domingo, 27 de julho de 2014

A FILOSOFIA ANTI-CONVENCIONAL DE OLAVO DE CARVALHO (Carlos A. Gomes)

Existem centenas senão milhares de definições de filosofia. Todas quase tão numerosas quanto foram os pensadores ao longo dos séculos, pois cada filósofo tende a definir a filosofia à sua imagem e semelhança. No seu monumental ‘Diccio­nario de Filosofia’, o filósofo espanhol José Ferrater Mora (1912-1991), citando Josef Pieper, observava que, “enquanto perguntar ‘Que é a física?’ não é formular uma pergunta pertencente à ciência física, mas uma pergunta prévia; perguntar ‘Que é a filosofia?’ é formular uma pergunta filosófica — uma pergunta eminentemente filosófica”. Dessa forma, conclui Ferrater Mora, “cada sistema filosófico pode valer como uma resposta à pergunta acerca do que é a filosofia e também acerca do que a actividade filosófica representa para a vida humana”.
Todavia, como sustenta o filósofo italiano Nicola Abbagnano (1901-1990), também autor de um ‘Dicionário de Filosofia’, a despeito da disparidade de significações de “filosofia”, é possível reconhecer nelas algumas constantes, entre as quais, segundo ele, “a que mais se presta a relacionar e articular os diferentes significados desse termo é a definição contida no ‘Eutidemo’ de Platão: filosofia é o uso do saber em proveito do homem”.
Ao contrário dos filósofos académicos, que se limitam a ‘fazer leitura’ e ‘trabalhar conceitos’, geralmente de um só autor, Olavo de Carvalho volta a sua atenção para problemas reais e tenta solucioná-los à luz de uma inegável erudição filosófica, sem medo de ser acusado de ecletismo. Natural de Campinas, onde nasceu em 1947, é autor de uma vasta obra filosófica, que inclui ‘O Jardim das Aflições’, talvez sua obra-prima, publicado já em forma de livro e não como colectânea de artigos dispersos. É ainda autor, entre outras obras, da ‘Coleção História Essencial da Filosofia’, publicada pela Editora É Realizações em 32 volumes, acompanhados de DVD com palestras do autor de cerca de 120 minutos, cada uma. Mas, para o bem ou para o mal, Olavo de Carvalho é mais conhecido a partir dos seus polêmicos artigos de combate, reunidos primeiramente no livro ‘O Imbecil Coletivo’, que deu fama ao autor quando publicado em 1996, seguido de um segundo volume.
Escrevendo com um estilo ligeiro, sarcástico e incomodativo, ironiza os adversários e ri de si mesmo, Olavo de Carvalho ficou conhecido como um polemista imbatível na década de 90. Houve um momento em que escrevia regularmente nos jornais ‘O Globo’, ‘Zero Hora’ e ‘Jornal da Tarde’, colaborava com a ‘Fo­lha de S. Paulo’ e publicava nas revistas ‘Bravo’ e ‘Primeira Lei­tu­ra’. Actualmente reside nos Es­ta­dos Unidos e colabora com alguns periódicos brasileiros.
Considerado por muitos o maior representante da intelectualidade neo-conservadora brasileira, Olavo de Carvalho afirma que o capitalismo foi criado por religiosos   protestantes baseados na ideia da prática coletiva de valores cristãos no  comércio. Afirma também que o  marxismo não é uma teoria original pois muitas das ideias já teriam sido antecipadas por outros pensadores de épocas anteriores e que o mesmo não surgiu de nenhum estudo econômico científico e que a maior parte da obra de  Karl Marx incluindo os conceitos tradicionais de luta de classes, revolução proletariado e meios de produção, já teriam sido formuladas projectivamente por doutrinas protestantes e reformistas.
Olavo critica fortemente o chamado movimento globalista, ou globalizante que na sua visão não visa a simples defesa de abertura de mercados, mas sim a “introdução de regulamentações em escala mundial que transferem a soberania das nações para organismos internacionais”, procurando o estabelecimento de uma Nova Ordem Mundial. Tal ordem estaria associada à uma “uniformização econômica do planeta”, e traria “como objectivo as sementes de uma neo-religião híbrida, semi ecológica, semi ocultista (…) e cuja implantação resulta pura e simplesmente na destruição completa do cristianismo e judaísmo e outras tradicionais. Os principais agentes do globalismo seriam as fundações multi e trans-internacionais como a Ford, Rockefeller e também George Soros , o Clube Bildeberg, etc. Segundo Olavo, esses chamados agentes globalistas financiam a esquerda política latino-americana, visando obter um instrumento para enfraquecer a resistência americana, facilitando a implantação do governo mundial que a ONU já declarou ser seu objetivo prioritário para as próximas décadas.
Na sua opinião essa elite globalista nada tem a ver com o capitalismo liberal antes promove veículos de destruição da ordem convencional das sociedades. Olavo aponta que essas elites formam quadros de elite para influenciar as coisas desde cima, em vez de organizar movimentos de massa. O seu momento de glória teria surgido com a administração keynesiana de Roosevelt que, a pretexto de salvar o capitalismo, estrangulou a liberdade de mercado e criou uma burocracia estatal infestada de burocratas. Com essa linha de raciocínio, afirma que a Guerra Fria “foi, em grande parte, puro fingimento: a elite Ocidental concorria com o comunismo sem nada fazer para destruí-lo. Ao contrário, ajudava-o substancialmente. (…) A concorrência entre “capitalismo” e “socialismo” foi um véu ideológico para uso das multidões, mas a luta entre Oriente e Ocidente é para valer”.
Nesse sentido Olavo encontra como elementos actuantes para essa Nova Ordem Global, três grandes “projetos de dominação global“: além do movimento acima mencionado (globalização ‘ocidental’), estariam em ação os “globalistas islâmicos” que visariam a unificação de Estados muçulmanos num “grande projeto universal do Califado, como também um bloco “russo-chinês” cuja classe dominante seria oriunda da Nomenklatura comunista tradicional, e composta “essencialmente de burocratas, agentes dos serviços secretos e oficiais militares”, classe essa que, uma vez que teria admitido “a derrota do comunismo, (…) reagiu e criou do nada uma nova estratégia independente, o eurasianismo, mais hostil a todo o Ocidente do que o comunismo jamais foi”.
Deste modo, Olavo de Carvalho, independentemente das simpatias ou desconforto que possa causar, afirma-se como um filósofo ‘diferente’, anti-convencional, bastante crítico do status quo institucional e político, levando a filosofia para lá dos horizontes tradicionais, ‘de laboratório’, para se aventurar nas teorias da conspiração próprias de um pensamento marginal e anti-sistema. Pode-se dizer que Olavo de Carvalho é um ‘filósofo’ na verdadeira acepção do termo. Honra lhe seja feita!

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