sábado, 4 de outubro de 2014

A Educação pela tradução (série: Educação e comunicação transcultural I)

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, e até o canário ficou mudo. Para não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam e eu ficava só, sem o perdão de sua presença e todas as aflições do dia, como a última luz na varanda.
E comecei a sentir falta das pequenas brigas por causa do tempero na salada – o meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? As suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa, calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolhas? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.

Eles vieram com o texto acima. Texto de Dalton Trevisan, "Apelo". Escrito em forma de carta, já começa a complicar aí. Não para você, caro leitor, mergulhado em nossa cultura desde os primeiros suspiros de vida. Carta ou bilhete, a cultura oral deles não prevê essas nuances. Estou falando deles. Os meus “alunos estrangeiros" que não dominam a nossa língua e, muito menos, nossa cultura literária (aliás, do mesmo jeito que a maioria dos alunos brasileiros em nossas escolas). O professor deles havia entregue esse texto seguido de dez perguntas para que respondessem. Mera autoilusão.

Tenho auxiliado nas matérias da Escola a alguns alunos indígenas. Ao ler o texto de Dalton Trevisan, percebi como era intocável aquela realidade textual para meus alunos: aquela realidade na qual o texto estava submergido. "Vocês sabem o que é apelo?", perguntei. "Não", responderam. Fui lendo aos poucos e traduzindo algumas palavras e frases para a língua materna deles, quando, então, percebi que havia algo mais do que palavras não compreendidas ou estrangeiras. Era algo muito mais profundo e escondido sob o manto dos simples significados diretos das palavras: era a cultura.

Meus "jovens estrangeiros" não apenas falam uma outra língua, como sua cultura é outra, diametralmente outra cultura. Assim, ainda que traduzisse todo texto para eles, havia algo distante, intocável. Estávamos ali diante de um mundo de palavras que traziam a cultura da vida cotidiana de um casal urbano, que não estava escrita, mas, ao mesmo tempo, estava inscrita fortemente ali a partir das palavras que não haviam sido escritas! E sem esse texto não escrito (muito maior em extensão e significados do que o texto escrito), jamais compreenderíamos satisfatoriamente a história naquela folha de papel.

Há um lugar-comum: "a língua é a chave para entendermos a cultura". Nada mais limitado e deformado do que essa sentença. A língua é UM elemento da cultura. E a cultura de cada um é muito maior do que nossas palavras. Ou, ainda, segundo o mestre Rosenstock-Huessy: "A língua vivente do povo sempre sobrepuja o pensamento do homem individual que pressupõe dominá-la".

Dois momentos fascinantes na tradução do nosso mundo ao mundo deles: explicar a pergunta "Acaso é saudade, Senhora?" e o surgimento inesperado daquele terceiro personagem "nós", que é revelado ao leitor somente no final.

Todo texto escrito guarda em si muito mais textos ocultos. O problema não se resumia em saber uma palavra equivalente à "apelo" na língua deles, mas, na cultura deles, encontrar o sentimento de abandono e esse desejo de que a Senhora volte. E mais, encontrar a razão da ausência de alguém ser tão presente ao ponto de se manifestar em objetos simples da vida cotidiana.

Traduzir é o ministério da (re)conciliação entre duas ou mais culturas, dois ou mais universos. Traduzir é aspergir algo possível da poesia de uma cultura sobre outra, acreditando que todos podemos ser convertidos e nos converter à cultura do outro.

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