quinta-feira, 28 de junho de 2012

Ponte Sebastião Gomes Dantas - "A ponte da vaidade"


“Filho meu, são muitas as histórias que preciso contar... À medida que você me sugerir os assuntos, os temas, escreverei buscando relembrar os detalhes, as pessoas, os amigos e os traidores, as mentiras e as verdades que compõem a nossa história no Acre. 

“Você me perguntou sobre a ponte. Bem, a maquete dessa ponte já existia no hall da Universidade do Acre em Rio Branco, ali no centro. Então, a cidade inteira sabia da construção dessa ponte, mas alguns criticavam dizendo que era a ponte da vaidade. “Pra que outra ponte se já tinha uma?”, diziam. Mas era o sonho de Francisco construir essa ponte, porque a outra, por mais de uma vez, já ameaçara cair. Foi até uma equipe especializada para colocar nas bases, nos pilares dessa ponte vigas de sustentação para que ela não caísse. E o problema era tão sério que eu cheguei a ter pesadelo na época, eu acordava assustada, porque sonhava que no lugar dessa ponte não tinha nada, estava tudo escuro, sonhava que ela tinha caído, levada pela enchente do rio.

“Mas, um dia, com a nova ponte, já programada para ser construída, Francisco chegou em casa e me disse:
- Leila, tenho uma notícia desagradável para te dar... A ponte não vai sair!
- Que que é isso, Francisco, que conversa é essa dessa ponte não sair?
- Não vai sair, porque estou vindo de uma conversa agora com os secretários e eles disseram que não tem recurso para construir a ponte.
- Francisco, o problema é o seguinte: do jeito que as coisas estão, como essa ponte foi divulgada, sua construção, a maquete lá na Universidade, se essa ponte não sair, você estará desmoralizado, pode encerrar sua carreira política! Olha, Francisco, pode voltar lá nos secretários e falar para eles darem um jeito, uma solução, porque o dinheiro tem que aparecer! Eles estão lá não é para arranjar problema, mas solução! Os secretários têm que entender que eles precisam trabalhar juntos e não contra você. Volte lá e mande eles se virarem! Eles tem que achar a solução, eles não estão lá para jogar o problema e ficar por isso mesmo, não!

“Francisco voltou para a reunião e apertou aquele pessoal, que acabou mexendo daqui, mexendo dali até que saiu o dinheiro para essa ponte. O problema, meu filho, é que só Francisco foi para o Acre com vontade de ver o Estado se desenvolver. Queria, naquela época, veja bem, construir a saída para o Pacífico. O lema de Francisco era: “Plantar no Acre, Produzir no Acre e Exportar pelo Pacífico”! Se aquela turma tivesse ido com a mesma intenção de Francisco, o Acre teria explodido naquela ocasião.

“Assim saiu aquela ponte, construída pela Odebrecht, a ponte que recebeu o nome do pai de Francisco...

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terça-feira, 26 de junho de 2012

A ponte do Dantinha



O então governador Dantinha vendia a imagem do Acre como uma das maravilhas do mundo. Propagandeava aos quatro cantos a fertilidade de nossas terras com o intuito de atrair os chamados investidores. Os seringais entraram em decadência e surgiu a pecuária como uma grande força para o Estado.

Naquela época, Dantinha resolveu construir mais uma ponte em Rio Branco. Se argumentava, e com razão, que em pouco tempo a ponte de ferro seria insuficiente para atender o fluxo de veículos.

Era menino, mas lembro das críticas que o governador recebeu. Aquela velha história de sempre: gasto desnecessário, dinheiro jogado fora, a ponte deveria servir para ele fugir do Acre, entre outras baboseiras ditas então pela oposição.

O tempo passou e a realidade mostra o contrário. A ponte coronel Sebastião Dantas continua firme e em pé.

A título de recordação faço a postagem de fotos que registram o período da construção.

Fonte: Blog do Edvaldo Souza

domingo, 24 de junho de 2012

"Maquiavel ou A Confusão Demoníaca" - uma apresentação sobre Ayres Britto e a mentalidade revolucionária

Este texto foi escrito às vésperas da posse de Ayres Britto.


Assisti estupefato à entrevista do nosso atual presidente do STF, Ayres Britto, no Jornal da Globo nesta semana. Minha perplexidade foi constatar, diante dos meus olhos, tudo aquilo que homens como Julio Severo e Olavo de Carvalho já nos têm alertado há mais de uma década.

O discurso de Ayres encarna perfeitamente o anti-cristo de Maquiavel, o Estado que se opõe a tudo aquilo que se chama Deus. A mentalidade revolucionária com todas as suas mais mesquinhas características estão ali presentes nas palavras ditas pelo Ministro. A conclusão infeliz é que nada mais há para esperarmos de um STF que há décadas tem sido montado para a defesa de uma visão revolucionária e maquiavélica e que, agora, será coroado pelo Príncipe que faltava para que o caminho seja finalmente desobstruído de todos os seus inimigos.

Antes de seguir adiante, preciso esclarecer uma diferença que é fundamental para a maioria dos leitores deste texto: profeta e revolucionário. Assumo aqui a diferença proposta pelo filósofo Olavo de Carvalho no seu ótimo livro “Maquiavel ou A confusão Demoníaca”. Profeta é aquele que vaticina o futuro revelado por Deus, enquanto o revolucionário o força, planeja o futuro e busca o seu advento por meio da influência intelectual exercida sobre um governante e sobre os candidatos a governantes. O revolucionário quer mudar a História e definí-la pela força do seu discurso. Mas o discurso é apenas o anzol com o qual se fisga o futuro, pretendendo-se instaurá-lo no presente, porque a instauração da revolução se dá pela força militar e pela imposição de leis que deflagrem essa Nova Era. E é aqui que vemos as palavras de Ayres se encaixarem perfeitamente não só com Maquiavel, mas com Gramsci e Hegel também. Do outro lado, o profeta é tão somente boca de Deus e não um usurpador do lugar de Deus pela força do Estado.

