segunda-feira, 27 de maio de 2013

Hannah Arendt


"Sob condições de tirania é muito mais fácil agir do que pensar" 
A saraivada de críticas foi inevitável. A filosofa foi acusada de ter pouco apreço pelos judeus. Respondendo a um dos seus acusadores, ela escreveu uma carta, publicada em diferentes jornais europeus, na qual comentava – sem mencionar o nome do interlocutor – uma conversa mantida com um alto dirigente de Israel durante o julgamento de Eichmann.

O interlocutor era Golda Meir, então ministra das Relações Exteriores, que era contra a separação entre Estado e religião em Israel. Meir disse: “Você irá compreender que, como socialista, eu, naturalmente, não acredito em Deus; acredito no povo judeu.” Arendt comentou:

"Considerei isso uma afirmação chocante e, por isso, não repliquei na época. Mas poderia ter respondido: a grandeza desse povo foi outrora o fato de acreditar em Deus, e acreditava Nele de tal maneira que sua confiança e amor por Ele era muito maior que seu medo. E agora esse povo acredita apenas em si mesmo? Que bem pode resultar disso? Ora, nesse sentido eu não amo os judeus, nem acredito neles; meramente pertenço a eles por uma questão de fato, além da controvérsia e da argumentação”.

“Uma questão de fato”, meramente: a ruptura de Arendt com o sionismo representou um gesto filosófico decisivo. Para ser leal aos direitos humanos, denunciando as sementes totalitárias espalhadas por todas as sociedades, ela não seria leal a nenhuma corrente doutrinária particular. 


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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Política e religião - você sabe quem foi Abraham Kuyper?

Um desejo tem sido a paixão predominante de minha vida. Uma grande motivação tem agido como uma espora sobre minha mente e alma. E antes que seja tarde, devo procurar cumprir este sagrado dever que é posto sobre mim, pois o fôlego de vida pode me faltar. O dever é este: Que apesar de toda oposição terrena, as santas ordenanças de Deus serão estabelecidas novamente no lar, na escola e no Estado para o bem do povo; para esculpir, por assim dizer, na consciência da nação as ordenanças do Senhor, para que a Bíblia e a Criação deem testemunho, até a nação novamente render homenagens a Deus.”

"Eu descobri que as Santas Escrituras não somente fazem-nos encontrar a justificação pela fé, mas também mostram o fundamento de toda vida humana, as santas ordenanças que devem governar toda existência humana na Sociedade e no Estado.”

Cristo governa não simplesmente pela tradição do que ele outrora foi, falou, fez e suportou; mas por um poder vivo que ainda agora, assentado como ele está à mão direita de Deus, exerce sobre terras e nações, gerações, famílias e indivíduos".
 
"Somente o Protestantismo vagueia por aí no deserto, sem objetivo ou direção, movendo-se daqui para lá, sem fazer qualquer progresso. Isso explica o fato de o Panteísmo, nascido da nova Filosofia alemã e devendo sua forma concreta de evolução a Darwin, reivindicar entre as nações Protestantes mais e mais para si a supremacia em cada esfera da vida humana, mesmo na da Teologia, e sob todo tipo de nomes tenta derrubar nossas tradições cristãs, e até mesmo está inclinado a trocar a herança de nossos pais por um Budismo moderno inútil".
 
"Qualquer coisa pela qual possamos glorificar a Deus constitui um talento. Nossos dons, nossa influência, nosso dinheiro, nosso conhecimento, nossa saúde, nossa força, nosso tempo, nossos sentidos, nosso raciocínio, nosso intelecto, nossa memória, nossos afetos, nossos privilégios como membro da igreja de Cristo, nossas vantagens como possuidores da bíblia – todos, todos são talentos. ... [e] ... Tudo o que temos é por empréstimo de Deus. ...
Somos devedores de Deus. Que este pensamento se abrigue no profundo de nosso coração.”

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Homofobia não é crime (João Pereira Coutinho) - Série Vale a pena ler de novo (IV)

É perfeitamente legítimo que um heterossexual não goste de homossexuais, como é legítimo o inverso
 

É um erro comum: alguém escreve sobre o julgamento de Oscar Wilde em 1895 e o apresenta como o momento infame em que a sociedade vitoriana resolveu reprimir "o amor que não ousa dizer seu nome". 

Admito que essa versão faça as delícias das patrulhas, para quem Wilde virou mártir, ou santo. Mas, ironicamente, a perdição de Wilde não começou com a intolerância da sociedade vitoriana.


