terça-feira, 19 de março de 2013

O "Eduquês" (e algo mais) da Escola Pública brasileira

Nuno Crato é professor no Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa, e Doutor em Matemática Aplicada nos Estados Unidos. Seu livro já anuncia em seu título o desafio que nos aguarda: O 'Eduquês' em seu discurso directo – Uma crítica da Pedagogia Romântica e Construtivista (editora Gradiva). Em sua contra-capa, lemos a seguinte apresentação: “O <<Eduquês>> em Discurso Directo disseca com rigor e impiedade os lugares-comuns em educação, mostra o vazio dos conceitos que têm dominado a pseudopedagogia do laxismo e da irresponsabilidade e explica a ideologia frouxa que está por detrás da linguagem mole e palavrosa a que se tem chamado <<eduquês>>”. Embora o livro faça uma avaliação das teorias e práticas pedagógicas em Portugal, é assombroso (e triste) vermos que o “eduquês” é idioma universal. Por isso mesmo, encontrei neste livro muito da minha própria história de submissão cega à pedagogia romântica e (ainda bem) de minha posterior reação consciente ao que vi como prática exagerada de certos luminares construtivistas e suas ideias revolucionárias.



A discussão de Nuno Crato irá focar a mentalidade construída e imposta pela pedagogia romântica, que tem deixado como legado um ser humano alienado dos melhores e mais tradicionais valores da Educação judaico-cristã e, ao mesmo tempo, preso cada vez mais ao mundinho imediatista do aqui e agora que sua vida fugaz oferece. Todas estas ideias são expostas e discutidas por Nuno Crato em seu livro: a escola à mercê de “reformulações drásticas e reviravoltas pedagógicas revolucionárias”; uma máquina que não oferece condições reais e dignas para a formação científica do professor e nem se concentra “no ensino das matérias básicas, na avaliação constante e na valorização do conhecimento, da disciplina e do esforço”; um modelo de ensino que se tem furtado ao dever de desenvolver nos estudantes de forma sistemática e progressiva o espírito de disciplina, trabalho, esforço, persistência e concentração; e, enfim, que a Escola não deve abster-se de “adotar expectativas exigentes para os estudantes e seus trabalhos”. 


Professor Nuno Crato

Ler o livro do professor Nuno Crato foi uma oportunidade ímpar de exorcizar de vez quaisquer resquícios que me foram embutidos ao longo dos meus 20 anos de professor. Eu era uma criança de apenas 19 anos de idade, cursando o meu primeiro mês da Faculdade de Letras e já estava em uma sala de aula de 2º grau noturno, vitimizando aqueles pobres alunos via o artifício tão funesto chamado “contrato temporário”. Lembro-me que um dos escândalos daqueles anos era que quase a metade (ou um pouco mais da metade!) do quadro de professores da antiga Secretaria de Educação do Distrito Federal era composto por professores contratados temporariamente. Em sua maioria, aqueles contratados eram aventureiros (acho que me incluiria nestes) ou eram aposentados tentando ocupar o seu tempo ocioso ou desempregados desesperados em aumentar a renda familiar. Eram pessoas que estavam ali de passagem ou que jamais haviam pisado numa instituição de ensino na condição de professores ou se preparado para o ofício de lecionar. Aqueles alunos já eram vítimas naquele tempo da aplicação acrítica dos exageros e radicalismos da pedagogia romântica e do construtivismo de que nos fala Nuno Crato, mas, além disso e para piorar a situação deles, havia o “algo mais” que sugiro no título deste artigo: o processo político-partidário-ideológico que rege a Educação nacional. O que o livro do Nuno Crato aborda mais pedagogicamente, mas está lá também na estrutura da coisa, é o problema político por trás da Escola Pública e, talvez, esse problema seja ainda mais ressaltado no Brasil, porque unimos à pedagogia ideológica uma política também ideológica em favor de transformar a Escola num palanque de ideias progressistas.



Como estava dizendo, ao entrar naquela sala de aula do ensino noturno na cidade satélite de Ceilândia no mês de novembro, descobri que aqueles alunos já estavam sem aula desde abril! O que todos queriam de mim? Os alunos queriam passar de ano e, por seu lado, a Direção da Escola queria que eu colocasse em dia os diários de classe. Colocar em dia?! Exatamente. Fui “convidado” pela Direção a exercer a nobre arte da mentira, preenchendo com presenças e conteúdos meses e meses de papel em branco (sob a coação de que perderia o contrato ou o mesmo não seria renovado no ano seguinte). Assim começava minha jornada neste mundo de propaganda e imagem que é a nossa Escola de Papel (calma, querido leitor, apesar da minha pouca idade e falta de experiência naquele jogo de hipócritas, tive o bom senso de pular fora daquela proposta criminosa ainda que me custasse o próximo contrato).



