sexta-feira, 10 de maio de 2013

“Teologia da Libertação versus Teologia da Prosperidade” - uma oportunidade para o diálogo entre tradicionais e neopentecostais?


“...pois não importa o quão delicada ou frágil seja uma situação, sempre existem dois lados a serem considerados, ou analisados”.

William Shaekespere
 



Julio Severo, em seu livreto de apenas 31 páginas, teve a oportunidade de defender várias de suas ideias já publicadas em artigos mais curtos do seu Blog pessoal. O livreto digital, que tem como subtítulo “a destronação da Teologia da Missão Integral e a demonização da Teologia da prosperidade”, é uma exposição das origens da Teologia da Missão Integral e das razões do ataque que os mentores deste movimento vêm fazendo às igrejas neopentecostais.



A parte histórica apresentada por Julio Severo sobre as origens protestantes, presbiterianas e calvinistas da Teologia da Libertação são um importante documento para a Igreja Brasileira. É de suma importância reconhecermos as brechas e as concessões feitas para compreendermos como o marxismo invadiu a seara da chamada América Latina. Portanto, desde os patriarcas da gênese da Teologia da Libertação, o Rev. Shaull, o Rev. James Writh e o Rev. Rubem Alves, até os atuais líderes como Ariovaldo Ramos, Gondim e o “Sindicato de Bispos do Brasil" (CNBB), sem esquecer dos “grandes estrategistas” dos anos 80 e 90, o Rev. Caio Fábio e o Bispo Robson Cavalcanti, as primeiras páginas do livreto são uma denúncia de como o marxismo entrou na igreja cristã e, mesmo com a oposição de líderes do Pacto de Lausanne e de expoentes como o pregador Billy Graham, ainda assim o movimento foi vitorioso a ponto de conseguir entronizar com votos cristãos o PT, um partido que, segundo defesa feita pelo então Rev. Caio Fábio à época, “não comia criancinhas”, embora já promovesse em seu regimento interno o assassinato de bebês e a bandeira do gayzismo.



Como já foi possível perceber no parágrafo acima, a ligação entre pastores presbiterianos, que se diziam calvinistas, e o movimento marxista “religioso” no Brasil é inegável. Então, a partir deste viés, Julio vai se perguntar por que os “modernos calvinistas” atacam de forma tão veemente os neopentecostais, enquanto fazem vista grossa às bandeiras esquerdizantes do aborto e do casamento gay? A resposta já está dada: os “modernos calvinistas” são progressistas, cujas intenções deliberadas são implantar no Brasil um Estado Socialista/Comunista. Para que não tenhamos dúvidas sobre a intenção destas e outras lideranças cristãs, eis algumas citações feitas no livro: “A Teologia da missão Integral é uma variante protestante da Teologia da libertação” (Ariovaldo Ramos, pastor batista reformado), “Meu encontro com o marxismo não estava fazendo de mim um marxista, mas um cristão melhor” (Rev. Shaull, pastor presbiteriano dos Estados Unidos), além, é claro, da já sempre pré-candidata à presidência Marina Silva, que declarou ter conhecido o evangelho vivo na Teologia da Libertação e, pasmem, é hoje discípula de ninguém menos que o sacerdote de Gaia, Leonardo Boff.



Julio Severo não se limita a criticar apenas os calvinistas progressistas representados pelos blogs Genizah e Púlpito Cristão, mas dirige-se também à seara neopentecostal para denunciar a hipocrisia de Silas Malafaia e a aliança de vários outros líderes neopentecostais que, por razões oportunistas, apoiaram o PT e seus candidatos pró-aborto e pró-gayzismo. Aqui, cabe ressaltar (e adoto a mesma postura de Julio Severo de cobeligerância) que Julio apoia o Silas naquilo que ele é pró-família, mas não naquilo que é incoerente e oportunista, seguindo assim a orientação de Jesus em relação aos hipócritas: “Fazei o que eles falam, mas não o que eles fazem”! Ele também fará as suas denúncias contra a IURD e a aliança desta com o PT e a defesa que seu líder, Edir Macedo, faz do aborto. Além disso, também se posiciona contra os líderes da teologia tradicional (calvinistas tradicionais e outros) e reage ao silêncio destes que tão prontamente denunciam os erros neopentecostais, mas não se levantam com a mesma ênfase para bradar contra confrades que apoiam um Estado usurpador, corrupto e anti-cristão.