Começou quando o próprio decidiu limpar o seu nome das acusações "homofóbicas" do marquês de Queensberry, pai do seu amante Lord Alfred "Bosie" Douglas.

Se Wilde tivesse ignorado um mero cartão pessoal do marquês, onde este tratava o escritor por "sodomita", jamais teria ido parar na prisão de Reading Gaol.

Mas Wilde, em gesto inusitado para seu temperamento irônico, não gostou que se dirigissem a ele como homossexual. Partiu para a Justiça, processando o marquês.

Foi no decurso do julgamento que o jogo virou e Wilde, de alegada vítima, passou a réu. Sobretudo quando a defesa do marquês resolveu arrolar como testemunhas alguns rapazes que tinham sido, digamos, íntimos de Wilde.

A Justiça não gostou e condenou o escritor. Não porque ele era homossexual, entenda-se -a "buggery", mais do que um desporto, era até uma forma de iniciação entre "gentlemen" nos colégios de Eton ou na Universidade Oxford. Mas porque agitara as águas de forma demasiado ruidosa numa sociedade que gostava de manter os seus vícios em privado.

Hoje, a condenação de Wilde pode parecer-nos de uma hipocrisia sem limites. Não nego. Mas existe uma outra moral na história: valerá a pena criminalizar a homofobia, como Wilde tentou fazer ignorando os conselhos dos seus amigos próximos, quando se despertam no processo outros abusos inesperados?

Marta Suplicy entende que sim e, em artigo nesta Folha, defende lei para criminalizar o "delito". Infelizmente, a sra. Suplicy confunde tudo na discussão do seu projeto: homofobia; crime homofóbico e medicalização da homossexualidade. Como diria um contemporâneo de Wilde, Jack, o Estripador, vamos por partes.

Começando pelo fim, ninguém de bom senso defende que a homossexualidade é uma doença mental. Não é preciso consultar a Organização Mundial da Saúde para o efeito. Basta olhar para a história da espécie humana -e, mais ainda, para a diversidade do mundo natural- para concluir que, se a homossexualidade é loucura, então boa parte da criação deveria estar no manicômio.

De igual forma, ninguém de bom senso negará que persistem crimes medonhos contra homossexuais, seja no Brasil ou na Europa, porque os agressores, normalmente homossexuais reprimidos, não gostam de se ver no espelho. O problema está em saber distinguir o momento em que uma aversão se converte em crime público. Porque a mera aversão não constitui, por si só, um crime.

Por mais que isso ofenda o espírito civilizado de Marta Suplicy, é perfeitamente legítimo que um heterossexual não goste de homossexuais. Como é perfeitamente legítimo o seu inverso.

Vou mais longe: no vasto mundo da estupidez humana, é perfeitamente legítimo não gostar de brancos; de negros; de asiáticos; de portugueses; de brasileiros; de judeus; de cristãos; de muçulmanos; de ateus; de gordos ou de magros. A diferença entre um adulto e uma criança é que o adulto entende que o mundo não tem necessariamente de gostar dele.
O que não é legítimo é transformar uma aversão em instrumento de discriminação ou violência. Não porque isso seja um crime homofóbico. Mas porque isso é simplesmente um crime.

E os crimes não têm sexo, nem cor, nem religião. Se Suplicy olhar para a estátua da Justiça, entenderá que os olhos da figura estão vendados por uma boa razão.

Pretender criminalizar a homofobia porque não se gosta de ideias homofóbicas é querer limpar o lixo que há na cabeça dos seres humanos. Essa ambição é compreensível em regimes autoritários, que faziam da lavagem cerebral um método de uniformização. Não deveria ser levado a sério por um Estado democrático.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Quando m'en vo' soletta...

 
 "Eu sou o poeta e ela é a poesia", diz Rodlfo para Mimi - personagens da obra de Puccini
 
Tradução:

Quando ando sozinha na rua
As pessoas param e olham para mim
E olham para toda a beleza que há em mim
Da minha cabeça aos meus pés.

E então eu gosto do pequeno anseio
Que transpira dos teus olhos
E que é capaz de perceber dos encantos manifestos
Às belezas mais escondidas.
Então, o cheiro do desejo é tudo ao meu redor
Isso me faz feliz!

E você, sabendo, lembrando e desejando
Você encolheu a mim?
Eu sei muito bem:
Você não deseja expressar sua angústia
Mas você se sente como se estivesse morrendo!

terça-feira, 14 de maio de 2013

Quem conhece o tranco da morena rosa rebocada de rouge e "batão"?