Sigo a linha de que o profeta e o revolucionário, histórica, biblica e filosoficamente, não são apenas contrários mas, principalmente, são inimigos um do outro. E, portanto, Ayres encarna a mentalidade revolucionária contra a qual os profetas são convocados por Deus a fazerem oposição. Ainda para esclarecer melhor, ofereço a definição de mentalidade revolucionária proposta pelo filósofo Olavo de Carvalho: “projeto de mudança social profunda a ser realizado mediante a concentração de poder numa elite revolucionária”. E seja o Nazismo, seja o Comunismo, seja a Nova Ordem que vem se implantando nos EUA, no Brasil e por vários outros países do mundo, esta mentalidade revolucionária é o que torna comum todos estes movimentos (que são mais do que movimentos, são uma mentalidade, uma cosmovisão).

O profeta, ao contrário do revolucionário, poderá ouvir de Deus: “Você falará, mas eles não se converterão”. E mesmo assim o profeta deve obedecer ao chamado feito por Deus. Já o revolucionário jamais dobrará a sua vontade pessoal, nem sua ânsia pela reengenharia social - esta sua cobiça por impôr o Reino de Deus pela força e pela espada - para se submeter ao controle de Deus. O anseio do revolucionário está para Barrabás, assim como o do profeta está para Jesus. O revolucionário destituirá todos os poderes vigentes, legítimos ou não, para impôr sobre o presente a sua certeza de futuro. O profeta, consciente de seu legado histórico, convencido de que há um lastro, uma tradição, uma presença histórica e interventora de Deus, ele se definirá na oposição ao revolucionário: o profeta sempre será um conservador, porque tem plena consciência de que vaticina as palavras do Deus de Abraão, Isaac e Jacó. Porque, nas palavras do filósofo Olavo de Carvalho, o "conservador é aquele que legitima suas ações em função da autoridade do passado". E todo profeta sabe que o nosso Deus permanece sendo o Deus de nossos pais. E o revolucionário, neste contexto, é exatamente aquele que não honra o seu pai e a sua mãe.

Então, quando Ayres diz que “O Supremo se tornou uma casa de fazer destino” e que a opinião pública, as controvérsias surgidas na imprensa sobre o papel do STF, não incomodam aos juizes, aos magistrados, é de se assustar tamanha independência de um poder que, numa democracia, tão conscientemente se desconecta do povo ao qual deveria servir e com o qual deveria se importar. 
 
A tragédia maquiavélica se instaura ainda mais quando Ayres diz, ao ser perguntado sobre o casamento gay e a questão dos aborto eugênico, para que serve o STF: Para arejar costumes, mudar paradigmas, inaugurar eras de pensamento, de sentimento coletivo, e nós somos submissos à Constituição” (grifo nosso). Ayres, com estas palavras, revela-se arauto da mentalidade revolucionária. Mas faz parte do embuste do revolucionário transvestir-se de profeta para enganar a muitos, por isso muitos entre os cristãos confundem os dois papéis e o revolucionário aproveita-se dessa confusão demoníaca. Sobre essa confusão tramada pelos revolucionários, que acabam assumindo um papel de anti-profeta, Olavo diz: “...investir-se da autoridade profética para lutar contra a Providência e tentar inverter o curso divino da História não é uma “moralidade”. Não é nem mesmo perversão política. É a rebelião metafísica, o pecado contra o Espírito Santo” (p. 46).

Assim, para que não haja dúvida da cosmovisão que molda a cabeça de Ayres, ele consegue ligar alhos com bugalhos, quando o repórter lhe pergunta o que pensa sobre a Ministra Eliana Calmon e suas duras palavras contra “os bandidos de toga”. Ayres diz: “Mas, no fundo, o que ela quer é o judiciário na vanguarda da renovação dos costumes”. A não ser que Ayres esteja afirmando que os costumes do judiciário são esses mesmos, isto é, os costumes são a bandidagem de toga e isso precisa ser renovado, na verdade, mais uma vez, ele faz um salto para nos indicar qual caminho ele seguirá à frente do STF: a revolução dos costumes. E como Ayres fará isso? Em determinado momento da entrevista, ele saca do bolso do paletó sua mont blanc e diz que ele tem apenas uma caneta e não uma varinha de condão. Mas sabemos que Ayres tem mais, muito mais do que apenas uma caneta em suas mãos. Há um STF montado para seguir adiante com a agenda revolucionária anti-cristã (e nem vou desenvolver o tema do sério risco que corre o mensalão de prescrever sem julgamento), há um Congresso fraco e débil em sua oposição ao Governo e uma “Presidenta” que corrobora com a agenda mundial do pós-cristianismo.

