segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A Queda em Fernando Pessoa

Apontamento


A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaço do que havia loiça no vaso.


Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.


Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.


Não se zangam com ela.
São tolerantes com ela.
O que eu era um vaso vazio?


Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes deles.


Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.


Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.


A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem porque ficou ali.

Álvaro de Campos, Apontamento, in Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002.

Esses versos de Campos (Fernando Pessoa) acompanham-me por muitos anos, talvez exatamente por sua identificação com o que eu pensava ser - cacos de um vaso vazio - e pela minha leitura pessoal que encontra nesse poema um diálogo com a narrativa bíblica da Queda.

Quando o homem caiu, aquela identidade unívoca em Deus partiu-se também em inúmeras vozes dentro do ser humano. A queda do vaso é a queda do homem que se multiplica e não consegue mais sua própria unidade. Mas, veja no poema, a queda do vaso é testemunhada pelos vários deuses que estão observando, sorrindo, alienados à condição do homem partido. São os deuses tolerantes ao descuido da criada. São deuses que focam sua atenção não no homem dilacerado, mas na criada. Não há juízo, julgamento, castigo, apenas a tolerância intolerável de deuses que não intervêm naquela triste condição humana. 

E mais: as múltiplas identidades - cacos do eu original - não sabem refletir a própria condição de indiferença dos deuses que há. Os próprios deuses não expressam sentimento algum sobre o valor do vaso. Seria mesmo o vaso apenas um vaso vazio? Não há resposta naqueles deuses à indagação do caco, que permanecerá confuso de si mesmo e confuso diante de deuses sem consciência do desastre daquela queda.

Vejo o poema como um discurso da pessoa sem Cristo, a voz é a voz do ser falido, o eu poético que expressa a condição da humanidade quebrada, caída, quedada, multifacetada na sua identidade original. Portanto, a salvação em Cristo é o resgate dessa unidade perdida, a reconciliação com Deus e consigo mesmo. A busca pela unidade da identidade partida, mas ainda guardada no Criador, que é o Deus que intervém (ao contrário dos deuses do poema). 

A identidade não é meramente uma construção social, pois, ao contrário do que muitos dizem, muitas vezes, a interação com os outros, que nada mais são do que vasos também partidos, pode apenas estilhaçar quem somos ainda mais. 

O que eu sou, quem sou, é um segredo a ser descoberto no Ser de Deus. Ele me conhece inteiro. Eu, se distante dEle, tão somente me confundo mais ainda nesses cacos de mim.

O nosso Deus é o Deus que não pode tolerar a queda excessiva da sua criatura!

Um comentário:

  1. bom dia meu amigo estive dado uma linda em seu blog gostei muito eu também tenho um da para você colocar meu blog na sua lista do seu blog que eu vou colocar seu no meu bom dia obrigado.http://lucianopatriciotk.blogspot.com.br

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