segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Eros e Psique - Fernando Pessoa sempre

  
Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
 

Fernando Pessoa

Novamente, Fernando Pessoa. Os versos, sua mitologia, seus símbolos. Quantas leituras!

Quem é a Princesa? Quem é o Infante? Psique fora encantada e só acordará aos desejos da carne se for despertada – como a noiva em cantares de Salomão – pelo infante Eros. Psique é a personagem que sublima, a alma, o espírito, o céu, a religião etérea, o divino, a figura da castidade com todas as suas implicações. Eros, o infante - infantil e guerreiro! Ele é a sexualidade que precisa ser realizada, que urge como pulsão da carne, do desejo, o inferno, a religião vulgar, o terreno, o natural, o imperfeito, o humano.

Psique está trancada em seu castelo, mas há um caminho... o caminho errado que deve levar nosso herói até ela. Errado pelas dificuldades, obstáculos, terribilidades. Mas Eros precisa se libertar? Ele também está preso? A Princesa  presa no castelo e ele no emaranhado dos discursos sobre o Bem e o Mal? Ele precisa se libertar desse maniqueísmo funesto que o separa de sua amada. O mundo não é a luta eterna de duas forças iguais e, muito menos, manter-se-á o equilíbrio das coisas acreditando-se nisso. Não! Nem ele é o inferno, nem ela é o céu!

A Princesa, como que morta, enfeitada em seu esquife, aguarda por aquele que pode trazer vida à morte que a domina. Ela anseia, ela deseja, ela espera. Mas as imagens agora parecem se inverter, pois ela, a vida, está morta e ele, a morte, luta contra o equilíbrio das coisas para dar a vida que ela tanto necessita. E ele, o infante, lutará e virá, ainda que sem saber qual o propósito de tudo isso, apenas porque as coisas devem ser assim... Ele não é razão. Ele é pulsão. É preciso enfrentar o caminho errado. Por quê? Ele não sabe: ele não é razão. Ele segue esforçado. Quem é ele? Ela não sabe. Quem é ela? Ele não conhece.


Todavia, ainda que ignorantes acerca do verdadeiro conhecimento sobre si mesmos, há um Destino, um propósito que os guia e faz existir a estrada. Alguém quer este encontro entre o Infante e a Princesa, entre Eros e Psique. Tudo está sendo cumprido: este encontro, a busca da unidade!

A nossa ignorância do que somos e do que há na estrada não é usada como desculpa para a fatalidade ou desistência. Ele segue até ela, ainda que não possa nem mesmo confiar na estrada, porque também não a compreende na sua totalidade.

A luta do Infante – a passagem da infância para a vida adulta – o despertar do amor erótico na tez fria da razão que nega que ela mesma era o príncipe que a descobre! 

Finalmente, revela-se a todos (personagens e leitores) que a luta era pela unidade dos cacos dispersados pela excessiva queda – o fim da dicotomia, o fim desse dualismo (leia o"
A Queda em Fernando Pessoa")!

Enfim, a negação da existência de um conflito cósmico entre o reino da Luz (Psique) e o das sombras (Eros), porque somos uma unidade: Eros e Psique são uma só natureza - caída, depravada, estilhaçada, carentes da glória de Deus - esta natureza  humana de cada um de nós. 

Um comentário:

  1. Gostei muito do blog! Continue enfeitando a vida com arte....porque é por isso, talvez, a nossa razão de amar.

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