quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Quase a mesma coisa - Um roteiro prático sobre tradução (série Resenha Fundamental Pessoal VI)

Conversando com um amigo sobre tradução, logo lembrei desse fascinante livro de Umberto Eco. É um dos meus livros de cabeceira. Um livro rico, erudito e cheio de experiências práticas de um autor que acompanha a tradução de seus próprios livros em diversos idiomas e que, também, traduz livros de tantos outros escritores. Leitura maravilhosa! Segue um resumo que fiz das principais ideias do livro para meus amigos que também trabalham com tradução com alguns comentários pessoais.


Vale a pena compreender que para Umberto Eco o trabalho de tradução não se dá entre palavras, mas sempre entre textos (o texto é chamado de Manifestação Linear). O processo da formação do texto reside na langue, o texto em si é a parole. Aqui, ainda, Umberto Eco chama a atenção ao perigo que reside na tentativa de se traduzir palavras por palavras, sendo que o recorte que uma palavra abarca em determinada língua pode não ser abarcado por uma palavra de outra língua (mesmo que, “dicionariamente”, pareçam se intercambiar). Ex: nephew/niece/grandchild (termos ingleses) e nipote (italiano).
Umberto Eco

Conceitos introdutórios:

1. A forma da expressão: é o conhecimento da gramática daquela língua, a saber, sua fonologia, morfologia, o léxico e a sintaxe.

2. A forma do conteúdo: a percepção do recorte do mundo feito por aquela língua: ovelha vs cabra; cavalo vs égua; rat vs mouse, as matizes das cores, etc.

3. O sentido: a forma do conteúdo vai revelar o sentido que levará o tradutor à escolha da palavra que abarque o mundo que se deseja levar do “texto fonte” ao “texto de chegada”.

Roteiro para a interpretação do sentido:

  1. Compreender o sentido literal e ver se há ambiguidade;
  2. Correlacioná-lo a mundos possíveis: o texto pertence ao mundo do qual faço parte ou seria uma fábula?
  3. Discernir enredos intertextuais e gêneros literários;
  4. Averiguar a possibilidade de estar-se diante de uma expressão idiomática;
  5. Diante do texto lido, averiguar o capítulo ou o livro em que ele se encontra inserido, para descobrir o tema do discurso;
  6. Tentar distinguir isotopias: uma mesma palavra com significados diferentes. Ex: O alfaiate não estava satisfeito com o gancho (cavallo, no italiano) e O jóquei não estava satisfeito com o cavallo (cavalo, no italiano);
  7. Buscar identificar os enredos comuns (que preferiria chamar de enredos implícitos): aquilo que não está escrito, mas que se sabe fazer parte do fato narrado.
  8. Reconstruir o enredo de uma nova maneira, para identificar qual seria “a história profunda”, que é a principal, daquelas que fariam parte dos eventos marginais ou parentéticos (estarei transformando o enredo em proposições que serão o resumo da história);
  9. Identificar a psicologia dos personagens do enredo e identificar as estruturas actanciais;
  10. Continuar a analisar os níveis textuais e começar a criar hipóteses interpretativas mais consistentes diante da identificação das estruturas ideológicas do enredo;
  11. Enfim, nesta altura, ficará mais clara a aposta interpretativa sobre os vários níveis de sentido e sobre quais dentre esses sentidos o tradutor deverá privilegiar (o tradutor deve apostar a respeito de qual é a dominante de um texto).

 O tradutor como um negociador: há de se entender quais as escolhas que se deverá fazer de acordo com a intenção do texto. Sempre há a negociação, há perdas e ganhos nas apostas interpretativas que deverão ser feitas pelo tradutor. Às vezes, para Eco, pode parecer que numa negociação haja mais perdas que ganhos e, dependendo daquilo que se prioriza como sendo a intenção do texto, ainda assim o tradutor ficará satisfeito.

 Há o conceito de Reversibilidade: o tradutor deverá decidir quais níveis do texto de partida gostaria de ver mantidos no texto de chegada. Fará uma aposta interpretativa da intenção de texto e tentará a reversibilidade (seja fonética, sintática, estética, semântica, etc). A pergunta é: afinal, o que se quer traduzir daquele texto. A reversibilidade é o “tentar recuperar muitíssimo bem o original”! Mas, ainda aqui, há escolhas, por exemplo, há traduções que recuperam muitíssimo bem o conteúdo do original, mas a reversibilidade quanto ao estilo é praticamente nula. Comentando sobre alguns exemplos de tradução, Eco diz que “a reversibilidade não é necessariamente léxica ou sintática, mas pode dizer respeito também a modalidades de enunciação”.

Para Eco, é ótima a tradução que permite manter como reversíveis o maior número de níveis possíveis do texto traduzido e não necessariamente o nível meramente lexical que aparece na Manifestação Linear.

 A tradução também deve tomar cuidado com os grafemas. Sinais do texto original geram efeitos que podem ser perdidos na hora da tradução. Assim, sobre efeitos causados pelo texto de partida, também se deverá saber quais se manterão no texto de chegada.

