quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Convite à Filosofia (Mário Ferreira dos Santos)

M[ario Ferreira dos Santos
Em suas longas e demoradas especulações através dos séculos, tem o homem constantemente perguntado. E as respostas às magnas e mais importantes perguntas, levaram-no a formular outras que se algumas vezes satisfizeram a alguns, não satisfizeram a todos e, por sua vez, provocaram novas perguntas.

Perguntou o homem, sobre si mesmo: Quem sou? De onde vim? A Antropologia procura responder-lhe essa pergunta. E a Cosmologia, que estuda a ordem do cosmos, procura responder-lhe sobre a origem deste, de onde veio, qual o primeiro princípio. E vem a Teologia, ciência das coisas divinas, para discutir as razões e motivos a favor ou a desfavor da crença de Deus, o ser criador.

E se Deus existe, por que o Bem e o Mal? Por que não é diferente o mundo? E dessas perguntas, outra disciplina, a Teodicéia (de Theos, Deus, e dikê, justiça, em grego) é a quem cabe responder se há ou não justiça no mundo.

E como sabemos? E vem a Gnosiologia para explicar-nos o conhecimento.

Como se dá o saber culto? E eis a Epistemologia, que estuda o saber das diversas ciências.

E como formou o homem a sua inteligência? E eis a Psicogênese, que lhe ensinará e discutirá os problemas referentes à formação do psiquismo humano. E o espírito humano, que é criador, como surgiu? E sobre esse espírito criador surge outra disciplina, a Noogênese, que estuda a gênese do nous, o espírito, e, finalmente a Noologia, a ciência do espírito.

E como funciona esse psiquismo? E eis a Psicologia, que se encarrega de propor respostas às perguntas formuladas aqui.

Mas, significam as coisas algo, dizem mais do que o fenomênico? E eis a Simbólica, que examina as significações das coisas.

E há algo mais oculto, que possamos penetrar mais profundamente? E eis a Mística, que quer responder a essas perguntas.

E as coisas são belas, apresentam em si mesmas algo que lhes dê outro valor. E então é a Estética que estuda esse ponto.

E o transcendente? Poderemos alcançar o que está além de nós, além da nossa experiência? E eis a Metafísica Geral, a Ontologia, para responder-lhe a tais perguntas.

E como se dão os fatos no universo? E temos a Ciência, que procura explicar o nexo do acontecer dentro de si mesmo, em sua imanência, no que mana em, dentro de si, nas coisas experimentáveis.

E como medir os fatos e contá-los? E surge a Matemática.

E como compreender o homem em suas relações com os outros? E a Ética, a Moral, o Direito, a História e a Sociologia propõem-lhes respostas.

E como compreender o nexo dos pensamentos e usá-los da melhor maneira para atingir uma iluminação, que nos mostre mais nitidamente os fatos? E eis a Lógica e a Dialética.

E como explicar tudo isso, dar o nexo a tudo, juntar todo conhecimento humano, e analisá-lo num grande corpo, num grande saber, que seja o saber de tudo, que seja o saber dos saberes? E eis a Filosofia.

                              . – = o o o o o o 0 o o o o o o = – .

Pode-se remontar a Filosofia, assim como a entendemos no Ocidente, aos pitagóricos, pois razões bastantes e justas têm estes em considerar Pitágoras como o fundador daquela, e não apenas quem lhe deu nome, ao chamar-se humildemente de filósofo, palavra proveniente do grego philos, que significa amar, e sophia, que significa saber, intitulando-se um amante do saber.

Considerava Pitágoras haver uma ciência, um saber que independe do homem, independe do seu investigar e da sua especulação. Na ordem do ser universal, já está este saber efetivo, dado de toda a eternidade, essa ciência suprema e positiva, essa positividade, thesis, do pensamento, man, de onde vem o termo Mathesis, saber positivo, pensamento positivo. O homem é apenas um ser perplexo ante os acontecimentos do seu mundo e que não se satisfaz em apenas construir conceitos empíricos da sua experiência sobre as coisas. Ele deseja conexionar e conexiona, busca as relações que ultrapassam aos sentidos, os nexos que unem, portanto, os fatos do mundo. Ele é um eterno viandante pelos caminhos do mundo em busca dessa Mathesis Suprema, que deseja conhecer essa ciência superior e perfeita que já está dada e que a sua limitação e os meios imperfeitos que dispõe, não lhe permitem uma intuição direta e imediata, como a que os seus sentidos oferecem.

