domingo, 29 de dezembro de 2013

Assim nasce a Filosofia (série "História da filosofia" - I)

Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome. E Adão pôs os nomes a todo o gado, e às aves dos céus, e a todo o animal do campo. Gn 2: 19-20. 

Nasci em uma geração marcada pelo pós-modernismo literário e a pós-modernidade cultural. Em outras palavras, cresci na pluralidade, no relativismo, nas incertezas, nas inverdades e sob o signos do desconstrutivismo... Acredito que por isso mesmo sempre me foi tão intrigante que a filosofia tenha nascido na contramão de tudo o que vejo hoje ser tratado filosoficamente. A filosofia nasce com a redução da multiplicidade, à unidade. 

E sempre me pareceu “exótico” e inatingível essa busca pelo “um”. Um arché, um princípio comum a todas as coisas. Por que esse anseio? Por que essa obstinação grega pelo monismo? Nunca me pareceu fazer sentido essa indagação, mas, hoje, entendo que a minha estranheza em relação aos “pré-socráticos” advém da minha cosmovisão pós-moderna: não há “um” para mente decadente e cansada dos postulados modernos. A modernidade falhou em suas tentativas de organizar o mundo e controla-lo pela razão iluminista. Em outras palavras, “há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que sonha a nossa vã filosofia”. Assim, a vã filosofia moderna iluminista, positivista, cientificista, humanista e darwinista falharam e todas as gerações seguintes, as gerações do pós-guerra, nasceram sob o estigma da dúvida, da suspeita, da inverdade, da pluralidade, da morte do Absoluto.

Como seria possível ao homem “pós-moderno” encontrar-se com os “pré-socráticos”? O postulado da modernidade cultural elegeu na literatura o seu verso emblemático: “sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta”! E para nós, se alguma verdade for frustrada, se nossas opiniões falharem, se descobrirmos que alguma interpretação não se encaixar suficientemente ao nosso estilo de vida, então, não há problema algum, porque, segundo os versos do poeta, “si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!”. Esta facilidade, esse camaleonismo, esse roubo, essa manipulação, o furto a realidade, tudo isso demonstra que nossas respostas não precisam caminhar em direção ao “um”. Neste sentido, portanto, somos antifilósofos pré-socráticos.

Ao contrário dos homens do meu tempo, os antigos pensadores milesianos buscaram reduzir a multiplicidade à unidade. As estrelas, os planetas, os animais, os seres humanos, o rio: toda essa movimentação, essa aparente efemeridade, esse tempo fugaz, para ser captado, compreendido, discernido, dominado pela razão humana precisaria ter algo de perene e comum, algo que perpassasse tudo e permanecesse além da deterioração final. “Tudo é um”! Se não fosse, como poderíamos captar? A realidade, como os nossos sentidos percebem, é múltipla, não há dúvida, mas como tal multiplicidade foi organizada, ordenada? Por que essa multiplicidade de características singulares é assim e não de outra maneira? Toda essa multiplicidade patente deve ser originada e guardar em si algo de estático para que possamos apreender, do contrário, como nossa razão poderia reter e estudar o mundo? Deve haver uma razão para tudo isso ser isso e não outra coisa... Diante desse mar de indagações, os pré-socráticos foram atrás da unidade necessária. E muitas foram as propostas de reduzir a multiplicidade ao “um”: água, ar, fogo, “o ilimitado” apeíron, enfim, algo que pudesse possibilitar que conhecêssemos as coisas. A busca pela imutabilidade do movimento. Algo que pudesse existir, apesar das coisas que existem hoje e que amanhã já perecem na foz que leva ao nada... Nada? Se o nada é o que há, então nada poderia ser conhecido. É preciso que haja uma razão por trás de tudo, uma ordem, uma realidade que perdure ao nada.

Enfim, é preciso convidar Adão para dar nomes aos animais e só é possível nomear aquilo que é real, aquilo que há, aquilo que permanece. Só é possível conhecer o imutável de toda essa mutabilidade. Se todas as coisas mudam, segundo Heráclito, a lei da mudança não muda. Para Heráclito, o logos não muda. Está aberto o caminho para sondarmos o mistério desse logos. O que seja o logos ninguém ainda sabe ao certo, é provável, porém, que ele exista e que é por essa verdade única, por esse monismo, que será possível à razão humana perscrutar a realidade de todas as coisas – assim nasce a Filosofia!    

domingo, 22 de dezembro de 2013

Eric Voegelin e a Escola roubada

Com imenso prazer fiz a leitura de “Reflexões autobiográficas” de Eric Voegelin nesta tarde chuvosa de sábado. Digo “imenso prazer”, porque, verdadeiramente, foi uma alegria intelectual inesperada este encontro com Voegelin. Um verdadeiro gigante, um scholar, um cientista político culto no melhor sentido do adjetivo.

O livro é uma edição belíssima da É Realizações e que faz parte da Coleção Filosofia Atual da Editora. A É Realizações tem-se empenhado em trazer uma luz à miséria da vida intelectual brasileira, publicando títulos inéditos, mas fundamentais para a formação de um país que muito precocemente resolveu amputar a herança européia que poderia ter recebido mais duradouramente da tradição lusitana. 

A Editora É Realizações, então, parece ter abraçado a missão de colaborar para que o Brasil não mergulhe (ainda mais) naquilo que o próprio Eric Voegelin demonstra como sendo o que entronizou o nazismo no poder: “O fenômeno de Hitler não se esgota em sua pessoa. Seu sucesso deve ser situado no quadro geral de uma sociedade arruinada intelectual ou moralmente, no qual figuras que em outros tempos seriam grotescas e marginais podem ascender ao poder público por representarem formidavelmente o povo que as admira”. Diante das palavras de Voegelin, é impossível não pensar no fenômeno do PT, nos mensaleiros e no messianismo encarnado por Lula. Contudo, será que ainda há tempo de criarmos e investirmos numa geração que olhe o passado e seu legado, procurando aprendê-lo, discernindo-o e traduzindo a Tradição em homens com a envergadura espiritual que tanto precisamos? Ou será que já seria tarde demais?

O livro é uma “história da formação intelectual de Voegelin” contada por ele mesmo. São vários os temas que ele aborda, desde sua experiência na efervescente Viena do seu tempo até o exílio nos Estados Unidos. Voegelin impressiona qualquer leitor que pense que já leu ou que conhece alguma coisa da vida erudita. Exatamente por essa vastidão expressa em suas reflexões autobiográficas é que me delimito, neste texto, ao segundo capítulo do livro. Por quê? O diminuto segundo capítulo fala sobre a imensa formação dele no ensino secundário e não há como ler aquelas páginas sem ficar com uma estranha sensação de assalto. Sim, assalto, aquela forte impressão que os discursos enjoados da Nova Pedagogia, dos Parâmetros Curriculares Nacionais, esse ensino visando o aluno como ator principal no palco da escola, "ensino por meio de projetos", essa educação que supervaloriza o que o aluno traz de casa e da rua, entre tantas outras vilanias que o leitor já conhece tão bem... Na verdade, todos esses discursos enjoados encobrem o fato de que estamos sendo enganados, roubados, lesados nas oportunidades intelectuais que deveriam oferecer aos nossos jovens e não estão.

Quero fazer-me entender melhor. Durante sua escola secundária, Eric Voegelin diz que frequentou um Real-Gymnasium e ali teve oito anos de latim, seis de inglês e, como matéria opcional, dois anos de italiano. Não fosse isso suficiente, os pais de Voegelin ensinaram francês em casa para ele! Realmente, estamos diante de um outro mundo. Mas, veja, Voegelin não nasceu durante a Idade Média e nem tão pouco viveu o Iluminismo do Século XVIII. Estamos falando de uma realidade de apenas um século atrás e que, como se percebe, foi rapidamente corroída pela Nova Escola. Aliás, sinceramente, não sei se tivemos por aqui alguma escola em que “um dos pontos altos” do ensino secundário tivesse sido o estudo de Hamlet, durante todo um semestre, interpretado segundo a psicologia da Geltung de Alfred Adler! Nem sei se tivemos professores que durante a oitava série de alguma escola brasileira ensinaram tão bem matemática e física que, ao final do ginásio, “éramos capazes de nos interessar pela Teoria da Relatividade, que se tornara célebre havia pouco tempo”. 

Ou mesmo Universidades cujos estudantes pudessem experienciar já no primeiro semestre de seus cursos do testemunho de Voegelin, que já se encontrava “cansado do assunto (ele está falando sobre o marxismo), pois cursara disciplinas de teoria econômica e história da teoria econômica e aprendera o que estava errado em Marx”.

Diante do testemunho de Eric Voegelin, eu nem prosseguirei para dizer sobre a Universidade dele: seus professores, os mestres e doutores do quadro docente, etc. Contudo, gostaria de compartilhar com o querido leitor essa estranha sensação de ter sido roubado naquilo que, na verdade, nem sequer por um dia foi-me oferecido pela Escola Brasileira, essa tão alienada "Escola para todos"...   