 Mas algo que eu achei muito interessante foram dois exemplos de tradução. No primeiro, o termo complicado era o que designava “casa”. Bem, acontece que no texto de origem “casa” designava casa humilde, mas não pobre e que definia o material do telhado dela. Na língua de chegada, não havia “casa” que se encaixasse nisso. O outro exemplo tratava de uma tradução para o italiano e a escolha entre a palavra rato ou camundongo. Esta havia sido escolhida para falar do rato encontrado por determinado personagem no livro “A peste” de Camus. Segundo Eco, a escolha havia sido infeliz, pois camundongo no italiano era um “ratinho”. Isto é, não tinha nada a ver com o rato morto e doente do texto de Camus. Interessante, não?

“Traduzir quer dizer entender o sistema interno de uma língua, a estrutura de um texto dado nessa língua e construir um duplo do sistema textual que, submetido a uma certa descrição, possa produzir efeitos análogos no leitor, tanto no plano semântico e sintático, quanto no plano estilístico, métrico, fono-simbólico, e quanto aos efeitos passionais para os quais tendia o texto fonte”.

Frases-chave de Umberto eco:

1) “se o tradutor ou tradutora é inteligente, pode explicar os problemas que surgem em sua língua mesmo para um autor que não a conhece e mesmo nesses casos o autor pode colaborar sugerindo soluções ou até sugerindo quais licenças podem ser usadas com seu texto para contornar o problema” (p. 14) – aqui, penso na tradução bíblica: quem irá ajudar o tradutor para que ele contorne os problemas?

2) "mas o conceito de fidelidade tem a ver com a persuasão de que a tradução é uma das formas da interpretação e que deve sempre visar, embora partindo da sensibilidade e da cultura do leitor, re-encontrar não digo a intenção do autor, mas a intenção do texto, aquilo que o texto diz ou sugere em relação à língua em que é expresso e ao contexto cultural em que nasceu” (p. 17) – aqui, lembro das traduções ideológicas (denominacionais) como a da Bíblia de Jerusalém, que traduz, por exemplo, “sacrifício” por “hóstia” em Rm 12.

3) “Todavia, por mais inábeis e infelizes que tenham sido as traduções através das quais os textos do Antigo e Novo Testamento chegaram a bilhões de fiéis de línguas diversas, nessa corrida de língua a língua e de vulgata a vulgata uma parte consistente da humanidade acabou concordando sobre fatos e eventos fundamentais transmitidos por esses textos, dos dez Mandamentos ao sermão da montanha, das histórias de Moisés à paixão de cristo – e, gostaria de dizê-lo, sobre o espírito que anima esses textos” (p. 19) – impressionante Confissão de fé de um tradutor, que aqui, claramente, não concorda com os pós-modernos.

4) “Daí a idéia de que a tradução se apoia em alguns processos de negociação, sendo a negociação, justamente, um processo com base no qual se renuncia a alguma coisa para obter outra – e no fim as partes em jogo deveriam experimentar uma sensação razoável e recíproca satisfação à luz do áureo princípio de que não se pode ter tudo” (p. 19) – creio que o missionário-tradutor está o tempo todo com essa situação em sua mente.

Meu Deus, fiquei maravilhado com a análise feita por ele da tradução para crianças de “Os Miseráveis” de Vítor Hugo. No processo de fidelidade (reversibilidade) e negociação, quem adaptou a obra para crianças optou por mudar a situação do suicídio de Jean Valjean para de “pedido de demissão”. Eco entende que aqui foi aceitável e compreensível a mudança e que não havia sido feridos a trama e o espírito do livro. Embora Eco assuma que “se um incidente do gênero acontecesse em uma tradução (de algum livro dele), poderia falar de violação de um direito meu”.

5) “Isso nos faz suspeitar de que uma tradução não depende somente do contexto lingüístico, mas também de algo que está fora do texto e que chamaremos de informação acerca do mundo ou informação enciclopédica (p. 36) – Eco está se referindo ao fato de um simples dicionário digital não saber fazer “seleções contextuais”, por exemplo, o meu computador é incapaz de mudar a letra ‘e’ de Eco para maiúscula, quando erro durante a digitação que faço neste momento.

6) “é difícil estabelecer o significado de um termo (em uma língua desconhecida) até quando o lingüista aponta o dedo para um coelho que passa e o indígena pronuncia gavagai! O indígena pretende dizer que aquele é o nome daquele coelho, dos coelhos em geral, que a relva está se movendo, que um segmento espaço-temporal de coelho está passando? A decisão continua impossível, se o linguista não tem informações sobre a cultura indígena e não sabe como os nativos categorizam suas experiências, se eles nomeiam coisas, partes de coisas ou eventos que, no conjunto, compreendem também a aparição de uma dada coisa. O linguista deve, portanto, começar a elaborar uma série de hipóteses analíticas que o levam a construir um manual de tradução – que deveria corresponder a um manual completo não somente de linguística, mas também de antropologia cultural” (p. 42) – fascinante, não?


Sobre a tradução como negociação:

 Negociar: camundongo ou rato?
“Se queremos ressaltar na tradução um aspecto do original que nos parece importante, isso só pode acontecer, às vezes, à custa de deixar em segundo plano ou até mesmo de eliminar outros aspectos igualmente presentes. Mas é justamente isso que chamamos de interpretação... Na medida, porém, em que o tradutor nem sempre está em condição de expressar todas as dimensões do texto, seu trabalho implica também uma contínua renúncia” (a frase é de Gadamer).

