domingo, 7 de setembro de 2014

A Bíblia rosinha e minhas filhas - uma breve reflexão paterna sobre tradução bíblica!

“Ensine a evangelizar...
Evangelize para ensinar”.
J. Irvin Overholtzer
Fundador da Aliança Pró-Evangelização das Crianças


Com todo entusiasmo de um pai que quer ver o crescimento espiritual de sua pequenina, comprei uma Bíblia rosinha que minha filha tanto queria! Contudo, logo percebi os problemas que ela já está enfrentando em suas leituras devocionais.

Primeiro, não conseguimos encontrar a Bíblia rosa na versão ARA (Revista e Atualizada), usada pela nossa denominação. Assim, minha pequena fica tentando “achar” as palavras lidas no púlpito e na Escola Dominical. Bem, como todo bom pai criativo, já sei como resolver isso: vou rasgar a Bíblia (ai, my Gosh!) e colar à capa rosa na versão que usamos. Pronto, primeiro problema resolvido.

Segundo problema. Ainda assim, é um texto de difícil acesso às crianças de 7 anos e 9 anos de idade. No caso em particular, os pais professores aqui, eu e minha esposa, ajudam na “tradução” do texto. Quero crer que esse esforço de leitura delas será positivo para o seu crescimento intelectual. Todavia, sei que a maioria das crianças não têm dois "tradutores" ao seu lado que se esforçam em redesenhar contextos, significados e sinônimos. O que me leva a um terceiro problema: o problema da tradução da Bíblia para línguas minoritárias. A língua das crianças é uma língua minoritária, não por extensão numérica, mas por valor político, claro. A linguagem infantil é um desafio aos missionários tradutores, evangelistas e editores bíblicos. Alternativas? A Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH).

Embora eu use a versão NTLH em diversos contextos de ensino, sei que devo ter certo cuidado, pois ela tem, em alguns trechos, uma exegese confusa num texto de fácil compreensão. O que, inevitavelmente, a torna perigosa. Só como exemplo dessa exegese: leia Jo 17: 24. Na NTLH (e essa ideia se repete umas duas ou três vezes no capítulo) coloca-se Jesus falando de uma “natureza divina” que foi dada (!) a ele, porque o Pai o amou. Bem, natureza divina “dada”, “entregue” a Jesus?... Quando foi isso?! Não é à toa que esse texto foi tão bem aceito pelos TJ (Testemunhas de Jeová). Confusão gerada por terem trocado a palavra “glória” (doxa, no grego), já tão bem cristalizada em nossa cultura, por uma expressão aberta, perigosamente aberta, como “natureza divina”. "Doxa" poderia ter sido traduzida por dignidade, honra, ou mesmo glória, que estaria no mesmo campo semântico do texto-fonte. Mas não vou detalhar essa discussão agora. O assunto deste parágrafo mereceria posts dedicados só a ele.

A Bíblia para crianças enfrenta vários desafios, mas quero citar apenas dois: o primeiro é interno, pois há uma massa de pessoas incrivelmente dominada por uma teologia meritória que insiste em ver as crianças como “indígenas inocentes que serão salvos pelo simples fato de que Deus é bom”. Ledo engano, as crianças precisam ouvir o Evangelho da salvação simplesmente porque a Bíblia nos ensina que a salvação pertence a Deus. A Igreja tem que parar de selecionar quem “merece” o esforço dela em ouvir ou não a exposição das Sagradas Escrituras, porque o fato é que TODOS pecaram e CARECEM da glória de Deus e segue a isto, ainda, a ordem de que se deve pregar a TODA criatura.

O outro desafio é de natureza puramente pedagógica, mas de consequências teológicas devastadoras: é preciso ensinar o que se lê. Isto parece óbvio, mas a Igreja ainda está caindo naquela conversa mole de que “a América Latina precisa produzir a sua própria Teologia”. Eu fico tentando imaginar Moisés entregando as tábuas da Lei e dizendo: “Então, seu bando de escravos ignorantes, se virem!” Ou ainda, Paulo escrevendo às Igrejas de Roma e de Efésios, dizendo: “Bem, muitas coisas eu deveria ensinar, contudo é Teologia Judaica e vocês gentios precisam produzir sua própria teologia, e como vocês já têm o Evangelho e os livros da Antiga Aliança, produzam alguma coisa que (de)leite”!

Nem Lutero e nem Calvino quiseram “produzir” uma teologia alemã, francesa ou suíça. Simplesmente acharam mais prudente seguir a cartilha estrangeira de Santo Agostinho, a “voz da África”. Lutero pregou o livre exame e não a livre interpretação das Sagradas Escrituras, disto todos já sabemos. Calvino, para que ninguém tivesse dúvida de que havia um esteio, escreveu as Institutas e comentou quase todos os livros bíblicos!

