domingo, 29 de dezembro de 2013

Assim nasce a Filosofia (série "História da filosofia" - I)

Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome. E Adão pôs os nomes a todo o gado, e às aves dos céus, e a todo o animal do campo. Gn 2: 19-20. 

Nasci em uma geração marcada pelo pós-modernismo literário e a pós-modernidade cultural. Em outras palavras, cresci na pluralidade, no relativismo, nas incertezas, nas inverdades e sob o signos do desconstrutivismo... Acredito que por isso mesmo sempre me foi tão intrigante que a filosofia tenha nascido na contramão de tudo o que vejo hoje ser tratado filosoficamente. A filosofia nasce com a redução da multiplicidade, à unidade. 

E sempre me pareceu “exótico” e inatingível essa busca pelo “um”. Um arché, um princípio comum a todas as coisas. Por que esse anseio? Por que essa obstinação grega pelo monismo? Nunca me pareceu fazer sentido essa indagação, mas, hoje, entendo que a minha estranheza em relação aos “pré-socráticos” advém da minha cosmovisão pós-moderna: não há “um” para mente decadente e cansada dos postulados modernos. A modernidade falhou em suas tentativas de organizar o mundo e controla-lo pela razão iluminista. Em outras palavras, “há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que sonha a nossa vã filosofia”. Assim, a vã filosofia moderna iluminista, positivista, cientificista, humanista e darwinista falharam e todas as gerações seguintes, as gerações do pós-guerra, nasceram sob o estigma da dúvida, da suspeita, da inverdade, da pluralidade, da morte do Absoluto.

Como seria possível ao homem “pós-moderno” encontrar-se com os “pré-socráticos”? O postulado da modernidade cultural elegeu na literatura o seu verso emblemático: “sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta”! E para nós, se alguma verdade for frustrada, se nossas opiniões falharem, se descobrirmos que alguma interpretação não se encaixar suficientemente ao nosso estilo de vida, então, não há problema algum, porque, segundo os versos do poeta, “si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!”. Esta facilidade, esse camaleonismo, esse roubo, essa manipulação, o furto a realidade, tudo isso demonstra que nossas respostas não precisam caminhar em direção ao “um”. Neste sentido, portanto, somos antifilósofos pré-socráticos.

Ao contrário dos homens do meu tempo, os antigos pensadores milesianos buscaram reduzir a multiplicidade à unidade. As estrelas, os planetas, os animais, os seres humanos, o rio: toda essa movimentação, essa aparente efemeridade, esse tempo fugaz, para ser captado, compreendido, discernido, dominado pela razão humana precisaria ter algo de perene e comum, algo que perpassasse tudo e permanecesse além da deterioração final. “Tudo é um”! Se não fosse, como poderíamos captar? A realidade, como os nossos sentidos percebem, é múltipla, não há dúvida, mas como tal multiplicidade foi organizada, ordenada? Por que essa multiplicidade de características singulares é assim e não de outra maneira? Toda essa multiplicidade patente deve ser originada e guardar em si algo de estático para que possamos apreender, do contrário, como nossa razão poderia reter e estudar o mundo? Deve haver uma razão para tudo isso ser isso e não outra coisa... Diante desse mar de indagações, os pré-socráticos foram atrás da unidade necessária. E muitas foram as propostas de reduzir a multiplicidade ao “um”: água, ar, fogo, “o ilimitado” apeíron, enfim, algo que pudesse possibilitar que conhecêssemos as coisas. A busca pela imutabilidade do movimento. Algo que pudesse existir, apesar das coisas que existem hoje e que amanhã já perecem na foz que leva ao nada... Nada? Se o nada é o que há, então nada poderia ser conhecido. É preciso que haja uma razão por trás de tudo, uma ordem, uma realidade que perdure ao nada.

Enfim, é preciso convidar Adão para dar nomes aos animais e só é possível nomear aquilo que é real, aquilo que há, aquilo que permanece. Só é possível conhecer o imutável de toda essa mutabilidade. Se todas as coisas mudam, segundo Heráclito, a lei da mudança não muda. Para Heráclito, o logos não muda. Está aberto o caminho para sondarmos o mistério desse logos. O que seja o logos ninguém ainda sabe ao certo, é provável, porém, que ele exista e que é por essa verdade única, por esse monismo, que será possível à razão humana perscrutar a realidade de todas as coisas – assim nasce a Filosofia!    

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