quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Qual o sinal de que Deus está no nosso meio? (ou “Uma palavra sobre o dom de línguas estranhas”)

Iconografia Bizantina: "Paulo, Marcos e Lucas não estavam presentes no dia do Pentecostes, mas aqui, o significado doutrinal sobrepõe-se ao histórico. Apóstolos e evangelistas têm uma missão: ensinar todos os povos".
Naquela manhã da Quinquagésima, estavam os doze reunidos, quando um ruído como de um violento vendaval veio sobre a casa. Algo como línguas de fogo repartia-se, pousando sobre cada um deles e, então, repletos do Espírito Santo, passaram a falar em outras línguas, línguas estranhas.

Inevitável é que a cena acima termine por nos remeter à Torre de Babel em Gn 11. A narrativa encontrada no primeiro livro da Bíblia diz que os homens insistiam em desobedecer às ordens expressas de Deus dadas ainda no Jardim do Éden. Deus havia dito ao homem e à mulher que ambos deveriam encher a terra (Gn 1: 28), espalhar sobre o globo terrestre a glória divina impressa na imago dei com a qual os seres humanos haviam sido criados. Todavia, a rebeldia do pecado já se manifesta em Caim, filho assassino de Adão e Eva, herdeiro imediato do pecado original, que seguiu fugindo da presença do Senhor e fugindo do mandato dado aos seus pais, constrói uma cidade para seu filho Enoque (Gn 4:17).

A cidade é símbolo da rebeldia, porque não fomos criados para a acomodação, para o ajuntamento, para o “aqui e agora”, vivendo em cidades muradas, virando nossas costas ao mundo lá fora. Embora, por causa de nossa natureza depravada pelo pecado, a nossa vontade seja sempre a mesma do apóstolo Pedro de “acampar” diante da manifestação da glória da transfiguração (Mt 17:4)., ao contrário, mesmo ainda que impactados diante do Belo pela experiência saudável da contemplação, não devemos permanecer desconectados do mundo, pois aquele que se depara com a Verdade é instado a retornar e testemunhar ao outro aquilo que viu. Moisés permanecia dias e dias no alto do Monte Sinai, mas, ao fim de um tempo, retornava para explicar a mensagem de Deus ao povo. É preciso que desçamos do alto, é preciso que saiamos sempre em direção ao outro para compartilhar o que vimos e ouvimos do amor de Deus e por amor ao próximo.

A cidade e a torre construídas em rebelião a Deus, mesmo após a humanidade ter sofrido a Ira do Dilúvio, mostra a natureza de Caim em nós, o pecado herdado do qual não podemos fugir. A natureza perversa de cada um de nós é uma fuga para longe de Deus, para longe daquilo que é a vontade de Deus para nós. Daí Deus ter confundido a linguagem em Babel. Cada qual falando uma língua estranha, aqueles trabalhadores viram seus planos ruírem, sendo forçosamente espalhados pela terra pelo próprio Deus (GN 11: 8).

Será a língua de Deus uma língua estranha a nós? Será a nossa língua uma linguagem estranha a Deus e ao nosso próximo? O fato é que, a despeito da mensagem de Deus pregada em língua nacional a cada peregrino estrangeiro que estava ali em Jerusalém, houve um grupo de judeus que acusou os apóstolos de estarem bêbados!  Este grupo de judeus obviamente não compreendeu nenhuma das línguas estrangeiras faladas pelos doze, mas as doze nações, que ali representavam o mundo inteiro, listadas no sentido do oriente ao ocidente e tendo a Judeia no centro, compreenderam a mensagem de Deus em suas próprias línguas!

Cabe ressaltar que há mais do que se possa pensar na acusação aos apóstolos por parte dos judeus ali presentes. Aqueles judeus sabiam que eles eram discípulos do nazareno crucificado fora das muralhas da cidade não houvera passado sequer dois meses completos. Eles se lembravam das muitas parábolas contadas por Jesus contra a liderança religiosa judaica. Estava recente na mente daqueles que, segundo denunciara o próprio Jesus, o Reino de Deus passaria dos judeus para os gentios, que, até então e de um modo geral, eram rejeitados como impuros pela religião farisaica (Mt 22:1-14). Somado às humilhações públicas sofridas pela liderança religiosa judaica por causa dessas histórias narradas por Jesus, houve, naquela manhã de Pentecostes em Jerusalém, mais um testemunho contra eles: o testemunho dos profetas (Dt 28:49 e Jr 5:15).

