existia mais.

A procura de outras peças
De posse de um "insignificante" pedaço de papel, mas com um valor histórico grandioso, pois havia feito parte da história do Acre num momento em que, por muito pouco, a região não vira florescer um novo país sul-americano, Marinho ainda não estava satisfeito. Lera um artigo na revista da Sociedade Filatélica Argentina, de 1933, no qual o autor afirmava ter sido o selo impresso apenas com a estampa de 300 réis (o que ele possuía), porém, também lera numa revista alemã, de 1906, que o selo fora impresso nos valores de 200, 300, 500, 800 e 2.000 réis, além do valor de 5.000 réis com um outro desenho. Nenhuma dessas estampas foi encontrada até hoje. Como saber qual revista publicara a verdade?

Hoje, passados mais de 20 anos desde que tomou conhecimento do Selo do Acre e conseguiu adquirir um exemplar, Marinho continua rastreando e tentando localizar as outras peças. A única coisa que sabe é que dois exemplares estão de posse de colecionadores brasileiros, em Belo Horizonte e em Porto Alegre, e outros três pertencem, possivelmente, a colecionadores europeus sobre os quais tomou conhecimento através de publicações filatélicas estrangeiras. Selo do Acre à parte, Marinho também descobriu os carimbos (outra peça ambicionada por filatelistas) da época de Galvez. O de 1906, arrematado no leilão, era usado pelos militares que ocuparam a região logo após o fim do Estado Independente, mas carimbos com a inscrição "Estado I do Acre" (I de independente), certamente foram utilizados enquanto Galvez governou. Atualmente ele possui 20 desses carimbos em sua coleção (há dois meses adquiriu mais um), considerados mais raros que o selo. "É que as peças estão circuladas, ou seja, carimbadas em um envelope com remetente e endereço do destinatário enquanto o selo é uma peça solta, sem identificação a não ser a que está impressa nele mesmo", esclarece.
 
Marinho conclui que ninguém, no Brasil ou no exterior, possui material filatélico tão valioso quanto este, nem no Acre. "Há alguns anos me ligaram lá de Rio Branco, de uma instituição cultural, solicitando que eu doasse o selo para um museu local. Depois disso já recebi mais duas propostas, também de lá, solicitando doação. Apesar de ter o maior interesse que esse material volte pro Acre, fica difícil doar uma peça tão valiosa".
 
Na cidade de Porto Acre, antiga Puerto Alonso, os vestígios da história foram praticamente apagados e do período revolucionário restaram a centenária mangueira (tombada pelo Patrimônio Histórico) onde os navios eram atracados, o rio e algumas peças reunidas graças ao esforço do comerciante Arthur Sena Souza. Ele é o responsável pela Sala da Memória de Porto Acre, um espaço que funciona na antiga igreja da cidade e que reúne mais de 900 peças históricas como garrafas, armas, balas e potes de cerâmica. Na cidade, localizada a aproximadamente 60 km de Rio Branco, capital do Acre, moram cerca de 650 famílias. A maioria desconhece a história de Galvez e apenas os moradores mais antigos do local arriscam falar sobre o assunto.

Em 1999, quando se comemorou o primeiro centenário do Estado Independente do Acre, o Departamento de Patrimônio Histórico da Fundação Elias Mansour lançou a revista Galvez e a República do Acre. A publicação faz parte do esforço de recuperar a história do período revolucionário no estado. Com esse mesmo objetivo, o Departamento vem brigando para conseguir o tombamento do Seringal Bom Destino, localizado a meia hora de voadeira da cidade de Porto Acre. O local pertencia a Joaquim Victor da Silva, um dos integrantes da junta revolucionária que expulsou os bolivianos da antiga Puerto Alonso. A intenção do governo é restaurar as obras do Bom Destino, criando alternativa para a implantação de projetos turísticos no local.
 
 
NOTA: Usei esse link (http://www.ac.gov.br/outraspalavras/outras_10/acre.html#) para fazer uma pesquisa, mas não consigo mais acesso ao mesmo.

Um comentário:

  1. Sempre é bom ler sobre História, e essa é bem interessante.
    Quanto ao colecionismo, o teor da matéria e os carimbos, cabe ressaltar que não é justificável uma "maior" raridade de uma peça que existem mais de 20 unidades (carimbo), enquanto o selo existe somente no quantitativo de 6. Fica só essa ressalva técnica para a matéria.
    Por fim, uma boa notícia: uma das outras peças está de posse de um filatelista do Rio de Janeiro e felizmente não no estrangeiro.
    JBarros

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