segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A arte de fazer omeletes sem quebrar os ovos (série: Educação e comunicação transcultural II)

Abstracionismo
Quase todos os dias recebo a visita de meus alunos "estrangeiros" aqui em casa. São jovens com seus 15, 16 , 17 anos e que se encontram, por força das circunstâncias, lançados numa Escola estrangeira, que é a brasileira, num curso noturno de ensino público.
Cubismo

Imagine como é heterogênea essa sala de aula frequentada por esses indígenas: homens e mulheres bem mais velhos que eles, brasileiros falantes do português e que retornaram aos estudos depois de seus casamentos desfeitos, depois de seus arrependimentos tardios e ansiando muito ter seus sonhos recuperados. Além dessa miscelânea nacional de frustrações e expectativas, meus alunos têm como companheiros de sala outros jovens iguais a eles, também estrangeiros, não falantes de português, mas, imaginem, cujas línguas diferem das línguas desses meus alunos também. São outros indígenas de outros povos!

Expressionismo
Vocês acham que eles se intimidam? Nada disso! Religiosamente, meus alunos aparecem aqui em casa com suas dúvidas e perturbações. Eles são indígenas, que saíram de suas aldeias para acompanhar seus pais, que vieram por motivos de saúde ou financeiro. E, agora, na cidade, querem frequentar a escola que já vinham frequentando na aldeia. Estão quase todos na 8ª série. 

Fauvismo
Matemática, decididamente, não é obstáculo a nenhum deles. Dominam a linguagem dessa disciplina de uma maneira muito melhor do que eu dominava na idade deles. Todavia, a leitura, o mundo que os cerca, a escrita, as figuras de linguagem, a geopolítica, este mundo majoritário de signos e símbolos já é uma outra conversa. Há tantas coisas diversas e novas para eles! E, como disse, eles não se intimidam, ainda que estejam estudando numa Escola que não se encontra nem um pouco preparada para receber tamanha diversidade cultural em sua sala de aula. 

Futurismo
Eles chegam aqui e mostram seus cadernos, fazemos leituras e, com mais tempo que os professores da Escola, paro e vou me desdobrando para explicar algumas coisas que, sinceramente, as percebo quase que inexplicáveis. Por exemplo, as tendências modernas que assolaram a Europa na virada do século XIX para o XX. O professor passou, vai cair na prova, é matéria, tem trabalho para entregar. E fim de conversa!

Bem, por onde começamos? Nada melhor do que um mapa-múndi, acredito eu. É preciso mostrar que lugar é esse chamado Europa e seus povos e culturas tão dissemelhantes. No mapa, aponto tanto para lá como bem aqui, revelando de onde eles vieram. Arrisco iniciar minha aula explicando aos meus alunos que "os não-indígenas pensam que os índios são um povo só, mas não é verdade, vocês são mais de 200 povos diferentes só aqui no Brasil, que falam mais de 180 línguas diferentes, espalhados por esse país já tão diverso. Com o caraíba (homem branco) é a mesma coisa. Vocês já sabem que caraíba não é tudo igual: somos brasileiros, franceses, americanos, alemães...". Isto eles sabem bem, pois há muitos turistas visitando suas aldeias todos os anos para conhecer suas festas.

Surrealismo
Mas e as tais tendências modernas? Imagine! Estava ali, esforçando-me na língua deles, catando algumas palavras que pudesse trazer à mente algumas coisas próximas a eles, "tentando preparar aquela omelete sem precisar quebrar os ovos". Finalmente, disse que as tendências modernas eram como os povos indígenas, em que cada um tem a sua arte própria. Um povo era especialista em fazer panelas de barro, outro em fazer um famoso colar de caramujo; outro, ainda, era especialista em esculpir bancos de madeira (lindos!), então, com as tendências modernas da Europa seria melhor se eles percebessem dessa mesma maneira: cada escola era um grupo de gente diferente, com expressões artísticas (pintura, escultura, poesia) diferentes umas das outras. Iguais a eles. E assim continuei conversando e mostrando os quadros, as esculturas, as artes e suas diferenças. 

Naquela tarde, redescobri, junto com meus alunos, como somos todos tão diferentes e tão semelhantes uns dos outros. Esta é a diversidade criativa do meu Deus. Este texto é, tão somente, uma declaração de amor à multiforme sabedoria do meu Deus na Sua criação revelada, quem diria, num encontro com as vanguardas europeias...

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A Educação pela tradução (série: Educação e comunicação transcultural I)

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