terça-feira, 28 de agosto de 2012

Você pagaria US$ 5 mil por um pequeno pedaço de papel de 2,5 x 3,5 cm?

FONTE: Tarauacá Notícias



Texto: Evaldo Ferreira
Fotos: Antonio Orlando

Você pagaria US$ 5 mil por um pequeno pedaço de papel de 2,5 x 3,5 cm? Não? Pois saiba que existe gente que pagaria até mais para ter a posse do selo mais raro do Brasil e um dos mais raros do mundo, o Selo do Acre, do qual, 101 anos depois de sua exígua circulação, restam apenas seis exemplares, segundo um dos seus possuidores, o empresário Joaquim Marinho, de Manaus.
 
A história do selo, praticamente enterrada pelo tempo, começou a vir à tona em meados dos anos 70 quando o cineasta e escritor amazonense Márcio Souza, hoje presidente da Funarte (Fundação Nacional de Artes) tomou conhecimento da existência de Luiz Galvez Rodrigues de Arias, advogado espanhol, nascido na cidade de Cádiz, que no final do século passado, envolto numa história de aventura, loucura ou simplesmente esperteza, tentou criar um país na região onde hoje se situa o Acre. O desenrolar dos fatos se mostrou tão fascinante que Márcio Souza não hesitou em pesquisá-los para, em 1976, lançar o livro "Galvez, o Imperador do Acre", o qual se tornou sucesso internacional e o lançou como escritor.

Imperador Galvez
Segundo Joaquim Marinho, quem realmente estava interessado no surgimento de um novo país na região do Acre era o então governador do Amazonas, Ramalho Júnior, tanto que foi ele quem convenceu Galvez a descer o rio Acre com essa finalidade, inclusive financiando-o. No dia 14 de julho de 1899, na cidade de Puerto Alonso, o espanhol proclamava a República do Acre, ou mais propriamente, como ele mesmo quis, o "Estado Independente do Acre", ato que definiu dessa forma: "Ora, a verdade é que afinal quem tem irrefragável direito de posse a estes terrenos somos nós que os descobrimos e os povoamos; se a Mãe-Pátria nos desampara, nós estamos no pleníssimo e incontestável dever de declarar a nossa independência como povo suficientemente orgulhoso para baixar a cerviz ao jugo de um país estrangeiro. O nosso direito funda-se na longa posse de toda esta região consagrada pelo nosso trabalho e pelo sangue generoso de milhares de irmãos; baseia-se na riqueza que aqui fomentamos e adquirimos. Não aceitamos a bruta desnacionalização. A Pátria abandona-nos. Nós criamos outra". Apesar de 101 anos, o discurso de Galvez ainda é bem atual. Naquela época ele se referia à Bolívia, hoje os países são outros, bem mais ricos e poderosos.
 
No dia seguinte à independência do novo Estado, Galvez baixou um decreto determinando os seus limites territoriais e estabelecendo a cidade do Acre, antigo Puerto Alonso, como capital. Na realidade, Galvez se aproveitou da insatisfação da população que não aceitava a presença de bolivianos no local. Ante o total descaso do governo brasileiro, os bolivianos já haviam até instalado uma repartição pública na cidade. Em pouco tempo, o recém auto-empossado presidente fez uma Constituição, criou lei para as terras e organizou a administração baixando 27 decretos. Como precisava do reconhecimento internacional para a existência de direito da nova república, enviou aos reis, imperadores e presidentes das diversas outras repúblicas, ofícios comunicando o surgimento do novo Estado, redigidos em francês, e solicitando o seu reconhecimento. Democrata convicto, Galvez realizou um plebiscito entre seu povo para que decidissem se o Estado Independente do Acre deveria continuar, ou não. Diante da negativa da maioria, após cinco meses e 17 dias à frente do governo, em 1º de janeiro de 1900, o espanhol saiu de cena como entrou, sem nenhum derramamento de sangue.

A história do selo
Durante as pesquisas, Márcio descobrira serem tantas as minúcias de Galvez na constituição do novo Estado, que ele criara a bandeira, o hino, as armas, e mandara imprimir um selo através do Decreto nº 15, onde organizava, também, os serviços de Correios. Amigo de Joaquim Marinho e sabedor do aficcionismo deste por filatelia, Márcio contou-lhe sobre a existência do tal selo. Logo o empresário contatou clubes, comerciantes e colecionadores no Brasil e no exterior. Não demorou muito para surgirem os resultados, conforme conta. "No final de 1977, num leilão da firma J.R.B, em São Paulo, apareceu um envelope com um carimbo redondo, do Governo Militar Provisório do Acre, datado de 1906, despachado do Acre para o Rio de Janeiro, o qual eu arrematei. Passados uns seis meses do leilão, João Roberto Baylongue, dono da firma, me liga contando ter descoberto em seu estoque um selo do Acre, de 1899. Era o procurado selo de Galvez. Ainda sem estimar o seu valor, mas com certeza sabendo ser raro, lhe ofereci um "Olho-de-Boi", o primeiro selo brasileiro, de 1843, que ele achou pouco. Mais dois selos raros colocados em jogo e o negócio estava fechado".

Descrição do Selo do Acre
Impresso em amarelo, com centro verde, tem no medalhão a reprodução de um arbusto, que tanto pode ser de tabaco, de café ou de uma seringueira (o desenho não é dos mais esclarecedores). Vem encimado pela estrela solitária, que até hoje identifica o Acre. Do lado esquerdo, a reprodução de uma casa de caboclo, de palha, e, do lado direito, uma tartaruga, estranhamente, apoiando-se numa só pata e olhando para o alto. Até hoje não apareceu um pesquisador ou historiador que explicasse o fato. Na parte superior do selo o ano da emissão, 1899, e a palavra Correio, na posterior, 300 réis. Um círculo duplo cerca o medalhão central com os dizeres "Estado Independente do Acre", no alto e "Pátria e Liberdade", em baixo. A denteação é 10 1/4 e o processo de impressão usado foi o da litografia em papel linho. Ainda sobre a impressão, Marinho descobriu ter sido feita na Argentina. Galvez morou vários anos lá, onde trabalhou no serviço diplomático. A confecção dos selos foi de responsabilidade da Casa Impressora Monckes, de Buenos Aires, onde foram impressos 50.000 selos em folhas com 50 exemplares, despachados para o Acre, via Manaus, e apreendidos por uma canhoneira brasileira que, após a saída de Galvez, dirigia-se ao Acre para contornar a situação. Os selos foram incinerados, sobrando apenas uma folha de 50 exemplares que havia sido enviada a Galvez como prova. Acredita-se que estas provas foram distribuídas por ele entre os amigos. Em 1978 Marinho viajou até Buenos Aires para pesquisar junto à Casa Monckes, mas esta não existia mais.

A procura de outras peças
De posse de um "insignificante" pedaço de papel, mas com um valor histórico grandioso, pois havia feito parte da história do Acre num momento em que, por muito pouco, a região não vira florescer um novo país sul-americano, Marinho ainda não estava satisfeito. Lera um artigo na revista da Sociedade Filatélica Argentina, de 1933, no qual o autor afirmava ter sido o selo impresso apenas com a estampa de 300 réis (o que ele possuía), porém, também lera numa revista alemã, de 1906, que o selo fora impresso nos valores de 200, 300, 500, 800 e 2.000 réis, além do valor de 5.000 réis com um outro desenho. Nenhuma dessas estampas foi encontrada até hoje. Como saber qual revista publicara a verdade?

Hoje, passados mais de 20 anos desde que tomou conhecimento do Selo do Acre e conseguiu adquirir um exemplar, Marinho continua rastreando e tentando localizar as outras peças. A única coisa que sabe é que dois exemplares estão de posse de colecionadores brasileiros, em Belo Horizonte e em Porto Alegre, e outros três pertencem, possivelmente, a colecionadores europeus sobre os quais tomou conhecimento através de publicações filatélicas estrangeiras. Selo do Acre à parte, Marinho também descobriu os carimbos (outra peça ambicionada por filatelistas) da época de Galvez. O de 1906, arrematado no leilão, era usado pelos militares que ocuparam a região logo após o fim do Estado Independente, mas carimbos com a inscrição "Estado I do Acre" (I de independente), certamente foram utilizados enquanto Galvez governou. Atualmente ele possui 20 desses carimbos em sua coleção (há dois meses adquiriu mais um), considerados mais raros que o selo. "É que as peças estão circuladas, ou seja, carimbadas em um envelope com remetente e endereço do destinatário enquanto o selo é uma peça solta, sem identificação a não ser a que está impressa nele mesmo", esclarece.
 