Música linda da minha terra: o Sul do Brasil cravado em pleno Mato Grosso!

Conhece essa variação linguística?


Mas olha o tranco da morena rosa rebocada de rouge e batom
Olha o tranco da morena rosa rebocada de rouge e batom
Machucando a vaneira a sua maneira bombeando pro chão
Machucando a vaneira a sua maneira bombeando pro chão

Na penumbra do rancho costeiro polvoadeira a meia costela
Na penumbra do rancho costeiro polvoadeira a meia costela
O gaiteiro entonado floreava o teclado e bombeava pra ela
O gaiteiro entonado floreava o teclado e bombeava pra ela

O perfume da morena rosa da vontade da gente provar
O perfume da morena rosa da vontade da gente provar
Apesar de gaveona escuta a cordeona e começa a se espiar
Apesar de gaveona escuta a cordeona e começa a se espiar

O semblante da morena rosa lua cheia de felicidade
O semblante da morena rosa lua cheia de felicidade
Quanto mais sarandeia o corpo incendeia de tanta vontade
Quanto mais sarandeia o corpo incendeia de tanta vontade

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Carta aberta a Stephen Hawking‏

Por Carlo Strenger
Filósofo suíço radicado em Israel
 
"Caro Professor Hawking,

Existem muitas razões pelas quais o senhor é considerado um dos principais cientistas do mundo. Como o senhor sabe muito bem, uma das razões para o seu sucesso é sua capacidade de manter um raciocínio próprio e de recusar a ceder à pressão do pensamento pré-estabelecido. A inovação só é possível quando se está imune a tal pressão.
 
Dado o meu respeito por suas realizações, estou surpreso e triste com sua decisão de cancelar sua participação na "Conferência Presidencial" deste ano, em Jerusalém, tendo juntado-se àqueles que pregam um boicote acadêmico a Israel. Eu esperava que um homem de sua posição e realizações não fosse influenciado pela pressão exercida para cancelar sua visita a Israel.
 
Deixe-me primeiro dizer que tenho sido contra a ocupação israelense dos territórios palestinos por muitos anos, e que tenho manifestado essa oposição com todos os meios à minha disposição. (...)
 
Dito isto, eu sempre achei que era moralmente repreensível e intelectualmente indefensável que muitos acadêmicos britânicos continuem pedindo um boicote acadêmico de Israel. Esta posição é baseada em um padrão moral dúbio que não se poderia esperar de uma comunidade cuja missão é manter sua integridade intelectual.
 
Sim, eu acho que Israel é culpado de violações dos direitos humanos na Cisjordânia. Mas estas violações são insignificantes em comparação com aquelas perpetradas por inúmeros países, do Irã à Rússia e à China, para citar apenas alguns. O Irã enforca centenas de homossexuais a cada ano, a China vem ocupando o Tibete há décadas e você sabe da terrível destruição que a Rússia infligiu sobre a Chechênia. Não ouvi do senhor ou de seus colegas que defendem um boicote acadêmico contra Israel a idéia de boicotar qualquer um destes países. (...)
 
Professor Hawking: como o senhor e seus colegas que defendem um boicote acadêmico de Israel podem justificar sua insistência em isolar Israel? O senhor está simplesmente negando que Israel está sob ameaça existencial pela maioria de sua existência. Até hoje o Hamas, um dos dois maiores partidos na Palestina, pede a destruição de Israel, e sua Carta emprega a mais vil linguagem anti-semita. Até hoje dificilmente passa-se uma semana sem que o Irã e o Hezbollah não ameacem destruir Israel, embora eles não tenham nenhum conflito direto com Israel sobre qualquer coisa.
 
Escolher Israel como alvo de um boicote acadêmico é, creio eu, um caso de profunda hipocrisia. É uma maneira barata de ventilar indignação sobre as injustiças do mundo. Eu ainda estou esperando para ver os acadêmicos britânicos dizerem que não vão cooperar com instituições norte-americanas enquanto Guantánamo permanecer aberta, ou enquanto os EUA continuare seus assassinatos seletivos. (...) Mas, mais uma vez, os acadêmicos britânicos escolheram o alvo mais fácil para desabafar sua raiva, de uma maneira que não contribui em nada para a causa palestina que eles apóiam.
 
Professor Hawking, eu esperava que um homem da sua estatura intelectual se envolvesse na difícil tarefa de lidar com essas questões. Tomar o caminho simples de isolar Israel, boicotando-o academicamente, não lhe convém intelectual ou moralmente."
 