Conhecer as coisas, através dos sentidos, é uma visão ainda desordenada e caótica do mundo que o cerca, no qual está imerso. Coordenar esses conhecimentos, conexioná-los, descobrir os nexos que os unem, conhecer as razões de seu existir e de seu não existir, constituem, para ele, um conhecimento que as instituições sensíveis não oferecem.

Resta-nos um recurso apenas: investigá-los com um instrumento, o único que possui para essa busca que é o pensamento. O homem que apenas dispõe do pensamento para investigar o que escapa aos sentidos, o que não se vê com os olhos do corpo nem se ouve com os ouvidos desse mesmo corpo, é o investigador de um saber que ultrapassa a mera experiência sensível. Esse homem ávido de conhecer, que ordena o caótico dos acontecimentos díspares, que os classifica em ordens diversas, que busca o que os conexiona, que os teoriza, é, em suma, o filósofo. Essa palavra teoria, que vem do grego theoria, significa em sua forma etimológica visão. Mas também os gregos chamavam theoria as longas filas dos fiéis que vinham de todos os quadrantes da Grécia ao Templo de Delfos para prestar homenagens aos deuses. E como traziam festões de flores, que os ligavam entre si, aproveitaram-se desse termo os sábios para com ele indicar tudo quanto conexiona uma série de fatos. Ora, o saber filosófico não é o saber comum, o saber empírico, mas um saber teórico. Desse modo, a Filosofia é um saber teórico, que conexiona, que busca as relações, que unem as coisas e as razões, primeiras e últimas, que as explicam e que as justificam.

É evidente que esse enunciado não diz tudo quanto é a Filosofia, mas ajuda a compreendê-la em suas linhas gerais.

Vê-se, desde logo, que todos nós, sem que o saibamos, em muitos momentos de nossa vida, filosofamos muitas vezes sem sequer perceber que o fazemos.

Perplexos ante os acontecimentos que nos rodeiam, investigamos as razões, os porquês dos acontecimentos, e também o que os conexiona. Ora, a Filosofia é essa atividade em conexionar e buscar os porquês de todas as coisas. E é onde ela se distingue da ciência no sentido atual, que se refere mais às ciências naturais e sociais. Estas procuram saber como se dão os fatos, medindo-os, comparando-os, classificando-os. Mas a Filosofia quer saber mais, quer saber por que são assim e não de outro modo, por que se dão ou não se dão, e busca as razões primeiras e últimas que os explicam.

Como naturalmente essas razões escapam ao campo da nossa experiência, a Ciência trabalha mais com conceitos empíricos, enquanto a Filosofia trabalha mais com conceitos abstratos. O cientista apenas comprova o que se dá; o filósofo quer saber por que se dá.

Quando o cientista penetra no porquê das coisas, penetra no âmbito da Filosofia e esta é a razão pela qual é difícil estabelecer fronteiras nítidas entre uma e outra. Na verdade, há um ponto comum, um ponto de encontro em que ambas se confundem. Aqueles que pretendem separá-las, criando um abismo entre ambas, cometem um grave erro e não auxiliam o progresso do saber humano.

A Filosofia carece do auxílio da ciência, como esta carece daquela. O sábio investigador dos fatos naturais, que não tem base filosófica, termina apenas num colecionador de acontecimentos, como o filósofo, que prescinde da ciência, está sujeito a cair num pensamento abstrato vicioso.

Do emprego comedido e inteligente de ambos saberes só pode surgir um benefício para o progresso humano. E como esse ideal já se realizou nos homens de cérebro mais potente que a humanidade conheceu, só podemos desejar que ele prossiga e influa em muitos mais.

Mas, como será possível alcançar esse desideratum sem que se inicie o conhecimento da Filosofia? É mister conhecê-la e amá-la. Só então, depois de percorrer os seus caminhos, está o estudioso apto a saber qual a essência da Filosofia. E quando alcançá-la, verificará que o divórcio, pregado por muitos, entre ela e a Ciência, provém mais da ignorância e da deficiência mental que da proficiência e do saber.

Sigamos, pois, primeiramente, palmilhando o terreno filosófico para que alcancemos, afinal, uma visão global e nítida da Filosofia, através do filosofar, porque é filosofando, é na ação do filosofar, que aos poucos se evidenciará o conceito nítido dessa disciplina, inegavelmente a mais alta a que atingiu o ser humano.