Por diversas vezes, os Profetas haviam decretado as línguas estranhas como sinal da Ira de Deus contra Israel. Israel, o Reino de Norte e o Reino do Sul, cada qual fora levado cativo, escravizado por nações de línguas incompreensíveis ao judeu. O Reino do Norte escravizado pela Assíria e o Reino do Sul pelos babilônicos em tempo derradeiro, tempo de juízo de Deus contra esses reinos, juízo revelado pelo surgimento de um povo de língua estranha às portas de suas cidades! Assim como ocorrera em Babel, as línguas estranhas sempre eram apresentadas como sinal da Ira de Deus: a linguagem incompreensível do próximo separa, divide, opõe e impede quaisquer alianças, do mesmo modo que a incompreensibilidade do homem à Palavra de Deus o impede de participar da nova e eterna Aliança de Cristo Jesus.

Quando aqueles judeus ouviram os discípulos do nazareno falando em línguas estranhas (ετεραις γλωσσαις), logo se encheram de ira, porque eles sabiam que as línguas estranhas eram sinal da reprovação de Deus contra eles, sinal de Deus contra a incredulidade de quem blasfema contra o Espírito Santo, resistindo ao amor de Deus! Contudo, veja a manifestação da graça de Deus, pois, logo após o evento das línguas estranhas aos judeus, é em língua inteligível que Pedro prega a esses mesmos judeus de Jerusalém para que eles também pudessem compreender a salvação em Cristo Jesus, vindo, agora sim, mais de 3 mil pessoas a converter tendo eles ouvido o discurso de Pedro em sua própria língua materna (At 2: 37-41)! 

Ao lermos a primeira carta de Paulo àquela complicada igreja na cidade de Corinto, igreja na qual, em profusão, havia a manifestação de línguas estranhas, Paulo, sabiamente, conclui toda essa conversa relembrando o que a presença de línguas estranhas significa:
Portanto, o dom de falar em línguas estranhas é um sinal de Deus para os descrentes e não para os cristãos. Mas o dom de anunciar a mensagem de Deus é um sinal para os cristãos e não para os descrentes. Imaginem que a igreja esteja reunida e todos comecem a falar em línguas estranhas. Se chegarem ali algumas pessoas simples ou descrentes, será que não vão dizer que vocês estão loucos? Mas, se todos estiverem anunciando mensagens de Deus, e entrar ali um descrente ou alguém que seja simples, ele vai ouvir o que vocês estão dizendo e se convencer do seu pecado. E ele será julgado pelo que ouvir, os seus pensamentos secretos serão revelados, e ele vai se ajoelhar e adorar a Deus, dizendo: “Deus está mesmo no meio de vocês! (I Cor 14: 22ss; NTLH)”.

Segundo Paulo, à luz das Sagradas Escrituras, o dom de línguas estranhas é sinal aos incrédulos, aos descrentes, aos rebeldes. As línguas estranhas condenam e encerram o indivíduo longe das maravilhas da Palavra de Deus. Se, por outro lado, ele tiver acesso, ouvir, entender, aprender e apreender a Mensagem de Deus pregada numa linguagem compreensível, sua própria língua, língua materna, isso será resultado do esforço missionário da Igreja cumprindo as ordens dadas pelo Dono da Igreja (Mt 28: 19-20). Ao contrário dos rebeldes em Babel, precisamos sempre sair, sempre pregar, sempre explicar e tornar acessível a Mensagem de Deus aos outros, porque, se continuarmos a falar em “uma língua estranha”, pensarão que somos loucos e sairão de perto de nós sem o conhecimento do amor de Deus, mas, esforçando-nos em apresentar o Evangelho numa linguagem que o outro compreenda (seja na língua dele, seja de acordo com sua faixa etária ou, ainda, segundo o grau de escolaridade dele), então poderemos ter a graça de vê-lo ajoelhar-se no chão de nossas igrejas, adorando a Deus e reconhecendo que Ele está no nosso meio.

A manifestação de línguas estranhas, segundo Paulo, não é a prova de que Deus está agindo numa igreja local, mas, antes, o sinal de que Deus está presente na Igreja é o fato de pregarmos a Mensagem de Deus com clareza e fidelidade, esforçando-nos para que o Evangelho seja compreensível, pois sabemos que “a fé vem pela pregação e a pregação é pela palavra de Cristo” (Rm 10:17; Bíblia de Jerusalém)! 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A encantadora sabedoria da minha mãe e a vasta biblioteca de meu pai...