Atenciosamente,
Carlo Strenger

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SAIBA MAIS:

sexta-feira, 10 de maio de 2013

“Teologia da Libertação versus Teologia da Prosperidade” - uma oportunidade para o diálogo entre tradicionais e neopentecostais?


“...pois não importa o quão delicada ou frágil seja uma situação, sempre existem dois lados a serem considerados, ou analisados”.

William Shaekespere
 



Julio Severo, em seu livreto de apenas 31 páginas, teve a oportunidade de defender várias de suas ideias já publicadas em artigos mais curtos do seu Blog pessoal. O livreto digital, que tem como subtítulo “a destronação da Teologia da Missão Integral e a demonização da Teologia da prosperidade”, é uma exposição das origens da Teologia da Missão Integral e das razões do ataque que os mentores deste movimento vêm fazendo às igrejas neopentecostais.



A parte histórica apresentada por Julio Severo sobre as origens protestantes, presbiterianas e calvinistas da Teologia da Libertação são um importante documento para a Igreja Brasileira. É de suma importância reconhecermos as brechas e as concessões feitas para compreendermos como o marxismo invadiu a seara da chamada América Latina. Portanto, desde os patriarcas da gênese da Teologia da Libertação, o Rev. Shaull, o Rev. James Writh e o Rev. Rubem Alves, até os atuais líderes como Ariovaldo Ramos, Gondim e o “Sindicato de Bispos do Brasil" (CNBB), sem esquecer dos “grandes estrategistas” dos anos 80 e 90, o Rev. Caio Fábio e o Bispo Robson Cavalcanti, as primeiras páginas do livreto são uma denúncia de como o marxismo entrou na igreja cristã e, mesmo com a oposição de líderes do Pacto de Lausanne e de expoentes como o pregador Billy Graham, ainda assim o movimento foi vitorioso a ponto de conseguir entronizar com votos cristãos o PT, um partido que, segundo defesa feita pelo então Rev. Caio Fábio à época, “não comia criancinhas”, embora já promovesse em seu regimento interno o assassinato de bebês e a bandeira do gayzismo.



Como já foi possível perceber no parágrafo acima, a ligação entre pastores presbiterianos, que se diziam calvinistas, e o movimento marxista “religioso” no Brasil é inegável. Então, a partir deste viés, Julio vai se perguntar por que os “modernos calvinistas” atacam de forma tão veemente os neopentecostais, enquanto fazem vista grossa às bandeiras esquerdizantes do aborto e do casamento gay? A resposta já está dada: os “modernos calvinistas” são progressistas, cujas intenções deliberadas são implantar no Brasil um Estado Socialista/Comunista. Para que não tenhamos dúvidas sobre a intenção destas e outras lideranças cristãs, eis algumas citações feitas no livro: “A Teologia da missão Integral é uma variante protestante da Teologia da libertação” (Ariovaldo Ramos, pastor batista reformado), “Meu encontro com o marxismo não estava fazendo de mim um marxista, mas um cristão melhor” (Rev. Shaull, pastor presbiteriano dos Estados Unidos), além, é claro, da já sempre pré-candidata à presidência Marina Silva, que declarou ter conhecido o evangelho vivo na Teologia da Libertação e, pasmem, é hoje discípula de ninguém menos que o sacerdote de Gaia, Leonardo Boff.



Julio Severo não se limita a criticar apenas os calvinistas progressistas representados pelos blogs Genizah e Púlpito Cristão, mas dirige-se também à seara neopentecostal para denunciar a hipocrisia de Silas Malafaia e a aliança de vários outros líderes neopentecostais que, por razões oportunistas, apoiaram o PT e seus candidatos pró-aborto e pró-gayzismo. Aqui, cabe ressaltar (e adoto a mesma postura de Julio Severo de cobeligerância) que Julio apoia o Silas naquilo que ele é pró-família, mas não naquilo que é incoerente e oportunista, seguindo assim a orientação de Jesus em relação aos hipócritas: “Fazei o que eles falam, mas não o que eles fazem”! Ele também fará as suas denúncias contra a IURD e a aliança desta com o PT e a defesa que seu líder, Edir Macedo, faz do aborto. Além disso, também se posiciona contra os líderes da teologia tradicional (calvinistas tradicionais e outros) e reage ao silêncio destes que tão prontamente denunciam os erros neopentecostais, mas não se levantam com a mesma ênfase para bradar contra confrades que apoiam um Estado usurpador, corrupto e anti-cristão.