“Traduzir significa sempre “cortar” algumas das consequências que o termo original implicava. Nesse sentido, ao traduzir não se diz nunca a mesma coisa. A interpretação que precede cada tradução deve estabelecer quantas e quais das possíveis consequências ilativas que o termo sugere podemos cortar” (p. 107) – fantástico este livro, não?

 Na questão da negociação, Eco diz que há perdas que são perdas absolutas. Daí a necessidade do tradutor assumir essa perda e tentar explicá-la numa nota de roda-pé. Mas, ainda nas questões de perda, Eco diz que o tradutor pode operar com compensações.

 Compensações são estratégias de tradução relacionadas a “se ajudar o texto”. Todavia, é um perigo ao qual se deve resistir o da tentação de ajudar demais o texto, quase substituindo o autor. Aqui, então, ele aborda a questão de se evitar “enriquecer o texto” traduzido.

Há traduções que enriquecem esplendidamente a língua de destino (aqui, Eco exemplifica com a tradução de Lutero da Bíblia que conseguiu “inventar” o alemão) e que, em casos que muitos consideram afortunados, conseguem dizer mais (ou são mais ricas de sugestões) que os originais. (Contudo), uma tradução que chega a “dizer mais” poderá ser uma obra excelente em si mesma, mas não é uma boa tradução.

Sobre perdas e ganhos num trabalho de tradução:

  1. “Existem perdas que poderíamos definir como absolutas”. Eco dá como exemplo uma piada que em italiano tem sua graça no jogo com os pronomes, mas que tem seu sentido perdido para maioria das línguas traduzidas (jogo de palavras). Aqui, peguei no flagra um jogo de palavras que Gisele (minha filha que, na época, tinha 2 anos de idade) fez quando me disse: “Pai, construí uma casa de palha... mas não sou um palhaço”!
  2. “Perdas por acordo entre as partes”: o autor dá o exemplo de seu livro “O nome da rosa” que teve 24 páginas cortadas no inglês por motivos de mercado.
  3. Quando há ambigüidades e obscuridades no texto que se está traduzindo: a) “o tradutor, à luz do contexto, deve esclarecer o texto para o leitor”; b) “o tradutor não apenas resolve o ponto no texto de chegada, mas ilumina o autor (se ainda estiver vivo e for capaz de reler a si mesmo em tradução) e pode levá-lo, em uma edição sucessiva do original, a esclarecer melhor o que pretendia dizer”; c) “quando, mesmo que ao houvesse a intenção do autor (ou do tradutor) de que o texto fosse ambíguo, mas o leitor considera aquela ambigüidade interessante textualmente”; d) “quando o autor (e o texto) eram e queriam permanecer ambíguos, precisamente para suscitar uma interpretação oscilante entre duas alternativas. Nesses casos, o tradutor deve aceitar a ambigüidade”. Ainda, aqui, deve-se consultar outras traduções em outras línguas para ver como outros resolveram as ambigüidades e obscuridades do texto.
  4. Quando a perda é sensível, pode-se re-elaborar radicalmente o texto: a reelaboração, para Eco, é um ato de fidelidade. Tenta-se re-escrever para tentar dar ao texto traduzido algum mesmo efeito que se sabe completamente perdido na cultura do leitor final. O exemplo dado é de um texto de Eco traduzido do italiano para o espanhol, todavia Eco fazia alusões à poesia italiana, e que na tradução passaram a ser alusões à poesia espanhola (p. 145 – 150).
  5. “O único critério para poder dizer que se trata ainda de tradução é que seja respeitada a condição de reversibilidade” (p. 161).

Sobre referência e sentido profundo:

Nesse capítulo, Umberto Eco questiona a possibilidade de se mudar a referência de um texto embora seja possível manter o sentido profundo desse texto. Para solucionar a questão, ele vê que cada caso é um caso.

Há traduções nas quais se usa determinado termo que muda a referência do texto original. Como exemplo, ele cita uma narrativa em que o original coupé do francês é traduzido para hansom em inglês. Todavia, as duas carruagens são bem diferentes. A primeira leva o cocheiro sentado na parte da frente e a segunda leva o cocheiro sentado na parte de trás. Ora, então o francês visualiza a cena de uma carruagem com um cocheiro sentado na frente e o inglês o visualiza sentado atrás. Para a narrativa, tanto faz. Mas, “do ponto de vista do critério de verdade, os dois textos constroem duas cenas diferentes”.

Interessante, não? Principalmente, se pensarmos na tradução bíblica e o que estamos construindo na mente do leitor.

Há mudanças de referência que são aceitas e outras não. Embora, para Umberto Eco, o tradutor não devesse mudar as referências do texto original. Mas há línguas que se verá o tradutor obrigado a fazer isso. Ele dá o exemplo da tradução do seu livro “O pêndulo de Foucault” em que há uma cena na qual o personagem entra numa sala e tem uma experiência cromática que é passada pela descrição ininterrupta de cores vistas por ele. Mas numa tradução para determinada língua havia várias cores inexistentes. Simplesmente não havia palavras equivalentes para se traduzir as cores do original. Assim, o tradutor optou por outras cores. Mantendo o sentido, mas alterando a referência.

Mas há trocas de referências inaceitáveis. Eco lembra que em textos clássicos como Hamlet seria inadmissível não ler “to be or not to be”, mas ler algo como “viver ou morrer bem” só para se tentar facilitar o jogo de palavras. Enquanto um texto como “O pêndulo de Foucault” pode ser mudado como se quiser e ninguém vai ligar.

