segunda-feira, 21 de julho de 2014

Por quais razões NÃO defendo Israel!




    
    Confusão nasce do preconceito de julgar o outro pelas ideias e características de um grupo ao qual você supõe que esse outro pertença. Alguém deu a nós um manual, um roteiro, um mapa pelo qual devemos seguir e chegar a algum lugar, mas o manual, o roteiro, o mapa estão profundamente equivocados, porque o mundo não é um brinquedo ou um jogo fácil de montar, como se tudo se resolvesse num simples “siga as instruções”! É bem verdade que para uma maioria há um contentamento, um acomodamento, uma satisfação no simplismo de resumir o mundo a uma moeda de apenas dois lados: um sujo e o outro limpo; um branco e o outro negro; um rico e o outro pobre; o patrão e o empregado; o explorador e o explorado; o bem e o mal; o mocinho e o bandido. Precisamos emergir deste mar de ingenuidade que insiste em nos afogar a todos.


Há muita confusão e preconceito (e até mesmo delírio) na defesa das ideias sobre temas delicados e polêmicos como, por exemplo, o da causa de Israel. Confusão e preconceito não em relação aos judeus ou palestinos, mas às razões do outro, do debatedor, daquele que apresenta, ou tenta apresentar, as razões pelas quais defende esta ou aquela posição. E por vivermos em uma sociedade acostumada ao pensamento coletivista e entranhada numa cultura que molda o pensar, o raciocinar, o "inteligir" em direção ao grupo, com o grupo, de acordo com o grupo, as pessoas tendem a começar quaisquer debates encaixotando o interlocutor e definindo-o segundo algum grupo “de pensamento”, ao qual se creia que este deva pertencer. Nada mais tolo e nada mais propício de nos afastar totalmente de uma discussão racional do que esse estratagema de colocarmos o outro dentro de algum saco ideológico. Seria como se insistíssemos em apresentar Camões como um poeta classicista mesmo que nos deparemos com um poema como o “O amor é fogo que arde sem se ver...”. Fica evidente que entendermos o mundo por um manual que nos foi dado pela Escola, pela Mídia ou por um grupo apenas levará nossa avaliação ao fracasso e à perplexidade infantil de quem não mediu bem as consequências de seus atos, mas que agora já é tarde demais para voltar atrás. 


Feita a introdução, pergunto: por quais razões NÃO defendo Israel? Há pelo menos três importantes respostas que encontramos nos debates sobre Israel e Palestina e das quais quero me desvencilhar.  E, quem sabe, mostrar a você que há mais razões para fundamentar o apoio à paz entre israelitas e palestinos do que a nossa vã filosofia de manual pretende nos convencer. É o que apresento a seguir.


     Por qual razão NÃO defendo Israel? Não o defendo usando o argumento do Holocausto. Embora compreenda o valor desse argumento que pretende saldar uma dívida histórica com Israel, pois é do conhecimento de todo o mundo a tragédia de mais de seis milhões de judeus mortos durante a Segunda Guerra Mundial. Muito mais do que uma tragédia foi um crime e, como tal, deve ser julgado. É preciso que seja dada a punição aos que cometeram tal atrocidade, além de se precaver de que isso não ocorra novamente. Todavia, perceba bem, não acredito que o crime dos pais deva ser punido nos filhos. Não creio que a dívida histórica seja mais do que um argumento apelativo, mas profundamente injusto ao repassar a terceiros uma conta da qual esta geração não é responsável. Portanto não posso usar o Holocausto para defender a causa de Israel, assim como não defendo as cotas raciais, que são justificadas pelo mesmo argumento falacioso da dívida histórica.    


Por qual razão NÃO defendo Israel? Não o defendo usando do argumento do antissemitismo. Concordo com a filósofa judia Hannah Arendt de que o antissemitismo alegado pela causa sionista é uma criação moderna que, por atender aos apelos do povo judaico, foi cooptado por este. Mas é uma causa moderna, como ela explica no ótimo “A origem do totalitarismo”, e que encarna a crença do povo judaico de que eles são o “bode expiatório” do mundo. Uma crença que os próprios judeus têm de si mesmos e que os levou não apenas a viver segundo esta crença como também a reinterpretar a sua história segundo a ótica do vitimismo. Hanna Arendt percebe que essa “vocação eterna” que os judeus atribuem a si mesmos está na raiz dos males perpetrados  contra o próprio povo durante a Segunda Guerra Mundial. Hannah viu a passividade de milhares que caminharam sem reagir às estações de trem para dentro dos vagões como se cada um crê-se nessa espécie de predestinação do povo ao próprio sacrifício. Não é à toa que a filósofa que desnudou a alma de cordeiro do seu próprio povo passou a ser tão odiada por diversos grupos judaicos, principalmente após a publicação dos artigos que depois deram origem ao livro “Eichmann em Jerusalém”. 