Logo no início do seu livreto, Julio Severo usa propositalmente o adjetivo “modernos” para se referir aos calvinistas progressistas, porque ele busca mostrar que estes estão distanciados até mesmo dos antigos calvinistas, mais especificadamente dos puritanos. Assim, diante das citações abaixo, Julio irá questionar por que tamanho ataque à Teologia da Prosperidade. Embora a dedução de Julio Severo, a partir de tais citações, seja que os antigos calvinistas seriam “mais abertos” à Teologia da Prosperidade, na verdade, o máximo que podemos retirar delas é que o calvinismo (ou o movimento puritano) não tem nada contra o dinheiro. Aliás, nem o calvinismo e nem a Bíblia tem problemas com o dinheiro, pois a armadilha, segundo a Bíblia, é o “amor ao dinheiro”! E, mesmo aqui, Julio criticará acertadamente tanto pastores neopentecostais como pastores tradicionais que vivem de modo opulento. Veja as citações:



“A ética social do puritanismo era dirigida para a aquisição e administração apropriada de riqueza como símbolos externos do favor de Deus e consequentemente salvação do indivíduo” (Gayrand Wymore, em “African American Religious Studies: An Interdisciplinary Anthology”).



“De acordo com o calvinismo (mas não de acordo com o próprio Calvino), o acúmulo de riquezas era um dos sinais de que o crente estava entre os eleitos – 'um sinal da bênção de Deus'” (Dicionário Max Weber).



“A bênção do Senhor enriquece... E como as riquezas são em si bênçãos de Deus, assim também devemos desejá-las para o curso confortável de nossas condições naturais e civis” (site “A Puritan's Mind”).



As críticas dos tradicionais, que não coadunam com os progressistas, porém, não é quanto “ao dinheiro como sinal de bênção”, porque, se Deus tiver planejado isso a um de seus filhos, Ele é soberano para fazê-lo (para uma exposição mais precisa sobre a ótica reformada acerca da prosperidade financeira, veja aqui o texto do Dr. Augustus Nicodemus). Então, revela-se um ponto teológico chave para discernir entre Julio Severo e os tradicionais reformados não-progressistas: durante todo o livreto, Julio usa para Deus a corretíssima palavra “Supremo” (a mesma presente na Teologia Tradicional), o que não encontramos é um outro adjetivo que lança as bases da Teologia Reformada Calvinista, a saber, “Soberano”. O fato de não aparecer esta palavra no texto de Julio Severo revela as fundamentações de sua teologia e a diferença  dele para os reformados. “Soberania” é o adjetivo que define a liberdade da majestade divina: Deus não apenas é o único sobre todas as coisas (Supremo), mas, também, é Aquele que PODE QUALQUER coisa, quando e da maneira que quiser (Soberano). Para os reformados, a ênfase não é a liberdade do homem, mas a liberdade de Deus! Assim, o problema é o método usado por pastores neopentecostais. O método pragmático de interpretar a Bíblia a partir da "base" que, aliás, é o mesmo método que caracteriza a leitura bíblica feita pela Teologia da Libertação, colocando a ortopraxia antes da ortodoxia.

O próprio Julio confirma que há “pressões psicológicas” na hora de arrecadar os dízimos nas igrejas neopentecostais, nesta situação, há uma contradição: se há pressão psicológica, então não há a tal liberdade apregoada no texto do Julio. Julio Severo diz que as pessoas não são obrigadas a entrar numa igreja neopentecostal e nem a dar dinheiro a elas e, de certa maneira, isto é verdade. Concordo que, no fim das contas, essas pessoas são responsáveis e que sua pobreza financeira e educacional não pode isentá-las totalmente caso venham ser lesadas por suas lideranças, embora seja exatamente essa pobreza o instrumento de manipulação usado com maestria pelos pastores. Logo, se há pressão psicológica (e isto é afirmado pelo próprio Julio), então não há liberdade: há coação, coerção, sedução, técnicas de manipulação, assédio moral e tudo o mais que puder ser encaixado aí.