Se o tradutor pode mudar as referências de “O pêndulo de Foucault”, quais são os limites? Eco vê que toda narrativa pode ser reduzida micro-proposições que revelam a “história profunda”. Esta não deve ser alterada. Enquanto se poderia mexer nas referências da “história superficial”. Ex: A menina leva doces à casa da vovó e acaba na armadilha de um lobo que a engana, devorando sua avó e quase a devorando também. Para Eco, há uma verdadeira fábula e esta é que não pode ser alterada.

Fontes , foz, deltas e estuários

“Uma tradução não diz respeito apenas a uma mensagem entre duas línguas, mas entre duas culturas, ou duas enciclopédias”.

Aqui, recordo-me da situação bíblica de Sara e Abraão na narrativa da situação de sua serva. Há que se recorrer a um background cultural para se compreender os pressupostos extra-bíblicos legais e jurídicos da época. Eco passa a citar alguns exemplos em que a má compreensão cultural produz uma cadeia de mal-entendidos linguísticos.

A grande questão do livro

Uma tradução deve levar o leitor a compreender o universo linguístico e cultural do texto de origem ou deve transformar o texto original para torná-lo aceitável ao leitor da língua ou da cultura de destino?

Ao se traduzir Homero, o tradutor deveria transformar os próprios leitores gregos dos tempos homéricos ou obrigar Homero a escrever como se fosse um autor dos nossos tempos?
A questão exposta acima é designada no livro como: DOMESTICAR ou ESTRANGEIRIZAR? MODERNIZAR ou ARCAIZAR?...

Boa leitura!

Leia também:

Quem sou eu? - (série Resenha Fundamental Pessoal V)



sábado, 23 de fevereiro de 2013

Jesus foi o negro do mundo? - um discurso sobre a nossa individualidade


Preconceito é algo que todo mundo sofre mais cedo ou mais tarde... e espero não estar sendo preconceituoso quando eu digo isso... Você sofre preconceito porque é bem casado ou porque é separado; porque é alto ou porque é baixo; porque é gordo ou porque é magro; porque é inteligente ou porque é obtuso. Cabe, portanto, duas saídas: a vitimização ou correr atrás para que você seja conceituado pelo mérito pessoal e não pelo grupo ao qual pensam que você participa. Preconceito é ser avaliado sob o estigma de um grupo ao que, se supõe, você pertença. Esta definição está no Houaiss. Em outras palavras, preconceito é julgar a parte pelo todo. A saída contra esse preconceito, que se mostra na avaliação de um indivíduo pelas características de um grupo, deve ser a reversão dessa coletividade pela sua individualidade. O preconceito pode se tornar uma oportunidade para mostrarmos que não somos o grupo no qual insistem em nos encaixotar. Somos mais do que a massa, mais do que o grupo, porque somos antes indivíduos dotados de uma personalidade e valor únicos para Deus.

Perceba, se você é um gay, você quer ser respeitado pelas características do movimento gayzista de Luiz Mott ou pela pessoa que você é? Se você é um cristão, você quer ser respeitado pelas características de quais grupos? Católicos, evangélicos ou espíritas? Se você é um cidadão, um membro da sociedade que é identificado por números em série, você deseja ser essa massa? Deseja ser essa impessoalidade? Ou, para longe dos rótulos, associações e estereótipos, você quer ser respeitado pelo que você é? Se você é negro, o seu grupo hoje lhe oferece os benefícios das cotas, mas, amanhã, será você sozinho quem terá que provar que conquistou seu diploma por mérito e não por se esconder atrás de um discurso sobre dívida histórica. É como ser brasileiro em algum lugar do mundo: as pessoas vão pensar que você é samba, futebol e melancia até que os seus méritos pessoais mostrem quem você é de fato.

Nós queremos pertencer a determinados grupos com os quais nos identificamos, o que é natural. Contudo, o problema é quando o grupo passa a alimentar-se de nós, exigindo que carreguemos uma bandeira que suprime ou vai contra a nossa individualidade. É a cultura da massa contra a liberdade do indivíduo. Então é responsabilidade sua não sucumbir ao meio e ao outro, mas se superar.

Ser cristão, hoje, cristão de verdade, bíblico, que se agarra ao testemunho do tempo, é o mesmo que ser um nazista ou um membro da Ku Klux Klan. Você será acusado de homofóbico, sem sombra de dúvida. Dirão que você é um serzinho medíocre que não merece o mínimo de respeito. Dirão que é um fundamentalista e nem te chamarão para as rodas de conversa, porque todos já sabem, de antemão, o que você pensa, o que vai dizer e o que crê. Não interessa quem você é, o que importa é que eles já julgaram quem você seja. Portanto, você é o pobre do mundo.

Ser calvinista, por exemplo, é o mesmo que ser um revolucionário do Partido de Mao Tsé-Tung. Você será um totalitário de mente dominadora e tacanha. Um serzinho vesgo e pequenino como algum desses personagens das histórias fantásticas do C.S. Lewis ou do Tolkien. Dirão que você é intransigente, puritano, hipócrita, dono da verdade, opressor das massas, ditador e seguidor do assassino de Serveto! Não interessa quem você é, o que importa é que eles já julgaram quem você seja. Portanto, você é a mulher do mundo.