Marinho conclui que ninguém, no Brasil ou no exterior, possui material filatélico tão valioso quanto este, nem no Acre. "Há alguns anos me ligaram lá de Rio Branco, de uma instituição cultural, solicitando que eu doasse o selo para um museu local. Depois disso já recebi mais duas propostas, também de lá, solicitando doação. Apesar de ter o maior interesse que esse material volte pro Acre, fica difícil doar uma peça tão valiosa".
 
Na cidade de Porto Acre, antiga Puerto Alonso, os vestígios da história foram praticamente apagados e do período revolucionário restaram a centenária mangueira (tombada pelo Patrimônio Histórico) onde os navios eram atracados, o rio e algumas peças reunidas graças ao esforço do comerciante Arthur Sena Souza. Ele é o responsável pela Sala da Memória de Porto Acre, um espaço que funciona na antiga igreja da cidade e que reúne mais de 900 peças históricas como garrafas, armas, balas e potes de cerâmica. Na cidade, localizada a aproximadamente 60 km de Rio Branco, capital do Acre, moram cerca de 650 famílias. A maioria desconhece a história de Galvez e apenas os moradores mais antigos do local arriscam falar sobre o assunto.

Em 1999, quando se comemorou o primeiro centenário do Estado Independente do Acre, o Departamento de Patrimônio Histórico da Fundação Elias Mansour lançou a revista Galvez e a República do Acre. A publicação faz parte do esforço de recuperar a história do período revolucionário no estado. Com esse mesmo objetivo, o Departamento vem brigando para conseguir o tombamento do Seringal Bom Destino, localizado a meia hora de voadeira da cidade de Porto Acre. O local pertencia a Joaquim Victor da Silva, um dos integrantes da junta revolucionária que expulsou os bolivianos da antiga Puerto Alonso. A intenção do governo é restaurar as obras do Bom Destino, criando alternativa para a implantação de projetos turísticos no local.
 
 
NOTA: Usei esse link (http://www.ac.gov.br/outraspalavras/outras_10/acre.html#) para fazer uma pesquisa, mas não consigo mais acesso ao mesmo.

sábado, 25 de agosto de 2012

A essência do conservadorismo (Russel Kirk)


O conservador suspeita de todos os esquemas utópicos. Ele não acredita que, pelo poder do direito positivo, nós podemos resolver todos os problemas da humanidade. Podemos ter a esperança de fazer nosso mundo tolerável, mas não podemos torná-lo perfeito.

Uma amiga minha, a quem chamaremos senhorita Worth, teve uma conversa com uma vizinha – senhora Williams, digamos – que, no dia anterior, havia vendido um belo prédio antigo, há muito tempo pertencente à sua família, o qual seria demolido para que muitos automóveis usados fossem postos a venda no lugar. A senhora Williams tinha certos arrependimentos; mas, disse ela em caráter definitivo, “você não pode parar o progresso”. Ela ficou surpresa com a resposta da senhorita Worth, que foi esta: “Não, muitas vezes não; mas você pode tentar”.

A Senhorita Worth não acreditava que o Progresso, com P maiúsculo, é uma coisa boa em si mesma. O Progresso pode ser bom ou mau, dependendo da direção a qual se está progredindo. É perfeitamente possível, e não raramente ocorre, de se progredir em direção à beira de um precipício. O pensamento conservador, jovem ou antigo, acredita que todos nós devemos obedecer à lei universal da mudança; mas muitas vezes está em nosso poder escolher quais mudanças aceitaremos e quais mudanças rejeitaremos. O conservador é uma pessoa que se esforça para conservar o que há de melhor em nossas tradições e em nossas instituições, conciliando o que é melhor com a reforma necessária de tempos em tempos.

“Conservar” significa “salvar”... (Considere) a maldição do cupido:Aqueles que mudam o amor antigo pelo novo, oram aos deuses para mudá-lo para pior.”

Um conservador não é, por definição, um egoísta ou uma pessoa estúpida; em vez disso, ele é uma pessoa que acredita que há alguma coisa em nossa vida que vale a pena salvar.

Conservadorismo, na verdade, é uma palavra com um significado antigo e honrado – mas, um significado quase esquecido pelos americanos até anos recentes. Abraham Lincoln queria ser conhecido como um conservador. “O que é o conservadorismo?”, disse ele. “Não é a preferência pelo antigo e experimentado, acima do novo e do não testado?” É isso; e é também um corpo de convicções éticas e sociais. Porém, a palavra “liberalismo” tem sido preferida entre nós por duas ou três décadas. Mesmo hoje em dia, embora haja um bom número de conservadores nas políticas nacional e estadual, em nenhum grande partido muitos líderes políticos descrevem a si mesmos como “conservadores”. Paradoxalmente, o povo dos Estados Unidos se tornou a principal nação conservadora do mundo exatamente quando deixou de chamar a si mesmo de conservador em seu próprio país.

No entanto, com a nossa severa oposição ao radicalismo dos soviéticos e nosso repúdio nacional do coletivismo em todas as suas variedades, um bom número de americanos agora têm muitas dúvidas quanto ao desejo de serem chamados liberais ou radicais. Os liberais, por um bom tempo, foram derivando para a esquerda em direção a seus primos radicais; e o liberalismo, nos últimos anos, passou a significar um anexo para o Estado centralizado e para a impessoalidade sombria do Brave New World, de Huxley, ou de 1984, de Orwell. Homens e mulheres que não se consideram liberais ou radicais estão começando a perguntar a si mesmos no que acreditam e do que deveriam se chamar. O sistema de ideias opostas ao liberalismo e ao radicalismo é a filosofia política conservadora.

O que é o Conservadorismo?

O conservadorismo moderno tomou forma por volta do início da Revolução Francesa, quando homens de grande visão na Inglaterra e na América perceberam que, se a humanidade existe para conservação dos elementos da civilização que tornam a vida digna de ser vivida, algum corpo coerente de ideias deve resistir ao nivelamento e ao impulso destrutivo de revolucionários fanáticos. Na Inglaterra, o fundador do verdadeiro conservadorismo foi Edmund Burke, cujas Reflections on the Revolution in France mudaram o rumo da opinião pública britânica e influenciaram incalculáveis líderes da sociedade no Continente e na América. Nos recém-criados Estados Unidos, os fundadores da República, conservadores por formação e por experiência prática, estavam determinados a moldar a Constituição que deveria guiar a sua posteridade em caminhos duradouros de justiça e liberdade. Nossa Guerra de Independência Americana não foi uma revolução real, mas antes uma separação da Inglaterra; estadistas de Massachusetts e da Virgínia não desejavam virar a sociedade de cabeça para baixo. Em seus escritos, sobretudo nos trabalhos de John Adams, Alexander Hamilton e James Madison, nós encontramos um conservadorismo sóbrio e provado, fundado sobre uma compreensão da história e da natureza humana. A Constituição que os líderes daquela geração elaboraram tem provado ser o dispositivo conservador mais bem sucedido em toda a história.

Os líderes conservadores, desde Burke e Adams, subscreveram certas ideias que podemos demonstrar, resumidamente, mediante definição. Os conservadores desconfiam do que Burke chamou “abstrações” - isto é, absolutos dogmas políticos divorciados da experiência prática e das circunstâncias particulares. Eles acreditam, todavia, na existência de certas verdades permanentes que regem a conduta da sociedade humana. Talvez, os princípios mais importantes que têm caracterizado o pensamento conservador americano são estes:

1. Homens e nações são governados por leis morais; e essas leis têm a sua origem em uma sabedoria superior à humana – a justiça divina. No fundo, problemas políticos são problemas morais e religiosos. O estadista sábio procura apreender a lei moral e reger sua conduta adequadamente. Nós temos uma dívida moral para com nossos antepassados, que nos concederam nossa civilização, e um dever moral para as gerações que virão depois de nós. Esta dívida foi ordenada por Deus. Portanto, não temos o direito de, impudentemente, mexer com a natureza humana ou com tecido delicado de nossa ordem social civil.