A ênfase que Julio faz questão de ressaltar em seu livreto é que os pobres preferem a Teologia da Prosperidade à Teologia da Libertação (ou à Missão Integral), mas isso só confirma as palavras do carnavalesco Joãozinho XXX: “Quem gosta de miséria é intelectual”. Destarte, é preciso aprofundar um pouco mais sobre o “método” das igrejas neopentecostais. É de se levar em consideração que Julio Severo abra seu livreto afirmando que o Brasil é o país mais espírita do mundo e que é nesta seara que os neopentecostais mais encontrem crescimento numérico. Novamente, a crítica é relativa ao método pragmático que busca fazer “uma ponte” entre as práticas de feitiçaria brasileiras e o Evangelho puro e simples: copo d'água, líderes vestidos de branco como acontece nas sessões espíritas, rituais vetero-testamentários misturados às roupagens do imaginário popular religioso nacional, dançinhas à semelhança do Candomblé, o uso do elemento “toma-lá-dá-cá” na barganha com Deus, o espaço dado no palco das igrejas a quem nunca antes tivera tal atenção em casa e na família, etc. Acredito sinceramente que tudo isto "dê certo"! Todavia, seria de se aceitar que aquilo que dá certo e rende muito seja sempre correto? O método neopentecostal tem alimentado e se alimentado de uma infeliz característica da religiosidade brasileira: o sincretismo.



O problema dos pastores tradicionais não-progressistas não é com a riqueza, mas com o método para obtê-la. Certamente, cremos que Deus e não o Estado é a fonte de todas as bênçãos, todavia o valor do trabalho como elemento dignificante do homem foi resgatado pelo protestantismo em oposição à crença de que a fonte de todas as bênçãos viria de uma subserviência cega a um instituição eclesiástica, seja ela qual for: é a ética do trabalho e da responsabilidade pessoal como elementos de culto a Deus! Nas pregações dos pastores neopentecostais há técnicas de manipulação, técnicas para fazer com que o indivíduo ande com o rebanho, siga o grupo. Se “todos” estão fazendo, se “todos” estão entregando, se “todos” estão “apostando” em Deus e você não, então a culpa é da sua falta de fé! Isto é charlatanismo! É muito mais do que simples pressão psicológica: é pecado! Não há como negar, portanto, que, da maneira como essas lideranças colocam a “bênção” de Deus, há um preço para recebê-la e o preço é o “imposto” do dízimo e da oferta! Outro ponto importante que Julio confirma acerca dos neopentecostais é que suas lideranças são oportunistas (por exemplo, veja a situação de Silas Malafaia). E por que eles são oportunistas? Porque, segundo o próprio Julio diz, em época de eleição, esses líderes se aproximam do Governo para receber lotes e concessões de rádio e tv. Ora, Judas Iscariotes foi um exemplo de oportunista na Bíblia. Em suma, nestes dois pontos, a barganha com Deus mediante ofertas e dízimos (e sob a coerção de pressões psicológicas dos líderes) e a prostituição dessas igrejas com o Estado quando lhes convêm, residem a denuncia feita pelos pastores tradicionais aos neopentecostais, porque é um problema ético e moral, mas, antes de tudo, são pecados gravíssimos das lideranças e o próprio Jesus nunca se absteve de denunciar os pecados daqueles que vieram para roubar, matar e destruir.



Há também as diferenças teológicas evidentemente. Enquanto, infelizmente, calvinistas progressistas partem para o deboche e brindam à mesa dos escarnecedores, contando piadinhas chulas sobre neopentecostais, os calvinistas tradicionais, de maneira séria, sempre questionarão sobre “a unção do riso, do vômito e a fauna pantomímica” que aparecem dentro das igrejas neopentecostais; os calvinistas tradicionais vão sempre se posicionar diante dos dentes de ouro ou o ouro em pó que cai sobre os ombros de membros “com mais fé” nestas igrejas; e mesmo o Peter Wagner, citado logo no início por Julio Severo, é campeão nestas performances da “Batalha espiritual” com seus demônios territoriais e crentes “caçando” o trono geográfico de Satanás, através de estratégias para encontrar e derrubar o tal trono... Lembro-me com tristeza de um grupo de jovens em Brasília que, “sendo irmãos do Leão da tribo de Judá”, resolveram “demarcar” o Congresso Nacional como território do Senhor Jesus. O que eles fizeram? Em plena madrugada brasiliense, saíram, meninos e meninas juntamente com sua liderança, arriando as calças e urinando ao redor do prédio do Congresso (isto seria ridículo, se não fosse tão deprimente)!



