quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A São Paulo de meu pai

Papai, Jeanine, mamãe e eu
São Paulo é a cidade das minhas lembranças com papai, lembranças de uma época de criancice em que não se sabe as coisas que se está fazendo e nem os por quês do que se vive. Todavia, São Paulo é a cidade moldura das minhas memórias em que sempre encontro meu pai. São flashes de caminhadas ao lado dele pelas ruas movimentadas, a casa do Tio Lineu e da Tia Cecília na Vila Mariana e o restaurante rubaiyat com seu “buquê” de balinhas que me foi dado em alguma noite dessa infância distante. São lembranças da São Paulo de meu pai.

Naquela São Paulo, numa das vezes em que meu pai se hospedou no Caesar Park, na Faria de Lima, é que me recordo das imagens mais afetivas dele: os seus grandes óculos escuros e seu paletó preto de botões dourados... Fotografia paterna que se confunde com a São Paulo colorida daquele tempo...


Naquele bar do Caesar, fiz um grande amigo: era o barman. Um rapaz que sempre estava ali disposto a me ouvir por horas e horas. Mas do que falávamos tanto?! É um mistério que minha memória não me revela, porém, nossa amizade era tanta que chegamos a nos escrever quando ia embora do hotel e corria para abraçá-lo, enquanto minha família, já pronta para ir ao aeroporto, chamava-me insistentemente. 

E esse barman está associado a uma das recordações mais expressivas que tenho da personalidade generosa do meu pai. Certo dia dessa lembrança minha, no bar do hotel, eu já me encontrava sentado sobre o banco à frente da bancada, conversando com meu amigo que se empenhava em servir aquelas bebidas coloridas aos clientes mais exigentes dali. Enquanto o via fazendo aqueles coquetéis e drinks, conversava com ele sabe-se lá o quê. Em determinado momento, aparece meu pai. É interessante como essa entrada do meu pai naquele bar, esta exata lembrança, sempre me emociona quando me recordo dela. Por que esta memória emocional específica está tão carregada de carinho e amor talvez se explique por causa do que aconteceu logo em seguida. Meu pai sentou-se no banquinho ao meu lado e, inesperadamente, fiz algo que jamais houvera feito e que nunca mais o repeti depois. Aproximei-me bem perto do ouvido dele e disse baixinho: “Papai, dá um “barão” para ele”! O barão naquela época era a nota de dinheiro mais valiosa que havia. Diante das minhas palavras, meu pai sorriu, enfiou a mão no bolso e puxou um calhamaço de diversas notas. Lembro de seus olhos atentos, enquanto seus dedos iam passando aquelas notas em busca do “barão”. Meu pai retirou do meio do calhamaço um entre tantos “barões” que ali havia. Chamou pelo barman e disse: “O rapazinho aqui me pediu para que lhe desse”. Olhamo-nos, eu e o meu amigo fazedor de drinks, e sorrimos. Abracei afetuosamente o meu pai naquele momento.

Foi ali também, naquele hotel, que ouvi aquela música pela primeira vez. A música que associei sempre ao meu pai desde então. Sei que ele amava ouvi-la e foi numa daquelas noites no restaurante do hotel que essa música passou a fazer parte da minha história com papai. Toda a família sentada à mesa, quando meu pai diz ao meu ouvido: “Fábio, vai lá no pianista, ele é meu amigo. Vai lá e diz que eu estou pedindo para ele tocar la mafia. Ele vai saber qual é." Foi assim que meu pai chamou a famosa música do filme “O poderoso chefão”. Dirigi-me ao pianista, que, sorrindo, atendeu prontamente ao pedido. Assim, pude ouvir pela primeira vez a música que sempre me traz de volta àquela São Paulo de meu pai.  

Segue abaixo uma linda interpretação de Brucia la terra, de Nino Rota, a música la mafia...

 

Queima a Terra
 
A lua está se queimando no céu
E eu estou me queimando com amor
O fogo é consumido
Como o meu coração

Minha alma chora
Dolorida

Eu não tenho paz
Que noite terrível

O tempo passa
Mas não há nenhum alvorecer
Não há nenhuma luz do sol
Se ela não retorna

Minha terra está se queimando
E queima meu coração
Ela tem sede de água
Eu, sede de amor

A quem canto
Minha canção

Se não há ninguém
Que apareça
No balcão

A lua está se queimando no céu
E eu estou me queimando com amor
O fogo é consumido
Como o meu coração

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