sábado, 14 de dezembro de 2013

Hugo de São Vítor e o Amor

É nossa intenção prestar atenção, de modo que este (o amor) não se acenda nos nossos corações como um fogo, e, de uma pequena centelha, se transmude em uma chama, sem que nos demos conta disso: o amor pode arruinar ou purificar toda a nossa vida, porque dele depende todo o nosso bem e todo o nosso mal.
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A fonte do amor se encontra no íntimo de nós mesmos e é única; ela alimenta dois riachos: o primeiro é o amor mundano e se chama cobiça, o segundo é o amor divino e é caridade. No centro de tudo está o coração humano, do qual jorra a fonte do amor: o amor impelido para fora se chama cobiça, o amor voltado pelo desejo para dentro toma o nome de caridade. Há, portanto, dois riachos que derivam da fonte do amor, a cobiça e a caridade: a cobiça é a origem de todos os males, a caridade é a origem de todos os bens. Todo o nosso bem e todo o nosso mal dependem, portanto, do amor.
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Como podemos então definir o amor? Devemos cumprir uma atenta indagação e refletir profundamente, porque o objeto de nossa investigação é bastante obscuro, entretanto, quanto mais é colocado no íntimo de nós mesmos, tanto mais domina o nosso coração em uma ou em outra direção. O amor parece ser o comprazer-se do coração de uma pessoa em alguma coisa, por causa de alguma coisa: se apresenta como desejo na procura, e felicidade na satisfação da posse, aparece como uma corrida, no que concerne ao desejo e como um repouso, no que concerne à alegria da posse.
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Quero confiar-vos um ensinamento, se é que consigo exprimir aquilo que gostaria de dizer. Deus onipotente, que não tem necessidade de nada, porque é o Sumo Bem – Ele que não pode receber algo de ninguém, que possa acrescentar algo ao seu ser, porque tudo dele provém, nem pode perder coisa alguma, ou seja, sofrer diminuição, porque todas as coisas n’Ele são imutavelmente – , criou a pessoa humana somente para o amor, não por alguma necessidade, querendo admiti-la à participação da própria beatitude. Deus pôs no homem o sentimento do amor com o escopo de torná-lo capaz de gozar um dia da sua suma felicidade.
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A pessoa humana foi, portanto, unida ao seu Criador por meio do amor e é somente o liame do amor que lhes une um ao outro: quanto mais forte este vínculo, maior será a causa da felicidade.
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Enquanto por meio do amor de Deus todos são unidos em Um só, por meio do amor do próximo todos se tornam uma só coisa entre si. Deste modo, toda pessoa singular, por meio do amor do próximo, consegue possuir nos outros, de modo pleno e perfeito, o que sozinha não conseguia acolher daquele Bem infinito, ao qual todos singularmente se unem: assim, no amor o bem de todos é totalmente possuído por cada um.
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O amor é suscitado por Deus quando recebe dele as razões pelas quais o ama, percorre o trajeto junto com ele, quando não se opõe nunca à sua vontade, tende para Deus como à sua própria meta, quando anela por encontrar nele a sua paz.
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Ordenai o amor: o vosso desejo na sua corrida proceda de Deus, com Deus e rumo a Deus; do próximo, com o próximo, mas não rumo ao próximo; do mundo, mas não com o mundo e não rumo ao mundo, e encontre o seu repouso na alegria de Deus. Esta é a caridade bem ordenada: tudo aquilo que é privado dessa ordem é desordenada paixão.

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