2. Variedade e diversidade são as características de uma grande civilização. Uniformidade e igualdade absoluta são a morte de todo verdadeiro vigor e liberdade na existência. Conservadores resistem, com imparcial virilidade, à uniformidade de um tirano ou de uma oligarquia e à uniformidade a qual Tocqueville chamou “despotismo democrático”.

3. Justiça significa que todo homem e toda mulher têm direito ao que lhes é próprio – às coisas que melhor se adaptam à sua própria natureza, às recompensas de sua capacidade e integridade, à sua propriedade e à sua personalidade. A sociedade civilizada requer que todos os homens e mulheres tenham direitos iguais diante da lei, mas essa igualdade não deve se estender à igualdade de condição: isto é, a sociedade é uma grande associação, na qual todos têm direitos iguais – mas não para igualar coisas. A sociedade justa requer liderança sólida, recompensas diferentes para habilidades diferentes e um senso de respeito e dever.

4. Propriedade e liberdade são inseparavelmente conectadas; nivelamento econômico não é progresso econômico. Os conservadores valorizam a propriedade para seu próprio interesse, é claro; mas a valorizam muito mais porque, sem ela, todos os homens e mulheres estão a mercê de um governo onipotente.

5. O poder é repleto de perigos; portanto, o bom estado é aquele no qual o poder é controlado e equilibrado, restringido por constituições e costumes sólidos. Na medida do possível, o poder político deve ser mantido nas mãos de instituições privadas e locais. A centralização é normalmente um sinal de decadência social.

6. O passado é um grande depósito de sabedoria; como Burke disse, “o indivíduo é tolo, mas a espécie é sábia.” Os conservadores acreditam que precisamos nos guiar pelas tradições morais, pela experiência social e por todo o complexo corpo de conhecimentos legados a nós por nossos antepassados. Os apelos conservadores estão para além da opinião precipitada do momento, pela qual Chesterton os denominava de “a democracia dos mortos” - isto é, as opiniões consideradas dos homens e mulheres sábios que morreram antes de nosso tempo, a experiência da espécie humana. O conservador, em suma, sabe que não nasceu ontem.

7. A sociedade moderna necessita urgentemente de uma verdadeira comunidade: e verdadeira comunidade é um mundo distante do coletivismo. A comunidade autêntica é regida por amor e caridade, não por força. Através de igrejas, associações voluntárias, governos locais e uma variedade de instituições, os conservadores se esforçam para manter a comunidade saudável. Os conservadores não são egoístas, mas zelosos do bem-estar público. Eles sabem que o coletivismo significa o fim da comunidade genuína, e substituem uniformidade por variedade e força por cooperação voluntária.

8. Nos assuntos das nações, o conservador americano acredita que seu país deve ser um exemplo para o mundo, mas que não deve tentar reconstruir o mundo à sua imagem. É uma lei da política, bem como da biologia, que todo ser vivente ama, acima de tudo – até mesmo acima de sua própria vida –, sua identidade distintiva, que o diferencia de todos os outros seres. O conservador não aspira à dominação do mundo, nem aprecia a perspectiva de um mundo reduzido a um padrão único de governo e de civilização.

9. Os conservadores sabem que homens e mulheres não são perfectíveis; e nem o são as instituições políticas. Nós não podemos criar um paraíso na Terra, embora possamos fazer um inferno. Somos todos criaturas nas quais bem e mal estão misturados; e, quando as boas instituições negligenciam e ignoram os antigos princípios morais, o mal tende a predominar em nós. Por isso, o conservador suspeita de todos os esquemas utópicos. Ele não acredita que, pelo poder do direito positivo, nós podemos resolver todos os problemas da humanidade. Podemos ter a esperança de fazer nosso mundo tolerável, mas não podemos torná-lo perfeito. Quando o progresso é alcançado, o é através do reconhecimento prudente das limitações da natureza humana.

10. Os conservadores estão convencidos de que mudança e reforma não são idênticas: inovação política e moral pode ser tanto destrutiva como benéfica; e se a inovação é empreendida com espírito de presunção e entusiasmo, provavelmente será desastrosa. Todas as instituições humanas, em certa medida, se alteram de época para época, pois o lento processo de mudança é o meio de conservar a sociedade, exatamente como é, para o corpo humano, o meio de sua renovação. Mas, os conservadores americanos se esforçam para conciliar o crescimento e as modificações essenciais para nossa vida com a força de nossas tradições sociais e morais. Com Lord Falkland, eles dizem: “quando não é necessário mudar, é necessário não mudar.” Eles entendem que homens e mulheres são mais satisfeitos quando podem sentir que vivem em um mundo estável de valores duradouros.

O conservadorismo, então, não é simplesmente o interesse das pessoas que têm muitas propriedades e influência; não é simplesmente a defesa de privilégios e de status. A maioria dos conservadores não são nem ricos nem poderosos. Porém, eles fazem até mesmo o mais simples deles obter grandes benefícios de nossa República estabelecida. Eles têm liberdade, segurança pessoal e de sua casa, igual proteção das leis, o direito aos frutos de sua indústria e oportunidade para fazer o melhor que neles há. Eles têm um direito de personalidade em vida e um direito de consolo na morte. Os princípios conservadores são o abrigo das esperanças de todos na sociedade. E o conservadorismo é um importante conceito social para todo aquele que deseja justiça igualitária e liberdade pessoal e todos os amáveis caminhos antigos da humanidade. O conservadorismo não é simplesmente uma defesa do “capitalismo”. (“Capitalismo”, na verdade, é uma palavra cunhada por Karl Marx, projetada desde o início para significar que a única coisa defendida pelos conservadores é a grande acumulação de capital privado.) Mas, o que o verdadeiro conservador faz corajosamente é defender a propriedade privada e uma liberdade econômica, ambas para seu próprio bem e porque elas são meios para atingir grandes fins.

Esses grandes fins são mais do que econômicos e políticos. Eles envolvem dignidade humana, personalidade humana, felicidade humana. Eles envolvem até mesmo o relacionamento entre Deus e o homem. Pois o coletivismo radical de nossa época é ferozmente hostil a qualquer outra autoridade: o radicalismo moderno detesta a fé religiosa, a virtude privada, a individualidade tradicional e a vida de satisfações simples. Tudo o que vale a pena ser conservado está ameaçado em nossa geração. A mera oposição negativa e irracional à corrente de acontecimentos, agarrando-se com desespero ao que ainda mantemos, não será suficiente nesta época. Um conservadorismo de instinto deve ser reforçado por um conservadorismo de pensamento e imaginação.

Original adaptado de The Intelligent Woman’s Guide to Conservatism (New York: The Devin-Adair Company, 1957).
Tradução: José Junio Souza da Costa

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

"Terminando a faculdade no tapa"!

Papai
Filho meu, ouça bem, agora escrevo para falar daqueles anos que se seguiram ao meu casamento com seu pai... Casamos no dia 10 de abril! No dia 9, casamos no civil e no dia seguinte casamos no religioso. Francisco não trabalhava até então, vivia de mesada, ia e voltava do Rio para o Espírito Santo com a mesada do pai. Mas, agora, casado, teve que começar a trabalhar. E começou a trabalhar numa mercearia que havia na frente do próprio prédio em que estávamos morando. Era uma loja grande onde ele montou uma mercearia. Tinha tudo ali, tinha sardinha, azeite, óleo... Até que ele saiu da mercearia e foi trabalhar com meu pai no MEC no Rio de Janeiro.