Agora estão dizendo que a minha denominação eclesiástica aceita a ordenação de pastores gays, só porque os americanos e escoceses daquelas denominações estão aceitando a ordenação de pastores homossexuais. A minha igreja não tem nada com isso. Uma coisa é uma coisa e a outra coisa é outra coisa, mas vai tentar explicar isso! Outra: sempre digo que o que mais me marcou na minha pública profissão de fé, quando fui recebido na minha igreja, foi a promessa que fazem todos os que se congregam a ela: “Prometo ser-lhe fiel, enquanto a liderança da igreja for fiel às Sagradas Escrituras”. Assim, livro-me da subserviência ao grupo, caso eu entenda que este discorda da Palavra que eu sigo... Mas, ainda assim, não interessa quem você é, o que importa é que eles tomam o modo subjuntivo pelo indicativo. Em outras palavras, julgam você por aquilo que você seja como se fosse isso o que você é. Portanto, você é o escravo do mundo.

Eu tinha uma amiga gay (tempos pregressos), que me levava para a casa e dizia à família dela que eu era seu namorado (só para manter as aparências). Até que uma amiga "entendida" foi visitá-la e ela fez a besteira de estender a brincadeira: “Você ainda não conhece meu namorado, não é? Aqui está. Deixa eu te apresentar”... A amiga gay dela ficou pálida na nossa frente, mas, na hora, não disse nada. Sentamos para assistir tv, nós no chão e a amiga ao nosso lado no sofá. Dali a pouco, a amiga não suportou mais e explodiu num acesso de ira: “Você está louca? O que as meninas vão dizer?”, disse ela rosnando. “Você não pode namorar um homem. Você é gay! Você está louca”... A discussão entre as duas saiu do controle até o ponto de eu ter que ir embora e deixar o barraco quebrando atrás de mim. Então, veja, eis um exemplo do poder coercivo do grupo sobre o indivíduo: “Você é gay”!

Cuidado: o grupo irá anular quem você é, caso a sobrevivência dele esteja em jogo. Grupos tendem a não permitir que você seja quem você é, caso isso signifique algum dano a eles. Sempre foi assim e sempre será. E é disso que a sua individualidade precisa se resguardar: a usurpação da liberdade é a realidade totalitária oculta sob o manto da democracia das minorias.

Jesus foi o negro do mundo? Ele é o melhor exemplo de tudo o que estou dizendo aqui. Jesus sempre foi avaliado pelo grupo, ao qual insistiam que ele se identificasse: filho, nazareno, galileu, judeu, homem, profeta, rei, messias populista, milagreiro, essênio, gay, marido de Maria Madalena, etc. Tentam resumir ou re-interpretar Sua pessoa por todos estes séculos, segundo cada um desses grupos, contudo Jesus não era nenhum deles no final das contas. Jesus não era, porque sempre fora, desde a eternidade, o Filho unigênito do Pai, a segunda Pessoa da Trindade. O fato de Jesus ter se identificado, por Sua livre vontade no mistério da encarnação, com um ou outro grupo não anulou a Sua individualidade.

Mas e você, quem você é? Eu queria dizer algo maravilhoso que eu descobri para a minha própria vida. Antes de pertencer a qualquer grupo, seja a família, seja a igreja, um partido político, ao cristianismo, antes de qualquer um desses grupos, eu já pertencia ao Pai. Desde a eternidade, antes mesmo de nascer, Deus já havia me planejado. Assim, a minha identidade, a verdadeira identidade, está guardada em Deus. Quem eu sou é um tesouro escondido no coração de Deus. Volte-se a Ele e descubra essa verdade em Cristo, porque a liberdade que conquistamos em Jesus é um bem inegociável.

PS - Enfim, escrevi este artigo tendo essa música de John Lennon martelando em minha cabeça por todo o texto: "Woman is the nigger of the world". Uma música pró-feminista e que causou polêmica na época por causa do "nigger" da letra. Aliás, a letra é da Yoko Ono. Uma letra contra o preconceito, mas que foi acusada de ser uma música preconceituosa (pensamento envesado típico de quem permite que "grupos" pensem em seu lugar).




A mulher é o escravo do mundo
Sim, ela é...pense nisso
A mulher é o escravo do mundo
Pense nisso...faça algo sobre isso

Nós a fazemos pintar o rosto e dançar
Se ela não for uma escrava, dizemos que elas não nos amam
Se ela é real, dizemos que ela está tentando ser um homem
Enquanto a colocamos pra baixo, fingimos que ela está por cima

A mulher é o escravo do mundo, sim ela é
Se você não acredita, dê uma olhada em quem está contigo
A mulher é o escravo dos escravos
Ah, sim...

Nós a fazemos parir e criar nossos filhos
E depois as deixamos de lado por serem mães gordas como galinha
Nós dizemos que elas só devem ficar em casa
E depois dizemos que são muito anti-sociais para ser amigas

A mulher é o escravo do mundo, sim ela é
Se você não acredita, dê uma olhada em quem está contigo
A mulher é o escravo dos escravos
Ah, sim...