O caminho no Brasil e no mundo está aberto e a Mentalidade Revolucionária já faz parte da nossa cultura, mas ainda pouquíssimos acordaram para o que está acontecendo. Infelizmente, a Igreja se perde em discussões alienantes e que, na verdade, só corroboram com a mentalidade revolucionária. Um bom exemplo disso foi o artigo Deus é de Esquerda ou de Direita? Um texto de Hermes C. Fernandes e que menospreza os fatos da história, esconde escândalos terríveis muito mais satânicos e diabólicos do que qualquer mazela financiada pela chamada Direita e coloca, sorrateiramente, o comunismo como se fosse apenas o outro lado de uma moeda, uma simples outra opção. Todavia, essa manipulação absurda dos fatos também faz parte da mentalidade revolucionária. “O filósofo precisa falar da verdade com a qual ele mesmo se relaciona. Verdades que ele conhece e não um jogo de intelectualidade absurda. O filósofo deve voltar a apelar ao seu testemunho solitário e confessar da sua relação com a verdade. Precisamos voltar ao conhecimento sincero para podermos confrontar a rede de mentiras”, diz Olavo de Carvalho. É preciso discernir as mentiras e a manipulação dos fatos. Os fatos são os mesmos e eles estão à frente dos nossos olhos, mas nossos interesses pessoais, nossas ideologias, nossas cosmovisões podem manipular, distorcer e até mesmo usar os mesmos fatos ora a favor de um argumento, ora contra o mesmo argumento.

Enfim, o Príncipe já está assentado em seu trono e seus consultores e conselheiros lhe assediam diabolicamente para que ele arrogue para si não somente a autoridade de Deus, mas ele deve fazê-lo “com plena consciência de que esse Deus é inimigo dos cristãos e da humanidade em geral. Em bom português: ele deve fazer da imitação do diabo a nova forma da imitação de Deus, ao mesmo tempo que, posando ante as multidões como um novo Deus, as leve a crer que estão cultuando a Deus quando se prosternam ante o Príncipe-diabo” (p. 88).

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O Acre e a ditadura da Novilíngua


O Politicamente Correto é um câncer de origem revolucionária esquerdista, que tenta impôr por força de lei a mudança cultural sobre um povo – é a agenda gramsciniana. Faz parte da mentalidade revolucionária decidir o certo e o errado e nos obrigar a todos a seguir conforme eles ensinam em suas cartilhas embebidas de hipocrisia histórica e totalitarismo. Enfim, o Politicamente Correto é a imposição por parte de um grupo de sábios sobre o que eles projetaram que nos seja o melhor, o que é o certo para o bem comum.

Esta sandice teve sua origem nos Estados Unidos e logo foi exportado para diversos países do mundo. Aqui chegando, em terra brasilis, rapidamente encontrou adeptos que se empenharam em defendê-lo. Entre os casos mais notáveis, encontra-se o ícone da decadência ideológica Aldo Rebello (do PC do B, claro!), que resolveu, num surto de delírio revolucionário, proibir o povo de usar palavras estrangeiras! Isso mesmo! O Politicamente Correto é a invasão do público no privado ou, usando uma expressão mais ao meu gosto (e deliciosamente incorretíssima): o Politicamente Correto é o estupro do Coletivo no Privado!

Mas não foi apenas o nobilíssimo Deputado Aldo que nos presenteou com suas quimeras, pois até mesmo já se havia confeccionado uma cartilha de palavras proibidas (Index Verborum Prohibitorum!), que, segundo ensinam os sábios de plantão, são palavras que ofendem, diminuem, humilham determinadas minorias: é o bullying linguístico! Entretanto, essa cartilha também foi engavetada e você sabe por quê? Pelo simples fato de que o então Presidente Lula da Silva falava também muitas dessas palavras em seus próprios discursos. Que constrangimento!

Mas como se anuncia no título deste post, a sanha do Politicamente Correto atingiu as terras distantes do Oeste Brasileiro: incomodaram o Acre com mais essa gama de conversa mole sobre palavras proibidas ou a re-escrita de antigas para se adaptarem aos novos tempos. Tudo se deu por causa da suposta - suposta, porque ainda é deveras controversa – origem do nome “Acre”. Veja abaixo um resumo da questão.

O nome, que passou do rio ao território, em 1904, e ao estado, em 1962, origina-se, talvez, do tupi a'kir ü "rio verde" ou da forma a'kir, de ker, "dormir, sossegar", mas é quase certo que seja uma deformação de Aquiri, modo pelo qual os exploradores da região grafaram Umákürü, Uakiry, vocábulo do dialeto Ipurinã. Há também a hipótese de Aquiri derivar de Yasi'ri, Ysi'ri, "água corrente, veloz".[23]
Na viagem que fez ao rio Purus, em 1878, o colonizador João Gabriel de Carvalho Melo escreveu de lá ao comerciante paraense visconde de Santo Elias, pedindo-lhe mercadorias destinadas à "boca do rio Aquiri". Como em Belém, o dono e os empregados do estabelecimento comercial não conseguissem entender a letra de João Gabriel ou porque este, apressadamente, tivesse grafado Acri ou Aqri, em vez de Aquiri, as mercadorias e faturas chegaram ao colonizador como destinadas ao rio Acre.[23]

O fato é que no Acordo Ortográfico de 2009 quiseram mudar a grafia de “Acreanos” para “Acrianos”! E novamente a mentalidade revolucionária se revela por impôr sobre os indivíduos uma decisão de sábios por força de lei! A crença que a mudança de grafia ou a proibição de palavras irá alterar o curso da História ou, num passe de mágica, irá fazer do cidadão comum um ser mais consciente, mais digno e repleto de direitos da cidadania só pode se operar na cabeça de alguns sábios de plantão mesmo, pessoas sempre atentas em interferir na vida privada de cada um de nós. É a crença de que, se reformarmos a linguagem, estaremos reformando a mente das pessoas também! Mude-se uma letra e todo o mundo descobrirá a verdade sobre os acrIanos e sua história, seu povo, lutas e anseios – evidentemente, essa tese é, no mínimo, ridícula! É a ditadura da novilíngua tão bem retratada na obra 1984 de Orson Wells. 

