segunda-feira, 13 de maio de 2013

Carta aberta a Stephen Hawking‏

Por Carlo Strenger
Filósofo suíço radicado em Israel
 
"Caro Professor Hawking,

Existem muitas razões pelas quais o senhor é considerado um dos principais cientistas do mundo. Como o senhor sabe muito bem, uma das razões para o seu sucesso é sua capacidade de manter um raciocínio próprio e de recusar a ceder à pressão do pensamento pré-estabelecido. A inovação só é possível quando se está imune a tal pressão.
 
Dado o meu respeito por suas realizações, estou surpreso e triste com sua decisão de cancelar sua participação na "Conferência Presidencial" deste ano, em Jerusalém, tendo juntado-se àqueles que pregam um boicote acadêmico a Israel. Eu esperava que um homem de sua posição e realizações não fosse influenciado pela pressão exercida para cancelar sua visita a Israel.
 
Deixe-me primeiro dizer que tenho sido contra a ocupação israelense dos territórios palestinos por muitos anos, e que tenho manifestado essa oposição com todos os meios à minha disposição. (...)
 
Dito isto, eu sempre achei que era moralmente repreensível e intelectualmente indefensável que muitos acadêmicos britânicos continuem pedindo um boicote acadêmico de Israel. Esta posição é baseada em um padrão moral dúbio que não se poderia esperar de uma comunidade cuja missão é manter sua integridade intelectual.
 
Sim, eu acho que Israel é culpado de violações dos direitos humanos na Cisjordânia. Mas estas violações são insignificantes em comparação com aquelas perpetradas por inúmeros países, do Irã à Rússia e à China, para citar apenas alguns. O Irã enforca centenas de homossexuais a cada ano, a China vem ocupando o Tibete há décadas e você sabe da terrível destruição que a Rússia infligiu sobre a Chechênia. Não ouvi do senhor ou de seus colegas que defendem um boicote acadêmico contra Israel a idéia de boicotar qualquer um destes países. (...)
 
Professor Hawking: como o senhor e seus colegas que defendem um boicote acadêmico de Israel podem justificar sua insistência em isolar Israel? O senhor está simplesmente negando que Israel está sob ameaça existencial pela maioria de sua existência. Até hoje o Hamas, um dos dois maiores partidos na Palestina, pede a destruição de Israel, e sua Carta emprega a mais vil linguagem anti-semita. Até hoje dificilmente passa-se uma semana sem que o Irã e o Hezbollah não ameacem destruir Israel, embora eles não tenham nenhum conflito direto com Israel sobre qualquer coisa.
 
Escolher Israel como alvo de um boicote acadêmico é, creio eu, um caso de profunda hipocrisia. É uma maneira barata de ventilar indignação sobre as injustiças do mundo. Eu ainda estou esperando para ver os acadêmicos britânicos dizerem que não vão cooperar com instituições norte-americanas enquanto Guantánamo permanecer aberta, ou enquanto os EUA continuare seus assassinatos seletivos. (...) Mas, mais uma vez, os acadêmicos britânicos escolheram o alvo mais fácil para desabafar sua raiva, de uma maneira que não contribui em nada para a causa palestina que eles apóiam.
 
Professor Hawking, eu esperava que um homem da sua estatura intelectual se envolvesse na difícil tarefa de lidar com essas questões. Tomar o caminho simples de isolar Israel, boicotando-o academicamente, não lhe convém intelectual ou moralmente."
 
Atenciosamente,
Carlo Strenger

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