Logo no início do seu livreto, Julio Severo usa propositalmente o adjetivo “modernos” para se referir aos calvinistas progressistas, porque ele busca mostrar que estes estão distanciados até mesmo dos antigos calvinistas, mais especificadamente dos puritanos. Assim, diante das citações abaixo, Julio irá questionar por que tamanho ataque à Teologia da Prosperidade. Embora a dedução de Julio Severo, a partir de tais citações, seja que os antigos calvinistas seriam “mais abertos” à Teologia da Prosperidade, na verdade, o máximo que podemos retirar delas é que o calvinismo (ou o movimento puritano) não tem nada contra o dinheiro. Aliás, nem o calvinismo e nem a Bíblia tem problemas com o dinheiro, pois a armadilha, segundo a Bíblia, é o “amor ao dinheiro”! E, mesmo aqui, Julio criticará acertadamente tanto pastores neopentecostais como pastores tradicionais que vivem de modo opulento. Veja as citações:



“A ética social do puritanismo era dirigida para a aquisição e administração apropriada de riqueza como símbolos externos do favor de Deus e consequentemente salvação do indivíduo” (Gayrand Wymore, em “African American Religious Studies: An Interdisciplinary Anthology”).



“De acordo com o calvinismo (mas não de acordo com o próprio Calvino), o acúmulo de riquezas era um dos sinais de que o crente estava entre os eleitos – 'um sinal da bênção de Deus'” (Dicionário Max Weber).



“A bênção do Senhor enriquece... E como as riquezas são em si bênçãos de Deus, assim também devemos desejá-las para o curso confortável de nossas condições naturais e civis” (site “A Puritan's Mind”).



As críticas dos tradicionais, que não coadunam com os progressistas, porém, não é quanto “ao dinheiro como sinal de bênção”, porque, se Deus tiver planejado isso a um de seus filhos, Ele é soberano para fazê-lo (para uma exposição mais precisa sobre a ótica reformada acerca da prosperidade financeira, veja aqui o texto do Dr. Augustus Nicodemus). Então, revela-se um ponto teológico chave para discernir entre Julio Severo e os tradicionais reformados não-progressistas: durante todo o livreto, Julio usa para Deus a corretíssima palavra “Supremo” (a mesma presente na Teologia Tradicional), o que não encontramos é um outro adjetivo que lança as bases da Teologia Reformada Calvinista, a saber, “Soberano”. O fato de não aparecer esta palavra no texto de Julio Severo revela as fundamentações de sua teologia e a diferença  dele para os reformados. “Soberania” é o adjetivo que define a liberdade da majestade divina: Deus não apenas é o único sobre todas as coisas (Supremo), mas, também, é Aquele que PODE QUALQUER coisa, quando e da maneira que quiser (Soberano). Para os reformados, a ênfase não é a liberdade do homem, mas a liberdade de Deus! Assim, o problema é o método usado por pastores neopentecostais. O método pragmático de interpretar a Bíblia a partir da "base" que, aliás, é o mesmo método que caracteriza a leitura bíblica feita pela Teologia da Libertação, colocando a ortopraxia antes da ortodoxia.

O próprio Julio confirma que há “pressões psicológicas” na hora de arrecadar os dízimos nas igrejas neopentecostais, nesta situação, há uma contradição: se há pressão psicológica, então não há a tal liberdade apregoada no texto do Julio. Julio Severo diz que as pessoas não são obrigadas a entrar numa igreja neopentecostal e nem a dar dinheiro a elas e, de certa maneira, isto é verdade. Concordo que, no fim das contas, essas pessoas são responsáveis e que sua pobreza financeira e educacional não pode isentá-las totalmente caso venham ser lesadas por suas lideranças, embora seja exatamente essa pobreza o instrumento de manipulação usado com maestria pelos pastores. Logo, se há pressão psicológica (e isto é afirmado pelo próprio Julio), então não há liberdade: há coação, coerção, sedução, técnicas de manipulação, assédio moral e tudo o mais que puder ser encaixado aí.



A ênfase que Julio faz questão de ressaltar em seu livreto é que os pobres preferem a Teologia da Prosperidade à Teologia da Libertação (ou à Missão Integral), mas isso só confirma as palavras do carnavalesco Joãozinho XXX: “Quem gosta de miséria é intelectual”. Destarte, é preciso aprofundar um pouco mais sobre o “método” das igrejas neopentecostais. É de se levar em consideração que Julio Severo abra seu livreto afirmando que o Brasil é o país mais espírita do mundo e que é nesta seara que os neopentecostais mais encontrem crescimento numérico. Novamente, a crítica é relativa ao método pragmático que busca fazer “uma ponte” entre as práticas de feitiçaria brasileiras e o Evangelho puro e simples: copo d'água, líderes vestidos de branco como acontece nas sessões espíritas, rituais vetero-testamentários misturados às roupagens do imaginário popular religioso nacional, dançinhas à semelhança do Candomblé, o uso do elemento “toma-lá-dá-cá” na barganha com Deus, o espaço dado no palco das igrejas a quem nunca antes tivera tal atenção em casa e na família, etc. Acredito sinceramente que tudo isto "dê certo"! Todavia, seria de se aceitar que aquilo que dá certo e rende muito seja sempre correto? O método neopentecostal tem alimentado e se alimentado de uma infeliz característica da religiosidade brasileira: o sincretismo.