PS - Eu nem sei qual a razão de estar postando este vídeo aqui...

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O Natal segundo Jean Paul Sartre


“A Virgem está pálida e contempla o menino. O que dizer daquela expressão de perplexidade que foi vista uma única vez num semblante humano? Porque o Cristo é o seu filho, a carne da sua carne, e o fruto do seu ventre. Ela o carregou por nove meses, vai lhe oferecer o seio e o seu leite se tornará o sangue de Deus.
Em alguns momentos a tentação é tão forte que esquece que é o Filho de Deus. Ela o aperta em seus braços e sussurra: Meu filhinho! Mas, em outros momentos, imóvel pensa: Deus está ali. E é tomada por uma admiração religiosa por esse Deus mudo, por esse menino que, de uma certa forma, causa medo.
Todas as mães, por um instante, ficam transtornadas diante daquele fragmento rebelde da sua própria carne que é um (seu) filho. E se sentem exiladas diante dessa nova vida feita da (sua) própria vida, mas que contém outros pensamentos.
Mas nenhuma criança foi arrancada de sua mãe de um modo tão cruel e rápido porque é Deus e supera em tudo o que ela poderia imaginar. E é uma dura provação para uma mãe ter vergonha de si mesma e da sua condição humana diante de seu filho.
Mas creio que deve ter havido outros momentos, rápidos e fugazes, nos quais ela sente que o Cristo é o seu filho, a sua criança, e que é Deus. Ela o contempla e pensa: este Deus é o meu filho. Esta carne é a minha carne, é feito de mim, tem os meus olhos! E a forma da sua boca é semelhante à minha boca. Ele se parece comigo. É Deus e se parece comigo.
Nenhuma mulher teve a sorte de ter o seu Deus só para si. Um Deus menino que se pode abraçar e cobrir de beijos. Um Deus quente, que sorri, que respira. Um Deus que está vivo e se pode tocar!
É nesses momentos que eu pintaria Maria se eu fosse pintor.
E José? José, eu não o pintaria. Mostraria apenas uma sombra no fundo do celeiro e dois olhos brilhantes. Pois não sei o que dizer de José, e José não sabe o que dizer de si mesmo. Adora e está feliz por adorar e se sente um pouco em exílio. Creio que sofra sem confessar. Sofre porque vê o quanto a mulher que ama se parece com Deus, o quanto está perto de Deus. Pois Deus estourou como uma bomba na intimidade dessa família. José e Maria estão separados para sempre por esse incêndio de luz. E toda a vida de José, imagino, será para aprender a aceitar.”
(Os filhos do trovão, de Jean-Paul Sartre)
O texto acima foi retirado do blog da Velvet Poison
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Que face de Sartre é essa? 
 
Lembrei-me da passagem do jovem rico que encontra com Jesus e diz para este coisas tão certas, mas, ainda que o jovem conseguisse atingir a verdade em palavras, não foi por esta atingido no âmago do seu coração... e o jovem rico sai, então, triste daquele encontro com Jesus. 
 
Sartre já havia escrito "A náusea" antes do texto de teatro acima. Sarte também já havia publicado que era ateu e já havia definido as bases de sua filosofia existencialista. Mas, no período em que compôs essa peça de teatro, entre 1940 e 1941, ele estava preso num campo de concentração alemão! O que não faz uma prisão com um homem, hein? Até o mais "durão" dos ateus... Contudo, independente dessas informações biográficas, o texto é belo, sublime, poético e mostra como que qualquer um pode atingir a verdade, ainda que ele mesmo não seja atingido pela Verdade (confira o capítulo 1 da carta de Paulo aos Romanos, especialmente a partir do verso 18).
 
Mas grandes experiências de espiritualidade (cristãs ou não cristãs) nasceram do confinamento, da reclusão, do exílio. Surgiram grandes poetas, caráteres foram moldados, a realidade de morte foi absorvida e traduzida em VIDA! 
 
Victor Frankl é um bom exemplo de enfrentamento, absorção e superação da realidade  que o cercava. Também preso num campo de concentração, esse médico psiquiatra criou, a partir de suas experiências do cárcere, a Logoterapia, que é um ótimo exemplo do que estou querendo dizer aqui. A Logoterapia preconiza a busca do homem pelo sentido da vida, esta é a causa verdadeira de nossas neuroses (e não simplesmente as frustrações sexuais, como insistia Freud). Frankl ensinou que, diante de uma realidade irremediável, o homem precisa absorver essas experiências para a formação da sua individualidade. Ano passado, tive o prazer de ler o ótimo “Em busca de sentido” (livro desse psiquiatra que indico a todos que anseiam por uma abordagem mais profunda acerca da espiritualidade humana).
 
Não posso deixar de lembrar de Dostoiévski, que esteve diante de um pelotão de fuzilamento com as armas apontadas para ele e, no exato momento que iam ser disparadas, chega o recado do rei, anulando a execução. Dali, Dostoiévski foi levado aos campos da Sibéria e nascia o maravilhoso "Recordação da casa dos mortos", romance que marcou minha adolescência.
 
Todavia, retornando a Sartre, este, infelizmente, não deu continuidade à mística nascida do campo de concentração. Não aproveitou o hiato da sua existência para encontrar o sentido que faltava às indagações de sua filosofia. Posso mesmo dizer que, assim como o jovem rico da narrativa bíblica, por fim, Sartre saiu daquela prisão apenas triste e empedernido de sua filosofia amarga.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Hugo de São Vítor e o Amor

É nossa intenção prestar atenção, de modo que este (o amor) não se acenda nos nossos corações como um fogo, e, de uma pequena centelha, se transmude em uma chama, sem que nos demos conta disso: o amor pode arruinar ou purificar toda a nossa vida, porque dele depende todo o nosso bem e todo o nosso mal.
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A fonte do amor se encontra no íntimo de nós mesmos e é única; ela alimenta dois riachos: o primeiro é o amor mundano e se chama cobiça, o segundo é o amor divino e é caridade. No centro de tudo está o coração humano, do qual jorra a fonte do amor: o amor impelido para fora se chama cobiça, o amor voltado pelo desejo para dentro toma o nome de caridade. Há, portanto, dois riachos que derivam da fonte do amor, a cobiça e a caridade: a cobiça é a origem de todos os males, a caridade é a origem de todos os bens. Todo o nosso bem e todo o nosso mal dependem, portanto, do amor.
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Como podemos então definir o amor? Devemos cumprir uma atenta indagação e refletir profundamente, porque o objeto de nossa investigação é bastante obscuro, entretanto, quanto mais é colocado no íntimo de nós mesmos, tanto mais domina o nosso coração em uma ou em outra direção. O amor parece ser o comprazer-se do coração de uma pessoa em alguma coisa, por causa de alguma coisa: se apresenta como desejo na procura, e felicidade na satisfação da posse, aparece como uma corrida, no que concerne ao desejo e como um repouso, no que concerne à alegria da posse.
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Quero confiar-vos um ensinamento, se é que consigo exprimir aquilo que gostaria de dizer. Deus onipotente, que não tem necessidade de nada, porque é o Sumo Bem – Ele que não pode receber algo de ninguém, que possa acrescentar algo ao seu ser, porque tudo dele provém, nem pode perder coisa alguma, ou seja, sofrer diminuição, porque todas as coisas n’Ele são imutavelmente – , criou a pessoa humana somente para o amor, não por alguma necessidade, querendo admiti-la à participação da própria beatitude. Deus pôs no homem o sentimento do amor com o escopo de torná-lo capaz de gozar um dia da sua suma felicidade.
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A pessoa humana foi, portanto, unida ao seu Criador por meio do amor e é somente o liame do amor que lhes une um ao outro: quanto mais forte este vínculo, maior será a causa da felicidade.
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Enquanto por meio do amor de Deus todos são unidos em Um só, por meio do amor do próximo todos se tornam uma só coisa entre si. Deste modo, toda pessoa singular, por meio do amor do próximo, consegue possuir nos outros, de modo pleno e perfeito, o que sozinha não conseguia acolher daquele Bem infinito, ao qual todos singularmente se unem: assim, no amor o bem de todos é totalmente possuído por cada um.
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O amor é suscitado por Deus quando recebe dele as razões pelas quais o ama, percorre o trajeto junto com ele, quando não se opõe nunca à sua vontade, tende para Deus como à sua própria meta, quando anela por encontrar nele a sua paz.
...

Ordenai o amor: o vosso desejo na sua corrida proceda de Deus, com Deus e rumo a Deus; do próximo, com o próximo, mas não rumo ao próximo; do mundo, mas não com o mundo e não rumo ao mundo, e encontre o seu repouso na alegria de Deus. Esta é a caridade bem ordenada: tudo aquilo que é privado dessa ordem é desordenada paixão.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Duas interpretações alegóricas de Ambrósio sobre Maria

"Então, o homem me fez voltar para o caminho da porta exterior do santuário, que olha para o oriente, a qual estava fechada. Disse-me o Senhor: Esta porta permanecerá fechada, não se abrirá; ninguém entrará por ela, porque o Senhor, Deus de Israel, entrou por ela; por isso, permanecerá fechada" (Ez 44:1-2).

