quarta-feira, 12 de março de 2014

Escravo da alegria

 

Composição: Mutinho e Toquinho

E eu que andava nessa escuridão
De repente foi me acontecer
Me roubou o sono e a solidão
Me mostrou o que eu temia ver
Sem pedir licença nem perdão
Veio louca pra me enlouquecer

Vou dormir querendo despertar
Pra depois de novo conviver
Com essa luz que veio me habitar
Com esse fogo que me faz arder
Me dá medo e vem me encorajar
Fatalmente me fará sofrer

Ando escravo da alegria
E hoje em dia, minha gente, isso não é normal
Se o amor é fantasia
Eu me encontro ultimamente em pleno carnaval


Ah! Esse violão!... O que dizer? Como não ser convulsionado por essa paixão que atropela, que se manifesta inesperada e poderosa e avança sobre mim, que, catártico, deixo-me na platéia do teatro dessa vida...

Logo eu, que nada sei sobre música, mas sei que há alguma coisa aí nesse dedilhar, nessa melodia, no solo magoado desse violão. O que será? E eu, que nada sei sobre técnicas musicais, partituras ou composições, sou apenas um apreciador intuitivo, passivo...

Você sabia que as palavras "paixão" e "passivo" possuem a mesma raiz grega? E um dos significados é exatamente o de permanecer imóvel, sofrer pacientemente a ação de algo que não se consegue definir, que não se pode compreender. Esta "passividade" faz parte da experiência religiosa de muitas tradições místicas, cristãs e não cristãs. É também a mesma paixão que subjaz a catarse da tragédia grega, que, evidentemente, é uma experiência religiosa, espiritual, existencial! Tanto o personagem da tragédia quanto o espectador da peça de teatro viam-se involuntariamente passivos, impotentes, incapazes para a autodeterminação diante disso tudo que fatalmente os fará sofrer!

Sempre me surpreendeu a linguagem religiosa dessa letra do Mutinho, mas ele não é um caso isolado, muitos compositores fazem um jogo religioso-profano para expressar o amor entre um homem e uma mulher. A letra acima é um bom exemplo de como a música popular brasileira foi profundamente influenciada por uma linguagem que bem poderia ser aplicada à experiência religiosa num momento de paixão, de passividade, que é perplexidade, que é essa abdicação forçada da vontade livre e racional: o apoderamento divino sobre nossas vidas!   

É muito interessante lembrar que uma das diferenças fundamentais do profetismo pagão e do profetismo judaico-cristão é que naquele o profeta entrava nessa confusão, nesse  êxtase, enquanto neste "os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas". Esta diferença, por quê? Porque Deus não é de confusão, e sim de paz (I Cor 14: 32-33a).  

A busca pelo Outro - essa saudade da qual já nos falava Santo Agostinho - pode, sim, levar-nos a caminhos de solidão, quando, equivocadamente, insistimos em depositar nossas esperanças num simples ser humano, numa criatura semelhante a nós, sujeita aos mesmos sentimentos. Esse anseio pelo divino - esta semente da religião plantada no homem - é uma semente delicada, que facilmente se vê aviltada por nossa natureza caída.

"Escravo da Alegria" é uma música capaz de captar essa experiência religiosa da busca pelo Outro, enquanto uma procura desfocada, perdida, idólatra. Porque, dentro de nós, essa procura pode corromper-se, depravar-se e, como mostra a música, essa busca termina nos versos finais de um carpe diem, ressaltado ainda mais pela fatalidade apregoada pelos compositores na consciência de fantasia, de ilusão, que é a vida - tese acentuada também, e principalmente, na parceria de Toquinho com Vinícius em tantas outras músicas.

Há pinceladas nesse violão que traduzem muito bem uma dor, uma frustração machucada de que tudo isso - essa alegria - não passa de vento, vaidade. Uma alegria que é escapismo das mazelas da vida ("hoje em dia, minha gente, isso não é normal"). 

Lindíssimo, mas triste. Para esse carnaval cantado por eles, impõe-se a certeza trágica de uma inescapável quarta-feira de cinzas!

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