quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O Natal segundo Jean Paul Sartre


“A Virgem está pálida e contempla o menino. O que dizer daquela expressão de perplexidade que foi vista uma única vez num semblante humano? Porque o Cristo é o seu filho, a carne da sua carne, e o fruto do seu ventre. Ela o carregou por nove meses, vai lhe oferecer o seio e o seu leite se tornará o sangue de Deus.
Em alguns momentos a tentação é tão forte que esquece que é o Filho de Deus. Ela o aperta em seus braços e sussurra: Meu filhinho! Mas, em outros momentos, imóvel pensa: Deus está ali. E é tomada por uma admiração religiosa por esse Deus mudo, por esse menino que, de uma certa forma, causa medo.
Todas as mães, por um instante, ficam transtornadas diante daquele fragmento rebelde da sua própria carne que é um (seu) filho. E se sentem exiladas diante dessa nova vida feita da (sua) própria vida, mas que contém outros pensamentos.
Mas nenhuma criança foi arrancada de sua mãe de um modo tão cruel e rápido porque é Deus e supera em tudo o que ela poderia imaginar. E é uma dura provação para uma mãe ter vergonha de si mesma e da sua condição humana diante de seu filho.
Mas creio que deve ter havido outros momentos, rápidos e fugazes, nos quais ela sente que o Cristo é o seu filho, a sua criança, e que é Deus. Ela o contempla e pensa: este Deus é o meu filho. Esta carne é a minha carne, é feito de mim, tem os meus olhos! E a forma da sua boca é semelhante à minha boca. Ele se parece comigo. É Deus e se parece comigo.
Nenhuma mulher teve a sorte de ter o seu Deus só para si. Um Deus menino que se pode abraçar e cobrir de beijos. Um Deus quente, que sorri, que respira. Um Deus que está vivo e se pode tocar!
É nesses momentos que eu pintaria Maria se eu fosse pintor.
E José? José, eu não o pintaria. Mostraria apenas uma sombra no fundo do celeiro e dois olhos brilhantes. Pois não sei o que dizer de José, e José não sabe o que dizer de si mesmo. Adora e está feliz por adorar e se sente um pouco em exílio. Creio que sofra sem confessar. Sofre porque vê o quanto a mulher que ama se parece com Deus, o quanto está perto de Deus. Pois Deus estourou como uma bomba na intimidade dessa família. José e Maria estão separados para sempre por esse incêndio de luz. E toda a vida de José, imagino, será para aprender a aceitar.”
(Os filhos do trovão, de Jean-Paul Sartre)
O texto acima foi retirado do blog da Velvet Poison
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Que face de Sartre é essa? 
 
Lembrei-me da passagem do jovem rico que encontra com Jesus e diz para este coisas tão certas, mas, ainda que o jovem conseguisse atingir a verdade em palavras, não foi por esta atingido no âmago do seu coração... e o jovem rico sai, então, triste daquele encontro com Jesus. 
 
Sartre já havia escrito "A náusea" antes do texto de teatro acima. Sarte também já havia publicado que era ateu e já havia definido as bases de sua filosofia existencialista. Mas, no período em que compôs essa peça de teatro, entre 1940 e 1941, ele estava preso num campo de concentração alemão! O que não faz uma prisão com um homem, hein? Até o mais "durão" dos ateus... Contudo, independente dessas informações biográficas, o texto é belo, sublime, poético e mostra como que qualquer um pode atingir a verdade, ainda que ele mesmo não seja atingido pela Verdade (confira o capítulo 1 da carta de Paulo aos Romanos, especialmente a partir do verso 18).
 
Mas grandes experiências de espiritualidade (cristãs ou não cristãs) nasceram do confinamento, da reclusão, do exílio. Surgiram grandes poetas, caráteres foram moldados, a realidade de morte foi absorvida e traduzida em VIDA! 
 
Victor Frankl é um bom exemplo de enfrentamento, absorção e superação da realidade  que o cercava. Também preso num campo de concentração, esse médico psiquiatra criou, a partir de suas experiências do cárcere, a Logoterapia, que é um ótimo exemplo do que estou querendo dizer aqui. A Logoterapia preconiza a busca do homem pelo sentido da vida, esta é a causa verdadeira de nossas neuroses (e não simplesmente as frustrações sexuais, como insistia Freud). Frankl ensinou que, diante de uma realidade irremediável, o homem precisa absorver essas experiências para a formação da sua individualidade. Ano passado, tive o prazer de ler o ótimo “Em busca de sentido” (livro desse psiquiatra que indico a todos que anseiam por uma abordagem mais profunda acerca da espiritualidade humana).
 
Não posso deixar de lembrar de Dostoiévski, que esteve diante de um pelotão de fuzilamento com as armas apontadas para ele e, no exato momento que iam ser disparadas, chega o recado do rei, anulando a execução. Dali, Dostoiévski foi levado aos campos da Sibéria e nascia o maravilhoso "Recordação da casa dos mortos", romance que marcou minha adolescência.
 
Todavia, retornando a Sartre, este, infelizmente, não deu continuidade à mística nascida do campo de concentração. Não aproveitou o hiato da sua existência para encontrar o sentido que faltava às indagações de sua filosofia. Posso mesmo dizer que, assim como o jovem rico da narrativa bíblica, por fim, Sartre saiu daquela prisão apenas triste e empedernido de sua filosofia amarga.

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