Meus pais!
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando se com vê la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,
dizendo: —Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.
Camões


Cresci ouvindo minha mãe recitar esses versos dentro de nossa casa. Ela sempre se postava imponente, levantava levemente seu rosto e, então, começava sua interpretação. Nem sequer imaginava, naquela infância, que o soneto tantas vezes declamado por ela era sobre uma linda história bíblica de amor. Aqui comigo, fico a pensar quais histórias os pais andam contando aos seus filhos e quais versos recitam para eles hoje em dia!...


Minha mãe também gostava de repetir para nós as conjugações do latim que aprendera na escola. Sei, infelizmente, que da minha parte já não poderei presentear minhas filhas recitando conjugações de um latim que só vim a estudar tardiamente.


Outra característica marcante daquele tempo é que minha casa era uma "casa de apostas". Reuníamo-nos, a família toda ao redor da mesa, e as apostas começavam. "Mãe, o que quer dizer...?" Aí, ela respondia: "Isto significa isso"! Então, minhas irmãs respondiam: "Mãe, acho que a senhora está errada"... Pronto! Era o suficiente para ela desafiar: "Quer apostar? Olha, não aposta comigo não, que vocês vão perder". Elas apostavam e corríamos aos dicionários da Biblioteca e... Pá! Minha mãe ganhava!


Minha mãe sempre nos impressionava com seu vasto vocabulário de inglês: "Aurélia! A mulher dicionário!", dizia ela de si mesma toda vez que perguntávamos o significado de alguma palavra, fosse em inglês, fosse em português. Mas aquela infância ficou há muito num tempo reservado apenas às lembranças de nossas conversas saudosas, quando ainda hoje conseguimos nos reunir uma vez mais...


Meu pai foi professor também. Que privilégio esse de crescer numa casa em que havia biblioteca. Li a Barsa e a Delta Larousse na minha infância. Acho que vem daí sempre ter sido um apaixonado por história e geografia, matérias que meu pai ensinava. Entretanto, preciosa mesmo era a coleção de literatura dos premiados pelo Nobel que havia naquela biblioteca: pude ler Sidarta, de Hermann Hess; li, nesta mesma coleção, Thomas Mann, Rudyard Kipling, Anatole France, Yeats, Bernard Shaw, Eugene O'Neill e tantos outros ainda antes dos 14 anos de idade: era a vasta biblioteca do meu pai! Nela, pude ler a deliciosa coleção "Mundo da criança"; a Coleção "Histórias e Lendas", que trazia uma seleção de narrativas folclóricas de cada região do Brasil... Sei do valor de uma biblioteca, esforço-me para montar uma para minhas filhas.


A Biblioteca do meu pai se foi, mas os seus livros, coleções e enciclopédias ficaram registrados em mim. Ainda antes daquela preciosa biblioteca se perder, ela me deu um último presente. Foi quando eu estava vivendo o período crítico que antecedeu à conversão e, convidado para visitar uma igreja, saindo às pressas de casa, encontrei naquela biblioteca uma Bíblia que nunca antes havia visto. Uma Bíblia de capa preta e, ao mostrá-la para minha mãe, ela disse que havia sido um presente que meu pai recebera quando vivo. Surpreso pelo achado inusitado, abri e apareceram diante dos meus olhos os seguintes versos marcados ali à caneta:


"Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus. Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, E aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação. Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens" (I Cor 1: 18-25).


Ao terminar de ler, levantei os olhos daqueles versos maravilhosos. Ali, eles me atingiram de um modo indelével e fiquei como que encantado. Assim, pude perceber, mais uma vez, que a partir daquela vasta biblioteca, algo novo, inefavelmente novo, eu estava prestes a aprender...

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

As línguas indígenas na formação da língua nacional – uma história ainda por se contar (ou “Suiá-Missu, não podemos esquecer”)

As forças militares contra famílias de brasileiros trabalhadores
A história da formação da Língua Portuguesa dá um “romance”! Surpreendo-me com o paupérrimo ou nenhum conhecimento dessa aventura de proporções continentais e pluricultural por parte significativa do alunado brasileiro. E isto, indubitavelmente, é um contrassenso ao alegado “espírito moderno multiculturalista inclusivista” de nosso tempo. Talvez porque a Língua Portuguesa e sua história seja um testemunho vivo de milênios de civilizações e “passado” seja algo pouco interessante aos historiadores revolucionários de nossas escolas. 