Enquanto o Estado não promove uma economia leve que gere empregos e oportunidades e que também possibilite a independência dos cidadãos de suas bolsas-esmola (este cabresto moderno), segue gastando fartamente verba pública desvendando mitos linguísticos que não resolvem os problemas nem dos acreanos e nem dos acrianos!

terça-feira, 19 de junho de 2012

"Viajei no tempo" - um post de Jeanine Dantas, minha irmã


Jeanine R. W. Dantas
Embora à época eu só tivesse 11 anos, a Miss Joana era minha amiga. Logo após o concurso de Miss Brasil realizado no Rio de Janeiro, Joana, durante um baile no clube Rio Branco, desfilaria com todos os trajes usados no certame carioca.

Queria muito assistir e prestigiar minha amiga. Mas pela pouca idade, não me era permitido ir ao baile. Minha mãe chamou uma senhora para ficar comigo à noite durante o baile, para que eu não ficasse sozinha, pois morávamos ainda no Palácio Rio Branco.

Não me conformando com a ideia de não participar da festa, avisei mamãe que à meia noite, na hora do desfile, eu iria. Claro que ela achou muita graça e nem me deu ouvidos. Assim, esperei a senhora dormir, coloquei um “macaquinho azul e botas – roupa da moda na época”, desci as escadas do palácio e disse para o segurança do Palácio: “O senhor toma conta de mim, pois tenho que chegar no clube Rio Branco para falar com meu pai”. Ele na mesma hora se prontificou em “tomar conta de mim”.

Cheguei ao clube, um baile à rigor e eu de macaquinho curto. Não tive nenhum problema para entrar, já que todos me conheciam. Cheguei à mesa e dei um beijo no rosto da minha mãe.

Nossa!!! Que susto ela levou! Quando me viu então!!! O desfile ia começar. Minha mãe disse que eu voltaria imediatamente pra casa e me disse: “aguarde a surra amanhã!” . Para minha sorte, tio Carletti (cunhado de papai e secretário de obras) pediu gentilmente a meus pais que permitissem que eu assistisse ao desfile e logo depois eu retornaria pra casa. E assim, consegui assistir ao desfile da Joana. Foi sensacional... No dia seguinte não apanhei, mas fiquei vendo a cara de meus pais muito bravos... !!! RISOS... VIAJEI NO TEMPO...
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Este post é uma resposta ao 

MISSES TARAUACAENSES - TRIBUTO AO PASSADO

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Liberdade versus Igualdade - Saindo da gaiola mental (Uma conversa com o sociólogo Demétrio Magnoli)

Por que apresentar o livro “O mundo em desordem”? Porque muitas das nossas discussões bíblicas, teológicas ou sobre fé e prática cristãs quase sempre se dão de dentro dessa gaiola cultural maniqueista Esquerda versus Direita.

E o que a Igreja tem com tudo isso? Bem, muitas vezes, nem participamos das discussões, porque “política e igreja não se misturam”. E assim desperdiçamos a grande oportunidade de não sermos manipulados por quaisquer desses sistemas, até porque nãopercebemos o que eles são de fato e o que subjaz nas suas estruturas mais profundas.

O maniqueismo esquerda-direita, gaiola de dentro da qual muitos discutem teologia, tende a camuflar as duas grandes e reais questões filosóficas que estão em jogo e em tensão constante: Liberdade versus Igualdade - eixo central do livro que apresento hoje aqui.

E é impossível – sob pena de negligenciarmos aquilo que é de nossa responsabilidade espiritual (Mt 25: 14 -30) –o cristão querer passar ao largo dessas duas questões que, veja bem, estão entranhadas na mensagem do Reino de Deus. Por isso mesmo, não é de admirar que os cristãos no correr da história tenham sido usados como carga de canhão ora por um grupo, ora por outro, mas, muitas vezes, sem conseguir apresentar a proposta inovadora e conciliadora entre esses dois pontos, a saber: a fraternidade humana em Cristo Jesus!

A fraternidade da Igreja de Jesus, que precisa ser anunciada em todo o mundo pela pregação do Evangelho, não anula as nossas diferenças individuais. Além do mais, a fraternidade oferecida por Jesus não se assemelha a qualquer proposta que o estado ou um sistema teológico possa oferecer. Antes, a fraternidade evangélica nos alça à condição de iguais entre nós e de reconciliados com Deus para, enfim, exercermos no lugar em que cada irmão se encontra a liberdade responsável que nos foi conquistada na Cruz de Cristo!

Falo, portanto, da solidariedade em Cristo e por Cristo! - pérola de infinito valor e que nenhum esquema religioso, econômico, político, ideológico e estatal pode oferecer ou substituir!

Talvez eu nem precisasse estar escrevendo esta longa introdução à entrevista do autor dada na Revista Veja ao Reinaldo Azevedo, contudo, aos cristãos que vivem a vida como ela é, gostaria de indicar o livro e que você pudesse comprá-lo e dar de presente a si mesmo e principalmente ao seu pastor (e/ou liderança, mentor, pai, padre, rabino, etc), ao professor de Escola Dominical da sua Igreja e - por que não? - ao professor de história do seu filho na escola ou na faculdade.