Não se pode passar dez, vinte anos traduzindo a Bíblia ao povo Pashtun e depois crer que eles vão produzir sua “teologia adaptada às necessidades culturais”. Não se pode fazer isso com ninguém: é crime! Assim fizeram os teólogos da Libertação, os Testemunhas de Jeová, os Mórmons, as seitas neopentecostais e os espíritas. Estes tinham o texto bíblico em suas mãos, mas por não conferirem as Teologias Sistemática, Bíblica e Histórica como referência e lastro, “produziram” o que aí está.

Ainda que haja uma “tradução mais domesticada”, como é o caso da versão NTLH (que o Reverendo Augustus Nicodemus lembra-nos ser uma paráfrase e não uma tradução), ou mesmo que sejam “traduções estrangeirizadas”, de qualquer forma, a presença do “tradutor/intérprete”, que deveria acompanhar essas leituras, tem sido negligenciada por pais, educadores, pastores e evangelizadores. As razões são muitas, mas cito duas: primeiro, a tendência moderna de se supervalorizar a autonomia do leitor e, segundo, a velha e triste constatação de que os trabalhadores para a seara do Senhor são poucos mesmo: precisa-se de tradutores, evangelistas, discipuladores, educadores, missionários, pastores, mestres, doutores, etc! Como disse Paulo aos Coríntios, uma igreja não "acontece" só de a semearem nalgum lugar: é preciso pessoas que vão regar, outras que vão colher; umas vão sorrir, e outras, certamente, chorar. E todos totalmente conscientes de que o crescimento vem do Senhor!

Não posso “largar” o texto bíblico nas mãos da minha filha. Não posso “largar” o texto bíblico nas mãos de ninguém! É parte do mandato da Igreja o que Jesus disse: “ensinando tudo o que vos tenho ensinado”! Precisamos de Filipes que sejam arrebatados pelo Espírito Santo e corram ao lado das carruagens e perguntem: “Entendes o que lês”? Não podemos ficar simplesmente esperando que os eunucos produzam suas próprias teologias etíopes como se nunca antes na história dessa igreja houvesse alguém ensinado alguma coisa.

Todo tradutor, sejam os pais dentro de casa, sejam os missionários numa aldeia indígena, sabemos que se deve ensinar o texto que se apresenta e, se formos responsáveis diante de Deus, vamos retornar à história, ao livro de catecúmenos, à Teologia Sistemática, a Spurgeon, às boas aulas da EBD, a confissão de fé das Igrejas Reformadas, Calvino, Lutero, Tomás de Aquino, Agostinho, etc. E, então, poderemos avaliar e ensinar a mesma teologia que tem sido ensinada sempre. A mesma teologia que a avó e a mãe de Timóteo ensinaram a esse. Por fim, se depois de todo o esforço educacional responsável da Igreja, e só depois disso, os gálatas de todos os tempos ainda assim quiserem produzir outro evangelho, então, que sejam anátemas. Enquanto isso não se estabelece, a responsabilidade e o amor paternos fazem-me lembrar que "pesa sobre mim essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho"!


PS – Todo ano escolho uma edição diferente da Bíblia para ler. No último natal, ganhei do meu sobrinho a “Bíblia de recursos para o ministério com crianças”. Gostaria de deixar aqui o que está impresso na dedicatória dessas Bíblias: “aos que trabalham em silêncio no maior e mais esquecido campo missionário do mundo. Que você cause impacto poderoso sobre as futuras gerações ao seu redor e em todo o globo”. A isto, eu digo: amém!

2 comentários:

  1. Muito bommmmmmmmm!!!!!
    Grande ensino.
    Que o TRABALHO feito em SILÊNCIO...seja OUVIDO por MULTIDÕES.

    VAMOS QUE VAMOS!!!
    Um grande abraço nas meninas...estão LINDAS!

    ResponderExcluir
  2. ...traigo
    ecos
    de
    la
    tarde
    callada
    en
    la
    mano
    y
    una
    vela
    de
    mi
    corazón
    para
    invitarte
    y
    darte
    este
    alma
    que
    viene
    para
    compartir
    contigo
    tu
    bello
    blog
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    un
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    de
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    y
    claveles
    dentro...


    desde mis
    HORAS ROTAS
    Y AULA DE PAZ


    COMPARTIENDO ILUSION
    WANDERLEY

    CON saludos de la luna al
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    poesía...




    ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE LEYENDAS DE PASIÓN, BAILANDO CON LOBOS, THE ARTIST, TITANIC SIÉNTEME DE CRIADAS Y SEÑORAS, FLOR DE PASCUA ENEMIGOS PUBLICOS HÁLITO DESAYUNO CON DIAMANTES TIFÓN PULP FICTION, ESTALLIDO MAMMA MIA,JEAN EYRE , TOQUE DE CANELA, STAR WARS,

    José
    Ramón...

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