Ambrósio interpreta: 

O que é esse portão do santuário, esta porta exterior voltada para o Oriente e que permanece fechada: 'E nenhum homem', diz, 'passará por ela, exceto o Deus de Israel'? Não é Maria a porta da qual o Redentor entrou neste mundo?... A santa Maria é a porta da qual está escrito: 'O Senhor passará por ela, e ela será fechada', após o nascimento, pois como uma virgem ela concebeu e deu à luz.   

Sobre Gênesis 2 e 4 e, também, Efésios 5: 32 ("Este é um mistério profundo; refiro-me, porém, a Cristo e à Igreja"), Ambrósio responde a pergunta 'Por que Eva teve filhos depois da Queda?', entendo estes textos à luz da obra redentora de Cristo e dando luz à natureza do Corpo de Cristo, a Igreja:

"Deus preferiu a existência de mais de um ser, os quais Ele seria capaz de salvar, em vez de ter apenas um homem que estava livre do erro. Visto que Ele é o autor de ambos, homem e mulher, Ele veio a este mundo para redimir pecadores. Finalmente, Ele não permitiu que Caim... perecesse antes de gerar filhos. ...[Eva, que] era a destinada a prover a redenção... foi enganada. ...mas [ela, sabemos] ´será salva pela gravidez' (I Tm 2. 13-15), pela qual ela gerou Cristo". 

"Cristo em Adão e a Igreja em Eva. A Igreja, portanto, tinha de certo modo pecado em Eva. Contudo, Eva (que representa a Igreja) foi salva por gerar Cristo por meio de Maria"

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

João Crisóstomo e o remédio das Sagradas Escrituras

“Este é o melhor instrumento, a melhor dieta, e o melhor clima. Ele substitui a medicina, a cauterização e a cirurgia. Quando necessitarmos de cauterizar ou cortar, devemos usar isto. Sem ele todo o restante é inútil. Por ele estimulamos a letargia da alma ou reduzimos sua inflamação, removemos excrescências e reparamos defeitos, e, em resumo, fazemos tudo o que contribui para sua saúde. ...Devemos ter grande cuidado, portanto, para que a Palavra de Cristo possa habitar ricamente em nós, pois nossa preparação não é contra um único tipo de ataque... A menos que o homem que tenciona vencer compreenda cada aspecto da sua arte, o Diabo sabe como introduzir seus agentes em um único ponto negligenciado e, assim, arrebatar o rebanho. Mas ele fica frustrado quando vê que o pastor domina todo o seu repertório e compreende completamente suas trapaças”.

“Pois seus escritos [Crisóstomo falando do apóstolo Paulo] fortalecem as igrejas por todo mundo como uma parede de aço. Agora mesmo ele permanece entre nós como algum nobre paladino, trazendo todo pensamento cativo à obediência de Cristo e subjugando imaginações e tudo que se exalte contra o conhecimento de Deus. Tudo isso ele faz por meio daquelas maravilhosas epístolas que nos deixou, tão plenas de sabedoria divina. Seus escritos nos são úteis não apenas para a refutação da falsa doutrina e o estabelecimento da verdadeira, mas também nos ajudam grandemente a viver uma boa vida. ...Tal é a qualidade e tal é a força dos remédios deixados a nós por este homem que era imperito para falar! Aqueles que os usam corretamente conhecem seu valor”.

“Ouçam-me cuidadosamente, rogo-lhes. ...Adquiram livros que sejam remédios para a alma. ...Ao menos consigam uma cópia do Novo Testamento, as epístolas do apóstolo, o livro de Atos, o Evangelhos, e tomem-nos como seus mestres constantes. Se vocês depararem com a mágoa, mergulhem neles como se fossem uma caixa de remédios; obtenham deles o conforto para os seus infortúnios, seja uma perda, ou morte, ou o luto pela perda de parentes. Não apenas mergulhem neles mas nadem também. Mantenham-nos constantemente em mente. A raiz de todos os males é a falta de bom conhecimento das Escrituras”.

“...o remédio da palavra [que] alimenta mais do que pão, restaura mais eficazmente do que uma droga e cauteriza mais poderosamente do que fogo, sem causar nenhuma dor... Mais aguçado do que ferro, ele corta com golpe indolor as áreas infectadas, sem causar nenhuma despesa pelo dinheiro ou aumento da pobreza das pessoas.”  

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Basílio, a dor da fome e a responsabilidade de cada um de nós

"A dor da fome, da qual o faminto morre, é um sofrimento horrível. De todas as calamidades, a fome é a principal, e a mais miserável das mortes é, sem dúvida, aquela pela inanição. Em outros tipos de morte - a espada que põe um rápido fim à vida, ou o fogo crepitante que queima a seiva da vida em poucos instantes, ou as presas dos animais selvagens que dilaceram os membros vitais - a tortura não seria prolongada. A fome, porém, é uma tortura vagarosa, que prolonga a dor; é uma enfermidade bem estabelecida e oculta em seu lugar, uma morte sempre presente e nunca chegando a um fim. Ela seca os líquidos naturais, diminui o calor do corpo, contrai o tamanho e pouco a pouco drena a força. A carne adere aos ossos como uma teia de aranha. A pele não tem cor. 

"...Agora, que punição não deveria ser afligida sobre aquele que passa ao largo de tal corpo? Que crueldade pode ser maior que esta? Como podemos não contar alguém assim como o mais feroz dos animais ferozes e não considerá-lo um ente sacrílego e assassino? A pessoa que pode curar tal enfermidade e por causa da avareza recusa o remédio pode com razão ser condenado como um assassino". 

sábado, 7 de dezembro de 2013

Gregório de Nazianzo e a revelação progressiva da Santíssima Trindade

"Portanto, o assunto fica assim: O Antigo Testamento proclamou abertamente o Pai e, mais obscuramente, o Filho. O Novo manifestou o Filho e anunciou a divindade do Espírito. Agora o próprio Espírito habita entre nós e supre-nos com uma demonstração mais clara de si mesmo. Pois, quando a divindade do Pai não era reconhecida, não era seguro proclamar o Filho abertamente; nem tampouco quando a do Filho não fora ainda reconhecida, sobrecarregar-nos (se é que posso usar uma expressão tão ousada) ainda mais com o Espírito Santo".

...

"Ele veio gradualmente morar nos discípulos, oferecendo-se a eles de acordo com a capacidade deles de recebê-lo, no começo do evangelho, depois da Paixão, depois da ascensão, aperfeiçoando-os, sendo soprado sobre eles e aparecendo em línguas de fogo. E por certo é pouco a pouco que Ele é declarado por Jesus, como você pode aprender por si mesmo, se ler mais cuidadosamente". 

...

"Esta, pois, é minha posição a respeito destas coisas, e espero sempre seja, e seja quem for é caro a mim: adorar Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, três pessoas, uma divindade, indivisos em honra e glória e substância e reino. ...Pois, se Ele não deve ser adorado, como pode santificar-me pelo batismo? Mas, se Ele deve ser adorado, certamente é um objeto de adoração e, se Ele é um objeto de adoração, Ele deve ser Deus. Um está ligado ao outro, uma verdadeira corrente áurea e salvadora. E, por certo, do Espírito vem nosso novo nascimento, e do novo nascimento, nossa nova criação, e da nova criação, nosso conhecimento profundo da dignidade daquele de quem este é derivado".  

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Há uma filosofia cristã? (Basil Tatakis)

O texto  que seguiremos lendo, Há uma filosofia cristã?, é do escritor grego Basil Tatakis, e se trata do primeiro capítulo de seu magistral livro Christian Philosophy in the Patristic and Byzantine Tradition , cuja tradução foi feita do grego para o inglês por George Dion, que também editou o livro em 2007 (págs 1 a 14). Estou aqui oferecendo uma tradução do texto em inglês, ou seja, uma tradução de uma tradução e espero que isto não se ofereça como um malefício para os leitores em língua portuguesa e sim como um meio de divulgação de ideias, propósito implícito a este mundo cibernético. As pessoas irão pensar que aqui não se trata de Filosofia católica e sim Bizantina, mas é importante considerar que o pensamento bizantino e o católico romano foram comuns até o cisma no século XI, mesmo que consideremos que para ter existido cisma tem de ter havido distinções fortes entre ambos os lados da Igreja. Mas podemos pensar a partir de um outro viés também: para conhecermos o pensamento católico não poderemos desconsiderar o pensamento bizantino, já que eles se complementam e justamente por suas nuances e diferenças conseguimos, aristotelicamente falando, captar suas especificidades. Veremos a partir desse texto que Tatakis segue uma orientação muito similar ao do grande E. Gilson, no que concerne à existência ou não de uma filosofia cristã.



