sábado, 8 de dezembro de 2012

A farsa venezuelana da gasolina mais barata

Em qualquer outro país, o motorista imaginaria que o frentista cometeu um erro.

“São 2,83 bolívares [US$ 0,66 centavos]”, diz Martin Andrade, depois de encher o tanque de 40 litros de um pequeno jipe Toyota.

Mas esse posto de gasolina fica no calorento e sufocante Estado de Zulia, no noroeste da Venezuela, onde a gasolina é a mais barata do mundo.

Os efeitos perversos da política venezuelana de gasolina barata podem ser vistos por toda parte no país. Carros beberrões de combustível, como Dardos da Dodge e Mavericks da Ford da década de 1970, povoam as estradas. Caracas, a capital, sofre com engarrafamentos terríveis. E o pior de tudo: essa política tornou o contrabando de gasolina um negócio multibilionário, pois um litro custa apenas cerca de US$ 0,02, um sétimo do preço na Arábia Saudita e 1/48 do preço na vizinha Colômbia.

O contrabando é particularmente fervilhante em Zulia, um reduto da oposição junto à fronteira com a Colômbia, que é também o berço da indústria petrolífera venezuelana. Esse é o lugar onde o presidente Hugo Chávez decidiu reprimir o contrabando, impondo um racionamento de gasolina mediante o uso de microchips embutidos em adesivos colados nos para-brisas dos automóveis.

Os moradores na cidade estão furiosos, especialmente porque a Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo. Eles veem a medida como punição por seu apoio à oposição no quadro das eleições presidenciais em 7 de outubro. “Não permitirei que continuem desrespeitando Zulia”, disse o governador do Estado de Zulia, Pablo Pérez, de oposição, recentemente, a simpatizantes.

Apesar disso, o governo está mantendo a impopular medida, numa tentativa de acabar com um negócio que, dizem especialistas, é mais rentável que o tráfico de drogas. No mês passado, em campanha em Zulia, Chávez disse que os opositores da política são defensores de “máfias e delinquentes”.

No passado, Chávez deplorou o baixo preço da gasolina venezuelana, mas pouco fez a respeito do que muitos venezuelanos veem como o seu direito inato. Um aumento inesperado dos preços nas bombas em 1989 provocou distúrbios em Caracas e, em última instância, a ascensão política de Chávez.

Mas a Venezuela não pode mais arcar com essa política de combustíveis. O país importa quantidades crescentes de gasolina dos EUA, pois a produção de suas próprias refinarias está em queda devido à falta de investimentos. Segundo algumas estimativas, a Venezuela consome 800 mil barris de petróleo por dia, dos quais cerca de 100 mil barris são contrabandeados para o exterior. O governo afirma estar perdendo US$ 8 bilhões por ano como resultado.

“Por que eles simplesmente não aumentam o preço?”, Diz Andrade, o frentista, mencionando a ironia de que a apenas algumas centenas de metros de distância, a Venezuela fez sua primeira descoberta de petróleo, em Cabimas, em 1922.

Embora o governo ainda não tenha decidido quais serão os limites para o consumo em Zulia, o sistema está em vigor há um ano no vizinho Estado de Táchira, com um teto de 42 litros diários. Isso resultou num declínio de 40% nas vendas de gasolina, diz o governo.

No entanto, Ada Rafalli, uma vereadora da oposição em Maracaibo, diz que os habitantes de Zulia estão sendo punidos por incompetência do governo. “É a política de fronteira do governo que está falhando. Eles sabem quem são os traficantes”, diz ela, sugerindo que a guarda nacional está envolvida.

“Se eles querem impedir o contrabando de gasolina, o racionamento não é o caminho certo”, acrescenta Jhon Merino, frentista em um dos poucos postos de gasolina em Maracaibo, onde o sistema de chips já foi implantado. Ele diz que os contrabandistas já estão fazendo acordos com as distribuidoras dos chips e que, de qualquer maneira, os carros não são o principal problema, pois a maior parte do combustível é contrabandeada de caminhão ou de barco.

Membros do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), de Chávez, contestam enfaticamente essas acusações. “É uma campanha de manipulação e mentiras da oposição que visa gerar medo e insegurança durante a campanha eleitoral, porque estão em desvantagem nas pesquisas”, diz Henry Ramirez, um vereador do PSUV em Maracaibo.

Jesús Esparza, reitor da Universidade Rafael Urdaneta, em Maracaibo, diz que os preços da gasolina precisam subir, para acabar com o contrabando. “Estamos nos fechando como uma cidade medieval. Não podemos ser um país murado. Não há muros que possam deter a economia.”


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