É com carinho e com expectativa de bençãos sobre nossas vidas pessoais que indico a leitura desse livro do Demétrio e da Elaine Sise Barbosa. Livro que se apresenta como um ótimo ponto de partida para relermos a História - e, no nosso caso, relermos também nossas teologias, sistemas de crenças e a nossa prática cristã - fora da gaiola cultural em que nossos discursos se veem presos. A proposta do livro é a mesma que trago para cada um de nós: reexaminar o que somos, pensamos, cremos e praticamos à luz dos temas da liberdade e da igualdade.

Segue abaixo a entrevista dada na edição do dia 24 de agosto de2011, páginas 136-137. Abraços!

Acaba de chegar às livrarias o volume 1 de Liberdade versus Igualdade, com o subtítulo O mundo em desordem, 1914-1945 (Record; 458 páginas; 46, 90 reais), escrito pelo sociólogo Demétrio Magnoli e pela historiadora Elaine Senise Barbosa. O volume2 – O Leviatã desafiado, 1945-2001 –sai ano que vem. Trata-se de um compêndio de história como qualquer outro, mas diferente de todos os outros. Os autores leram os episódios e conflitos importantes da primeira metade do século XX através da lente do confronto entre o discurso da igualdade, que marcou o socialismo e o fascismo, e o da liberdade individual, base do liberalismo. É um trabalho rigoroso, que liberta os fatos da gaiola mental dos manuais submarxistas que costumam orientar a historiografia, sem se perder, enfatize-se, no proselitismo. Entre suas muitas qualidades, está a preocupação com o leitor. O livro será útil a estudantes, professores e a quantos queiram saber mais sobre o mundo. Com liberdade. Segue uma conversa com Magnoli.

Dá-se por certo que a luta por igualdade tem raiz na esquerda. A luta por liberdade, então, tem uma matiz liberal, de direita? Sim. O termo “direita” foi envenenado pelos fascismos e pelo nazismo, que eram anticomunistas, mas, também, visceralmente, antiliberais. O “partido dos liberais” conduziu as revoluções antimonárquicas de 1848 na Europa. Os “pais” da economia neoclássica – os austríacos Mises, Hayek e Schumpter –experimentaram a tragédia que se abateu sobre o seu país no períodoentre guerras: um governo socialista em Viena, o golpe reacionáriode 1934, a invasão nazista subsequente, que os forçou ao exílio. Extraíram a convicção de que as liberdades só poderiam ser salvasse a economia ficasse fora do alcance do estado. Eis o pilar doutrinário da direita liberal.

O livro mostra a aversão que os socialistas tinham à democracia, repulsa compartilhada pelos vários fascismos. O que explica asobrevivência ideológica do socialismo, ainda que como promessa de um passado derrotado? Na Revolução Russa, o socialismo se dividiu em correntes conflitantes. A social-democracia rompeu com os comunistas precisamente em torno do tema da liberdade. Dessa ruptura nasceram os atuais partidos social-democratas, que tentam conciliar o programa da igualdade com oda liberdade. O socialismo soviético sofreu uma derrota fragorosa, definitiva, em 1989. Mas uma entranhada rejeição à liberdade sobrevive em franjas da esquerda, assim como na extrema-direita ultranacionalista. O traço que os une é a aversão ao individualismo e ao cosmopolitismo.

Analistas de diversas tendências afirmam que o democrata Franklin Roosevelt, o presidente que conduziu os Estados Unidos durante a depressão dos anos 30 e que está numa espécie de panteão dos heróis, era autoritário e tinha um viés fascista. Seu livro desqualifica essa crítica como coisa do “fanatismo ideológico”. Roosevelt faz parte de um tempo marcado pela Grande Depressão, de profunda desconfiança no livre mercado. A crença nas virtudes do estado tecia conexões entregovernos democráticos e fascistas, mas sem eliminar as diferençasde fundo entre eles. Roosevelt nunca abandonou o campo das democracias. As raízes do seu pensamento devem ser buscadas na tradição populista americana, da “democracia jacksoniana”, não nos ultranacionalismos europeus. As coisas são complexas: os republicanos americanos, liberais no sentido europeu do termo, tendem ao isolacionismo; Roosevelt enfrentou-os para conduzir os EUA à guerra contra o nazifascismo.

Em seu livro, fica evidente a farsa comunista segundo a qual Stalin fez o pacto com Hitler porque, sendo hostilizado pelas potências liberais, precisava ganhar tempo para a guerra. Esse pacto não revela como a esquerda é a matriz comum do socialismo e do fascismo? Mussolini, antes de ser líder fascista, era socialista e editava um jornal La lotta diClasse. Mussolini, de fato, começou sua carreira na esquerda socialista. Ele formulou o fascismo italiano sobre a base doutrinária do corporativismo, cujas origens derivavam da aversão da esquerda ao individualismo. O fascismo compartilha com o socialismo a opção pela igualdade em detrimento da liberdade. Mas há uma diferença crucial: para os socialistas, trata-se da igualdade de classes sociais; para os fascistas, da igualdade dos nacionais, contra os “estrangeiros”. O pacto de1939 entre Stalin e Hitler evidencia, antes de tudo, o alinhamento de interesses geopolíticos entre a União Soviética e a Alemanha. Stalin e Hitler temiam um ao outro, mas também nutriam mútua admiração, pois reconheciam que tinham uma vértebra ideológica comum.