Gostaria de terminar este artigo dizendo que, naquilo que o Julio Severo expõe sobre Teologia da Libertação e Missão Integral, concordo em gênero, número e grau. Concordo com as críticas feitas tanto aos pastores neopentecostais como aos pastores tradicionais no que tange ao retorno destes a uma vida mais humilde (lembrando que vida humilde não é sinônimo de pauperismo). Assim, à maneira schaefferiana, cobeligero ao lado de Julio Severo, Silas Malafaia, Marcos Feliciano e todos quanto assim se posicionarem à favor da família tradicional, contra o aborto e contra a mordaça gay. Reforço, contudo, que as críticas feitas pelos calvinistas tradicionais não são meras consequências de uma adesão ao cessacionismo (para uma exposição reformada sobre o tema clique aqui), mas as críticas advêm de uma atuação, uma prática, um conjunto de métodos de “pressões psicológicas” anti-éticas e imorais aplicadas sobre a ignorância popular, tendo a Bíblia como pretexto. Evidentemente, sou totalmente contrário a identificar como diabólico o cessacionismo: é uma atitude simplista, rasa e que, mais uma vez, tende a jogar com preconceitos e caricaturas. 

Enfim, continuo a não me identificar nem com o neopentecostalismo de uns e nem com o calvinismo progressista de outros, mas ainda acredito que poderíamos abrir um diálogo para a construção de uma Igreja mais madura em terra brasileira, uma Igreja cobeligerante contra um inimigo comum: o Estado Leviatã.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Eu me tornei estranho para o mundo...


A águia voa sozinha, os corvos voam em bando, 
o tolo tem necessidade de companhia,
e o sábio necessidade de solidão.
Friedrich Rückert



Porque, um dia, Ele invadiu a minha tola, pequenina e fugaz existência, declarando: "Eu sou o teu Deus e  você é minha propriedade exclusiva para proclamar as minhas virtudes", faço, então, desta bela música - letra e melodia - a minha sincera devoção de amor a Ele, que é o meu lugar de descanso.


Ich bin der Welt abhanden gekommen,
Eu me tornei estranho para o mundo
Mit der ich sonst viele Zeit verdorben,
com o qual perdi outrora tanto tempo; 
Sie hat so lange nichts von mir vernommen,
faz muito que não ouve a meu respeito
Sie mag wohl glaubern ich sei gestorben!
que pode mesmo achar que já morri.
Es ist mir auch gar nichts daran gelegen,
Para mim é de todo indiferente
Ob sie mich für gestorben hält.
que ele me trate como fosse morto.
Ich kann auch gar nichts sagen dagegen,
Nada posso dizer contrário a isso
Denn wirklich bin ich gestorben der Welt.
pois de fato morri para este mundo.

Ich bin gestorben dem Weltgetümmel
Estou bem morto para o seu tumulto
Und ruh’ in einem stillen Gebiet!
e descanso num lugar de quietude.
Ich leb’ allein in meinem Himmel,
Sozinho vivo no meu paraíso,
In meinem Lieben, in meinem Lied
no meu amor, nas notas do meu canto.

Friedrich Rückert:  Ich bin der Welt abhanden gekommen
Gustav Mahler - música

Tradução de Ivo Barroso

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Canarana - Terra esperança

HINO DO MUNICÍPIO DE CANARANA - TERRA ESPERANÇA (Algacyr Costa)
 
Virgem brotastes das entranhas do cerrado
Num firme brado de trabalho e suor.
Heróis pioneiros morando em tetos de lona
Mãos de cordeona a semear vida melhor.
Iluminados pela força imigrante
Em teu semblante refulgem raios de sóis
Dias e noites, na constância que promove
Fé que comove, a fisgar mil arrebóis.
 
Rico eldorado, verde selva, linda gente
Traz ao presente, exemplo de força e paz.
És Canarana com Norberto e sua alma
Ouvindo palmas de um povo viril, capaz.
 
Quanto trabalho, quanta luta, sofrimentos
Sem suprimentos para os filhos sustentar.
Lembrando sempre na distância seus parentes
Saudoso sente uma angustia à cabrestear.
Cravaste fundo nesta terra a esperança
Como uma fiança no futuro a esperar
Calma velhice, paz, amor, fraternidade
Felicidade a nós todos abraçar.
 
Terra Esperança interpretada pelo filho do autor: Yamandu Costa!
 

 DADOS BIOGRÁFICOS DE ALGACIR COSTA, AUTOR DO HINO DE CANARANA
 
Clary, Algacir e Diamandú
Algacir Costa nasceu na Vila Teixeira, 7º Distrito de Passo Fundo, hoje município de Tapejara, estado do Rio Grande do Sul, no dia 11 de outubro de 1944. Estudou música nos conservatórios de Passo Fundo nos anos 1968/1969, violão clássico no conservatório do Recife em 1971, e piston clássico no Recife e João Pessoa em 1981. Ministrou dez cursos de Teoria e Solfejo como representante da ordem dos músicos de Porto Alegre, no interior do Estado do Rio Grande do Sul, nos anos de 1986 e 1988. 
 