Por qual razão NÃO defendo Israel? Não o defendo pelos argumentos do Holocausto e do alegado antissemitismo, mas há ainda um terceiro argumento que aparece nos debates sobre a causa de Israel. O terceiro argumento é de natureza religiosa e domina o pensamento da maioria da direita religiosa americana (e no Brasil muitos religiosos também seguem este argumento): Israel é o povo escolhido por Deus! Por mais anacrônico que pareça esse talvez seja o argumento mais popular nos debates dentro da Igreja cristã. Ele se baseia em que Deus não revoga sua eleição e nem seus dons. Assim, mesmo com o advento da Igreja, Israel ainda é o alvo de bênçãos especiais de Deus por causa da Aliança. Os fatos de que Israel, milagrosamente, ainda esteja de pé e de que grandes gênios da humanidade (mesmo que para o mal) são judeus são apresentados como prova de que essa “eleição” não caducou. Todavia, seguir esse caminho é optar por uma interpretação hermenêutica da Bíblia da qual eu não coaduno. Não fui convencido da validade dessa eleição ou promessas, porque compreendo que Jesus é o Israelita perfeito e que nEle se cumpriu todas as promessas que Deus fez ao povo de Israel, promessas que traziam em si mesmas exigências que o próprio povo de Israel jamais pode cumprir satisfatoriamente. Jesus, o judeu, o israelita, não apenas foi o Filho perfeito, o que jamais seríamos, como também foi o israelita perfeito que nunca eles conseguiram ser. Jesus inaugura a Igreja, que é o Israel Espiritual, cumprindo por nós e recebendo em si todos os direitos e deveres da Aliança de Deus. Evidentemente, a Teologia bíblica do Pacto se desenvolve muito além do que apenas as três linhas nas quais tentei aqui sintetizá-la para o leitor, então, a quem se interesse debruçar sobre o assunto, indico esta ótima introdução: “Cristo dos Pactos”, de O. Palmer Robertson.


 Por qual razão NÃO defendo Israel? Embora respeite e compreenda, não tomo para mim os argumentos da dívida histórica, do antissemitismo e das bênçãos que ainda poderiam existir sobre o atual Israel. O que me leva ao “quase último argumento” em debates acalorados sobre a causa israelita e palestina: o argumento da democracia. Porém o argumento da democracia deve ser visto com extremo cuidado, porque, afinal, o que é democracia? Quando vemos e estudamos sobre a democracia a fundo, descobrimos que ela pode ser tão falha ao ponto de dar todas as condições necessárias ao advento legítimo (porque seria pelo voto popular) de um tirano ao poder. Quando vemos que a democracia no Brasil, por exemplo, tem sido usada como instrumento para a perpetuação de um projeto de poder de um grupo, passa a ser muito compreensivo que comecemos a duvidar da própria democracia, que se vê incapaz de proteger-se a si mesma. Porque já é chegada a hora de compreendermos que a democracia não tem sido (e não é) 'a vontade do povo', mas a vontade dos políticos. E, dito isto, não é de surpreender que regimes e partidos totalitários exibam a palavra democracia em seus governos. É o caso non sense do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que diz lutar por uma Palestina democrática! Ora, a democracia em si é um argumento frágil para apoiarmos quaisquer causas que se nos apresentem diante de nós. Mas é porque a própria democracia talvez seja uma farsa ou, pelo menos, um instrumento que pode ser facilmente usado por governos farsescos, mas isso é um assunto longo para outro artigo, cabe aqui apenas fazer a ressalva de que a democracia e a liberdade não são sinônimas e que mesmo o casamento entre ambas pode ser um dos maiores engodos desde a Revolução Francesa.

 Descartados o Holocausto, o antissemitismo, o “Israel de Deus” e a própria democracia, haveria, então, alguma razão para que eu pudesse defender Israel? Há muitas sim! Mas é apenas com uma dessas que gostaria de encerrar este texto: a razão pela qual defendo Israel é exatamente por aquele valor inalienável e inato de todo e qualquer ser humano, seja judeu ou palestino, valor que a democracia tem se mostrado incapaz de defender: a liberdade! Embora creia que a liberdade não seja um valor absoluto, mas, indubitavelmente, é inato ao ser humano. E Estado algum tem o direito de solapar a liberdade do seu cidadão, porque a liberdade não é um direito oferecido pelo Estado, mas nascido com o ser humano. E a Constituição deveria ser, e digo isso sobre o Brasil também, a carta que limita a ação do Estado sobre a liberdade do indivíduo (e jamais o contrário). Daí, enquanto houver palestinos fugindo para Israel ou para quaisquer outros países nos quais haja a liberdade que eles não encontram no lugar em que vivem, disponho-me em favor destes palestinos e em favor de Israel. Assim como fugiam alemães do lado oriental para o ocidental antes da queda do Muro de Berlim, assim como ainda hoje fogem cubanos para a América (ou para o Brasil, mas que são deportados pelo governo do PT), assim como coreanos do norte fogem para a Coreia do Sul, ironicamente, podemos constatar que não há palestinos refugiando-se em países islâmicos, assim como não há judeus fugindo da opressão do Governo de Israel. Por tudo isto é que cada um de nós, os que amamos a liberdade, precisamos convidar nosso próximo a repensar as razões por que ele não defende Israel.

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