A moda em provas de concurso e vestibulares é que o aluno “domine os temas atuais” e, certamente, essa mentalidade escolar de ruptura com tudo aquilo que forneça uma identidade maior e mais vasta ao povo brasileiro do que a defesa intransigente e muitas vezes burra de culturas mínimas por extensão e influência seja uma das doenças da chamada Nova Escola.

Aliás, com a amputação do passado (“passado” não é um tema atual na mente dos nossos “Che” da Educação), dentre tantas riquezas, levaram embora também o Latim do Currículo Nacional. Com isso, perdemos a riqueza de uma história carregada por essa língua. Soubéssemos Latim, conheceríamos que as palavras (assim como as coisas) podem mudar de significado no correr da história como, por exemplo, a palavra “burra” que usei no parágrafo anterior. “Burra” vem de burrus, que significa avermelhado e não tinha nada a ver com o animal, que era chamado de asinus! Contudo, vai entender mais esse contrassenso da mente dos atuais revolucionários da Educação, que, aparentemente, tanto pregam sobre liberdade: quer coisa mais LIVRE do que o Latim? Veja só que maravilha de LIBERDADE poder expressar “A menina tem uma rosa” de cinco maneiras diferentes e todas estarem corretas:

Puella habet rosam.
Puella rosam habet.
Rosam habet puella.
Rosam puella habet.
Habet puella rosam.
Habet rosam puella... Pensando bem, talvez tenha sido exatamente por causa de toda essa liberdade sintática que tenham resolvido extirpar essa Língua de nossas salas de aula. Imaginem o que uma gramática dessa não faz à índole de um aluno no correr de uns poucos anos?

Crescemos na Escola aprendendo sobre as influências dos povos africanos e dos povos indígenas em nosso vocabulário (lembra daquelas listas de palavras que nossos professores passavam?) , contudo a ideia que fica ao aluno é de uma espécie de reunião em algum gabinete no qual foram anotadas certas palavras e que, dali em diante, elas seriam anexadas ao dicionário brasileiro. Evidentemente, não foi assim que o idioma assimilou vocábulos. No Brasil, houve escravos negros de línguas e culturas diferentes entre si e houve, também, italianos, alemães, poloneses, japoneses, etc. Sem contar a influência de outros povos na formação da Língua antes de Cabral aportar por aqui: gregos, árabes, celtas, fenícios, ibéricos e orientais. 

Quanto aos povos indígenas, haveria no Brasil do Descobrimento pelo menos 5 milhões de nativos espalhados por quase 1500 povos diferentes entre si! Não poderíamos jamais reduzir estes números às listas de palavras “exóticas” que falamos. A preservação das línguas indígenas ainda existentes (são pelo menos 180) é um fator importantíssimo, caso queiramos reconstruir a própria história pré-colombiana do Brasil e das Américas e valorizar a grande saga da História Humana, deixando esse legado às futuras gerações. A preservação, a anotação, a manutenção, pesquisa e o incentivo ao estudo das línguas indígenas no Brasil é uma luta justa, mas, infelizmente, como quase tudo no Brasil, a palavra “justa” também está aprisionada à guerra ideológica. A justa causa da pesquisa indígena no Brasil está nas mãos, predominantemente, de “pesquisadores militantes” que perdem muito mais tempo engajando os povos minoritários contra “a dominação branca e exigindo o pagamento de uma dívida histórica” do que escolarizando, profissionalizando e formando indígenas para que eles sejam os próprios analistas, pesquisadores e mantenedores autônomos de suas línguas.

A luta pelas chamadas “culturas minoritárias” segue uma direção totalmente equivocada. Especialmente no caso indígena, há mesmo uma intenção de fomentar conflitos étnicos entre esses grupos contra o “brasileiro” (como se os povos indígenas não fossem brasileiros!). A preocupação com as identidades minoritárias não é “antropológica”, não é “sociológica” e nem “linguística”, pelo contrário, o não-indígena tem usado a verba pública para manipular muitas das lideranças indígenas, fazendo um trabalho de proselitismo ideológico, para a defesa de uma agenda que, no fim das contendas, garantirá mais e mais repasses financeiros aos seus “projetos pessoais de pesquisa”, sejam estes acadêmicos, políticos ou religiosos (um exemplo aqui). É assim, sempre foi e ainda será por muito e muito tempo. Prova disso foi o conflito na Suiá-Missu, que acompanhei bem de perto, na região do Mato Grosso, em que foram despejadas de lá 7 mil pessoas (sim, idosos, mulheres e crianças também) e, hoje, os indígenas que receberam aquelas terras estão completamente abandonados pela FUNAI. Quem acompanhou o caso aqui pelo blog sabe que os indígenas da região queriam outra faixa de terra (esta, sim, com vestígios de presença indígena anterior) e não aquela que foi dada a eles, contudo, outras lideranças foram manipuladas para insistirem com o que a FUNAI havia estabelecido e, no fim, deu no que deu: descaso, ostracismo e mais uma “terra sem lei” cravada em pleno interior do Brasil. 