A gente começou a passar muita dificuldade financeira. Eu lembro até de uma vez que, passando o gás, o rapaz veio para vender o botijão e eu disse que não precisava, mas, na verdade, eu não tinha era dinheiro para comprar o gás. E essa dificuldade toda e Francisco continuava estudando, às duras penas. Eu vivia dizendo para ele: “Você não vai parar de estudar, porque eu não quero que o seu pessoal, a sua família, depois venha dizer que você largou os estudos porque casou comigo”! Eu tive que dizer isso várias vezes para ele, por que, volta e meia, ele ameaçava dizendo que não dava conta e que não ia aguentar. Tinha que sair de Niterói para o Rio naquela época e chegava todo dia da faculdade 1 hora da manhã para, logo cedo, sair para trabalhar. “Ah! Leila, acho que eu não vou dar conta não. Eu vou trancar a faculdade”, vinha ele dizendo. “Não! Você não vai não! Você vai se formar nem que seja no TAPA!!! Porque eu não vou dar esse gosto para sua família de dizer que você não se formou por minha causa, Francisco”! Aí, eu tive que começar a ajudar. Eu tomava os pontos dele, perguntava, questionava, enfim, passava com ele todas as matérias que precisava estudar. 

Quando, finalmente, ele se formou, depois de tanta luta, depois de tanta madrugada acordada estudando com ele, dei graças a Deus por me ver livre daquilo tudo. Contudo, a tão esperada noite da formatura eu nem pude aproveitar, porque já estava grávida de Viviane e, cansadíssima, sentia-me enjoada e um sono terrível tomava conta de mim. Eu fui de vestido longo e já na barca que atravessava para o Rio, eu estava dormindo. Cheguei ao baile, mas o vestido já estava me incomodando: “Ai, Francisco, eu quero ir embora, quero ir embora, eu estou passando mal”. E, acredite, acabamos indo embora mais cedo mesmo, porque, simplesmente, eu não conseguia nem ficar em pé (e nem acordada)! Assim, na noite em que deveria ter aproveitado a vitória conquistada por nós com tanto esforço, eu estava mesmo era me sentindo presa dentro de um vestido apertadíssimo e com Francisco me segurando na borda falsa da barca Rio-Niterói, enquanto eu passava mal de tanto enjôo...

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Quanto custa o Acre? (por Leandro Narloch)


Apesar de sobrarem suspeitas sobre sua existência, o Acre é frequentemente objeto de polêmicas. Em 2006, Evo Morales, presidente da Bolívia, reclamou que o país deu o território do Acre ao Brasil em troca de um cavalo. Logo vieram protestos: na verdade, não foi pelo preço de um cavalo, mas por 2 milhões de libras inglesas de 1903, que em 2006 valeriam por volta de 230 milhões de dólares. Acreanos mais indignados apareceram depois que o jornalista Diogo Mainardi, no programa Manhattan Connection, disse que até um pangaré seria um preço alto pelo Acre.

A fala do presidente Evo Morales fez parecer que o Brasil aproveitou um momento de ingenuidade dos vizinhos para fazer um negócio da China. Foi o contrário. A Bolívia aproveitou um momento de ingenuidade do Brasil para se livrar do Acre. Conseguiu ganhar um dinheiro com a venda e largar mão de um território que lhe traria gastos monumentais. Talvez o governo brasileiro da virada do século previsse que o Acre seria um mau negócio. Até adquirir a área definitivamente, em 1903, o Brasil teria tentado, por três vezes, empurrá-la para os bolivianos. Só aceitou ficar com a região depois da insistência de seringueiros teimosos, militares clandestinos patriotas e até de um visionário espanhol que sonhava em fazer do Acre uma sociedade perfeita.

A primeira vez que o Brasil tentou se livrar do Acre foi em 1867, com o Tratado de Ayacucho. Era época da Guerra do Paraguai. O imperador dom Pedro II queria agradar os vizinhos para evitar que eles armassem confusão, como fizeram os paraguaios. Ser generoso nos acordos territoriais era um jeito de reforçar a amizade com a Bolívia e assegurar a paz. Para delimitar a região, os diplomatas brasileiros usaram como referência as latitudes e a posição dos rios do Alto Amazonas. O extremo oeste do país seria marcado pela união dos rios Beni e Mamoré, de onde sairia uma linha para o oeste, até encontrar o rio Javari, que até hoje faz a fronteira do sudoeste da Amazônia. Como ninguém sabia muito bem onde esses rios começavam ou convergiam, o art. 3º do Tratado de Ayacucho determinava:

No prazo de seis meses, contados da troca das ratificações do presente Tratado, nomeará cada uma das altas partes contratantes um Comissário; e, nos mais breve tempo que for possível, procederão os dois comissários, de comum acordo, à demarcação da linha divisória, nos pontos em que isso for necessário, e de conformidade com as estipulações que procedem.

Era para ser seis meses. Quase trinta anos depois do Tratado de Ayacucho, os bolivianos não tinham sequer aparecido no Acre. Ainda não se sabia exatamente o que era o estado e onde ficava a fronteira. Em 1895, o Brasil resolveu dar uma ajuda. Mandou para lá uma missão demarcatória chefiada por Gregório de Thaumaturgo de Azevedo, um oficial obstinado que já havia sido governador do Piauí. No Rio de Janeiro, os ministros dos primeiros anos da República esperavam que o enviado fizesse as mediações e determinasse de uma vez por todas qual era a parte boliviana. Thaumaturgo, no entanto, percebeu que povoados brasileiros cheios de seringais ficariam do lado boliviano caso o Tratado de Ayacucho fosse obedecido. Escreveu ao Rio de Janeiro dando o alarme:

Toda essa zona perderemos, aliás, explorada e povoada por nacionais e onde já existe centenas de barracas, propriedades legítimas e demarcadas e seringais cujos donos se acham de posse há alguns anos sem reclamação da Bolívia.

Depois de uma comunicação como essa, a atitude mais esperada pelo governo era aceitar os avisos do oficial, tentar reverter a fronteira do Acre e garantir as riquezas que poderiam vir de lá. No século 19, a exploração da borracha fez de Manaus e Belém cidades com avenidas e teatros riquíssimos, cujos moradores importavam vinhos e queijos franceses e mandavam engomar camisas em Portugal. Além dos impostos provenientes da borracha, o governo central tinha outro bom argumento para negociar com a Bolívia. Naquela época, impasses sobre fronteiras distantes eram geralmente decididos pelo princípio do uti possidetis, segundo o qual a soberania da área pertence a quem de fato a ocupa. 


O Acre vinha sendo habitado por brasileiros desde 1879, depois que uma grande seca atingiu o Ceará e desencadeou uma migração nordestina para a Amazônia. Se o governo brasileiro quisesse ficar com a região, tinha motivos. Mas o Rio de Janeiro não deu a mínima para os avisos do oficial Thaumaturgo, que acabou afastado da missão. Um novo chefe foi nomeado, o capitão-tenente Cunha Gomes. Ele tratou de fazer vista grossa para os povoados brasileiros e estabelecer a divisa com base no tratado anterior, lembrando os bolivianos mais uma vez: o Acre é de vocês. O governo do Rio de Janeiro adorou – até hoje, Cunha Gomes nomeia a linha reta que delimita a fronteira norte do estado.

Essa foi a segunda vez que o governo tentou se livrar do Acre. Em 1898, o ministro das Relações Exteriores, Dionísio de Castro Cerqueira, pôde enfim escrever um telegrama ao governador do Amazonas. Pediu-lhe para “concordar no estabelecimento de posto aduaneiro à margem do Acre ou Aquiri, em território incontestavelmente boliviano, isto é, acima da linha tirada do Madeira à margem do Javari, na verdadeira latitude determinada pelo capitão-tenente Cunha Gomes”. O governo federal resolveu, assim, ignorar os brasileiros que moravam no Acre. Até hoje os acreanos guardam uma raivinha por causa disso. No livro Plácido de Castro, editado em 2003 com dinheiro do governo do Acre, o professor universitário Valdir de Oliveira Calixto diz:

Estultice, falta de patriotismo, cega obstinação de Ministro desqualificado para o exercício do cargo, conforme sugeriria Thaumaturgo Azevedo? Ou uma atitude calculada de poder, em extrema dificuldade para administrar um crise que vinha penosamente se arrastando desde 1895?

Com o ok por parte do Brasil, a Bolívia tratou de se apossar do Acre. A nova região dava uma esperança aos bolivianos. Vinte anos antes, durante a Guerra do Pacífico, eles tinham perdido para o Chile o território de Antofagasta, ficando sem saída para o mar. A conquista de terras disputadas com o Brasil foi uma pequena compensação. Para tomar o poder do Acre, a Bolívia designou José Paravicini, embaixador do país no Rio de Janeiro. No fim de outubro de 1898, o diplomata se apressou para emprestar 40 contos de réis dos Bancos de Londres e do Rio da Prata, prometendo pagar a dívida com os impostos que o Acre renderia. 