(Anote esse nome, quem não conhece: Mário Ferreira dos Santos - 3/1/1907 – 11/4/1968, brasileiro, um dos maiores filósofos do Século XX).
Para ter acesso a mais obras do filósofo Mário Ferreira dos Santos, clique aqui!

domingo, 27 de janeiro de 2013

Hannah Arendt e o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto (série Resenha Pessoal Fundamental III)

Hannah Arendt
Dia 27 de janeiro é o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto e isso me trouxe à mente uma série de lembranças que gostaria de compartilhar aqui. 

Há muitos filmes tratando do tema do Holocausto. Há uns filmes que eu detesto, como, por exemplo, “A vida é bela”. A justificativa do filme não me convenceu. Não gosto de nada que me coloque fora da realidade, mesmo que sob a desculpa de um certo ludismo do universo infantil. Não gosto de filmes que turvam a realidade ao mesmo tempo que tratam da própria realidade. Valeria a pena, como exercício didático do que estou dizendo aqui, assistir ao genial “Trem da vida”, que transborda todas as qualidades que faltam ao filminho do italiano Roberto Benigni. Aliás, dizem que o filme do italiano é um plágio descarado, um verdadeiro roubo de roteiro adaptado desse fascinate filme francês “O trem da vida”.

Polêmicas à parte, ou melhor, talvez insistindo nelas, devo confessar que, embora veja muitas qualidades no filme de Spielberg - A Lista de Schindler – este também não me agradou por recorrer ao lugar-comum do “vilão alemão enlouquecido”. O tema do alemão louco que teria posto em prática o assassinato de mais de 6 milhões de judeus é uma imagem que já está impregnada em nossa psique pela recorrente utilização dessa caricatura em tantos filmes, séries, comédias, etc. Todavia, ao ler o impressionante “Origens do Totalitarismo” e o revelador “Eichmann em Jerusalém”, ambos da filósofa judia Hannah Arendt, precisamos certamente desconstruir os mitos que a propaganda mundial  fez-nos crer.

A ousada tese de Arendt nos dois livros é: “O fato de ter sido ou estar sendo vítima da injustiça e da crueldade não elimina a sua co-responsabilidade”. É! É isso mesmo o que você vai encontrar nos dois livros – a responsabilidade da vítima (no caso, o judeu) naquilo que fizeram contra ela. A crença do judeu num “anti-semitismo eterno” é um dos argumentos que Arendt expõe e que era compartilhado pelos judeus ao lado dos seus próprios algozes. O anti-semitismo foi encarnado como um destino inevitável pelo judeu, defende Arendt. Para ela, o próprio judeu dirigiu-se aos campos de concentração sob a forma de um cordeiro seguindo ao matadouro, porque acreditava nesse seu destino eterno. É a teoria do bode expiatório que, segundo a filósofa judia, “acentua a absoluta inocência das vítimas do terror moderno”. Por que os judeus e não outros? Tudo será justificado sobre as bases do anti-semitismo eterno. Este é o argumento usado tanto pelos algozes como pelos próprios judeus.


Em “Eichmann em Jerusalém”, além da denúncia de que os próprios judeus entregaram seus pares ao Holocausto e que eles, assumindo o papel histórico de bode expiatório, não se revoltaram contra os poucos guardas que empurravam milhares aos trens de carga, Hannah Arendt desmistifica também o mito do “alemão louco”, aquele ensandecido e fora de sua razão, o monstro germânico que engendrou o Holocausto para saciar o seu sadismo e mesquinhes. Esta imagem cai por terra. A filósofa judia olha para dois pontos fundamentais: primeiro, o homem que participou da máquina assassina que levou todo um povo à morte é um ser-humano normal, um simples operário do Estado, alguém que estava cumprindo ordens, um funcionário público – alguém que lançou sobre o Estado a sua responsabilidade pessoal de refletir e de sentir: a moral humana foi trocada pela moral do Estado. Aqui, quero explicitar a lição que aprendi ao deparar-me com isso que ela chama de a banalidade do mal: há uma esfera da existência humana em que Deus não permitiu – e nem permite – que nos “refugiemos” nEle – a esfera de nossa própria responsabilidade! Segundo ponto observado por Arendt em seu livro, desmitifica outra estupidez geral perpetrada pela mídia e livros de história: o Holocausto vendido como simplesmente um crime alemão! A observação de Hannah por todo o processo de julgamento de Eichmann expõe a verdade que levou ao veredito óbvio, populista, cheio de irregularidades e que findou por esconder os verdadeiros criminosos: o Holocausto foi um crime Europeu. Ninguém defendeu os judeus – nem a esquerda europeia! Todos os países da Europa “fecharam seus olhos” e enviaram à Alemanha e a outros campos criados pelos nazistas os seus próprios judeus. Todos participaram. Todos assassinaram. O criminoso “alemão louco” não ajuda em nada a causa judaica, apenas esconde o mal que habita dentro de toda raça humana. O “alemão louco” é uma caricatura, um mito, o vilão criado para que eu não tenha que assumir a minha culpa neste processo, mas fica o alerta: “cada crime precisa de um criminoso de carne e osso, do contrário negamos a responsabilidade humana”!