A tensão entre liberdade e igualdade criou “o mundo em desordem”, entre 1914 - 1945. Que mundo veio depois, a ser tratado no segundo volume? Qual é o saldo desse confronto? O pós-guerra é o tempo da reconstrução dos estados, da ascensão dasocial-democracia, da derrota do comunismo e da contestação liberal ao Leviatã, ou o estado absoluto. O confronto entre os princípios da liberdade e da igualdade abrange múltiplas hipóteses de conciliação. O jogo, eu diria, está empatado. A moeda gira no ar.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

O Acre e o Utti Possidetis

O Palácio de La Granja de San Ildefonso, província da Segóvia, Espanha

"uti possidetis, ita possideatis"
(como possuís, assim possuais)
 
Quando Maria I, Rainha de Portugal, e Carlos III, Rei da Espanha, assinaram o Tratado de Ildefonso em 1777 com o objetivo de resolver a questão da colônia e dos Sete Povos das Missões, definiriam também o futuro para o norte do Brasil.

O Tratado de Tordesilhas e suas diversas interpretações
O Tratado de Ildefonso era mais uma tentativa de resolver as demarcações conflituosas da Região à margem do Rio da Prata. Este Tratado era mais um de uma série de tratados desde o de Tordesilhas que tentava definir o quinhão da Espanha e de Portugal nas terras sul-americanas. O próprio Tratado de Tordesilhas, por causa dos interesses de ambos os Reinos, sofrera diversas remarcações ou questionamentos sobre sua real posição. Todavia, agora, na cidade de Ildefonso, na Espanha, era preciso resolver a devolução da Ilha de Santa Catarina, que fora tomada pelos espanhóis alguns meses antes da assinatura desse Tratado.

Tratado de Madri
Espanhóis e portugueses saíram na liderança das Grandes Navegações e à conquista dos mares, então, naturalmente, pensaram em dividir o mundo conquistado (e o que ainda seria conquistado também) ao meio. Entretanto, a união das coroas portuguesa e espanhola – a União Ibérica (1580-1640) – trouxe ao Brasil profundas consequências, inclusive para a formação do Estado do Acre. Obviamente, quando dissolvida a União Ibérica – o sonho do Império Hispânico - surgiram problemas entre os reinos quanto aos territórios ocupados das colônias portuguesas e espanholas. As tensões e guerras surgidas deflagraram o Tratado de Madri (1750), que, na foto abaixo, já revela como que o surgimento do Estado do Acre está intimamente ligado às tensões entre portugueses e espanhóis.

O Acre por surgir...
Então, além do Tratado de Madri, que buscou resolver os conflitos entre portugueses e espanhóis nas colônias, houve os Tratados de Ultrecht (1715) e os tratados de Ildefonso. Os Tratados tentavam se valer da lei romana do Utti Possidetis ou uti possidetis iuris, um princípio do Direito Internacional que estabelece que a terra ocupada ou conquistada era por direito desses ocupantes. Quem ocupara aquelas terras? Espanha, então o direito era dela. Contudo, a importância desses tratados é perceber que nunca foram suficientes para conter os grupos que invadiam os territórios uns dos outros. Especialmente, o Tratado de Ildefonso que lançou as sementes do Estado do Acre exatamente porque a população o desrespeitou, seguindo sua marcha para o oeste e para além dos rios Javari e Beni, pertencentes aos espanhóis. O Acre estava predestinado a ser dos brasileiros, contudo, essa história ainda reservava grandes aventuras até que o Brasil conquistasse definitivamente aquela terra para si!

terça-feira, 12 de junho de 2012

MISSES TARAUACAENSES - TRIBUTO AO PASSADO

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
As seis primeiras fotos são da Miss Joana Peres de  Albuquerque. Joana Peres foi eleita Miss Acre no ano de 1971. 

Na época o Governador do Acre era o Sr. Wanderley Dantas e o Prefeito de Tarauacá era o Sr. Raimundo Ramos.



A Miss ao lado em cima do carro já identifiquei como a Miss Valderli, ganhou com Miss simpatia no Estado do Acre.


À direita Denise Ferreira da Silva, filha do Sr. Lourival candidata a Miss Tarauacá, chegando a ser também Miss Acre em 1977.




 
Esta última foto acima e à esquerda são  de candidatas a Miss Tarauacá.
Obs: Todas a três Misses viajaram para concorrer a Miss Acre, acompanhadas pela Professora Francisca Aragão. 
 
Para saber mais sobre o concurso Miss Acre clique aqui 
 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Aquele último Natal... (A morte da minha irmã)

Vladimir, Sidnei, Viviane, Jeanine, eu, Lu, Navarro e Mamãe
(foto muito anterior ao Natal de 2008)

Naquela manhã do dia 25 de dezembro de 2008, fomos acordados com a notícia do falecimento da minha irmã mais velha. Ela morria aos 52 anos de idade. Causa? Edema pulmonar, cardiopatia e cirrose avançada. Puro eufemismo médico: minha irmã morreu por causa do uso abusivo do álcool e do cigarro.

As frases que mais ouvimos naqueles dias de luto foram que “Deus a chamou” e que “era a hora dela” e que “Ele quando chama não há como fugir”. Como se o fato de Deus tê-la chamado simplesmente nos isentasse de enfrentar a triste verdade sobre aquilo que destruiu o corpo dela. Contudo, o mais difícil na morte da minha irmã é que, exatamente um mês depois do dia do seu falecimento, eu tive que ir embora de Brasília. Deixei minha mãe e minha irmã naquela situação delicada, mas havia decidido que seguiria o chamado de Deus para minha vida e já não poderia mais adiar. Estava tudo certo para começar a dar aula numa aldeia indígena no interior do Mato Grosso como professor pelo Estado e, então, eu, minha esposa e minhas duas filhas atendemos ao chamado.