É criador de um método pioneiro de gaita de botão, um método de iniciação ao violão, um método para piston e outro método inovador de solfejo, leitura musical. Escreveu arranjos para bandas de Músicas, foi compositor, musicista e poeta. Gravou em 1963 um disco em 78 rotações, um compacto duplo em 1966 e mais 4 LPs solo. Pussui 8 LPs gravados com o Grupo Os Fronteriços. 
 
Participou em mais de 25 festivais de Música Nativista como compositor, interprete e em outros como jurado. 
 
Fez apresentações nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pará. 
 
Algacir Costa gravou um LP em Buenos Aires em 1978. Participou com Os Fronteriços nos Festivais Del Litoral, Apostoles e Missiones, na República da Argentina, e no 25º Festival Internacional de Folclore em Santarém, Portugal, 1983. 
 
Escreveu arranjos para corais e foi regente. Tocava sete instrumentos: gaita de botão, violão, baixo, cavaquinho, piston, trombone e piano. Escreveu músicas para todos esses instrumentos. 
 
Algacir era casado com a cantora Clary Marcon, com a qual teve, os filhos, Diego e Diamandu Costa, que agora é o artista Yamandu, o prodígio incontrolável da música instrumental, hoje famoso internacionalmente e considerado um dos melhores violonistas do Brasil. 
 
Em sua biografia conta que o guri tinha 12 anos, quando em plena avenida central de Passo Fundo, a capital do Planalto Médio do Rio Grande do Sul,  os Fronteriços se preparavam para um show.  O guri saltitou entre as alpargatas e espiou o público e viu que tinha apenas cinco pessoas. Foi então que o pequeno Yamandu mirou os olhos nos do pai e sugeriu: "Bah, vamos cancelar este troço, só tem cinco pessoas!" Endiabrado, Algacir reagiu antes que o garoto pudesse piscar. Agarrou-o pelo braço, olhou fundo em sua alma e disse: "Você nunca mais me fale uma coisa dessas. Tem cinco pessoas? Pois nós vamos tocar como se fossem cinco mil! Este show vai ser o melhor da nossa vida. Nunca desrespeite seu público dessa maneira!" 
 
Hoje, aos 28 anos, um DVD e seis discos lançados, sempre que o violonista Yamandu Costa sobe a um palco em Paris ou Tóquio, Rio ou São Paulo, Viena ou  na Alemanha, normalmente aguardado por uma platéia numerosa e devotada por seu virtuosismo, impetuosidade e capacidade de improviso, ele lembra do pai e daquelas cinco pessoas naquele teatrinho, e carrega a lição de que nada é mais importante do que ter respeito pela arte e por quem a consome.
 
Assim fala Yamandu a respeito do Pai Algacir: "Meu pai morreu com a carreira limpa. Sempre fez o que quis, nunca se vendeu pra ninguém, nunca ficou pensando na coisa mais comercial, mandou tudo à merda e investiu só no que ele acreditou. Isso eu carrego o tempo inteiro. A dignidade de um artista é o que mais importa", decreta o filho orgulhoso, enquanto cortamos o solo gaúcho rumo a Passo Fundo, adentrando o pampa pela infinita highway de nuvens carregadas, deixando para trás simpáticas cidadelas com igrejas de torres pontudas e cartesianas praças centrais.
 
Algacir Costa veio para Canarana pela primeira vez a convite do CTG Pioneiros do Centro Oeste, para ser jurado do 2º Festival de Música Gaúcha denominado Grito Pampiano, em outubro de 1993. 
 
Gostou da cidade se transferindo para cá no final do ano 1993,  juntamente com seu filho Yamandu, permanecendo durante os anos 1994 a 1995. Além de dar aulas de música, foi regente do Coral Municipal Vozes de Canarana e trabalhou como músico na animação de festas e bailes.  
 
Neste tempo que residiu em Canarana compôs a músicas Terra Esperança, que foi sendo reconhecida como a melhor composição feita em homenagem a Canarana. Essa música foi oficializada através da Lei 034/2010, como hino do município, aprovada por unanimidade pela Câmara Municipal de Vereadores em sessão realizada no dia 27 de outubro de 2010. 
 
Em função de problemas de saúde voltou para o Sul e residiu em Porto Alegre até o seu falecimento que ocorreu em 1997.
 
FONTE - Fundação Pró-memória

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