Enviou ainda um telegrama para o embaixador boliviano em Londres, pedindo que mandasse um bom engenheiro e verbas para a construção da sede acreana do governo da Bolívia, e partiu de barco para a Amazônia. Numa escala em Fortaleza, Paravicini recebeu a notícia de que não iriam ao Acre nem o engenheiro inglês, nem o dinheiro solicitado, e pensou em desistir da aventura e regressar ao Rio. A viagem só continuou porque o diplomata emprestou mais dinheiro do Banco de Londres. Consegui assim chegar à Amazônia. Por onde passava, a comitiva boliviana recebia saudações das autoridades brasileiras. Em Belém, Paravicini conseguiu crédito da Casa & Cia, com o qual comprou materiais de construção e contratou pedreiros, ferreiros e carpinteiros. Em Manaus, o representante boliviano foi recebido com um brinde de champanhe pelo governador do Amazonas, Ramalho Júnior.

No começo da noite de 30 de dezembro, depois de dois meses de viagem, a comitiva boliviana enfim chegou ás terras do Acre. Até então, os seringueiros daquela região não tinham sido informados de que não moravam mais no Brasil. A chegada dos estrangeiros causou uma surpresa que o escritor Leandro Tocantins, autor da principal obra sobre a história do Acre, reconstituiu com tons dramáticos:

De repente, destacou-se no silêncio da noite o apito prolongado de um navio. Todos dirigiram-se, pressurosos, para o barranco, atraídos pela boa nova do gaiola que traria um pouco de vida ao solitário povoado. Jornais de Belém e Manaus, cartas de parentes e amigos, notícias do mundo, uma pequena amostra de civilização que vinha naquele vapor, certamente abarrotado de mercadorias, para receber, em troca, as “pelas” negras, acontecimento comum naquela época de rios cheios.

Distinguiram aproximar-se nas sombras da noite o navio iluminado, vibrando as máquinas para vencer as máquinas para vencer a forte correnteza do Purus, na manobra de atracação. A bordo, uma algazarra invulgar, palavras soltas de um idioma que não era o português.
Havia entre os seringueiros um oficial do governo brasileiro chamado José Carvalho. O homem não pôde deixar de ficar atordoado com os forasteiros bolivianos. Escreveu ele anos depois:

A noite toda passamos numa inquietação indizível de espírito num laboratório de cogitações. Para mim – confesso francamente – aquela tomada imprevista do Acre era um assalto arrojado de aventureiros que poderiam, em poucos dias, fazer uma fortuna numa grossa espoliação da borracha.

A despeito da surpresa dos seringueiros brasileiros. Paravicini se nomeou delegado boliviano no Acre. Seus homens abriram uma clareira num terreno alto, onde o diplomata hasteou a bandeira da Bolívia. Foram criadas duas repartições – a de registro de direitos reais e a de direitos fiscais. Tratava-se da estrutura necessária para cobrar impostos dos seringueiros. Pela primeira vez, a região tinha um escritório oficial de algum país. A questão ficaria resolvida, e o Acre estaria confortavelmente nas mãos da Bolívia, não fosse um excêntrico diplomata e jornalista espanhol e seu sonho de montar seu próprio país por ali.

O nome dele era Luis Gálvez Rodríguez de Arias. Na Andaluzia, o rapaz tinha boa vida: sobrinho de um ministro da Marinha espanhola, era simpático, elegante e tinha um bom trabalho no Banco da Espanha. Até que, em 1891, aos 27 anos, Gálvez se meteu em dívidas de jogo e perdeu o emprego. Derrotado e envergonhado, resolveu fugir para a América do Sul. Tentou a vida em Buenos Aires e no Rio de Janeiro, mas acabou se estabelecendo na Amazônia. Em Manaus virou dono de um cabaré e repórter do jornal Comércio do Amazonas. Em maio de 1899, Gálvez viajou a Belém exatamente quando o representante Paravicini e alguns de seus funcionários passavam pela cidade. O espanhol acabou participando de um almoço com a comitiva boliviana. Foi quando uma notícia bombástica circulou à mesa.

Gálvez ouviu os bolivianos discutindo a hipótese de arrendar o Acre para o Anglo-Bolivian Syndicate e a Companhia de Borracha dos Estados Unidos. As empresas extrairiam borracha para a fabricação dos carros dos americanos e dariam ao governo boliviano 60% dos lucros da exportação. O caso virou manchete do jornal Província do Pará de 3 de junho de 1899 e incendiou a Amazônia. Na sacada de redações de jornais de Belém e Manaus, deputados e jornalistas declaravam seu ódio à Bolívia e aos americanos.

No Rio de Janeiro, Rui Barbosa chegou a comentar a questão, dizendo que se a região fosse concedida àquelas companhias, poderia ceder á política imperialista dos Estados Unidos, assim como acontecera no Havaí. Agora os acreanos tinham um trunfo: o patriotismo e o sentimento popular de ter seu patrimônio ameaçado.

No meio daquela controvérsia, o jornalista espanhol percebeu que a razão de sua existência tinha enfim chegado. A questão acreana pedia atos heróicos e ele estava disposto a isso. Bom de papo, Gálvez alarmou o governador do Amazonas sobre a quantidade de impostos que o estado perdia com a intervenção da Bolívia ou dos Estados Unidos. O Acre vinha exportando 2 mil toneladas de borracha por ano e os tributos dessa venda não ficavam para o Brasil. 

O governador aderiu aos alertas do espanhol e deu a ele armas e um canhão para a batalha de reconquista do Acre. Gálvez reuniu vinte soldados e partiu para seu destino heróico no Eldorado amazônico. É provável que sua motivação fosse parecida com a dos europeus fascinados pelas utopias do século 19, que vieram à América Latina construir sociedades perfeitas. Entre 1842 e 1843, por exemplo, cerca de 150 franceses seduzidos pelo socialismo utópico criaram em Santa Catarina o Falanstério do Saí, o protótipo de uma sociedade que durou apenas um ano. No Paraná, imigrantes italianos montaram uma sociedade anarquista, a Colônia Cecília, que teve um princípio de liberação sexual, admitindo casamentos de uma mulher com dois homens – isso em 1890. 

O espanhol deveria nutrir um sonho parecido para o Acre. “Gálvez foi uma mistura de dom Quixote e Lord Jim que reivindicava seu valor depois de um erro cometido no passado”, afirma o jornalista Alfonso Domingo na biografia La Estrella Solitaria. Apesar de não ter revelado essa intenção ao governador do Amazonas, o visionário espanhol não queria apenas levantar os seringueiros contra a Bolívia, mas criar uma nova nação: a República Independente do Acre.

Entre os soldados de Gálvez havia atores e atrizes de um grupo espanhol de zarzuela. De passagem por Manaus, os artistas foram seduzidos por ele para fundar um país. É interessante imaginar o choque de culturas que deve ter ocorrido quando essa trupe chegou ás margens do rio Acre, no fim de junho de 1899. Os europeus, cheios de sonhos tirados de livros e com o coração exasperado por teorias, passaram a viver com os seringueiros, personagens que se destacavam pela desesperança. 

Como escrevia Euclides da Cunha em 1905, ao visitar o Acre, o seringueiro “não se rebela”, “não murmura”, “não reza”, “não tem diluições metafísicas” e é resignado o suficiente para acreditar que “os grandes olhos de Deus não podem descer até aqueles brejais, manchando-se”. Na fundação da República do Acre, dois grupos tão distintos devem ter protagonizado cenas dignas da zarzuela, tipo de teatro que intercala diálogos ridículos com músicas, lembrando uma ópera-cômica.