Há uma filosofia cristã?
Basil Tatakis
trad. da versão inglesa por Rochelle Cysne

1) Os estudos clássicos e teológicos no século XIX --> Durante o século XIX, foi dado grande impulso aos estudos Gregos Clássicos. Uma notável tendência pôs de lado a herança espiritual que foi criada pela tradição cristã e, continuando a ser guiada pelo prejudicial cartesianismo, olhava  com desprezo o trabalho filosófico da era medieval, a saber, da filosofia escolástica. Uma atitude similar foi adotada por aquelas visões filosóficas que então ganharam notável circulação, como o materialismo e a filosofia positivista de Comte. Ao mesmo tempo, porém, este século foi imenso, talvez o maior, em termos de procura histórica. Pois pela primeira vez, com espaço e intensidade, a mente histórica estava objetivamente determinada a capturar e iluminar o passado inteiro em todos os aspectos por meio de sua caminhada de inquirição e crítica. Assim ela se voltou com especial atenção para a pesquisa e estudo da filosofia cristã em geral.
À parte este interesse geral na pesquisa histórica, este retorno para a filosofia Cristã tem certamente seus próprios motivos. Ele visava, por exemplo, trazer à cena da vida espiritual o homem metafísico, que o cientificismo positivista havia posto de lado. Nós não deveremos, porém, elaborar este ponto muito além, já que não devemos nos desviar de nosso curso imediato.
Quando os estudos históricos acima mencionados na filosofia medieval e cristã se multiplicaram, então surgiu a questão: "Há de fato uma Filosofia Cristã?". A discussão que se seguiu, em resposta a esta questão, foi longa e vigorosa. Um número de pesquisas foram levantadas e visões interessantes expressadas, que provaram fatos muito significativos, já que ajudaram a clarificar os dois termos contidos nas noções de "Filosofia Cristã" e tornaram possível fornecer uma resposta para a questão acima, deixando de ser tratada como exclusivamente fora até agora.
Como o estudo presente se refere às questões que relacionam a filosofia cristã e bizantina, é talvez importante, se não necessário, primeiro apresentá-la ou expô-la em uma maneira sinóptica. Ajuda valiosa para esta exposição sinóptica pode ser obtida do trabalho de Étienne Gilson, L'esprit de la philosophie medievale, especialmente os dois primeiros capítulos que se relacionam diretamente com esta questão. No final do primeiro capítulo da obra acima, uma rica bibliografia analítica é fornecida, e que se provará mais valiosa para aquele que deseja estudar essa questão mais extensivamente.

2) As questões de se há uma filosofia cristã --> Retornemos à questão posta de início, isto é, de se há uma "Filosofia Cristã". A noção "Filosofia Cristã" soa muito natural. Até agora, a discussão que tomou lugar revelou que é muito difícil defini-la. Certamente, não pode ser questionado que houve um movimento filosófico em Bizâncio, durante a Idade Média Ocidental, entre os árabes e entre os Judeus (note que a mesma dificuldade é observada com as noções de Filosofia Judaica e Muçulmana) e que um exerceu influência no outro. A questão que foi levantada não lança qualquer sombra de dúvida acerca destes eventos históricos e nem mesmo pode. Ela se relaciona, porém, a outro ponto muito mais importante. A questão é, de fato, a expressão "Filosofia Cristã" tem qualquer significado e se diz alguma coisa?
Não é se os filósofos Cristãos existiram, mas se houve qualquer filósofo enquanto Cristão; no mesmo sentido, podemos atualmente afirmar que existem filósofos que são Cristãos assim como existem filósofos que são idealistas ou empiricistas? O termo "filósofo-cristão" denota qualquer postura filosófica? Para tornar isso mais específico: é a filosofia escolástica uma verdadeira filosofia?

a) A resposta negativa dos Racionalistas --> As respostas seguintes foram as mais importantes dadas à questão. Um bom número de historiadores da filosofia concluíram que não existiu nenhuma filosofia na Idade Média, e consequentemente, o mesmo se aplica a Bizâncio. Relíquias das Filosofias gregas, fragmentos a partir quer de Platão, quer de Aristóteles, tecidos incompetentemente no corpo da teologia, isto é o máximo, que nos legaram. Nós não encontramos durante a Idade Média qualquer filosofia que seja fundamentalmente cristã e verdadeiramente criativa. A Cristandade, acrescentam, não enriqueceu a herança filosófica da humanidade.
Os historiadores da filosofia afirmam o que os filósofo explicam. Historicamente, eles dizem, nenhuma filosofia cristã pode ser observada porque tal noção é contraditória. Os puro racionalistas, a saber, aqueles que aceitam que apenas a razão deva ser a juíza de tudo, argumentam que entre religião e filosofia há uma diferença essencial, que torna qualquer cooperação entre eles impossível. Todos aceitam que a religião não pertence à ordem da razão, e consequentemente, que a razão que pertence à ordem da filosofia não pode ser derivada da ordem da religião. Não apareceria na mente de ninguém, acrescentam, falar de uma matemática Cristã, ou biologia Cristã, ou ciência médica Cristã. Isto ocorre porque matemática, biologia e ciência médica são ciências, e ciência é radicalmente diferente de religião, tanto em suas conclusões quanto em seus princípios. Pela mesma razão, eles concluem, a noção de "Filosofia cristã" não é menos irracional e contraditória, e o melhor a se fazer é abandoná-la completamente. Como podemos ver, esta discussão dá nascimento ao famoso problema das relações entre religião e ciência, ou fé e razão, que foi de tanto interesse dos pensadores modernos, especialmente nos tempos recentes.

b) A resposta dos neotomistas --> É extraordinário notar que mesmo aqueles que estudaram a filosofia Cristã durante os últimos 50 anos, por exemplo, os seguidores de Tomás de Aquino (os neotomistas) e os seguidores de Agostinho, não nos orientaram para uma resolução mais satisfatória do problema da definição de Filosofia Cristã. De fato, a visão dos primeiros parece ser mais relacionada à visão dos puro racionalistas. Tais filósofos cristãos afirmam que Tomás de Aquino é o único pensador que foi capaz de criar uma filosofia; mas a filosofia dele é única, porque é fundada em uma base puramente racionalista. Apenas o tomismo, asseveram, é um sistema de pensamento em que as conclusões derivam de pressuposições puramente racionais. Se esta filosofia, afirmam, não cai em contradição com a fé, é porque a fé é verdadeira e a verdade não pode contradizer a verdade. Em outras palavras, o filósofo tomista aceita que o Tomismo é uma operação imparcial da razão humana, que prova que todas as coisas sem voltar-se recorrentemente à fé. A conclusão é que se o Tomismo é uma filosofia verdadeira, não é tanto porque é Cristão, mas porque é filosofia. A despeito de se dizer o que é filosofia Cristã, os Neotomistas negam-na no mesmo sentido que os racionalistas. Eles desejam uma filosofia cristã na condição de que seja a única 'filosofia'.

c) A resposta dos seguidores de Agostinho --> Por outro lado, os seguidores de Agostinho claramente defendem que sua única proposta é seguir a fé. A diferença entre Platão e Aristóteles, que se basearam apenas na razão, e nós, foi a introdução da Revelação Cristã, que trouxe consigo uma profunda transformação dos termos com os quais a razão opera e concedeu assim uma nova matriz de percepção espiritual. Isto é um fato. Consequentemente, como é possível, para aqueles que possuem esta revelação filosofar como aqueles que não a tinham?As limitações de Platão e Aristóteles não são nada que as limitações da pura razão. Isso significa que qualquer filósofo que afirme que ele é autossuficiente cairá nos mesmos limites, senão em outros ainda piores; assim, o único método seguro a partir de agora é ter como nosso guia a revelação de Deus e tentar alcançar algum tipo de percepção do entendimento do seu conteúdo. Este entendimento da revelação dada é exatamente uma filosofia. Tal postura, porém, nega a filosofia, entendida como um movimento natural e plausível do pensamento. Assim, os seguidores de Agostinho, contra os neotomistas, defendem que há uma filosofia cristã, mas na condição de que é cristã e não tanto filosofia. 

3) Avaliação das respostas acima --> Estas respostas são as principais, como podemos ver, para definir a noção de  Filosofia cristã. Poderíamos então dizer que esta noção de fato contém uma contradição e nenhum conteúdo real? Se olharmos atentamente para a maneira com a qual estas conclusões foram desenhadas, nós não encontraremos nenhuma dificuldade para observar que elas são exclusivistas, ou melhor dizendo, dogmáticas. Ou começam como pura racionalistas ou terminam como as demais com uma simples definição de religião, de filosofia e de ciência. É porque estas definições são contraditórias que, naturalmente, elas acabam num beco sem saída e se encontram incapazes de extirpar a contradição que o termo "Filosofia cristã" consagra. Eles não consideraram suficientemente que a resposta para a questão de se há realmente uma filosofia cristã não surge de uma investigação racional e da análise dos termos, mas da realidade histórica e apenas dela. Em outras palavras, nós necessitamos examinar se em qualquer tempo o pensamento filosófico e a fé cristã deram e receberam conteúdo um do outro, se tiveram relações mútuas. Apenas uma investigação metódica de tais questões nos daria uma firme fundação para compreender a noção de Filosofia Cristã. Esta é exatamente a visão de Gilson. (L’esprit de la philosophie medievale, J. Vrin, Paris, 1932).