Enfim, são muitos temas surpreendentes levantados por Hannah em seus dois livros, contudo um tema também me instigou por revelar o que há por trás de “nossas boas ações”: os nazistas estavam sendo julgados porque assassinaram seres humanos ou porque destruíram uma cultura? Ora, os ciganos também foram devastados, mas não vemos tamanha comoção em relação a este grupo. Esta lógica macabra é a mesma que preserva culturas indígenas que assassinam crianças recém-nascidas em nome de alguma crença cultural e é também a mesma lógica que rege o aborto – a cultura feminista acima da dignidade da vida humana. Quando o ser humano é sacrificado no altar da cultura, então estamos diante de uma nova religião, de um novo deus e de uma terrível idolatria. Para Hannah Arendt, a comoção mundial ao Holocausto judeu se deve ao fato de terem destruído uma cultura milenar e não pala razão de terem assasinado seres humanos!

Cheguei até aqui apenas com a intenção de sugerir um filme sobre o Holocausto. Um filme sem caricaturas de alemães sádicos, mas com gente de carne e osso, assassinos de carne e osso, pessoas que entram dentro do Estado e se veem como uma peça do sistema burocrático amoral. O filme é “O menino do pijama listrado” - um filme poético e assombroso. Aqui, ao contrário de "A vida é bela" a inocência da infância não é perdoada diante do peso da realidade engendrada pelo mundo dos adultos.
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Carl Jung, sincronicidade e a barata (série resenha pessoal fundamental II)

Há muitos anos, eu li dois livros que impressionaram profundamente minha psiquê, deixando marcas indeléveis. São eles “Freud e Jung – sobre a religião” e “Resposta a Jó”. Aquele me chamou a atenção pela exposição didática com que tratou o tema que dividiu Freud e Jung e já este causou-me escândalo pela forma como abordou a Bíblia e o cristianismo.


Dois livros que, obviamente, são frutos do seu tempo, ou melhor, que representam a racionalidade iluminista do homem europeu e sua posterior derrocada. Freud representa o homem moderno na sua escolha pela razão e em sua preocupação científica em delimitar suas pesquisas fazendo um recorte na tez do mundo físico; um homem marcado pela filosofia de Descartes, Hegel e Spinoza. Essa mentalidade do Idealismo forjou perenemente o perfil de Freud e seus estudos, além de explicar a gênese da ruptura entre ele e Carl Jung. Por sua vez, a Psicanálise desenvolvida por Jung trouxe ao divã aquilo que os racionalistas rejeitaram: o poder da religiosidade do ser humano. Todavia, não posso me furtar a dizer que a cena mais impactante do livro “Freud e Jung – sobre a religião” foi a narrativa ali feita sobre um sonho que Jung tivera. Ele sonhara que Deus vinha caminhando num campo, um Deus gigante e que se depara com uma basílica, uma igreja cristã e, então, Deus se posiciona sobre a igreja, desce as calças que vestia, coloca-se de cócoras e defeca sobre ela...



