quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Por que sou um cristão conservador?


“Somos conservadores e não, antes de tudo, apoiadores de um partido de direita” - Ben Shapiro.



Direto ao ponto: sou um cristão conservador, porque não leio a Bíblia sozinho! Ou ainda: sou um cristão conservador, porque leio a minha Bíblia juntamente com uma miríade de mortos, uma nuvem de testemunhas!

Fujo da armadilha Iluminista que instaurou o paradigma de que “precisamos ler a Bíblia como se ninguém jamais a tivesse lido antes de nós na história deste país (ou do mundo)”. Não é mera coincidência que da presunção da razão iluminista surgiram várias seitas e heresias no século XIX exatamente por abraçarem “novas revelações”. A Bíblia foi destacada de toda a tradição de gigantes da fé que nos precederam.

Embora uma linha de conservadores veja na Reforma Protestante a manifestação da “mentalidade revolucionária”, principalmente quando vemos os chamados "movimentos radicais" ligados à Reforma que, de fato, depredaram igrejas católicas e destruíram tudo que fosse romano, os principais reformadores como Calvino e Lutero, além de se oporem a tais movimentos, recorreram aos Pais da Igreja (principalmente Agostinho) para sistematizarem suas ideias e reformarem a própria Igreja Romana. Como o próprio nome diz, o interesse era por uma reforma e não por uma revolução.

Passados 500 anos de Reforma Protestante, porém, tanto católicos como protestantes abriram suas igrejas e seminários à mentalidade revolucionária da Teologia Liberal, esta, indubitavelmente, fruto do Iluminismo e não da Reforma Protestante. A Reforma é acusada de iniciar a mentalidade revolucionária por causa do pressuposto do “livre exame” das Escrituras, que é, muitas vezes, confundido com uma simples “livre interpretação” por seus oponentes. Os Reformadores nunca defenderam uma anárquica livre interpretação, mas, tendo a Bíblia na mão do cristão, que este pudesse ser livre para examinar se as pregações e doutrinas sustentavam-se ou não na autoridade da Palavra, assim como os bereianos fizeram com o próprio apóstolo Paulo (At 17:11). É evidente que uma iniciativa como essa exigiria um esforço em direção à alfabetização e educação das pessoas comuns. E muitos, como Wycliffe na Inglaterra, fizeram isso: a Bíblia na língua do povo carece de um povo verdadeiramente educado!

O cristão conservador não crê nas modas teológicas modernas e pós-modernas que incentivam negros, mulheres, indígenas e gays a recriarem suas próprias teologias como se o Espírito Santo, que se manifestou nas mais diversas culturas nestes tantos séculos, não pudesse também ensiná-los a partir da tradição milenar da Igreja. A desculpa de que a Teologia não serve porque é “europeia”, “americana”, “imperialista”, “ocidental” só revela dois pontos: primeiro, um evangelismo que orienta as culturas-alvo a adotarem uma postura de prepotência ao invés da humildade cristã e, segundo, um evangelismo que faz com que culturas-alvo terminem, aí sim, confundindo o evangelho com a cultura do evangelizador – quando o discurso deste, na verdade, era “pregar um evangelho sem levar junto a cultura do missionário” (aliás, nada mais Iluminista do que essa crença romântica, não?).

Muitos missionários pregaram sob a égide de que não se poderia levar sua cultura junto com o evangelho, todavia, cometeram precisamente o erro que se esforçaram tanto em não cometer: conscientemente ou não, eles evangelizaram sob a nova agenda cultural do Iluminismo europeu! Assim, impregnaram o evangelho de uma cultura que abortava a história e a tradição do Cristianismo. Qual o resultado? Um outro evangelho.

Qual o fruto disso na chamada América Latina tão zelosa em não reproduzir a “cultura do missionário”? Vimos surgir todas, vou repetir, TODAS as teologias oriundas do Iluminismo. Tanto a Teologia da Libertação como a Teologia da Prosperidade e suas nuances estão todas aí bem presentes e assentadas entre nós como testemunhas do que estou escrevendo. E não apenas entre nós, mas em todos os países ainda chamados de terceiro mundo. Tanto trabalho para se evitar a teologia do outro e o que se produziu? Uma avalanche de seitas e heresias, de teologias novas e novas idolatrias e sincretismos, sem falar das seitas neopentecostais. Tudo fruto das prerrogativas reivindicadas pela “Era das Luzes”. Os últimos 200 anos foram fartos em criar o novo, porque, simplesmente, muitos missionários realizaram em Missões e na própria Teologia a "revolução copernicana" de Kant: colocaram a Bíblia para girar ao redor do sol da cultura-alvo e não mais o contrário!

A História não perdoa: se você não oferecer o maravilhoso cardápio de sua estimável teologia, outros farão. E fizeram! Aquela ilusão romântica do “bom receptor” fez com que missionários católicos e protestantes, convencidos pelo Iluminismo sobre “a liberdade” de todos os povos em criar sua própria teologia, não soubessem, muitas vezes, dialogar com as culturas às quais se dirigiam. Em outras palavras, evangelizaram, mas se esquivaram de discipular. Ou ainda, ficaram com medo das ímpias acusações de que estariam colocando paletó e gravata em índio, quando, na verdade, salvo tristes exceções praticadas por certos grupos despreparados aqui e ali, discipular jamais foi a aplicação de “usos e costumes”. Abandonamos nossos irmãos neófitos não somente ao trabalho árduo e estúpido de reinventar a roda, mas os deixamos também como presas fáceis dos mercenários e lobos que vieram apenas para roubá-los, matá-los e destruí-los.

E agora? Precisamos voltar à tradição e colocar sobre nossas cabeças o chapéu da humildade. Gigantes da fé leram a Bíblia antes de nós e os frutos do Iluminismo revelam, patentemente, que aqueles gigantes a leram muitíssimo melhor do que nós (ao menos com maior temor e tremor). 

Esclareceria ainda: sou um cristão conservador, porque não leio a Bíblia sozinho, mas isso não significa subserviência cega a quaisquer grupos. Ler a Bíblia, reconhecendo que gigantes a leram antes de nós e que temos muito o que aprender com eles, não confere autoridade inquestionável ao passado. O passado e as pessoas que viveram nele foram falhos como nós somos hoje: daí dialogarmos e não, simplesmente, acatarmos! É histórico os erros dos Pais da Igreja, da Idade Média, dos Reformadores, Puritanos, Pietistas, etc. Assim como, por outro lado, é inegável que haja contribuições na modernidade e pós-modernidade que não podemos ignorar. Cabe, portanto, ao conservador cristão buscar o dom do discernimento em meio a um mundo tão confuso e complexo. Ou, nas palavras de Jesus, o cristão conservador deve ser “semelhante a um pai de família que tira do seu depósito coisas novas e coisas velhas” (Mt 13:52b).

Dilataria, portanto, a frase de Ben Shapiro da seguinte maneira: Somos conservadores e não, antes de tudo, apoiadores de um partido de direita, nem de uma Igreja, ou de um grupo religioso ou, à maneira dos idólatras, simples apoiadores de um suposto passado sacrossanto ou de um futuro utópico. Enfim, o que o conservador não pode abdicar é da característica que, verdadeiramente, nos faz mais humanos – o direito de pensar.

Conheça Ben Shapiro:

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