4) A Visão crítica de Harnack (Adolf von Harnack (1851 – 1930) foi um historiador e teólogo alemão famoso por sua visão da “Helenização da Cristandade” e significativos estudos sobre a Igreja oriental, especialmente por seu volumoso trabalho (História da Dogma- Lehrbuch des Dogmengeschichte), 7 volumes, traduzido do alemão já em terceira edição, Williams and Norgate, London, 1894 – 1899, Cf. ODCC, p. 740. NCE 6 , pp. 648-649). --> Não obstante, mesmo nesta área, objetores emergiram, isto é, sábios pensadores que negaram que as relações mútuas entre o pensamento filosófico e a fé Cristã tenham existido. Assim, o famoso historiador religioso Harnack defendeu a visão de que a Cristandade dos primeiros séculos tinha um caráter exclusivamente prático e era estranha a qualquer teoria. Ele foi seguido nesta visão por muitos outros. Ninguém discordaria deles se estivesse em jogo simplesmente entender sua afirmação negando que a Cristandade  é idêntica à filosofia. Nada seria mais óbvio. Não obstante, quando arguem que mesmo no nível puramente religioso, a Cristandade não trouxe qualquer elemento teorético, mas foi simplesmente um "movimento de ajuda mútua", então é óbvio que eles vão além do que uma investigação histórica permite-nos afirmar. Neste caso, teríamos que ignorar muitos textos não propriamente de filósofos cristãos, mas do próprio Novo Testamento, como por exemplo a primeira carta de João e toda a teoria mística Cristã que se baseou nela. "Deus", ela diz, "é luz e não há trevas nEle. Se dizemos que temos comunhão e andamos nas trevas, nós mentimos e não agimos com a verdade. Se, por outro lado, nós andamos na luz, como Ele está na luz, nós temos comunhão uns com os outros e o sangue de Jesus Cristo nos limpou de todo pecado". (1 João 1: 5-6) Também, "Nós sabemos que passamos da morte para a vida, quando amamos nossos irmãos; aquele que não ama permanece na morte. Quem quer que odeie seu irmão é um assassino e sabeis que nenhum assassino tem a morada da vida eterna nEle". (1 João 3: 14-15).

Estes são textos teóricos, e não são os únicos. Indo além, não há como esquecermos os ensinamentos de Paulo acerca da Graça Divina, na qual Agostinho fundou sua filosofia. E também podemos mencionar o prólogo do Evangelho de João, que contém os ensinamentos sobre o Logos (o Verbo) e a multidão de ensinamentos de Cristo concernentes, por exemplo, ao Pai dos Céus, ou Deus, que é Providência, ou vida eterna e o Reino Eterno dos Céus. Teríamos com este exemplo, esquecido também que a cristandade no início era muito conectada ao judaísmo e que o Antigo Testamento contém uma multidão de pensamentos sobre Deus  e sobre o governo do mundo por Deus.

5) A correta abordagem de acordo com Gilson (Étienne Gilson (1884-1978) foi um filósofo francês tomista que escreveu extensivamente sobre filosofia em geral e sobre filosofia cristã em particular).
--> De tudo isso dito acima, ainda que não tenha um caráter puramente filosófico, não obstante sejam teses religiosas com conteúdos teóricos, aguardam uma alma apropriada para por a descoberto as visões e conclusões filosóficas que estão contidos neles. Assim poderemos entender a  influência que as Escrituras exerceram no desenvolvimento da filosofia. Para explicar isto, é suficiente perceber que a vida Cristã contém desde seus primórdios elementos teóricos que abriram certos caminhos distintivos para o pensamento filosófico.

Foi isto realmente o que aconteceu? A Cristandade realmente trouxe mudança no curso da História da Filosofia, abrindo à razão o horizonte da fé, que a razão sozinha não poderia ter descoberto? Mesmo um simples lançar de olhos para a história da filosofia nos tempos modernos, diz  Gilson, é suficiente para nos persuadir do que realmente aconteceu.

Penso ser muito interessante seguir como ele defende e prova esta visão particular.

6) A discussão de Gilson de Descartes --> Gilson escolhe para a discussão um filósofo muito importante, o francês R. Descartes, que é justamente reconhecido como o fundador da filosofia moderna. Nós associamos, ele diz - e isto é muito pertinente - o grande crescimento da filosofia no século XVII com o crescimento da ciência natural e matemática. Este é, de fato, o ponto em que o Cartesianismo embasa sua antítese para com a filosofia escolástica. Quando, porém, vemos as coisas neste prisma, vemos apenas metade da verdade. Nós só somos capazes de ver muito acertadamente o conjunto de Descartes e da filosofia moderna, diz Gilson, se examinarmos os pontos em que o cartesianismo se põe em contradição ou se separa dos metafísicos gregos. Nós então encontraremos que há na análise de Descartes alguma coisa diferente, algo novo e, o que é mais importante, que este elemento novo e diferente se deve ao trabalho da fé Cristã sobre a razão. Tal investigação mostraria que a filosofia moderna de Descartes a Kant e mesmo além, tanto quanto no século XIX, -hoje nós iríamos além e falaríamos de James, Bergson, e assim por diante - não seriam quem realmente foram se as filosofias cristãs não se tivessem desenvolvido antecipadamente desde os primeiros séculos da Cristandade até à Renascença. Isso mostraria, em outras palavras, que uma grande extensão da filosofia moderna deve sua influência à Cristandade, em alguns princípios diretivos que a inspiram.

7) Influências cristãs na filosofia moderna --> Quais são elas? No início de nosso século, um filósofo francês chamado Hamelin (um importante estudante de Aristóteles, (1856-1907) foi um filósofo francês, que ensinou na Universidade de Bordeaux e na Sorbone)), falando sobre Descartes, disse que "ele veio após os antigos, como se não houvesse quase nada entre eles e ele..." Como, pergunta Gilson, nós devemos entender aquela pequena expressão "quase"? E o que nós devemos por entre Descartes e os antigos? Nós devemos, ele diz, antes de tudo lembrarmo-nos do pequeno trabalho de Descartes, "Meditações metafísicas... por meio das quais a existência de Deus e a imortalidade da alma são provadas". As provas, que ele dá para a existência de Deus, estão relacionadas às provas que Tomás de Aquino e Agostinho proveram. Com certeza não é impossível mostrar quanto a teoria cartesiana deve aos filósofos cristãos com respeito à liberdade, às relações entre a Graça Divina e a livre vontade humana. Isto bastaria, ele acrescenta, para observar que o sistema inteiro de Descartes está baseado na ideia de um Deus Onipotente, que em algum tipo de caminho Se cria, que, em maior extensão, cria as verdades eternas, mesmo as matemáticas, que cria o Universo do nada e a preserva na existência com operação criativa incessante de momento a momento; sem esta criação incessante, diz Descartes, todas as coisas cairiam imediatamente novamente no nada e no caos, de onde a vontade de Deus retirou para trazer à existência. 

8) A abordagem moderna (cristã) do problema da Criação --> O problema da Criação não era objeto de investigação dos filósofos Gregos no mesmo sentido que foi para os cristãos. É óbvio que neste ponto Descartes está baseado diretamente na tradição bíblica e no desenvolvimento que os Pais da Igreja forneceram junto aos escolásticos. Mas como Descartes vê Deus em geral? Ele o vê como infinito, perfeito, Onipotente, criador do Céu e da terra, que criou o homem "à sua imagem e semelhança" e sustenta todos os seres com Seu próprio poder criador, o qual trouxe as coisas à existência. Não discernimos neste padrão a essência e os atributos do Deus dos Cristãos? Descartes pode reivindicar não estar baseado na teologia ou na revelação em nada; que todas as suas idéias são claras e distintas e claramente que ele se serviu apenas da razão natural, bastando uma pequena análise com firme atenção para este conteúdo se realizar. Descartes pode afirmar isso, mas permanece o fato de que sua visão ( as únicas puramente racional e intelectual, como ele as designa) concordam exatamente com aquelas que a Cristandade ensinou em todo o século XVI antes dele e em nome da fé e da Revelação. Esta harmonia mostra claramente que a preparação da mente filosófica dos tempos modernos deve ser procurada no trabalho da Cristandade, ao menos na mesma medida em que é procurada nos trabalhos dos filósofos Gregos.

