quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Minha mãe saindo da UTI (sobre aqueles dias...)

Papai e mamãe (atente ao detalhe atrás deles)
A lembrança mais remota que tenho da minha mãe se dá diante do espelho emoldurado por uma madeira amarela no quarto do nosso apartamento em Brasília. Era um quarto amarelo-laranja na verdade. Tudo amarelo-laranja, até um enorme urso cheio de bolinhas de isopor que o mantinham sentado. Mas a cena se dá com minha mãe deitada na cama ao lado desse espelho, vendo-me colocar a roupa após o banho. Como de costume, coloquei a cueca e, para dentro da cueca, a camisa. Quando já estava pronto para erguer minhas calça jeans e fechá-la, minha mãe fez a seguinte observação: “Fábio, quem veste roupa assim é mulher. Você é homem. Você deve colocar a blusa para fora da cueca! ...as suas irmãs é que colocam a camisa delas para dentro da calcinha...”. Parei, fiquei olhando por um tempo aquela minha camisa para dentro da cueca e, finalmente, me rendi às orientações de minha mãe. Desci a cueca e arrumei minha roupa.



Viviane, papai e Jeanine (minhas irmãs)
Não foi fácil para minha mãe me educar. Primeiro, porque meu pai viajava muito. Segundo, porque,  com a morte de meu pai aos meus oito anos de idade, ela teve que educar um menino sem modelo algum de homem dentro de casa. É óbvio que eu imitava minhas irmãs e a ela mesma em muitas outras questões diárias. Certamente, muitas delas, positivas.  Para dar um exemplo, uma vez, um amigo convidou-me à casa dele e depois de umas duas horas de muita conversa à mesa - conversa de homem -, ele grita diante dos outros colegas: “Ganhei”! Todos riram e os vi entregarem notas de dinheiro ao meu amigo, que completou: “Eu não disse? O Fábio não fala palavrão! Ganhei a aposta!”. Não fui criado em um lar cristão puritano – ao contrário. Mas o fato é que essa era uma das características que mais me marcaram socialmente e eu nem sabia o por quê. Eu não falava palavrão, porque, dentro de casa, minhas irmãs e minha mãe não falavam e, mesmo que eu aprendesse palavrões na rua, não os trazia para elas e nem tão pouco os assimilava. Enfim, na cultura dos meus amigos, palavrão era coisa de homem, mas eu estava sendo criado por mulheres e esta era uma das características da cultura singular da minha casa: mulheres que, antes de tudo, tinham como modelo de masculinidade meu pai, um homem raro, um homem educado, respeitoso e muito carinhoso com as três mulheres que o cercavam.



Por que estou contando tudo isso? Porque tive o privilégio, nestas últimas duas semanas, de servir um pouquinho a quem nunca dispensou esforços em me servir pela minha vida toda! Quando cheguei à UTI pelo domingo de manhã, dia 21 de outubro, vi minha mãe num estado assustador: deitada com a máscara de oxigênio naquele leito, os enfermeiros sobre ela, a respiração curta e acelerada, o diafragma quase em espasmo pelo esforço de puxar algum ar para dentro dos pulmões. Disse minha irmã que os olhos de minha mãe se iluminaram e se encheram de água ao me ver entrar. Eu mesmo nem dei conta de nada disso, porque a cena me chocou ao ponto de só pensar em como eu poderia ajudar. Ali mesmo, orei com ela, lendo um trecho da Palavra de Deus: “Esperei com paciência pela ajuda de Deus, o Senhor. Ele me escutou e ouviu o meu pedido de socorro. Tirou-me de uma cova perigosa, de um poço de lama. Ele me pôs seguro em cima de uma rocha...” (Sl 40).  Naquele mesmo dia, retornei à tarde e minha mãe já estava visivelmente muito melhor. Minha mãe permaneceu uns seis dias na UTI geral e depois foi para uma “UTI particular” (um apartamento). Mais uns dois dias, foi para a semi-UTI e, ontem, ela já foi transferida para o apartamento fora da UTI. Esperamos que ela saia sábado do hospital.



Minha mãe linda!
Nestes dias de Hospital, fiquei alternando com minha irmã os cuidados com nossa mãe. Um tempo muito bom para estar perto dela, conversar mais sobre Deus e rir ainda mais com suas piadas. Quem conhece minha mãe sabe que boa saúde e deboche são sinônimos na vida dela. Ao vê-la começando a fazer piada da própria situação e contando piada dos enfermeiros,  tranquilizávamos o coração, pois era sinal que minha mãe estava voltando. 



Sobre palavrões? Sim, tem alguns anos que mamãe já coleciona os dela (e quem não guarda os seus para aqueles momentos em que palavras corriqueiras não conseguem dizer tudo aquilo que precisamos). Minhas filhas acham graça da vó toda vez que nos juntamos. A cada palavra mais pesada que minha mãe, porventura, profira, minhas filhas olham para mim e para a Lu com um olhar de cumplicidade compreensiva e sorrisinho amoroso, porque vó é vó e elas sabem muito bem que devemos respeitar os mais velhos mesmo que não concordemos com eles. Minha mãe está com 79 anos de idade. Diz minha irmã que, por causa da distância da morte de papai, minha mãe vem mudando aos pouquinhos. "Ela vem perdendo aquela influência do homem que foi papai, afinal já são mais de 30 anos sem ele", explica minha irmã.



Enfim, creio que somos assim mesmo: gente de carne e osso, cujas vidas são frágeis reticências num texto muito mais complexo escrito por Deus desde a eternidade. Sim, pessoas maravilhosas e repletas de defeitos também. É a beleza da imagem de Deus e a depravação do pecado – esta mistura que, em Cristo, espero,  um dia, se desfaça e surja apenas a glória, a maravilhosa glória de Deus manifestada plenamente em nós. Quero agradecer aos que estiveram junto comigo nesta semana, intercedendo junto ao Pai pela minha mãezinha. Muitíssimo obrigado!  

2 comentários:

  1. Estou contente pela recuperação de vossa mãe.
    legal o post.
    abç

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  2. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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