terça-feira, 7 de outubro de 2014

O preconceito do preconceito do preconceito


Antes que você me acuse de preconceito, o que, na verdade, só revelaria o seu próprio preconceito, gostaria de fazer uma pergunta: já ocorreu a você que o que chamamos de "preconceito" poderia ser, tão somente, uma mentalidade diferente da sua, uma maneira diversa de enxergar as coisas e encarar a vida? Por que pergunto isso? Vou tentar me explicar.

Por causa do meu trabalho, aprendi a olhar com mais cuidado o outro. Ver suas ações, mas tentar compreendê-las sob o véu da superficialidade, tentar encontrar as razões que levam alguém a pensar, agir ou crer de uma maneira diferente da minha. Sei que somos ágeis em julgar levianamente o próximo: é mais fácil rotular do que compreender. É essa necessidade de inserirmos o outro em grupos - esta mania humana de biotaxonomia - tentando, assim, dominar a realidade brincando nesse tabuleiro do jogo das etiquetas. Ao contrário, acredito que deveríamos defender o espaço em que a pessoa pudesse expressar os seus pensamentos com liberdade e sem medo de ser acusada de um crime que, na verdade, ela sequer cometeu. Somos intolerantes com aqueles que achamos ser intolerantes. Somos preconceituosos com os que julgamos ser preconceituosos. Esta é a verdade.

Vou trazer dois exemplos. Um é histórico e todos conhecemos bem: a estigmatização do indígena sob a pecha de ser preguiçoso. Todavia, quem trabalha com esses povos e suas culturas entende bem a índole libertária deles. Povos acostumados à vida sem cercas e sem muros não poderiam mesmo jamais se deixar subjugar pelo chicote do senhor. O outro exemplo é uma oportunidade para que você olhe pelo outro lado: é o preconceito com o preconceito do sulista. E este é alimentado, principalmente, por dois fatores. Primeiro, o próprio Estado tem incentivado uma cultura de vitimismo por meio de programas sociais que não preveem a autonomia, mas apenas a dependência do cidadão. Segundo, o preconceito com o suposto preconceito do sulista é realçado pelo próprio preconceito de quem julga o sulista. É um ranço histórico ensinado desde a escola às crianças, misturado a uma cultura de pessoas ofendidas pelo mérito do sucesso alheio e soma-se a isso uma ideologia em que o modelo de herói nacional ainda continua a ser Macunaíma!

Deixe-me explicar um pouco mais. Aqui na cidade em que moro, fundada por sulistas que saíram de seus lugares de origem, desbravando o interior do Brasil, buscando para suas famílias condições melhores de vida, encontro muito desse preconceito ao preconceito deles. Entretanto, outra mentalidade, outra maneira de encarar as vicissitudes da vida é o que pode estar presente debaixo do rótulo simplista de "preconceituoso". Esta semana conheci mais uma família de imigrantes sulistas de origem italiana e que veio trabalhar nessas terras daqui. Arrendaram, prepararam o chão, suaram de sol a sol pais e filhos juntos. É uma família de trabalhadores rurais que possuem uma renda econômica acima da média geral, uma boa casa, um ótimo carro e uma agradável qualidade de vida, fruto de seu esforço, a despeito de serem pessoas muito simples. Contudo, enquanto muitos se acomodam na ociosidade há anos, orgulhosos de um rei que sequer reside em suas barrigas, vivendo à custa de tantos programas sociais, essa família que conheci levou seu filho adolescente para trabalhar de empacotador num supermercado da cidade! Alguma coisa de indigno nisso? Não! A indignidade está em quem não se submete a determinados trabalhos para continuar mamando nas tetas do governo.

Não sou contra programas sociais. Sou contra programas de dependência. Não sou contra quem precisa e recebe assistência social. Sou contra quem se encosta e não dá a volta por cima para mudar a história da própria vida. Sou contra o preconceito de quem diz que o indígena é vagabundo e preguiçoso. Sou contra o preconceito que transforma em vilã uma cultura como a sulista que se orgulha de fazer brotar das próprias mãos os frutos que irão alimentar muitas outras famílias nesta terra.


Não sou contra o bem, sou contra o mal. Não sou contra a verdade, deploro a instigação marxista que promove uma luta de classes e de raças em nosso país. Precisamos valorizar mais a diversidade nacional que faz do Brasil um país colorido. Aprender com a qualidade do outro é o que irá fazer deste um país melhor: aprender sobre liberdade com os povos indígenas e sobre a dignidade do trabalho com o sulista é uma faixa de esperança na nossa luta contra as mentiras usadas por muitas pessoas do mal para nos jogarem uns contra os outros.   

Liberte-se do seu preconceito contra o suposto preconceito do outro! Está na hora de você ranger menos os dentes para tudo o que lhe pareça diferente e ser mais tolerante consigo mesmo.

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