Nós a insultamos todo dia na TV
E nos perguntamos por quê lhe falta coragem ou auto-confiança
Quando jovens, tiramos delas a promessa de liberdade
Enquanto as mandamos serem pouco inteligentes, as culpamos por serem tão burras

A mulher é o escravo do mundo, sim ela é
Se você não acredita, dê uma olhada em quem está contigo
A mulher é o escravo dos escravos
Ah, sim...se você acredita em mim, melhor gritar sobre isso

Nós a fazemos pintar o rosto e dançar
Nós a fazemos pintar o rosto e dançar

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A Revolta de Atlas (Ayn Rand)

A Revolta de Atlas.jpg 
Ayn Rand é a musa do libertarianismo moderno, filósofa de qualidade e importante novelista.  Rand foi central para a consolidação de uma das bases do movimento libertário — o notável princípio da não agressão, segundo o qual se considera ilegítimo o recurso à força física, ameaça e fraude contra inocentes ou sua propriedade.  A Revolta de Atlas é uma primorosa e cativante dramatização da filosofia de Rand e um dos livros mais influentes de todos os tempos.

Helio Beltrão, presidente do IMB

Foi relançado recentemente pela editora Sextante o livro A Revolta de Atlas, originalmente publicado em português com o título Quem é John Galt?.

Escrito por Ayn Rand em 1957, a obra é um romance dedicado à defesa do liberalismo econômico e da livre-iniciativa. 

Como diz a contra-capa:


Considerado o livro mais influente nos Estados Unidos depois da Bíblia, segundo a Biblioteca do Congresso americano, A Revolta de Atlas é um romance monumental cuja história se passa numa época imprecisa, quando as forças políticas de esquerda estão no poder.  Último baluarte do que ainda resta do capitalismo num mundo infestado de repúblicas populares, os Estados Unidos estão em decadência e sua economia caminha para o colapso.

Nesse cenário desolador em que a intervenção estatal se sobrepõe a qualquer iniciativa privada de reerguer a economia, e o controle do governo sobre todos os setores da economia aumenta continuamente, os principais inovadores e trabalhadores começam a desaparecer em circunstâncias misteriosas, abandonando negócios lucrativos ou empregos que antes garantiam seu sustento. Com medidas arbitrárias e leis manipuladas, o estado logo se apossa de suas propriedades e invenções, mas não é capaz de manter a lucratividade de seus negócios.

Sem essas mentes privilegiadas para criar coisas novas e produzir riqueza para toda a sociedade, qual será o futuro do mundo?

Mas a greve de cérebros motivada por um estado improdutivo à beira da ruína vai cobrar um preço muito alto. E é o homem — e toda a sociedade — quem irá pagar.


Quando foi lançado, o livro deixou Ludwig von Mises tão impressionado, que ele fez questão de escrever a seguinte carta para Ayn Rand:

Prezada Sra. Rand:
Eu não sou um crítico profissional e não me sinto capaz de julgar os méritos desse livro.  Portanto, eu não quero retê-la aqui com a informação que gostei muito de ler A Revolta de Atlas e que fiquei extremamente admirado com a magistral maneira como a senhora construiu o enredo.
Porém, A Revolta de Atlas não é simplesmente uma novela. É também (e principalmente) uma análise persuasiva dos males que assolam nossa sociedade, uma rejeição embasada da ideologia dos nossos pretensos "intelectuais" e um impiedoso desmascaramento da insinceridade das políticas adotadas pelos governantes e políticos.
É uma exposição devastadora dos "canibais da moral", dos "gigolôs da ciência" e da "tagarelice acadêmica" desses criadores da "revolução anti-industrial".  A senhora teve a coragem de dizer para as massas aquilo que nenhum político jamais teve: vocês não seriam nada sem os capitalistas, e todas as melhorias nas suas condições de vida, tudo aquilo que vocês simplesmente assumem como coisa corriqueira, como fato consumado, vocês devem unicamente aos esforços de homens que são melhores do que vocês.
Se isto é arrogância, como muitos de seus críticos disseram, ainda assim é a verdade que precisava ser dita nesta era de assistencialismo estatal.
Eu sinceramente lhe congratulo e aguardo com grande expectativa seu próximo livro.

Ludwig von Mises
FONTE: Instituto Ludwig Von Mises Brasil

Leia também:

O amor romântico segundo Ayn Rand

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A coragem de Bento XVI em dizer que eles, certamente, não têm razão!

Quantas vezes entrávamos na capela dos orionitas para nos curvar diante da presença do sagrado naquele lugar? Mas não naquela manhã de outubro. Estávamos ali há quase 10 horas e, à medida que se arrastavam os minutos, estes iam diluindo o sagrado que eu julgava haver ali. Por fim, alguém trouxe o rádio que usávamos em nossas devocionais e o colocou ali para tocar "a mais bonita das noites" de Chitãozinho e Xororó, sucesso nacional daquela época.

Chegou a minha vez de subir com os padres. Todas as portas dos armários dos meus colegas de quarto estavam abertas e todas as roupas e pertences deles jogados bem no meio do quarto. Pegaram meus livros, cadernos e roupas e os jogaram junto às outras coisas que já estavam no chão. Eles estavam procurando alguma coisa, eu sei. A secretaria do seminário havia sido roubada e certamente um de nós seria o ladrão. Estavam procurando pelo dinheiro… Não! Soubemos depois que eles já sabiam qual seminarista havia roubado o dinheiro, mas eles aproveitaram a oportunidade para nos devassar, descobrir sujeiras, fotos, revistas, outras possíveis perversidades juvenis que poderíamos esconder deles. Voltei à capela. Abaixei a cabeça. Fechei os olhos… o sagrado morria para mim naquele dia.