9) A Influência cristã em outros filósofos Modernos --> É particularmente importante mostrar que se continuarmos nossa investigação na esfera da filosofia moderna, descobriremos que o caso de Descartes não é uma exceção, mas quase a regra. Em Malebranche, Berkeley, Hume e Leibniz (sem mencionar Pascal, cujo pensamento é completamente mergulhado na cristandade e especialmente em Agostinho) ou Kierkegaard (século XIX) que é completamente bíblico, veremos sem qualquer dificuldade que a fonte para suas filosofias era a essência da tradição filosófica cristã, não sendo seguida antiga filosofia Grega  principalmente com respeito aos seus métodos.

Tendo por fundamento tais conclusões, poderíamos afirmar, falando mais genericamente, que quando um filósofo moderno vê com novos olhos as coisas de um modo independente da tradição filosófica Grega (como a análise que mostraremos), em muitíssimas ocasiões esta nova visão tem sua raiz na antropologia Cristã, no homem metafísico que levou à descoberta dentro de nós da revelação Cristã. Tal é a opinião de Leibniz. Seu trabalho, Discurso de Metafísica, que lida com a noção de um ser livre e perfeito, que é Deus, defende a Divina Providência e finaliza com as seguintes palavras: "Os antigos", ele diz, "sabem muito pouco com respeito a estas importantes verdades: apenas Jesus Cristo foi capaz de formulá-las de um modo divino, mas também tão puramente e acessivelmente que mesmo as pessoas mais simples poderiam entendê-las; assim Seu Evangelho mudou completamente a face das coisas humanas". Ele não acreditava, como pensamos, que ele veio imediatamente após os Gregos como se não houvesse nada entre ele e eles.

10) As conclusões de Gilson --> O olhar que Gilson lança na filosofia moderna, eu penso, mostra muito claramente que a divisão entre filosofia e religião não era radical em qualquer ponto, e que as metafísicas dos filósofos modernos eram influenciadas pela essência da revelação cristã muito mais profundamente do que assumiriam facilmente. É muito evidente que as ideias filosóficas passaram da revelação cristã para a pura filosofia; a metafísica, então, recebeu alguma coisa da Bíblia e dos Evangelhos. Um exemplo clássico é o de Kant na Crítica da Razão Prática, que é Cristã em sua inspiração e que veio completar sua Crítica da razão Pura, que é Grega, ou melhor dizendo, teorética, e consequentemente conectada com a essência racional da Razão. Em outras palavras, é claramente evidente que na última análise, é impossível entender que os sistemas, diríamos de Descartes, ou de Kant  ou de Leibniz, teriam sido construídos como o foram, sem ter recebido a influência da religião Cristã. tudo isso demanda de nós o reconhecimento que a influência da cristandade na filosofia foi um fato real e que tais coisas mostram de uma aneira clara se a noção de Filosofia Cristã tem algum significado e qual seja realmente. Fé é, de fato, a fonte que alimenta o pensamento filosófico.

11) O caso do positivismo de Comte --> No início do século passado, o filósofo francês Comte, o fundador da filosofia positivista, acreditou que ele tinha concebido de uma maneira definitiva, com sua famosa lei dos três estágios, o ritmo da história da civilização. O primeiro estágio era aquele da mitologia, o período do mito, sendo o seguinte o período da metafísica, de acordo com o qual o pensamento era racional mas não com referência às coisas mesmas. Este período foi seguido nos tempos modernos pelo terceiro e definitivo ou a verdadeira posição do espírito, a ciência positiva. por meio desta lei, Comte acreditava que a teologia e a metafísica foram enterradas para sempre. cem anos se passaram desde então e ambas continuam a viver e a produzir flores renovadas!

12) O caso de Lessing --> Muito mais profundo foi o pensamento que Lessing expressou: "Sem dúvida", ele disse, "as verdades religiosas não eram racionais quando foram reveladas, mas foram reveladas para se tornarem racionais". Em outras palavras, a Cristandade não veio como uma filosofia, mas as verdades que foram projetadas podem se tornar racionalmente articuladas. Isto é exatamente a tarefa que os filósofos cristãos realizaram, fazendo sua principal meta a articulação racional do conteúdo da fé. O estudo de seus trabalhos nos mostrará qual dogma inspirou neles estilos filosóficos, quais questões surgiram neles, qual direção e quais métodos eles seguiram para permanecerem cheios de fé para com o espírito da religião, em uma palavra, o que sua mente ganhou com a inspiração da Bíblia e dos Evangelhos e qual foi a textura filosófica de seus trabalhos. 

13) Conclusões finais --> Já que, consequentemente, há filosofia no trabalho dos filósofos cristãos e já que a Cristandade continua a influenciar, até hoje, e a inspirar o pensamento de muitos filósofos, a noção de Filosofia cristã, a despeito da objeção dos racionalistas, não é contraditória, mas tem um significado que expressa um fato histórico particular. Se o fiel cristão estabelece sua convicção na persuasão inerente que é oferecida a ele pela fé, ele é um puro crente que não entrou ainda na esfera da filosofia, mas a partir do momento em que ele pode distinguir entre suas convicções algumas verdades, que podem se tornar objeto de ciência, ele se torna um filósofo. Estas novas luzes ele deve à religião Cristã, e consequentemente, é correto chamar-lhe de filósofo Cristão. 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Sobre Dinossauros, Indígenas e Star Trek (ou “Por uma antropologia do muito próximo”)

Itinerarium mentis in Deum

O outro – este tema sempre despertou meu fascínio. E, quanto mais diferente é esse outro de mim, mais eu me sinto atraído por quem ele é, porque é exatamente nessa dessemelhança que mais tenho encontrado similaridade. Por isso, tenho aprendido a ver o outro como um espelho mágico que, ao mesmo tempo, revela-me santo e demônio – verdades que jamais conseguiria perceber não fosse esse encontro com o outro.

Durante muitos anos, devido à antropologia, vi-me doutrinado a receber sem surpresa ou escândalo aquilo que poderia ser tão diferente numa outra cultura. Precisava ter aquele olhar clínico para avaliar o meu paciente sem envolver-me com ele. Todavia, como dizia Pascal Dibie: “...para abrir os olhos, eu não conheço outro meio senão colocar um Outro à vossa frente, não será apenas para que as nossas pupilas mereçam o seu nome”. Ou, ainda, tentando lembrar de uma citação de Lévi-Strauss, este dizia algo assim: “o simples encontro com o outro já causa mudança em ambos”.

Verdade. Na busca por ver aquilo que era diferente no outro, foi exatamente aí que encontrei aquela matéria da qual todos nós, seres humanos, somos feitos. Assim, percebendo o outro que vivia em outra cultura, tão diferente da minha, outra língua, outra cosmovisão, outro olhar – quer algo mais “outro” do que isso? - fui descobrindo aquilo que, na verdade, é universal, comum. 

Por exemplo, trabalho com culturas que praticam o infanticídio – o assassinato de crianças logo após seu nascimento. As justificativas são as mais variadas para tal prática: o medo dos espíritos (pois, quando gêmeos, crê-se que um deles pode ser um espírito maligno e, por não saberem qual, então, enterram vivos os dois); o peso do machismo que irá fazer da mãe solteira, que insistir em preservar sua criança, uma “mulher de todo mundo” naquela sociedade; evitar também o estigma daquela criança sem pai de ser um pária na tribo e ser tratado como um pulha por todos ao seu redor; livrar-se do estorvo de criar uma criança com deficiência física ou mental, etc. O mais surpreendente, porém, é que as justificativas apresentadas aqui neste parágrafo são quase as mesmas para aqueles que justificam o aborto na nossa sociedade dita “civilizada”.

Outro exemplo. Ontem, junto com minhas filhas, assisti a um antigo episódio da família Dinossauro em que se comemorava “o dia do lançamento” - um ritual no qual se lança os idosos no poço de piche quando eles completavam 72 anos de idade. A justificativa daquela prática que já durava milhares de anos era que os idosos atrasavam a manada quando esta precisava fugir dos seus predadores, contudo, o jovem neto cuja avó iria ser arremessada questionou essa prática: “Mas hoje somos urbanos! Não vivemos mais na mata, fugindo e se escondendo de predadores... Então, porque ainda temos que matar nossos idosos?”! Surpreendi-me novamente porque eu trabalho com culturas indígenas que também abandonam seus idosos ou na mata ou dentro de uma casa sozinho sem comida e sem água até que, obviamente, morram. Qual a justificativa? Antigamente, estes povos indígenas eram nômades e seus idosos eram um peso para eles, contudo, hoje, além desses povos já serem sedentários, há a presença de um profissional da saúde muito próximo, senão, até mesmo dentro da própria aldeia... Porque, então, o Governo faz vista grossa à essa realidade? Pela mesma razão que o faz colocar nossa imundície social para debaixo do tapete enquanto gasta as burras de dinheiro na construção de elefantes brancos para a próxima Copa de futebol.