Para conquistar aqueles rudes homens, o visionário Gálvez tocou no assunto que mais os indignava: o fato de o Brasil não estar nem aí para aquele lugar.
No discurso que consta na primeira ata da Junta Revolucionária do Acre, ele disse:

Aceitamos leis, pagamos tributos e impostos e obedecíamos passivamente todos os julgamentos praticados pela alta e baixa justiça do Delegado Nacional da Bolívia, na esperança de que nossa idolatrada Pátria, a gloriosa e humanitária Nação Brasileira, acudisse em nosso socorro e atendesse nossos justíssimos pedidos. [...] O Governo do Brasil não respondeu aos nossos patrióticos alarmes. É justo, pois, que cidadãos livres não se conformem com o estigma de párias criado pelo governo de sua Pátria – nem podem de forma alguma continuar sendo escravos de uma outra nação: a Bolívia
.

O novo país foi fundado em 14 de julho de 1899 – a data foi escolhida por Gálvez para coincidir com o 14 de julho francês. A capital ganhou o nome de Cidade do Acre – hoje Porto Acre, na divisa com o Amazonas. O grupo formou um conselho ministerial, uma bandeira e um selo comemorativo. Um barracão de madeira virou o palácio do governo, em cuja fachada havia a inscrição “Pátria e Liberdade”. Criaram-se também a Força Pública Nacional, composta de batalhões de infantaria, cavalaria e corpo de bombeiros, e a Força de Instrução, para educar os acreanos. 


Vinte e sete decretos de Gálvez regulavam os futuros serviços de água, transporte, abastecimento, iluminação pública, os incentivos às indústrias e famílias de colonos que quisessem se instalar por ali. Em francês, língua oficial da diplomacia da época, o “Imperador do Acre” mandou um comunicado aos países da América do Sul anunciando a proclamação da nova nação de 6.742 cidadãos. A Argentina, então país mais rico da América do Sul, chegou a reconhecer a legitimidade do Acre como nação. Gálvez mandou também um aviso especial para o presidente brasileiro, Campos Salles. 

Dizia que, se o Brasil quisesse se apoderar de novo do país, tudo bem: “Se o ato que praticaram [os brasileiros no Acre] pode trazer consequências desastrosas à Nação Brasileira, o Governo Provisório deste Estado, embora tenha que tragar uma dolorosa humilhação, cederá perante o que for a conveniência da Pátria. O espanhol provavelmente queria que o Acre tomasse o mesmo rumo do Texas, que décadas antes tinha se declarado independente do México para logo depois ser incorporado aos Estados Unidos. O governo brasileiro, porém, não queria incorporar um novo país. Pela terceira vez, tentaria se livrar do Acre.

Em 1900, navios de guerra brasileiros chegaram á região e desfizeram a república Independente do Acre. Apesar da superioridade militar, os brasileiros não ficaram com o território: reintegraram sua posse para a Bolívia. Luiz Gálvez foi preso, mandado para Pernambuco e, de lá, de volta para a Espanha, onde morreu em 1935.

O governo do Rio de Janeiro só desistiu de recusar o Acre quando uma expedição militar clandestina quase provocou uma guerra de verdade com a Bolívia. Em 1902, os bolivianos já tinham, além de alfândega, pequenas instalações militares na região. Também haviam declarado publicamente que iriam arrendar o Acre ao Bolivian Syndicate. A questão ficaria resolvida, e o Acre estaria confortavelmente nas mãos da Bolívia ou dos americanos, não fosse a intervenção do gaúcho José Plácido de Castro, um ex-militar que tinha lutado no Rio Grande do Sul durante a Revolução Federalista. 

Patriota radical, Plácido achou um absurdo a possibilidade de americanos mandarem num pedaço do Brasil. Em agosto de 1902, ele montou uma tropa de setenta seringueiros-soldados e saiu derrubando as instalações bolivianas que encontrava. A Bolívia revidou um mês depois, matando 22 homens da tropa de Plácido. Líder militar experiente, o brasileiro não desistiu: com pouquíssimos homens, montou um cerco aos bolivianos, fazendo mais de 150 deles se render. Em janeiro de 1903, sua tropa conseguiu desbancar todos os bolivianos de Porto Acre. O lugar era novamente uma república, desta vez o Estado Meridional do Acre.
Os generais da Bolívia preparavam uma revanche avassaladora, que poderia criar um novo conflito equivalente ao da Guerra do Paraguai, quando o governo brasileiro percebeu que não tinha mais como ignorar o Acre. O barão do Rio Branco, então ministro das Relações Exteriores, foi à Bolívia para acalmar os vizinhos. No fim de 1903, em Petrópolis, os dois países fecharam um acordo. O Brasil se comprometeu a pagar 2 milhões de libras esterlinas pelo Acre, ceder à vizinha um pedaço do Mato Grosso e ainda construir uma ferrovia para que os bolivianos tivessem acesso ao rio Amazonas e, assim, ao oceano Atlântico. 

Tratava-se da ferrovia Madeira-Mamoré, que envolveu 22 mil operários – 2 mil deles morreram na construção. O dinheiro da obra, vindo de bancos europeus, foi gasto em vão. Enquanto os acreanos travavam batalhas patrióticas, seringais mais densos cresciam na Ásia. Eram fruto de 70 mil semens que o inglês Henry Wickham tinha levado do Brasil em 1876. No Sri Lanka, as árvores foram plantadas uma do lado da outra, criando um sistema muito mais inteligente que o do extrativismo de árvores distantes da Amazônia. O novo fornecedor logo conquistou o mundo. A venda da borracha asiática passou de 45 toneladas em 1900 para 107 mil em 1915. Já o Acre, produtor de uma borracha mais cara, nunca mais daria dinheiro. Como os presidentes do Brasil devem ter previsto, adquirir aquele território foi um tremendo mau negócio.


Existem muitos lugares irrelevantes pelo mundo – como Porto Rico, a Bélgica, o Paraná -, o que não chega a ser um problema. A questão muda quando esse lugar cria despesas para os outros. O dinheiro gasto em nome do Acre não foi tanto o pagamento para adquiri-lo em 1903, mas o que veio depois. Até hoje, mais de um século após a região passar a fazer parte do Brasil, o estado continua custando milhões por ano. 

Em 2007, o Acre, que tem um Produto Interno Bruto tão grande quanto o da cidade de Limeira, no interior de São Paulo, arrecadou 177 milhões de reais em impostos federais. No mesmo ano, o orçamento federal executado (a quantia que o Acre tirou do Tesouro Nacional) foi três vezes maior: 605 milhões de reais. Os números foram parecidos em 2008: 627 milhões de orçamento executado, arrecadação de imposto de 204 milhões, novamente três vezes menor. Ou seja: a cada ano, o estado custa mais de 400 milhões de reais á nação. O custo do Acre pode ser ainda maior, já que o orçamento federal não inclui investimentos diretos dos ministérios nem gastos com deputados federais e senadores.


Em 2007, segundo a ONG Transparência Brasil, cada deputado brasileiro custou 6,6 milhões de reais por ano; cada senador, 33 milhões. Por ano, os oito deputados e três senadores acreanos custam 150 milhões de reais. A montanha de dinheiro que deve ter ido para aquele canto da Amazônia é incalculável. Para chegar a uma soma, é melhor ignorarmos alguns gastos, mesmo que no fim das contas o custo Acre fique menor que o real. Imagine que, em média, desde 1908, tenhamos gastado com o Acre metade do rombo de 2008, o que daria mais ou menos 280 milhões de reais. Em cem anos, seriam 28 bilhões.

É interessante imaginar o que poderia ser feito com esse dinheiro. Uma nova linha de metrô com 13 quilômetros de extensão, como a Linha Amarela construída em São Paulo enquanto este livro é escrito, exige do governo em valores de 2007, um investimento inicial de 700 milhões de reais – o resto vem de empréstimos de instituições como o Banco Mundial que acabam sendo pagos com os bilhetes dos passageiros. Com metade daqueles 28 bilhões de reais queimados com o Acre nos últimos cem anos, poderiam ser criadas pelos menos vinte linhas de metrô. Se fossem construídas em São Paulo, a cidade teria um sistema de metrô com mais de 260 quilômetros, o que faria o metrô de São Paulo ser maior que o de Paris, um dos maiores do mundo. Um cenário parecido seria possível em outras capitais, já que existem vários outros Acres pelo Brasil: Rondônia, Roraima, Amapá, Tocantins, Alagoas... Esse raciocínio leva a uma conclusão assustadora. Se tivéssemos vendido parte da Amazônia ou se algum país tivesse se apossado de pelo menos um pedacinho dela, seríamos hoje muito mais felizes.