O problema dos pastores tradicionais não-progressistas não é com a riqueza, mas com o método para obtê-la. Certamente, cremos que Deus e não o Estado é a fonte de todas as bênçãos, todavia o valor do trabalho como elemento dignificante do homem foi resgatado pelo protestantismo em oposição à crença de que a fonte de todas as bênçãos viria de uma subserviência cega a um instituição eclesiástica, seja ela qual for: é a ética do trabalho e da responsabilidade pessoal como elementos de culto a Deus! Nas pregações dos pastores neopentecostais há técnicas de manipulação, técnicas para fazer com que o indivíduo ande com o rebanho, siga o grupo. Se “todos” estão fazendo, se “todos” estão entregando, se “todos” estão “apostando” em Deus e você não, então a culpa é da sua falta de fé! Isto é charlatanismo! É muito mais do que simples pressão psicológica: é pecado! Não há como negar, portanto, que, da maneira como essas lideranças colocam a “bênção” de Deus, há um preço para recebê-la e o preço é o “imposto” do dízimo e da oferta! Outro ponto importante que Julio confirma acerca dos neopentecostais é que suas lideranças são oportunistas (por exemplo, veja a situação de Silas Malafaia). E por que eles são oportunistas? Porque, segundo o próprio Julio diz, em época de eleição, esses líderes se aproximam do Governo para receber lotes e concessões de rádio e tv. Ora, Judas Iscariotes foi um exemplo de oportunista na Bíblia. Em suma, nestes dois pontos, a barganha com Deus mediante ofertas e dízimos (e sob a coerção de pressões psicológicas dos líderes) e a prostituição dessas igrejas com o Estado quando lhes convêm, residem a denuncia feita pelos pastores tradicionais aos neopentecostais, porque é um problema ético e moral, mas, antes de tudo, são pecados gravíssimos das lideranças e o próprio Jesus nunca se absteve de denunciar os pecados daqueles que vieram para roubar, matar e destruir.



Há também as diferenças teológicas evidentemente. Enquanto, infelizmente, calvinistas progressistas partem para o deboche e brindam à mesa dos escarnecedores, contando piadinhas chulas sobre neopentecostais, os calvinistas tradicionais, de maneira séria, sempre questionarão sobre “a unção do riso, do vômito e a fauna pantomímica” que aparecem dentro das igrejas neopentecostais; os calvinistas tradicionais vão sempre se posicionar diante dos dentes de ouro ou o ouro em pó que cai sobre os ombros de membros “com mais fé” nestas igrejas; e mesmo o Peter Wagner, citado logo no início por Julio Severo, é campeão nestas performances da “Batalha espiritual” com seus demônios territoriais e crentes “caçando” o trono geográfico de Satanás, através de estratégias para encontrar e derrubar o tal trono... Lembro-me com tristeza de um grupo de jovens em Brasília que, “sendo irmãos do Leão da tribo de Judá”, resolveram “demarcar” o Congresso Nacional como território do Senhor Jesus. O que eles fizeram? Em plena madrugada brasiliense, saíram, meninos e meninas juntamente com sua liderança, arriando as calças e urinando ao redor do prédio do Congresso (isto seria ridículo, se não fosse tão deprimente)!



Gostaria de terminar este artigo dizendo que, naquilo que o Julio Severo expõe sobre Teologia da Libertação e Missão Integral, concordo em gênero, número e grau. Concordo com as críticas feitas tanto aos pastores neopentecostais como aos pastores tradicionais no que tange ao retorno destes a uma vida mais humilde (lembrando que vida humilde não é sinônimo de pauperismo). Assim, à maneira schaefferiana, cobeligero ao lado de Julio Severo, Silas Malafaia, Marcos Feliciano e todos quanto assim se posicionarem à favor da família tradicional, contra o aborto e contra a mordaça gay. Reforço, contudo, que as críticas feitas pelos calvinistas tradicionais não são meras consequências de uma adesão ao cessacionismo (para uma exposição reformada sobre o tema clique aqui), mas as críticas advêm de uma atuação, uma prática, um conjunto de métodos de “pressões psicológicas” anti-éticas e imorais aplicadas sobre a ignorância popular, tendo a Bíblia como pretexto. Evidentemente, sou totalmente contrário a identificar como diabólico o cessacionismo: é uma atitude simplista, rasa e que, mais uma vez, tende a jogar com preconceitos e caricaturas. 

Enfim, continuo a não me identificar nem com o neopentecostalismo de uns e nem com o calvinismo progressista de outros, mas ainda acredito que poderíamos abrir um diálogo para a construção de uma Igreja mais madura em terra brasileira, uma Igreja cobeligerante contra um inimigo comum: o Estado Leviatã.

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