Sim, nós também abandonamos nossos idosos (e eu não estou referindo-me aos asilos). Nossos hospitais públicos, as políticas mercenárias dos planos de saúde e a escandalosa realidade do SUS demonstram que há uma cultura de eliminação do idoso acobertada pelo Estado. O idoso em nossa sociedade também é um estorvo, ele custa aos cofres públicos uma grande quantia de dinheiro e o Brasil precisa eliminar suas despesas desnecessárias. Neste parágrafo, vale a pena lembrar que o Brasil está envelhecendo e que, daqui 40 anos, 30% da população será composta de idosos. E esses idosos, que estarão improdutivos aposentados, estarão também vivendo mais – e o Estado sabe disso. Ou você ainda acha que o interesse estatal em temas como aborto, eutanásia e o caos da falta de infraestrutura da saúde pública deve-se simplesmente à incompetência? Ledo engano, meu caro cidadão. Um dia vão jogar você e a mim no poço de piche como já o fazem com tantos milhares de idosos Brasil a fora.

Não basta às sociedades enriquecerem financeiramente. A prova disso é que os mesmos temas assolam tanto as culturas indígenas como ao não-indígena no Brasil e aos Estados Unidos: aborto, eutanásia, limpezas étnicas, etárias e social continuam a fazer parte de todos os países e, muitas vezes, tudo está sendo incentivado por politicas públicas que colocam o ser humano, o indivíduo, valendo menos que o bem comum aspira.

Aqui chegamos à questão ética que envolve nossa sociedade Star Trek. Afinal "a necessidade de muitos sobrepõe a de poucos, ou de um" (posição defendida pelo personagem Spock – que se sacrifica pelo bem de todos) ou "a necessidade de um, às vezes, supera a necessidade de muitos" (posição defendida pelo personagem do capitão Kirk – que sacrifica a tudo e a todos para salvar Spock)*? A primeira posição apresenta-se mais como uma lei geral e é dita pela boca de um personagem alienígena preso à lógica de seu universo. A segunda apresenta-se como a humanização daquela lógica extraterrestre, quando intuímos pela experiência da vida diária que nada é preto ou branco, nada pode ser reduzido a um simplismo dualista e que a vida real, a vida como ela é, exigirá de cada um de nós uma postura que salvaguarde a ousada excepcionalidade do “às vezes” contra a lógica comum que não medirá esforços para assassinar crianças e idosos pelo bem geral de um povo, nação ou cultura. Em outras palavras, não somos apenas a lógica cartesiana, mas nossos sentimentos – tanto os inatos quanto aqueles que a vida ensinou a cada um – auxiliam nossa razão a escolher o melhor caminho que naquele momento precisamos trilhar. E Spock aprendeu esta lição tão humana.

Depois destes anos todos trabalhando com o outro, aprendi a trazê-lo para perto de mim e desfiz esse mito da antropologia do observador distante e o troquei por uma “antropologia do muito próximo” e passei a tratá-lo como tu. O outro é uma criação da ciência social cientificista que influenciou a sociologia, a antropologia e a até mesmo a religião. Não é à toa que muitos teólogos do século XX acostumaram-se a tratar Deus como “O Outro”, “O totalmente Outro” (Karl Barth). Todavia, o outro ou o Outro são entidades, criações, caricaturas para livros, para teses, mestrados e doutorados de pessoas que são lógicas demais. E a lógica, desculpe-me Descartes, não abarca tudo e, principalmente, não vê aquilo que é essencial (Saint-Exupéry). Portanto, a vida vai nos ensinando a tratar o outro por tu e, caminhando mais um pouco, vemos que o tu será um você, um amigo, um irmão, dependendo do nosso esforço e interesse, assim como aprendi a chamar “o totalmente Outro” de Aba Pai, paizinho – porque esta que deve ser a caminhada espiritual de cada um de nós.  

* Estou tendo em mente os episódios II, III e o Star Trek - Além da escuridão, nos quais encontramos essas frases. 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Agostinho e o cepticismo