A morte é uma realidade, não há como fugirmos dela. Entretanto, por mais aterradora que ela possa ser para alguns, a Bíblia diz que, por causa da Ressurreição de Cristo, a morte perdeu a sua força destruidora. Além disso, Jesus mesmo nos lembra que há alguém a quem realmente devemos temer: “temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer” (Lc 12.5). Em outras palavras, os homens não deveriam mais temer a morte, mas tão somente a Deus. A pergunta do salmista é direta: “Quem subirá ao monte do Senhor? Quem há de permanecer no seu santo lugar?” Ou outra tradução do salmo 24: “Quem tem direito de subir o monte do Senhor? Quem pode ficar no seu santo Templo?” O salmista responde: “O que é limpo de mãos”. Um dia, creiamos ou não, estaremos no monte do Senhor após nossa morte. O salmista reflete sobre quem vai conseguir permanecer na presença de Deus lá no monte santo. “O que é limpo de mãos...”. Há uma data na agenda divina para o nosso encontro com Ele: a isto chamamos Soberania Divina. Mas como estarão as minhas mãos? A isto é que chamamos de responsabilidade humana.

A minha irmã bebia e fumava há anos. O vício do álcool e do cigarro sujou suas mãos, seus pulmões, seu fígado, seu coração, seu cérebro. Mas Deus havia marcado um dia de encontro com ela. O fato de Deus nos levar inesperada e soberanamente ao monte santo não nos isenta da responsabilidade de estarmos com nossas mãos limpas. Assim, segundo a Bíblia, sei que um dia Deus me chamará ao encontro dEle. E ainda que eu não fume e não beba, sei, segundo o que a Bíblia ensina, que as minhas mãos também estão sujas! Sempre que me vejo, sei que não tenho minhas mãos limpas, nem o meu coração puro, nem estou livre das minhas idolatrias e falsidades... Meus pés são de barro (e o resto também!). A isto chamamos de natureza totalmente depravada pelo pecado. Esta é a natureza que está aqui em mim, independente do mal e do bem que eu pratique. É essa a herança que nos torna todos iguais diante de Deus: somos todos pecadores. Fumantes ou não, alcoólatras ou não, sexistas ou não, mentirosos ou não, todos, um dia, nos encontraremos no monte santo do Senhor. Mas quem permanecerá lá? Quem tem o direito de permanecer no Templo de Deus? Sinceramente, ninguém. Isto é o que a Bíblia ensina. Todavia, eis a Boa Nova do Evangelho: mesmo que ninguém mereça entrar no Céu, aquele que teve suas mãos lavadas pelo sangue misericordioso e purificador de Jesus receberá o direito de permanecer na presença do Eterno. A isto chamamos maravilhosa Graça.

Ao conhecer a Graça maravilhosa de Jesus, fui convencido pelo Espírito Santo acerca da minha responsabilidade para com meu corpo, quanto aos meus vícios que o danificavam. Outros pecados também foram abandonados. Há, porém, pecados que insistem e resistem, mas sei que o Espírito Santo luta dentro de mim contra minha natureza pecadora. Hoje, sei que somos responsáveis pelo nosso corpo diante de Deus, um corpo que deve ser entregue à adoração a Deus. Descobri nas páginas da Bíblia que sem o Espírito Santo somos totalmente incapazes de vencer as tentações e, portanto, devemos nos entregar diariamente à ação lavadora das águas maravilhosas do Deus Consolador. A isto chamamos santidade.

Eu oro e aguardo que a morte da minha irmã sirva de testemunho para que as pessoas que a acompanharam naqueles anos difíceis busquem conhecer o Deus da Bíblia. O Deus Pai que nos ama, o Deus Filho que nos salva e o Deus Espírito Santo que nos santifica. O Deus suficiente. O Deus único. O Deus Soberano. O Deus que um dia nos receberá em seu santo monte. E quando lá ouvirmos Sua voz a nos perguntar se temos nossas mãos limpas, que então possamos mostrá-las aspergidas com o sangue carmesim do nosso Redentor, o nosso amado Jesus Cristo.

Este blog é uma homenagem também a Viviane que sonhou por muitos anos contar a história do nosso pai em um livro. Por ser a filha mais velha, ela viu e ouviu mais, testemunhou palavras e lágrimas, absorveu tristezas e, infelizmente, nunca conseguiu superar a morte do nosso pai. Contudo, na última noite em que estivemos juntos, era natal e eu falei à mesa (como fazia todo ano) com toda a família reunida que Jesus foi o único homem que nasceu com a missão de morrer. E nós, ao contrário de Jesus, não sabíamos quando seria chegada a nossa hora, por isso deveríamos estar sempre preparados para o encontro com Deus.

Depois disso, ficamos todos juntos no apartamento em Brasília, brincando, rindo, tirando fotos, distribuindo os presentes até às 3 da manhã, quando, finalmente, fomos embora. Três horas depois, o telefone toca e, estranhamente, eu já pressentia a notícia que me aguardava do outro lado da linha. Minha irmã havia morrido.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

A Educação no Japão - um desafio à cosmovisão teísta cristã no Brasil

Sempre ouvi as comparações entre a Educação Brasileira e a Educação Japonesa. Ouvia, desde pequeno, que o Japão investira na figura do professor, daí eles terem se superado após a tragédia do fim da 2ª Guerra Mundial (como se já não houvesse  a cultura japonesa antes da destruição de Hiroshima e Nagasaki). 