Depois daquela experiência da morte do sagrado, muitos foram embora do Seminário. Eu ainda tentei insistir num outro ano, mas o rasgo havia sido feito: a experiência do sagrado já era morta. E se pudesse tentar explicar o que considero a mais importante diferença entre Barth e Tillich diria que este avançou sobre essa ideia da experiência do Sagrado Universal como revelação salvífica, enquanto Barth permaneceu compreendendo que o Cristianismo é o único detentor da revelação especial. Para Tillich, o caminho natural das religiões mostrava nelas a revelação salvífica de Deus, enquanto para Barth existia a cisão entre a verdadeira religião e as falsas religiões, ou melhor, entre revelação e religião. Todas as religiões possuem a experiência do sagrado (Tillich, Rahner, etc), mas somente no Cristianismo é possível a experiência da fé (Barth). Assim, naquele dia na capela, o que morria em mim era a experiência do sagrado, já que ainda não conhecia a experiência da fé.

Ao ler a reportagem da Revista Ultimato, cujo título é “A coragem de dizer aos que querem mudanças na igreja que eles, eventualmente, têm razão”, percebi por que Bento XVI (colega de Karl Barth na juventude) continua a achar que homens como Pedro Casaldáglia, Hans Küng e Frei Betto não têm razão. Estes compactuam tão somente do pluralismo da experiência do sagrado e não da experiência da fé revelacional e salvífica em Cristo Jesus. Eles fazem do Cristianismo apenas um espaço para a manifestação dos deuses de seus ventres. É claro que Bento XVI nunca achará que eles têm razão. É evidente também que acusarão Bento XVI de retrógrado. A discussão sobre o casamento dos padres é fachada para esses homens. O assunto do fim do celibato é apenas uma desculpa de apelo populista, porque o que eles querem mesmo é o nivelamento do cristianismo com todas as demais religiões. O que resultará numa grande apoteose de um panenteísmo universal (Tillich, Boff).

Pedro Casaldáliga é a favor das invasões de terra e da luta armada, compôs poema para elogiar Che Guevara, um terrorista e comunista. Bento XVI não vai ser contraditório com Pio XI. Este condenou o comunismo (Divini Redemptoris) dizendo que o sistema marxista era "intrinsecamente mau". Este mesmo Papa declarou ainda que ninguém poderia ser verdadeiro católico e verdadeiro socialista. 
Frei Betto participa do mesmo ambiente de Pedro Casaldáliga e se coloca como amigo de Fidel Castro, o ditador cubano. Em seu texto “Raízes éticas da minha esperança”, Frei Betto confessa a quem ainda tenha dúvidas de suas aspirações: “Experimentei muitas derrotas: a morte de Che na Bolívia, o fracasso dos grupos armados contra a ditadura militar brasileira, o terror da Revolução Cultural chinesa, a falência da Revolução Sandinista, acrescida de casos escabrosos de corrupção, a queda do Muro de Berlim, o fim do eurocomunismo”.
 Hans Küng, outro personagem controverso citado na reportagem da Ultimato, é um teólogo liberal que não crê na ressurreição literal de Jesus. Bem, como o comunismo também não crê, é louvável pensar que nem Frei Betto e nem Casaldáliga creiam também, se juntando ao também já declarado descrente Leonardo Boff. 
Por tudo isso, digo mais uma vez que homens como esses não estão interessados que padres casem ou não. Não estão interessados em questões como paz, amor, fraternidade, embora estas palavras abundem em seus textos. Eles tão somente erguem essas bandeiras por crerem que elas terão um apelo mais popular. O que está por trás deles é o fim do cristianismo bíblico e da salvação somente em Jesus. Karl Barth percebe este desenvolvimento da Teologia Natural nas teologias modernas e pós-modernas e reage teologicamente: “a possibilidade do conhecimento de Deus encontra-se na Palavra de Deus e em nenhum outro lugar” e “o Deus eterno deve ser conhecido em Jesus Cristo e não em outro lugar.” Tillich cria que haveria revelação salvífica em outras religiões. Barth não. Frei Betto já expressou sua fé no socialismo. Bento XVI não. 

Assim, quando se juntam pessoas de interesses tão diversos (e excludentes) debaixo de um único guarda-chuva: descrentes comunistas, descrentes liberais, padres que querem casar, Reformadores do século 16, Concílio Vaticano II e até Simonton, o missionário presbiteriano que trouxe sua Denominação ao Brasil, acaba-se por nivelar por baixo causas nobres juntamente com aquelas causas escusas. Sem falar que colocar Frei Betto, Casaldáliga e Hans Küng ao lado dos Reformadores do Século 16 e de Simonton é dar aqueles uma envergadura teológica e moral que jamais tiveram. Finalmente, desenha-se uma caricatura de Bento XVI e o coloca isolado de um lado, enquanto do outro estariam “os heróis da resistência”. Mas isto não é cristianismo, é maniqueísmo. E apresentar ao leitor estas controvérsias de modo tão parcial é ruinoso para a Cristandade. É isto o que faz a reportagem da Revista evangélica Ultimato, uma revista fundada por um pastor presbiteriano. É neste contexto, portanto, que afirmo que, certamente, Bento XVI tem discernimento e coragem de dizer NÃO às verdadeiras intenções dos seus inquisidores que o acusam de reacionário. 