Quando eu era criança e fazia bagunça demais em casa, minha mãe costumava brincar dizendo que, se alguém me seqüestrasse, ela daria 1 milhão a mais de resgate para o bandido ficar comigo. É mais ou menos o que deveríamos ter feito com o Acre.

FONTE: História do Acre, do Brasil e do Mundo

sábado, 18 de agosto de 2012

Quem é o seu pastor? (discernindo os sinais dos tempos)


O Senhor é o meu pastor e só pode ser assim porque eu sou ovelha do aprisco dele. Embora sua voz seja escutada por tantos outros que transitam pelos pastos, somente as ovelhas que pertencem ao pastor podem ouvir e seguir a sua voz. Há muitas vozes, há muitos pastores. Assim, há de se estar atento com os mercenários, pastores que estão aí para roubar, matar e destruir.

Há pastores que se servem das multidões (estas sempre existirão) e há pastores que se dedicam a servir o remanescente (este sempre resistirá). Aqueles, obcecados pela mass media, seguem levedando toda essa massa; enquanto estes ainda são capazes de se preocupar com uma ovelha só. Mas o meu pastor é o Senhor. E embora sua voz seja ecoada nas campinas e desertos, o pastor busca ovelhas apenas. O pastor não vai atrás das vacas perdidas ou dos cabritos teimosos. Ele é pastor de ovelhas somente. E somente das suas ovelhas, aquelas que ouvem a sua voz e o seguem. O cajado da disciplina, que o pastor não tarda em usar, não se aplica à massa, mas ao remanescente. Entretanto, não só o cajado é para as ovelhas do pastor, como também é reservado somente a elas o seu bordão, a sua proteção dileta. A parábola nunca foi sobre o pastor que vai atrás do lobo ou do cabrito perdido...

O pastor, o bordão e seu cajado. O pai, a proteção e a direção. Os profetas clamavam à massa, mas era o remanescente quem respondia. A massa quer pão. Mas o pastor oferece a si mesmo, sua carne e sangue. A barbárie quer Barrabás... A massa quer o espetáculo do assistencialismo; poucos, entretanto, querem o que o pastor anseia em dar: a excelência da vida eterna. A multidão procura a redistribuição da renda da riqueza dos reinos e palácios, contudo há um resto, um pouco, um toco que habitará na Casa do Pastor para todo o sempre.

Assim, “quem é o seu pastor” será sempre uma indagação diária cuja resposta tem como fim único revelar, tão somente, quem é você: massa ou o remanescente. Então, quem é o seu pastor?

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Loucura que só homem apaixonado faz

mamãe e papai
“Meu filho, quero te contar mais alguns detalhes que antecederam o meu casamento com seu pai. O que estou contando, lembre-se, é coroa para a cabeça da nossa família e é história que você vai passar para minhas netas, então, elas aprenderão com meus erros e acertos, irão aprender com minhas quedas e com todas as vezes em que me ergui do chão...

“...com três meses que eu e Francisco começamos a namorar, papai foi transferido para São Paulo. A matriz da Philips foi transferida e papai mudou-se para São Paulo. Papai e mamãe foram na frente, alugaram uma casa na Abílio Soares. Não tinha nada na casa. O caminhão com a mudança ainda estava a caminho. Em dezembro, São Paulo naquela época fazia um frio terrível. Então, estávamos nós naquela casa, sem móvel algum e sob o intenso frio paulista!

“Eu e seu pai continuamos a namorar de longe: eu escrevia, ele escrevia, eu escrevia e assim foi. Cada vez que surgia uma oportunidade, ele vinha a São Paulo e eu, de vez em quando, ia ao Rio também, porque minha irmã, Doli, que já estava casada, morava no Rio e isso me dava chance de ter onde ficar.

“Mas a família do seu pai começou a ficar injuriada com nosso namoro. “Cadê Dantinhas?”, “Onde está Dantinhas?”, “Dantinhas não quer mais estudar, só pensa em namorar”! Procuravam por ele no Rio, mas ele sempre em São Paulo. “Ele agora só está às voltas com essa menina”, começaram a reclamar. Aí começaram as reuniões de família para discutir a situação do seu pai. Convocaram seu pai e puseram na mesa que ele era o filho mais novo e o único que estava tendo oportunidade de estudar, fazer uma faculdade e que os outros irmãos não tinham feito faculdade, porque estavam trabalhando no seringal do Acre. Ele estava no Rio era para estudar. “Você, Dantinhas, portanto, é a ESPERANÇA da família”, apelaram. “Como é que podia estar enrabichado daquele jeito!”, diziam os irmãos. Os irmãos acreditavam que eu era uma boa menina, mas insistiam em dizer para Francisco que ele era muito novo. Francisco estava com vinte e dois anos e eu estava com dezenove. “Porém, não houve reunião em família que resolvesse o problema: volta e meia, procuravam o Dantinhas e ele estava era em São Paulo comigo. “Cadê Dantinhas?!”, perguntavam. “Dantinhas está em São Paulo”, descobriam para exaspero da família Dantas!

Acabamos que ficamos noivos naquela confusão toda. Foi quando o velho Dantas, pai de Francisco, um homem muito correto, honesto, reuniu a família e disse aos outros filhos: “Olha, vocês ficam fazendo campanha contra e o menino está aí namorando com ela. Ele gostou dessa moça! Ele está namorando essa moça! E todo mundo fazendo pressão contra... Eu acho que se Dantinhas está desse jeito mesmo, se ele quer casar, deixa casar, deixa casar”! Assim foi que o velho Dantas deu o alvará para podermos casar. Ele deu dois apartamentos para Francisco no casamento, moramos num e o outro ficava também no mesmo prédio. O prédio é o mesmo que hoje tem o restaurante "Gruta di Capri" em Icaraí, Niterói, na rua Miguel de Frias. Na época, era um prédio bonito. Hoje, está cercado de arranha-céu, mas na ocasião era muito bom!

“Logo depois da reunião em que o velho Dantas resolveu a situação de Francisco, eu estava com meus pais em Iriri, litoral do Espírito Santo, onde papai tinha uma casa de praia. Iriri ficava uns 500 quilômetros do Rio, mas seu pai foi bater lá de táxi! Foi lá para dizer que o pai dele tinha dado o alvará para ele casar e queria que eu já entrasse com ele no táxi de volta para casar! Veja só!!! Minha mãe que estava comigo em casa apressou-se a dizer para Francisco: “Não, rapaz, as coisas não são assim não! Ela não vai largar tudo não. Que negócio é esse de entrar dentro desse táxi para casar”?! Contudo, as palavras da minha mãe não desfizeram muito da pressa do teu pai não. Ele entrou no táxi, chegou no Rio e correu para marcar o casamento para dali três meses! Loucura que só homem apaixonado faz!...

terça-feira, 14 de agosto de 2012

O belíssimo hino acreano!


I
Que este sol a brilhar soberano
Sobre as matas que o vêem com amor
Encha o peito de cada acreano
De nobreza, constância e valor...
Invencíveis e grandes na guerra,
Imitemos o exemplo sem par
Do amplo rio que brilha com a terra,
Vence-a e entra brigando com o mar.

Estribilho
Fulge um astro na nossa bandeira,
Que foi tinto com sangue de heróis
Adoremos na estrela altaneira
O mais belo e o melhor dos faróis

II
Triunfantes da luta voltando,
Temos n'alma os encantos do céu
E na fronte serena, radiante
O imortal e sagrado troféu,
O Brasil a exultar acompanha
Nossos passos, portanto é subir,
Que da glória a divina montanha
Tem no cimo o arrebol do porvir.

III
Possuímos um bem conquistado
Nobremente com armas na mão
Se o afrontarem, de cada soldado
Surgirá de repente um leão.
LIBERDADE é o querido tesouro
Que depois do lutar nos seduz
Tal rio que rola, o sol de ouro
Lança um manto sublime de luz.

IV
Vamos ter como prêmio de guerra
Um consolo que as penas desfaz,
Vendo as flores do amor sobre a terra
E no céu o arco-íris da paz.
As esposas e mães carinhosas
A esperar-nos nos lares fiéis
Atapetam as portas de rosas
E, cantando, entretecem lauréis.

