quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Sobre Dinossauros, Indígenas e Star Trek (ou “Por uma antropologia do muito próximo”)

Itinerarium mentis in Deum

O outro – este tema sempre despertou meu fascínio. E, quanto mais diferente é esse outro de mim, mais eu me sinto atraído por quem ele é, porque é exatamente nessa dessemelhança que mais tenho encontrado similaridade. Por isso, tenho aprendido a ver o outro como um espelho mágico que, ao mesmo tempo, revela-me santo e demônio – verdades que jamais conseguiria perceber não fosse esse encontro com o outro.

Durante muitos anos, devido à antropologia, vi-me doutrinado a receber sem surpresa ou escândalo aquilo que poderia ser tão diferente numa outra cultura. Precisava ter aquele olhar clínico para avaliar o meu paciente sem envolver-me com ele. Todavia, como dizia Pascal Dibie: “...para abrir os olhos, eu não conheço outro meio senão colocar um Outro à vossa frente, não será apenas para que as nossas pupilas mereçam o seu nome”. Ou, ainda, tentando lembrar de uma citação de Lévi-Strauss, este dizia algo assim: “o simples encontro com o outro já causa mudança em ambos”.

Verdade. Na busca por ver aquilo que era diferente no outro, foi exatamente aí que encontrei aquela matéria da qual todos nós, seres humanos, somos feitos. Assim, percebendo o outro que vivia em outra cultura, tão diferente da minha, outra língua, outra cosmovisão, outro olhar – quer algo mais “outro” do que isso? - fui descobrindo aquilo que, na verdade, é universal, comum. 

Por exemplo, trabalho com culturas que praticam o infanticídio – o assassinato de crianças logo após seu nascimento. As justificativas são as mais variadas para tal prática: o medo dos espíritos (pois, quando gêmeos, crê-se que um deles pode ser um espírito maligno e, por não saberem qual, então, enterram vivos os dois); o peso do machismo que irá fazer da mãe solteira, que insistir em preservar sua criança, uma “mulher de todo mundo” naquela sociedade; evitar também o estigma daquela criança sem pai de ser um pária na tribo e ser tratado como um pulha por todos ao seu redor; livrar-se do estorvo de criar uma criança com deficiência física ou mental, etc. O mais surpreendente, porém, é que as justificativas apresentadas aqui neste parágrafo são quase as mesmas para aqueles que justificam o aborto na nossa sociedade dita “civilizada”.

Outro exemplo. Ontem, junto com minhas filhas, assisti a um antigo episódio da família Dinossauro em que se comemorava “o dia do lançamento” - um ritual no qual se lança os idosos no poço de piche quando eles completavam 72 anos de idade. A justificativa daquela prática que já durava milhares de anos era que os idosos atrasavam a manada quando esta precisava fugir dos seus predadores, contudo, o jovem neto cuja avó iria ser arremessada questionou essa prática: “Mas hoje somos urbanos! Não vivemos mais na mata, fugindo e se escondendo de predadores... Então, porque ainda temos que matar nossos idosos?”! Surpreendi-me novamente porque eu trabalho com culturas indígenas que também abandonam seus idosos ou na mata ou dentro de uma casa sozinho sem comida e sem água até que, obviamente, morram. Qual a justificativa? Antigamente, estes povos indígenas eram nômades e seus idosos eram um peso para eles, contudo, hoje, além desses povos já serem sedentários, há a presença de um profissional da saúde muito próximo, senão, até mesmo dentro da própria aldeia... Porque, então, o Governo faz vista grossa à essa realidade? Pela mesma razão que o faz colocar nossa imundície social para debaixo do tapete enquanto gasta as burras de dinheiro na construção de elefantes brancos para a próxima Copa de futebol.

Sim, nós também abandonamos nossos idosos (e eu não estou referindo-me aos asilos). Nossos hospitais públicos, as políticas mercenárias dos planos de saúde e a escandalosa realidade do SUS demonstram que há uma cultura de eliminação do idoso acobertada pelo Estado. O idoso em nossa sociedade também é um estorvo, ele custa aos cofres públicos uma grande quantia de dinheiro e o Brasil precisa eliminar suas despesas desnecessárias. Neste parágrafo, vale a pena lembrar que o Brasil está envelhecendo e que, daqui 40 anos, 30% da população será composta de idosos. E esses idosos, que estarão improdutivos aposentados, estarão também vivendo mais – e o Estado sabe disso. Ou você ainda acha que o interesse estatal em temas como aborto, eutanásia e o caos da falta de infraestrutura da saúde pública deve-se simplesmente à incompetência? Ledo engano, meu caro cidadão. Um dia vão jogar você e a mim no poço de piche como já o fazem com tantos milhares de idosos Brasil a fora.

Não basta às sociedades enriquecerem financeiramente. A prova disso é que os mesmos temas assolam tanto as culturas indígenas como ao não-indígena no Brasil e aos Estados Unidos: aborto, eutanásia, limpezas étnicas, etárias e social continuam a fazer parte de todos os países e, muitas vezes, tudo está sendo incentivado por politicas públicas que colocam o ser humano, o indivíduo, valendo menos que o bem comum aspira.

Aqui chegamos à questão ética que envolve nossa sociedade Star Trek. Afinal "a necessidade de muitos sobrepõe a de poucos, ou de um" (posição defendida pelo personagem Spock – que se sacrifica pelo bem de todos) ou "a necessidade de um, às vezes, supera a necessidade de muitos" (posição defendida pelo personagem do capitão Kirk – que sacrifica a tudo e a todos para salvar Spock)*? A primeira posição apresenta-se mais como uma lei geral e é dita pela boca de um personagem alienígena preso à lógica de seu universo. A segunda apresenta-se como a humanização daquela lógica extraterrestre, quando intuímos pela experiência da vida diária que nada é preto ou branco, nada pode ser reduzido a um simplismo dualista e que a vida real, a vida como ela é, exigirá de cada um de nós uma postura que salvaguarde a ousada excepcionalidade do “às vezes” contra a lógica comum que não medirá esforços para assassinar crianças e idosos pelo bem geral de um povo, nação ou cultura. Em outras palavras, não somos apenas a lógica cartesiana, mas nossos sentimentos – tanto os inatos quanto aqueles que a vida ensinou a cada um – auxiliam nossa razão a escolher o melhor caminho que naquele momento precisamos trilhar. E Spock aprendeu esta lição tão humana.

Depois destes anos todos trabalhando com o outro, aprendi a trazê-lo para perto de mim e desfiz esse mito da antropologia do observador distante e o troquei por uma “antropologia do muito próximo” e passei a tratá-lo como tu. O outro é uma criação da ciência social cientificista que influenciou a sociologia, a antropologia e a até mesmo a religião. Não é à toa que muitos teólogos do século XX acostumaram-se a tratar Deus como “O Outro”, “O totalmente Outro” (Karl Barth). Todavia, o outro ou o Outro são entidades, criações, caricaturas para livros, para teses, mestrados e doutorados de pessoas que são lógicas demais. E a lógica, desculpe-me Descartes, não abarca tudo e, principalmente, não vê aquilo que é essencial (Saint-Exupéry). Portanto, a vida vai nos ensinando a tratar o outro por tu e, caminhando mais um pouco, vemos que o tu será um você, um amigo, um irmão, dependendo do nosso esforço e interesse, assim como aprendi a chamar “o totalmente Outro” de Aba Pai, paizinho – porque esta que deve ser a caminhada espiritual de cada um de nós.  

* Estou tendo em mente os episódios II, III e o Star Trek - Além da escuridão, nos quais encontramos essas frases. 

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