Gareth B. Matthews
Universidade de Massachusetts

Algumas pessoas descobrem a filosofia quando começam a levantar as grandes questões, a saber, se Deus existe ou se realmente temos livre-arbítrio. Outros descobrem a filosofia quando lhes ocorre, pela primeira vez, que nem sequer sabem com certeza se neste momento estão acordados. Algumas pessoas que chegam à filosofia levantando as grandes questões concluem, mais tarde, que é preciso responder ao cepticismo com que deparam quando procuram saber se têm sequer algum conhecimento, antes de considerarem os problemas de Deus e do livre-arbítrio.Agostinho parece ter seguido este caminho.
Por volta dos 18 ou 19 anos, Agostinho descobriu e leu um livro de Cícero, o Hortênsio. Esse livro, actualmente perdido, alterou a vida de Agostinho. Como relata nas Confissões, este livro despertou o seu amor pela filosofia e fê-lo aspirar à sabedoria (III, 4, 7-8). No Diálogo sobre a Felicidade escreve: "Fiquei tal maneira inflamado pelo amor da filosofia que imediatamente me entreguei ao seu estudo" (I, 4).
Agostinho avançou para a leitura de outras obras de Cícero. Algumas apresentaram-lhe o cepticismo filosófico. Posteriormente, houve momentos na sua vida em que chegou a considerar a ideia de se tornar um céptico filosófico. No Livro V das Confissões declara: "Passou-me pela cabeça a ideia de que os filósofos a quem chamam "Académicos" eram mais prudentes do que os outros; ensinavam que se devia duvidar de tudo e que a compreensão da verdade estava para além das capacidades do homem" (V, 10, 19).
Apesar de, durante longos períodos da sua vida, não considerar a vida do céptico filosófico uma opção atractiva, em todas as suas obras mais importantes Agostinho continuou a responder ao desafio do cepticismo.
A obra bastante precoce de Agostinho, Do Belo e do Apto (De pulchro et apto), não sobreviveu. Parece ter sido uma obra sobre estética e sobre a filosofia da mente na linha da tradição das grandes questões (ver Confissões IV, 14, 23-15, 24). Contudo, a mais antiga obra de Agostinho que sobreviveu, Contra Académicos, é integralmente dedicada ao cepticismo da "Nova Academia", uma escola de filosofia fundada por Arcesilau (315-240 a.C.) e ao qual sucedeu Carnéades (214-129/128 a.C.). Agostinho conhecera as orientações destes filósofos através do Academica, de Cícero.
Grande parte do Contra Académicos é bastante misteriosa e difícil de entender. Mas dos três livros que o compõem, o terceiro torna a obra entusiasmante e filosoficamente fascinante. O projecto é determinar se algo pode ser conhecido. O critério de conhecimento é designado por "definição de Zenão" (referimo-nos a Zenão de Cítio (334-262 a.C.), e não ao Zenão dos paradoxos). Infelizmente, a definição de Zenão é exposta de diferentes modos no diálogo. Consequentemente, o pobre leitor passa um mau bocado a tentar determinar o que Agostinho entende por tal coisa. A citação seguinte do Academica, de Cícero (II, 20, 66), já tinha sido citada no Livro II do Contra Académicos:
T1. "A verdade que pode ser apreendida [percipi, percebida] está impressa na mente pela sua origem, de modo que não poderia advir de outra coisa a não ser daquilo que é a sua origem." (II, 5, 11)
Eis uma das formulações de Agostinho da definição de Zenão, no Livro III do Contra Académicos:
T2. "Zenão afirma que o que aparece pode ser apreendido, se aparecer de modo a que não possa parecer uma falsidade." (III, 9, 21)
Vamos trabalhar com T2. A primeira coisa a considerar é o significado de "pode ser apreendido". A expressão latina utilizada por Agostinho, posse comprehendi, sugere a tradução "pode ser captado". Contudo, no contexto, a questão principal parece ser a possibilidade de conhecer alguma coisa. Portanto, utilizemos "pode ser apreendido" para significar "pode ser conhecido".
A segunda coisa a considerar é o significado de "aparecer de modo a que não possa parecer uma falsidade". Esta expressão procura realizar a função de expressões ainda mais opacas que são utilizadas por Agostinho no Livro II, tais como "está impressa na mente por aquilo que é a sua origem, de tal modo que não poderia advir de outra coisa a não ser daquilo que é a sua origem." Esta expressão realmente intimidadora é, de facto, uma citação à letra do Academica,de Cícero, em II, 6, 18. Temos de estar agradecidos por podermos trabalhar com T2 e não com a formulação de Cícero da definição de Zenão.
Ainda assim, é difícil saber o que significa "aparecer de modo a que não possa parecer uma falsidade". Suponhamos que, neste momento, tenho a impressão de que está uma rosa vermelha à minha frente. O que seria para a manifestação de estar uma rosa vermelha à minha frente "aparecer de modo a que não possa parecer uma falsidade"? Poder-se-ia pensar que isso significa que a manifestação de uma rosa vermelha à minha frente não poderia ser algo de ilusório. Nesse caso, seria de esperar que eu dissesse a mim mesmo "Isto não pode ser de forma alguma uma ilusão." Logo, a ideia será a seguinte: só posso saber que está uma rosa vermelha à minha frente se, e só se, a manifestação da presença de uma rosa vermelha à minha frente não pareça, de modo algum, uma ilusão. Contudo, esta interpretação não pode estar correcta. Torna implausível a restante discussão. O conhecimento de algo não pode ser plausivelmente constituído a partir de uma impressão de que isso não parece ilusório.
Sugiro que "aparecer de modo a que não possa parecer uma falsidade" tem de significar o seguinte: aparece de um modo que o falso não pode aparecer. Considero que o resultado é o seguinte: quando sei real e verdadeiramente que p, não me pode parecer que p sem que seja realmente verdade que p. Uma impressão de p que garante o conhecimento é tal que não posso ter esse género de impressão de p sem ser verdade que p. Trata-se daquilo a que os antigos designavam como uma impressão "cataléptica".
Segundo a interpretação que proponho, e de forma esquemática, a definição de Zenão traduz-se no seguinte:
Z) A sabe que p se, e só se, i) parecer a A que p e ii) não poderia parecer a A que p a não ser que seja verdade que p.
Segundo Z, é bastante óbvio que não sei se está uma rosa vermelha à minha frente. Assim, segundo Z, sei que está uma rosa vermelha à minha frente se, e só se, i) me parecer que está uma rosa vermelha à minha frente e ii) não me poderia parecer que está uma rosa vermelha à minha frente sem estar uma rosa vermelha à minha frente. Desconfio que podemos concordar que, independentemente da vivacidade ou do fulgor da impressão que me diz que está uma rosa vermelha à minha frente, é sempre possível que eu padeça da ilusão de estar uma rosa vermelha à minha frente. Por exemplo, posso estar a sonhar. Posso, ainda, estar com alucinações, devido a uma dose de morfina ou de LSD. Ou posso, além disso, estar numa máquina de realidade virtual que me produz a ilusão de estar uma rosa vermelha à minha frente. Por isso, a segunda condição de Z não está satisfeita e eu não sei se está uma rosa vermelha à minha frente.
O projecto do Livro III do Contra Académicos procura saber se, estando assente Z ou algo de muito semelhante, há outras coisas que conheço.
Como primeira alternativa, Agostinho debruça-se sobre a própria definição de Zenão. Não questiona a possibilidade de saber se a própria definição é verdadeira, mas apenas — e isto é um passo muito inteligente — se podemos saber, pelo menos, se a definição de Zenão é verdadeira ou falsa. Eis o passo:
T3. "O conhecimento ainda não nos abandonou, mesmo que não tenhamos a certeza quanto [à definição de Zenão]. Sabemos que a definição de Zenão ou é verdadeira, ou é falsa. Por isso, sabemos algo." (III, 9, 12)
Agostinho pressupõe aqui o Princípio de Bivalência, isto é, o princípio segundo o qual cada afirmação é verdadeira ou falsa. Acompanhemo-lo nesse pressuposto. Até muito recentemente, a maioria dos filósofos aceitava sem problemas o Princípio de Bivalência.
Pressupondo a Bivalência, parece que Agostinho pode saber, segundo Z, que Z é em si verdadeira ou falsa; a condição i) de Z está satisfeita. Além disso, não lhe pode parecer ser verdadeiro ou falso a menos que seja verdadeiro ou falso — pela razão de que não pode deixar de ser uma ou outra coisa. Por isso, Agostinho pode afirmar, e afirma de facto, que conhece algo.
Poder-se-ia considerar que esta aplicação de Z à afirmação "Z é verdadeira ou falsa", é batoteira. As impressões que o próprio Zenão tinha em mente são pretensamente "catalépticas", isto é garantem-se a si mesmas pela forma como são recebidas e, por isso, reflectem com exactidão aquilo a que se referem enquanto impressões. O que ocorrerá na impressão de que uma afirmação S é verdadeira ou falsa que garanta que reflecte correctamente aquilo do qual é uma impressão? O que garante que a impressão "S é verdadeira ou falsa" não poderia ser falsa não é simplesmente o facto de que "S é verdadeira ou falsa" é uma verdade lógica e, portanto, não poderia ser falsa? Assim, por mais débil e inadequadamente recebida que seja a impressão "S é verdadeira ou falsa", a frase em si não poderia pura e simplesmente ser falsa.
Talvez Agostinho devesse dizer que qualquer impressão correcta de uma verdade lógica é garantidamente verdadeira. Não sei se isto é fazer batota com Zenão. Mas pelo menos faz sentido, atendendo ao contra-exemplo de Agostinho. De qualquer forma, sempre que uma proposição de que p exprime uma verdade necessária, não me pode parecer que p sem ser verdade que p.
O próximo exemplo de Agostinho sobre aquilo que afirma conhecer é um tanto ou quanto difícil de interpretar. Expomos aqui a passagem relevante do Livro III de Contra Académicos:
T4. "Apesar de estar longe de ser um perito, conheço algumas coisas sobre a natureza. Estou certo de que o mundo ou é um [em número], ou não é — e, se não existe apenas um mundo, o número de mundos é finito ou infinito...
De igual modo, sei que este nosso mundo foi ordenado, tal como existe, pela natureza dos corpos ou por alguma providência; que sempre foi e será, ou que começou a ser e nunca findará; ou que não teve um começo no tempo, mas terá um fim; ou que começou a existir no tempo e não existirá para sempre." (III, 10, 23)
Sem dúvida Agostinho espera que
1) O mundo ou é um [em número], ou não é
seja considerado uma verdade necessária, como acontece com o exemplo precedente:
2) A definição de Zenão é verdadeira ou falsa.
Mas numa maneira comum de compreender 1, esta implica que
3) Existe um mundo,
o que não é uma verdade necessária. 1 implica 3 devido ao artigo definido à frente de "mundo", em 1. Porque 1 implica 3 e 3 não é uma verdade necessária, 1 não é também uma verdade necessária.
Contudo, antes de rejeitarmos este suposto exemplo de algo que podemos conhecer, devemos salientar que não há qualquer artigo definido no latim de Agostinho (certum enim habeo aut unum esse mundum aut non unum). Portanto, podemos lê-lo assim:
4) Ou existe um mundo, ou não existe um mundo.
Ora, penso que isto conta como uma verdade lógica.
Até este momento, Agostinho parece ter refutado o cepticismo generalizado através da apresentação de dois exemplos de coisas que podemos conhecer. A seguinte sugestão em T4 é menos problemática:
5) Se não existe apenas um mundo, o número de mundos é finito ou infinito.
Podemos facilmente interpretar 5 do seguinte modo:
6) Se existe mais do que um mundo, então o número de mundos ou é finito ou infinito.
E 6 parece de facto uma verdade necessária. E por isso, de acordo com Z, também pode ser conhecida.
Depois de T4 deparamo-nos com uma passagem fascinante. O céptico académico apresenta o seguinte desafio a Agostinho:
T5. "Como sabes que o mundo existe [realmente], [...] já que os sentidos são enganadores?" (III, 11, 24)
Este é talvez o desafio céptico mais extraordinário em todo o tratado. Introduz aquilo que na filosofia moderna é designado como "o Problema do Mundo Exterior". A resposta de Agostinho é, de igual forma, notável:
T6. "Portanto, designo o todo que nos contém e sustém, seja lá o que for, como "o mundo" — quero dizer o todo que aparece perante os meus olhos, que vejo conter os céus e a terra (ou os quase-céus e a quase-terra) [...]
Perguntas-me: "será que quando estás a dormir, aquilo que vês é o mundo?"
Já ficou dito que designo como "o mundo" tudo o que me aparece como tal." (III, 11 24-5)
Agostinho está a introduzir aqui, talvez pela primeira vez na filosofia ocidental, a noção do nosso próprio mundo fenoménico, o mundo de aparências do qual se está ciente enquanto sujeito consciente, ou intelectivo. Pensa-se geralmente que a ideia de um mundo fenoménico é uma noção moderna que tem origem em Descartes. Mas já está presente em Agostinho.
Agostinho não volta a desenvolver esta noção. Não coloca o Problema do Mundo Exterior como Descartes na célebre passagem:
"...tudo o que acreditei sentir enquanto estou acordado também posso algumas vezes acreditar que sinto, quando durmo; e como não acredito que chegue até mim por meio de coisas situadas fora de mim aquilo que me parece sentir durante o sono, não via porque tinha de acreditá-lo das coisas que me parece sentir enquanto estou acordado." (Descartes,Meditações sobre a Filosofia Primeira, VI, AT VII, 77, CSM, II, 53)
Ainda assim, aquilo que Agostinho afirma no Livro III de Contra Académicos abre as portas ao problema de Descartes.
Gareth B. Matthews
Tradução de Hugo Chelo
Retirado de Santo Agostinho, Gareth B. Matthews (Edições 70, 2008)

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