segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Contra um mundo que mente sobre si mesmo (série Resenha Fundamental Pessoal IV)

"Dependemos da graça para sermos virtuosos, nossa natureza vaidosa e orgulhosa por si mesma nunca sairá do seu pântano pessoal"
Luiz Felipe Pondé, em O gosto da culpa


Conheci Pondé por meio do blog da Regina Brasília (Velvet Poison), que disse que leria esse livro. Como adimiro o blog politicamente incorreto da Regina, tive a certeza de que a dica dela seria uma maravilhosa viagem literária. E foi. Depois que li o livro, vi que me identifico com Pondé pelo amor à Filosofia, Psicanálise, Religião e Dostoievski. Além disso, um dos mais interessantes temas que o Pondé discute em seus ensaios do afeto é a relação entre o homem e a mulher, mas sob uma perspectiva muito diferente da que estamos acostumados a ouvir nessa mesmice da mídia comum.

Talvez seja preciso esclarecer que ele não é contra o casamento gay (embora já tenha sido chamado de homofóbico diversas vezes), mas ele é contra o aborto (sustentando essa posição apenas por razões filosóficas) - este é Luiz Felipe Pondé. Ainda que Pondé não seja cristão, descobri que venho andando ao lado dele na mesma margem do rio já há alguns anos.

Postei um texto dele, que considerei uma sagaz e incômoda avaliação sobre o que nós fingimos que somos, mas não somos (clique aqui: "Cotidiano"). Aliás, uma das minhas identificações com Pondé reside no fato de que ele não acredita nesse bom-mocismo do ser humano. Eu também não. Mas por que postar sobre Pondé? Porque é muito bom ouvir um não cristão falar sobre Jesus. Sempre preferi as opiniões de ateus e teístas que, honestamente, discutem sobre a pessoa de Jesus àquelas opiniões de muitos que se dizem cristãos, mas, na verdade, estão apenas fazendo auto-propaganda do ventre de si mesmos: uma flácida espiritualidade contemporânea (repito: que se diz cristã), mas é incapaz de saltar de dentro do próprio umbigo e abandonar o azedume de seu esquema rancoroso e delirante.

Luiz Felipe Pondé
Assim, além da dica do livro, deixo a transcrição de parte da entrevista que ele concedeu ao Programa "Roda Viva". Abraços sempre afetuosos a todos os leitores e amigos.

Marília Gabriela:“Pondé, você é um cara que deixa muito claro que entende a opinião da Igreja.
Pondé: “Ah, sim,entendo”.
Marília Gabriela: “...e já falou muito bem do Papa... Agora, vamos fazer uma conexão direta aqui. A posição da Igreja em relação ao aborto e à homossexualidade são posições muito claras. Você pensa como aIgreja nessa hora”!
Pondé: (risos) “Veja, vamos esclarecer isso.”
Kátia (uma das jornalistas da mesa): “Deixa eu pegar carona nisso aí. Uma coisa que eu sempre transporto pra cá...Vamos pensar em Jesus. Jesus, um líder, como seria Jesus hoje? Ele aceitaria... Você acha que ele teria essa aceitação do casamentogay, teria... Como é que seria esse líder hoje?”
Pondé: “Olha, primeiro, eu acho que é interessante como que uma variável como essase transforma numa chave de um enorme debate teológico. O casamento gay, por exemplo. Ou o aborto. Jesus... Essa é uma questão grande, a tua e a tua (aponta Pondé para Marília Gabriela e para Kátia). Começando pela tua (dirige-se para Kátia). Primeiro, se você olhar para Jesus no cenário histórico, Jesus é um típico líder judaico, meio reformador na época em que ele vive. Então é razoável imaginar que, se ele vivesse hoje, talvez ele não teria todas as opiniões que uma certa ortodoxia, historicamente estabelecida do Cristianismo, católico ou não, tem! Certo? Então é razoável imaginar isso. Agora, o que eu acho muito mais interessante, e sempre é assim que o meu questionamento funciona, é que muitas pessoas que hoje se julgam obviamente do lado de Jesus, porque acham legal, provavelmente estariam colocando ele na cruz lá atrás. Mas hoje se acha legal...
Kátia: “Como assim, não entendi?”
Pondé: “É assim. Quando você discute a morte de Cristo ou o assassinato de Cristo, normalmente quando a gente discute hoje, a gente se coloca numa posição em que é muito claramente (quem) são os canalhas que mataram Jesus. Eu não estou falando isso confessionalmente, porque inclusive eu nem sou cristão, não é disso que eu estou falando. Estou falando (que) historicamente, quando você olha os canalhas que mataram Jesus, e eu, normalmente, me coloco fora desse grupo de canalhas. Há uma tendência natural do ser humano de se colocar fora do grupo de canalhas. Vou te dar outro exemplo. Pensa no nazismo da Europa. Todo mundo ia combater o nazismo: uma piada! A maioria, como a maioria da França, ia viver o seu cotidiano, arrumar um emprego melhor, colaborando com o partido... Eu disse isso na Folha uma vez e deu um barulho danado, numa coluna. Então, o que eu estou dizendo para você é o seguinte: acho que sim, porque é uma questão difícil “se”, porque ele é uma figura histórica (…) mas lá atrás... ele cria uma certa tensão...
Kátia: “Então chega a prostituta, aí ele chega, né?...
Pondé: Mas o que eu estou tentando dizer é que o importante é entender NO QUÊ ele incomodaria hoje? Não só no que ele incomodaria o Papa, mas no que ele incomodaria a você e a mim! Porque é isso o que levou a matarem ele. O que eu estava tentando dizer é que se constrói um consenso como que se Jesus hoje fosse criar problema SÓ pro Bento XVI. Jesus era um cara que provavelmente iria criar problema para mim e para você e para um monte de gente, porque ele era um cara que tinha uma mania, assumindo a figura histórica que viveu lá, que falou um monte de coisa que criou problema com um monte de gente. Quando quiseram que ele reagisse à ocupação romana, ele falou: “Tô fora! Dai a César o que é de César”! “Pô, mas você não vaip egar em armas?” “Eu não”. Então a revolta judaica da época ficou brava com ele: “Como não?! Você vem aqui e tem um monte de gente te seguindo e você não vai bater nos romanos?” “Não! Porque o meu reino não é desse mundo e sei mais o que”... Então acho que, se Jesus vivesse hoje, ele iria criar problema sim, mas não só para a ortodoxia da Igreja. Entende o que eu quero dizer? O interessante de pensar Jesus como figura histórica é pensá-lo não só para aquilo que A GENTE acha que é problema!
Marília Gabriela:Bom!...

Sobre Luiz Felipe Pondé:
Luiz Felipe Pondé é filósofo, doutor pela Universidade de São Paulo e Université de Paris VIII e professor do Programa de Estudos Pós-graduados em Ciências da Religião da PUC-SP.
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