Em Brasília, que é a realidade escolar que conheço (Capital Federal do país!), a Escola sempre foi um trampolim para a carreira politica de muitos professores que deixavam muitíssimo a desejar em suas salas de aula, mas eram ótimos agitadores e fomentadores de greves nas salas de coordenação, nos corredores da Escola e nas ruas. Além disso, a escola pública é vítima também de “pertencer” ao Estado (ou ao município), assim, a cada eleição e saída do partido anterior do poder, o novo sempre instaura uma nova revolução. Ideias mirabolantes não faltavam: escola candanga, pcn's, ciclos, etc. Sempre havia algo a ser extirpado do governo anterior e sempre surgia aquela grande e nova ideia forjada por educadores de plantão em gabinetes públicos intoxicados pelo excesso de ar condicionado vencido. Quando, por exemplo, começou a era dos pc'ns (Parâmetros Curriculares Nacionais), os diários vieram com aquelas “estranhíssimas” lacunas a serem preenchidas sobre as tais competências e habilidades dos alunos. A moda, então, era que os diários não deveriam mais apresentar os conteúdos de cada disciplina e isso caiu assim como um meteoro sobre nossas cabeças! Os professores não sabiam como preencher, os coordenadores pedagógicos também não, nas GRE's (Gerências Regionais de Ensino) ninguém sabia nada também e, por muitos anos, gastamos horas preciosas discutindo nas salas de coordenação se aquelas lacunas deveriam ser preenchidas com frases iniciadas por verbos no gerúndio ou no infinitivo!



Infelizmente, não é o Distrito Federal que sofre dessas mazelas sozinho em nosso país. Quando vim dar aula numa Escola Indígena do Estado do Mato Grosso, o escândalo foi ainda maior. Entrei na aldeia e vi o professor indígena preparando a lista dos alunos matriculados na Escola. Ele colocava o nome de cada aluno em cartolinas amarelas, usando um canetão azul e separando os alunos pela idade desde a 1ª série do Ensino Fundamental até o 3º ano do 2º grau (nem me peça para traduzir isso em “ciclos de aprendizagem”, por favor). Surpreso, constatei que TODOS, vou repetir, TODOS os seres humanos residentes naquela aldeia estavam matriculados na Escola! Seria isso, então, a tão propalada “Educação para TODOS” do Governo Federal? Os caciques estavam ali naquela lista, os pajés nonagenários também! O problema é que nem aqueles e nem estes nunca colocariam seus pés na Escola. “Certamente”, pensei, “ele não entendeu a orientação da Secretaria de Educação”. Na primeira oportunidade que tive, fui verificar a situação na Secretaria e para minha completa estupefação as Escolas do Estado - indígenas ou não - funcionavam segundo a crença de que TODOS deveriam ser matriculados numa série correspondente à sua idade. Ainda que há muitos anos estivesse fora da Escola e mesmo que houvesse cursado apenas a 2ª série do primário, este aluno (pasmem!) deveria ser matriculado na 8ª série se já tivesse idade para isso. Diz a lenda, propalada pela pedagogia romântica, que cabe à escola criar meios para a recuperação paralela destes alunos. Huuummm! Sei! Há outra razão por trás desta afronta: a Escola ganha uma verba de acordo com o número de alunos matriculados e, obviamente, a verba para a merenda escolar também está calculada de acordo com a quantidade de alunos matriculados. Então, é fácil ver a construção tão cooperada de uma Escola de Papel abarrotada de alunos em sala de aula – muitos são os que saem ganhando com isso, embora pouquíssimos percebam que, na verdade, TODOS perdemos.



Essa realidade tão brasileira não será abordada no livro de Nuno Crato (não sei se Portugal sofre das mazelas que descrevi aqui) – talvez seja a nossa infeliz contribuição à educação mundial, o nosso “algo mais” que também contribui vitoriosamente para que sejamos o penúltimo país no ranking mundial de educação, estando na frente apenas da Indonésia!

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