V
Mas se audaz estrangeiro algum dia
Nossos brios de novo ofender,
Lutaremos com a mesma energia
Sem recuar, sem cair, sem temer
E ergueremos então destas zonas
Um tal canto vibrante e viril
Que será como a voz do Amazonas
Ecoando por todo o Brasil.


Letra: Dr. Francisco Mangabeira 
Música: Mozart Donizeti
Voz: Raquel Ribera

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

OS HOMENS OCOS - T. S. ELIOT

T.S. Eliot
       
                                                         "A penny for the Old Guy"
                                                         (Um pêni para o Velho Guy)


         Nós somos os homens ocos
         Os homens empalhados
         Uns nos outros amparados
         O elmo cheio de nada. Ai de nós!
         Nossas vozes dessecadas,
         Quando juntos sussurramos,
         São quietas e inexpressas
         Como o vento na relva seca
         Ou pés de ratos sobre cacos
         Em nossa adega evaporada
         Fôrma sem forma, sombra sem cor
         Força paralisada, gesto sem vigor;
         Aqueles que atravessaram
         De olhos retos, para o outro reino da morte
         Nos recordam - se o fazem - não como violentas
         Almas danadas, mas apenas
         Como os homens ocos
         Os homens empalhados.


                      II


         Os olhos que temo encontrar em sonhos
         No reino de sonho da morte
         Estes não aparecem:
         Lá, os olhos são como a lâmina
         Do sol nos ossos de uma coluna
         Lá, uma árvore brande os ramos
         E as vozes estão no frêmito
         Do vento que está cantando
         Mais distantes e solenes
         Que uma estrela agonizante.
         Que eu demais não me aproxime
         Do reino de sonho da morte
         Que eu possa trajar ainda
         Esses tácitos disfarces
         Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
         E comportar-me num campo
         Como o vento se comporta
         Nem mais um passo
         - Não este encontro derradeiro
         No reino crepuscular


                    III


         Esta é a terra morta
         Esta é a terra do cacto
         Aqui as imagens de pedra
         Estão eretas, aqui recebem elas
         A súplica da mão de um morto
         Sob o lampejo de uma estrela agonizante.
         E nisto consiste
         O outro reino da morte:
         Despertando sozinhos
         À hora em que estamos
         Trêmulos de ternura
         Os lábios que beijariam
         Rezam as pedras quebradas.


                    IV


        Os olhos não estão aqui
         Aqui os olhos não brilham
         Neste vale de estrelas tíbias
         Neste vale desvalido
         Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos
         Neste último sítio de encontros
         Juntos tateamos
         Todos à fala esquivos
         Reunidos na praia do túrgido rio
         Sem nada ver, a não ser
         Que os olhos reapareçam
         Como a estrela perpétua
         Rosa multifoliada
         Do reino em sombras da morte
         A única esperança
         De homens vazios.


                    V


         Aqui rondamos a figueira-brava
         Figueira-brava figueira-brava
         Aqui rondamos a figueira-brava
         Às cinco em ponto da madrugada
         Entre a idéia
         E a realidade
         Entre o movimento
         E a ação
         Tomba a Sombra
         Porque Teu é o Reino
         Entre a concepção
         E a criação
         Entre a emoção
         E a reação
         Tomba a Sombra
         A vida é muito longa
         Entre o desejo
         E o espasmo
         Entre a potência
         E a existência
         Entre a essência
         E a descendência
         Tomba a Sombra
         Porque Teu é o Reino
         Porque Teu é
         A vida é
         Porque Teu é o
         Assim expira o mundo
         Assim expira o mundo
         Assim expira o mundo
         Não com uma explosão, mas com um suspiro.


(tradução de Ivan Junqueira)

sábado, 4 de agosto de 2012

Ainda sobre o CONPLEI - sobre Ronaldo Lidório, trabalho voluntário e antropólogos disfarçados de cristãos


Não poderia escrever esta série de artigos sobre o 7º Congresso do CONPLEI sem deixar de destacar o Rev. Ronaldo Lidório da APMT (Agência Presbiteriana de Missões Transculturais). Missionário experiente, Lidório nos trouxe duas palavras importantes no contexto de missões. Uma palestra sobre a Igreja Missionária e a segunda sobre o coração do missionário.

Na primeira, Rev. Ronaldo Lidório chamou a atenção para o problema do narcisismo dos líderes, missionários e denominações evangélicas. Na verdade, ele destacou tanto o narcisismo quanto o hedonismo como os grandes inimigos da Igreja que avança. O primeiro diz respeito à igreja que busca disseminar a si mesma e não ao Evangelho e o segundo diz respeito à igreja que busca fazer de si mesma um playground para que os cristãos passem por esta vida entretidos consigo mesmos, enquanto o ide de Jesus passa ao largo de nossos planos egoístas. Lidório trouxe a frase de John Knox para o Congresso: “A única ponte entre o conhecimento e a transformação é o quebrantamento”! Assim, Lidório aponta uma saída para a igreja hedonista e narcisista. Hoje, muitos missionários, denominações e agências estão preocupados tão somente com relatórios e fotografias bonitas do campo, enquanto a verdade do coração de cada um de nós não tem sido o alvo prioritário da igreja. “Reputação é o que as pessoas falarão sobre você no dia do seu velório, mas caráter é o que os anjos dirão a seu respeito no dia da sua morte”, citou essa frase já bem conhecida e que expressa o centro da mensagem que ele trouxe para nós no Congresso. Por fim, Lidório compartilhou ainda a frase do jovem missionário americano, morto em missão pelo povo indígena Auca no Equador, Jimmy Elliot: “Viva de tal forma a sua vida, que, ao final, você não tenha mais nada a fazer a não ser morrer”!

Na segunda, Lidório trouxe-nos uma palavra pastoral com base no Salmo 139, versos 23 e 24. A tese era a de que Deus está preocupado com nosso coração. É possível trabalharmos na obra do Senhor e não termos nenhum relacionamento com Ele. É possível pregarmos sobre coisas que não vivemos e não experimentamos. Mas Deus conhece o nosso coração e pode ministrar cura ao que se encontra vazio e “acostumado” à obra de Deus.

Além desses momentos especiais, é preciso destacar aquela pequena igreja do interior do Amazonas que trouxe 50 membros que ficaram responsáveis pela cozinha do Congresso. Um exemplo de amor, carinho e dedicação à obra missionária. Um dos membros dessa pequenina igreja havia ferido profundamente um dos pés nos dias que antecederam ao Congresso, mas estava ali presente: “Eu precisava estar aqui, porque havia feito um compromisso com Deus, um compromisso de serviço”...

Outro charme do evento que, certamente, não passou desapercebido por nenhum de nós foi a presença dos americanos na área de limpeza do CONPLEI. Durante todos os dias do evento, havia um grupo de americanos dedicados ao trabalho voluntário da limpeza no Congresso. Sempre sorridentes, atenciosos, eles não somente cuidaram da limpeza como também serviram os almoços e jantas!

A APMT (Agência Presbiteriana de Missões Transculturais) estava marcando presença na coordenação da área de saúde do Congresso com atendimento odontológico e de enfermaria. 

Contudo, um evento dessa magnitude contou com um seleto grupo de antropólogos disfarçados de cristãos! Veja, que maravilha! Uma dessas antropólogas era bem conhecida nossa e até mentiu o próprio nome se fazendo passar de evangélica e entrevistando os indígenas participantes. Ela foi professora de vídeo de um dos indígenas que veio conosco. Estava sentada ao lado dele e, por isso mesmo, naquele momento não pode mentir tendo seu aluno como testemunha: “Quem é você?”, perguntou a Lu. Ao que ela respondeu: “Sou professora dele, ensinei vídeo e filmagem na aldeia”... Nós sabíamos quem era ela. Antropóloga famosa, recebeu prêmio na França com um documentário sobre um dos povos da Região. Agora, ela prepara um documentário sobre o trabalho missionário entre os indígenas. Há uns dois anos que temos acompanhado suas intenções de denegrir o trabalho de evangelismo entre os povos indígenas. 

Leia também: 

7º Congresso do CONPLEI – do vício às virtudes (3ª parte de 3)

 

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