Bem, quanto à educação brasileira, guardarei para mim as severas críticas que tenho colecionado nos últimos anos sobre esse nosso sistema de ensino. Agora, quanto ao Japão e a sua tão propalada ênfase na educação, gostaria de compartilhar algumas reflexões.

Quando somos instados a olhar para uma cultura sob o manto que a cobre, para baixo do que é visto por todos, chegando à raiz da sua cosmovisão, passamos a entender e compreender muito mais do que julgamos apenas pelo olhar preguiçoso e, muitas vezes , etnocêntrico.

Para baixo do manto do que se vê, há a cosmovisão, que é aquilo que integra e legitima nossa cultura. Por que fazemos o que fazemos? Por que somos do jeito que somos? Por que pensamos assim e não de outra maneira? Nas palavras de Paul Hiebert (O evangelho e a diversidade das culturas), a "nossa cosmovisão fortalece nossas crenças fundamentais com um reforço emocional para que elas não sejam facilmente destruídas". Hiebert esclarece mais ainda quando nos diz que "nossa cosmovisão nos dá fundamentos cognitivos sobre os quais construir nossos sistemas de explicação, fornecendo uma justificativa racional para crença nesses sistemas". 

Aplicando essas definições ao assunto da educação japonesa, pergunto: "Por que o japonês valorizou e valoriza o professor no sistema de sua sociedade"? Por muitos anos, sempre ouvi como resposta que tudo se devia a uma simples escolha: o Brasil escolhera investir em estradas, o Japão em educação. Simples assim? Claro que não! As escolhas políticas, econômicas e até mesmo ideológicas são apenas o manto da cultura. Lá no fundo, bem no fundo, existem os pressupostos: as regras do jogo que aceitamos e que sequer as questionamos. Os pressupostos nos levam ao raciocínio, este, por sua vez, analisa os dados de nossas experiências para, finalmente, tirarmos nossas conclusões. 

O professor japonês ser uma peça de máxima importância é a conclusão, é o resultado de pressupostos. Mas quais pressupostos sustentam a conclusão japonesa? A cosmovisão animista é o que dá subsídio para a conclusão final, para a reverência ao professor no Japão. O Xintoísmo e o Zen-Budismo fornecem mais elementos que findam por destruir o mito de uma simplista escolha japonesa pela educação. Uma escolha com consequências sociais, políticas, morais, econômicas indubitavelmente, todavia, antes de tudo, a cosmovisão animista foi a base de pressupostos que conseguiu gerar uma moral da educação (o que, sinceramente, não encontro no Brasil). Por quê? Veja abaixo:

"Diferentemente do ocidente, no oriente o budismo ensinou o caminho da salvação pela razão (iluminação). Na cultura desse povo, tudo ligado ao conhecimento e ao aprimoramento da alma, é respeitado e venerado: as escolas, os professores, os livros, os santuários, os templos, os monges, os artistas, as obras de arte. Na hierarquia social, o professor terá sempre ascendência sobre seus ex-alunos indiferentemente da posição social que ocupem no futuro, pois na gênese cultural do xintoísmo – religião primitiva do Japão – está a perfeição do lado divino do ser humano e cabe ao educador apenas saber extraí-lo – como a escultura Pietá de Michelangelo, cuja extrema perfeição, ao ser elogiada, ouviu-se do artista que a perfeição já estava lá. Ele retirara apenas os excessos. A gratidão a esse trabalho do professor é eterna. Os japoneses têm um nome para a tarefa educacional, quer seja do professor ou dos pais: “shin-sei kaihatsu” (shin = Deus, sei = natureza, kaihatsu = desenvolver, manifestar), fazer manifestar o lado divino e perfeito de cada um. A grande vergonha de um professor é o fracasso do aluno" (trecho de um ótimo artigo sobre o Filme Madadayo, para ler o texto completo é só clicar aqui).

Para finalizar, fica a indagação: o que a cosmovisão teísta cristã conseguiu fazer no Brasil em prol do professor e da Educação? Para não soar muito pessimista, reformulo a pergunta: O que a cosmovisão teísta cristã construirá culturalmente em favor da Educação Brasileira? Aqui, vou dar a mão à palmatória quando se alegar que o Japão é uma tradição milenar, matura milenarmente sua cosmovisão animista. Verdade. No Brasil, ainda recém-nascidos em berço esplêndido,  já rejeitamos as tradições de vulto que ergueram as culturas americana e européia. O Brasil  moderno nasceu da decadência da modernidade européia, assim, sequer poderemos falar em maturar tradições (mas, aqui, já é assunto para outro post).

Passei anos ouvindo outro mito destrutivo também: "Professor é um sacerdócio"! Será que foi apenas isso o que a nossa cosmovisão teísta cristã conseguiu produzir? Se foi, é uma lástima, pois a máxima popular que acabei de citar tem sido usada por décadas apenas para reduzir salários, criar uma cultura de vitimismo no meio dos professores e justificar o sofrimento masoquista dos mesmos em sala de aula. Da minha parte, pelo menos, creio: professor, definitivamente, não é padre! 

PS - Como ilustração de tudo o que escrevi acima, incentivo a leitura de todo o artigo cujo trecho extraí para este post e, também, indico o ótimo filme Madadayo (cujas fotos se espalham por aqui), filme que assisti há muitos anos, exatamente quando na Faculdade de Letras, fizemos a comparação da filosofia da educação no Japão e no Brasil. 

Sobre o genial diretor de Madadayo, Akira Kurosawa, assista ao vídeo abaixo também:

video

Título original: "A Educação Japonesa em Madadayo (ou "A cosmovisão sob o olhar de Akira Kurosawa")

Leia também:

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