Freud defendia que a causa das neuroses encontrava sua gênese na sexualidade, ou melhor, na repressão da libido humana. Insatisfeito em limitar todas as explicações a este campo, Jung começa a questionar seu professor se não poderia haver outras razões escondidas no campo das religiões, dos mitos e da parapsicologia, por exemplo (Carl Jung buscava orientar suas pesquisas na direção do Oculto, interessava-se por sessões mediúnicas e por precognição). Tudo isso, entretanto, era um verdadeiro absurdo para Freud. Enfim, enquanto Freud permaneceu no campo do provável, coube a Jung abrir as portas da percepção da ciência psicanalítica rumo ao improvável. Em “Resposta a Jó”, Jung nos apresenta um Deus – Javé – destituído de consciência, um Deus amoral! Um Deus que, na verdade, aprende com Jó e com os sofrimentos humanos, um Deus construído, um símbolo. Javé é analisado como um Deus que, junto com os homens, “quer fugir da injustiça cega”. E a grande epifania de Deus para Jung foi quando a Igreja Católica Romana decretou o dogma da Imaculada Conceição, elevando Maria à semelhança de um deus e entregando a Javé aquilo que lhe faltava: Maria era a Sofia do AT, a peça fundamental para equilibrar a masculinidade e o patriarcalismo da Santíssima Trindade. Diante desta pequena amostra das ideias desenvolvidas no livro de Jung, não é mera coincidência que a Europa apresente hoje um pós-cristianismo que na verdade é muito mais um renascer do antigo panteísmo. A decadência da modernidade freudiana é o advento de um panenteísmo pós-moderno revelado pela psicanálise de Jung no inconsciente de todos nós. Eis, então, dois livros que nos servem de ilustração para compreendermos os eventos ocorridos nos últimos dois séculos na Europa e que se estendeu ao Ocidente: a Modernidade e a Pós-modernidade! 

Por estes dias, assisti ao filme “Um método perigoso”, que narra exatamente este período de encontro e desencontro entre Freud e Jung e também a paixão intempestiva entre Jung e uma paciente sua, Sabina Spielrein, que se tornará mais tarde psicanalista, especializada em psicologia infantil. Há uma cena nesse filme que ilustra bem o que eu expliquei no parágrafo anterior. Jung questiona Freud se tudo teria que se restringir à sexualidade e se não se poderia pesquisar a metafísica, a parapsicologia, etc. Freud reage frontalmente a essa posição, mas, precisamente naquele momento da discussão entre os dois, o móvel da Biblioteca da casa de Freud dá um grande estalo. Jung diz ao seu professor que sabia que isso iria ocorrer, porque, nas palavras de Jung, enquanto Freud estava reagindo às suas ideias, ele sentira um fogo, uma queimação em seu estômago. Freud, que compreendia que tudo não passara de mera coincidência, ficou escandalizado com as ideias de seu pupilo, contudo Jung insistiu dizendo que o estalo iria acontecer de novo. Dito e feito! Mal terminara de falar, um novo estalo ocorre diante de Freud em sua estante de livros. Posteriormente, numa carta a Jung, Freud atribui o ocorrido a uma enganação, uma farsa forjada por Jung para desmoralizá-lo. 

Para Freud, tudo não passava de meras coincidências. Para Jung, coincidências não existiam. As coisas estão todas ligadas; os fatos que não tem conexão aparente estão conectados, assim como havia pessoas que se percebiam convergir em direção a outras por “coincidências” que denunciavam uma unidade espiritual entre elas e a isso Jung dá o nome sincronicidade. E é com uma ilustração deste conceito junguiano que encerro este meu texto. Após assistir ao filme “Um método perigoso”, fui à biblioteca da minha casa rever os dois livros que abordei aqui. Ao sair da biblioteca, passei pelo quarto das minhas filhas e vi que, encostada à porta, havia uma enorme barata. Peguei a sandália e aproximei-me bem devagarinho. Num gesto típico dos que tem ódio desses seres nojentos, desferi contra ela uma pesadíssima sandaliada. Depois, ergui a sandália e pude ver a famigerada totalmente destruída, esmagada e com seus líquidos viscosos e brancos espalhados pelo chão. Fui ao banheiro pegar o papel higiênico e retirá-la dali, lançando-a à privada. Porém, para minha surpresa, ao retornar alguns segundos após ter saído da cena de meu crime, aquela barata enorme havia simplesmente... sumido! Procurei atrás da porta, pelo quarto, debaixo das camas, ainda que eu soubesse que aquela busca era em vão, porque vira aquele bicho ser totalmente destruído pela violência do meu golpe. A barata desaparecera... ou, talvez, nunca existira. Teria sido precognição ou sincronicidade? Simples coincidência? Logo naquela manhã em que eu acabara de ler que Jung costumava sentar à mesa da sua sala, passando longas horas conversando com fantasmas... 

Assista ao trailer do filme "Um método perigoso":

Leia também:

A mística do vício - Dostoiévski (série resenha pessoal fundamental I)


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