sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A São Paulo de Adoniran Barbosa


Adoniran, homem tão simples como “os simples” que ele traduzia nas canções, resignava- se diante da “otoridade”, levava fé que “trabalhando duro” dava para comprar uma casinha no periférico bairro de Ermelino e então ter filhos, “dois meus/um de criação” - Isto É independente.

Agüenta a Mão, João

Composição: Adoniran Barbosa / Hervé Clodovil


Não reclama

Contra o temporal

Que derrubou teu barracão
Não reclama
Guenta a mão João
Com o Cibide
Aconteceu coisa pior
Não reclama
Pois a chuva
Só levou a tua cama
Não reclama
Guenta a mão joão
Que amanhã tu levanta
Um barracão muito melhor

C'o Cibide coitado

Não te contei?

Tinha muita coisa
A mais no barracão
A enxurrada levou seus
Tamanco e o lampião
E um par de meia que era
De muita estimação
O Cibide tá que tá dando
Dó na gente
Anda por aí
Com uma mão atrás
E outra na frente

Esse maravilhoso samba de Adoniran Barbosa - verdadeira crônica paulista - precisa ser ouvido à luz de um tempo quando a influência paternalista do Estado não era tão carregada como tem sido nas últimas décadas.

A letra revela essa solidariedade do povo brasileiro que toma em suas próprias mãos a solução dos seus problemas e não se deixa enganar e nem se esconder atrás do discurso de auto-vitimização. O brasileiro da música de Adoniran consegue ver benção no meio da adversidade, porque sabe que sempre haverá alguém mais sofrido do que ele e que precisa da sua ajuda também. 

O brasileiro de Adoniran tem esperança e acredita que amanhã ele será capaz de construir até mesmo um barracão ainda muito melhor - deliciosa expressão da perseverança da alma do brasileiro (daquele tempo?). 

Mas não é só isso: o brasileiro de Adoniran crê em Deus, no futuro, na amizade, ainda que saiba que a chuva, o toró, está vindo com vontade (tudo narrado pelo humor quase amargo desse cronista de origem italiana). 

Não apenas a São Paulo é um outro mundo hoje - embora os problemas da cidade ainda continuem os mesmos narrados na música de Adoniran - como também as gerações que se seguiram de lá para cá viram mudanças até mesmo na maneira de enfrentar e suportar as mazelas da vida. 

Grande Adoniran Barbosa!

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