quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

As línguas indígenas na formação da língua nacional – uma história ainda por se contar (ou “Suiá-Missu, não podemos esquecer”)

As forças militares contra famílias de brasileiros trabalhadores
A história da formação da Língua Portuguesa dá um “romance”! Surpreendo-me com o paupérrimo ou nenhum conhecimento dessa aventura de proporções continentais e pluricultural por parte significativa do alunado brasileiro. E isto, indubitavelmente, é um contrassenso ao alegado “espírito moderno multiculturalista inclusivista” de nosso tempo. Talvez porque a Língua Portuguesa e sua história seja um testemunho vivo de milênios de civilizações e “passado” seja algo pouco interessante aos historiadores revolucionários de nossas escolas. 

A moda em provas de concurso e vestibulares é que o aluno “domine os temas atuais” e, certamente, essa mentalidade escolar de ruptura com tudo aquilo que forneça uma identidade maior e mais vasta ao povo brasileiro do que a defesa intransigente e muitas vezes burra de culturas mínimas por extensão e influência seja uma das doenças da chamada Nova Escola.

Aliás, com a amputação do passado (“passado” não é um tema atual na mente dos nossos “Che” da Educação), dentre tantas riquezas, levaram embora também o Latim do Currículo Nacional. Com isso, perdemos a riqueza de uma história carregada por essa língua. Soubéssemos Latim, conheceríamos que as palavras (assim como as coisas) podem mudar de significado no correr da história como, por exemplo, a palavra “burra” que usei no parágrafo anterior. “Burra” vem de burrus, que significa avermelhado e não tinha nada a ver com o animal, que era chamado de asinus! Contudo, vai entender mais esse contrassenso da mente dos atuais revolucionários da Educação, que, aparentemente, tanto pregam sobre liberdade: quer coisa mais LIVRE do que o Latim? Veja só que maravilha de LIBERDADE poder expressar “A menina tem uma rosa” de cinco maneiras diferentes e todas estarem corretas:

Puella habet rosam.
Puella rosam habet.
Rosam habet puella.
Rosam puella habet.
Habet puella rosam.
Habet rosam puella... Pensando bem, talvez tenha sido exatamente por causa de toda essa liberdade sintática que tenham resolvido extirpar essa Língua de nossas salas de aula. Imaginem o que uma gramática dessa não faz à índole de um aluno no correr de uns poucos anos?

Crescemos na Escola aprendendo sobre as influências dos povos africanos e dos povos indígenas em nosso vocabulário (lembra daquelas listas de palavras que nossos professores passavam?) , contudo a ideia que fica ao aluno é de uma espécie de reunião em algum gabinete no qual foram anotadas certas palavras e que, dali em diante, elas seriam anexadas ao dicionário brasileiro. Evidentemente, não foi assim que o idioma assimilou vocábulos. No Brasil, houve escravos negros de línguas e culturas diferentes entre si e houve, também, italianos, alemães, poloneses, japoneses, etc. Sem contar a influência de outros povos na formação da Língua antes de Cabral aportar por aqui: gregos, árabes, celtas, fenícios, ibéricos e orientais. 

Quanto aos povos indígenas, haveria no Brasil do Descobrimento pelo menos 5 milhões de nativos espalhados por quase 1500 povos diferentes entre si! Não poderíamos jamais reduzir estes números às listas de palavras “exóticas” que falamos. A preservação das línguas indígenas ainda existentes (são pelo menos 180) é um fator importantíssimo, caso queiramos reconstruir a própria história pré-colombiana do Brasil e das Américas e valorizar a grande saga da História Humana, deixando esse legado às futuras gerações. A preservação, a anotação, a manutenção, pesquisa e o incentivo ao estudo das línguas indígenas no Brasil é uma luta justa, mas, infelizmente, como quase tudo no Brasil, a palavra “justa” também está aprisionada à guerra ideológica. A justa causa da pesquisa indígena no Brasil está nas mãos, predominantemente, de “pesquisadores militantes” que perdem muito mais tempo engajando os povos minoritários contra “a dominação branca e exigindo o pagamento de uma dívida histórica” do que escolarizando, profissionalizando e formando indígenas para que eles sejam os próprios analistas, pesquisadores e mantenedores autônomos de suas línguas.

A luta pelas chamadas “culturas minoritárias” segue uma direção totalmente equivocada. Especialmente no caso indígena, há mesmo uma intenção de fomentar conflitos étnicos entre esses grupos contra o “brasileiro” (como se os povos indígenas não fossem brasileiros!). A preocupação com as identidades minoritárias não é “antropológica”, não é “sociológica” e nem “linguística”, pelo contrário, o não-indígena tem usado a verba pública para manipular muitas das lideranças indígenas, fazendo um trabalho de proselitismo ideológico, para a defesa de uma agenda que, no fim das contendas, garantirá mais e mais repasses financeiros aos seus “projetos pessoais de pesquisa”, sejam estes acadêmicos, políticos ou religiosos (um exemplo aqui). É assim, sempre foi e ainda será por muito e muito tempo. Prova disso foi o conflito na Suiá-Missu, que acompanhei bem de perto, na região do Mato Grosso, em que foram despejadas de lá 7 mil pessoas (sim, idosos, mulheres e crianças também) e, hoje, os indígenas que receberam aquelas terras estão completamente abandonados pela FUNAI. Quem acompanhou o caso aqui pelo blog sabe que os indígenas da região queriam outra faixa de terra (esta, sim, com vestígios de presença indígena anterior) e não aquela que foi dada a eles, contudo, outras lideranças foram manipuladas para insistirem com o que a FUNAI havia estabelecido e, no fim, deu no que deu: descaso, ostracismo e mais uma “terra sem lei” cravada em pleno interior do Brasil. 

Leia mais sobre o que está acontecendo hoje nas terras do Suiá-Missu, consequência nefasta da política arbitrária e ideológica da FUNAI: aqui, aqui, aqui e aqui.

Este artigo deveria ser sobre a “maravilhosa história da formação da Língua Portuguesa”, mas, deploravelmente, um estudo que poderia render muito mais à história da nossa identidade está sendo refém de uma mídia manipulada, de um academicismo ideológico e de uma agenda governamental muito mais interessada em ver o “caldo entornar” do que em encontrar soluções pacíficas, gerando melhoria de qualidade de vida real aos povos indígenas do Brasil ao mesmo tempo que promove o crescimento da produção da agricultura nacional.    

Relembre o caso Suiá-Missu:

LASTIMÁVEL DESCASO NO NORDESTE DO MATO GROSSO: Moradores fecham rodovia e o clima é tenso na região


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