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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Quem sou eu? - (série Resenha Fundamental Pessoal V)

"Jesus Cristo, e não homem algum ou o Estado, é o nosso único Salvador" (Bonhoeffer).
 
"Quem sou eu?" é o título do último poema escrito pelo teólogo Dietrich Bonhoeffer. Um desses poucos cristãos que não serviu ao diabo e, por causa disso, pagou com a própria vida. Ele escreveu seu poema enquanto estava em sua cela em Berlim, aguardando sua execução. Qual o crime do teólogo cristão? Ter participado efetivamente de um complô para matar Hitler.
 
Encontrei esse poema de Bonhoeffer, quando li o livro "O Chamado", de Os Guiness. Um livro de cabeceira e que sempre releio para lembrar que o meu compromisso é para com Aquele que me chamou. Os Guiness nos lembra que Deus nos chamou não para fazermos alguma coisa, mas, primariamente, Deus nos chamou para Ele. A nossa identidade, quem nós somos, somente o podemos ser quando discernimos o chamado de Deus e o seguimos. Deus não nos chamou para algum trabalho (pastores, diáconos, bispos, missionários, pedreiros ou advogados) e nem para algum lugar (África ou alguma tribo indígena). O chamado de Deus é, antes de tudo, um chamado para Ele, "pois não existe chamado sem Alguém que chame". Os Guiness procura nos lembrar que "Chamado é a verdade de que Deus nos chama a si tão decisivamente que tudo o que somos, tudo o que fazemos e tudo o que temos é investido de dedicação, dinamismo e direção especial, vivido como resposta ao seu chamado e serviço". Então, quando Deus nos chama para nos relacionarmos pessoalmente com Ele, a partir daí todas as esferas da nossa vida são invadidas pela responsabilidade de termos sido chamados por Deus para Deus - e esta é a nossa identidade. Os Guiness também relembra as palavras de Václav Havel, Presidente da República Livre Tcheca e opositor do autoritarismo soviético: "Responsabilidade na verdade estabelece a identidade, mas não somos responsáveis em razão de nossa identidade; temos identidade porque somos responsáveis". Assim, "O Chamado" é um livro que fala sobre a nossa responsabilidade humana para com o outro, uma responsabilidade que nasce quando somos convencidos pelo poder do Espírito Santo de que temos sido "chamados para ser".
 
"O Chamado" é um alerta sobre o que nos têm faltado à fé individual: TOTALIDADE.
 
"O problema dos cristãos ocidentais não é que não estejam onde deveriam estar, mas que não são o que deviam ser onde estão", diz Os Guiness.
 
Antes de apresentar o poema de Bonhoeffer, o autor do livro ainda escreve: "Somente quando respondemos a Cristo e seguimos seu chamado é que nos tornamos quem somos de verdade, com personalidade própria. No que concerne a identidade, as pessoas modernas viraram completamente as coisas: professam estar incertos quanto a Deus, e fingem ter certezas de si mesmas. Os seguidores de Cristo colocam as coisas em outra perspectiva: Incertos de nós mesmos, temos certeza de Deus".
Quem sou eu?


Quem sou eu? Muitas vezes eles me dizem
que eu sairia da prisão da minha cela
calma, alegre, firmemente,
como um lorde sairia de sua casa de campo.

Quem sou eu? Muitas vezes eles me dizem
que eu poderia conversar com os guardas da minha prisão
com liberdade e amizade e clareza,
como se fosse eu a comandá-los.

Quem sou eu? Eles também me dizem
que eu suportaria os dias de meu infortúnio
com equidade, sorrindo, orgulhoso,
como quem está acostumado a vencer.

Sou então realmente tudo o que os outros homens dizem?
Ou sou apenas o que conheço de mim mesmo?
Inquieto, carente e doente, como ave engaiolada,
lutando para respirar, como se mãos estivessem
apertando minha garganta,
faminto de cores, de flores, de vozes de aves,
sedento de palavras de bondade, de bons vizinhos,
tremendo de ira com o depotismo e humilhação mesquinha,
enlevado pela perspectiva de grandes eventos,
sem forças, sofrendo por amigos em distância infinita,
cansado e vazio de oração, de pensar, de fazer,
desmaiando e pronto para dizer adeus a tudo.

Quem sou eu? Este ou o outro?
Sou eu hoje uma pessoa e amanhã serei outra?
Sou ambos de uma só vez? Hipócrita perante os outros
e diante de mim um fraco desprezível e desastrado?
Ou existe algo em mim ainda como um exército vencido,
fugindo em desordem da vitória já atingida?

Quem sou eu? Elas zombam, essas minhas perguntas solitárias.
Quem quer que eu seja, Tu sabes, ó Deus, que sou Teu.

Dietrich Bonhoeffer


"Você quer ser dEle, inteiramente dEle, a todo custo dEle, e para sempre dEle a fim de que todas as coisas secundárias permaneçam secundárias e as primárias estejam sempre em primeiro lugar? Ouça a Jesus de Nazaré, responda seu chamado" (Os Guiness)
 

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