Leia mais sobre o que está acontecendo hoje nas terras do Suiá-Missu, consequência nefasta da política arbitrária e ideológica da FUNAI: aqui, aqui, aqui e aqui.

Este artigo deveria ser sobre a “maravilhosa história da formação da Língua Portuguesa”, mas, deploravelmente, um estudo que poderia render muito mais à história da nossa identidade está sendo refém de uma mídia manipulada, de um academicismo ideológico e de uma agenda governamental muito mais interessada em ver o “caldo entornar” do que em encontrar soluções pacíficas, gerando melhoria de qualidade de vida real aos povos indígenas do Brasil ao mesmo tempo que promove o crescimento da produção da agricultura nacional.    

Relembre o caso Suiá-Missu:

LASTIMÁVEL DESCASO NO NORDESTE DO MATO GROSSO: Moradores fecham rodovia e o clima é tenso na região


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Eros e Psique - Fernando Pessoa sempre

  
Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
 

Fernando Pessoa

Novamente, Fernando Pessoa. Os versos, sua mitologia, seus símbolos. Quantas leituras!

Quem é a Princesa? Quem é o Infante? Psique fora encantada e só acordará aos desejos da carne se for despertada – como a noiva em cantares de Salomão – pelo infante Eros. Psique é a personagem que sublima, a alma, o espírito, o céu, a religião etérea, o divino, a figura da castidade com todas as suas implicações. Eros, o infante - infantil e guerreiro! Ele é a sexualidade que precisa ser realizada, que urge como pulsão da carne, do desejo, o inferno, a religião vulgar, o terreno, o natural, o imperfeito, o humano.

Psique está trancada em seu castelo, mas há um caminho... o caminho errado que deve levar nosso herói até ela. Errado pelas dificuldades, obstáculos, terribilidades. Mas Eros precisa se libertar? Ele também está preso? A Princesa  presa no castelo e ele no emaranhado dos discursos sobre o Bem e o Mal? Ele precisa se libertar desse maniqueísmo funesto que o separa de sua amada. O mundo não é a luta eterna de duas forças iguais e, muito menos, manter-se-á o equilíbrio das coisas acreditando-se nisso. Não! Nem ele é o inferno, nem ela é o céu!

A Princesa, como que morta, enfeitada em seu esquife, aguarda por aquele que pode trazer vida à morte que a domina. Ela anseia, ela deseja, ela espera. Mas as imagens agora parecem se inverter, pois ela, a vida, está morta e ele, a morte, luta contra o equilíbrio das coisas para dar a vida que ela tanto necessita. E ele, o infante, lutará e virá, ainda que sem saber qual o propósito de tudo isso, apenas porque as coisas devem ser assim... Ele não é razão. Ele é pulsão. É preciso enfrentar o caminho errado. Por quê? Ele não sabe: ele não é razão. Ele segue esforçado. Quem é ele? Ela não sabe. Quem é ela? Ele não conhece.


Todavia, ainda que ignorantes acerca do verdadeiro conhecimento sobre si mesmos, há um Destino, um propósito que os guia e faz existir a estrada. Alguém quer este encontro entre o Infante e a Princesa, entre Eros e Psique. Tudo está sendo cumprido: este encontro, a busca da unidade!

A nossa ignorância do que somos e do que há na estrada não é usada como desculpa para a fatalidade ou desistência. Ele segue até ela, ainda que não possa nem mesmo confiar na estrada, porque também não a compreende na sua totalidade.

A luta do Infante – a passagem da infância para a vida adulta – o despertar do amor erótico na tez fria da razão que nega que ela mesma era o príncipe que a descobre! 

Finalmente, revela-se a todos (personagens e leitores) que a luta era pela unidade dos cacos dispersados pela excessiva queda – o fim da dicotomia, o fim desse dualismo (leia o"
A Queda em Fernando Pessoa")!

Enfim, a negação da existência de um conflito cósmico entre o reino da Luz (Psique) e o das sombras (Eros), porque somos uma unidade: Eros e Psique são uma só natureza - caída, depravada, estilhaçada, carentes da glória de Deus - esta natureza  humana de cada um de nós. 

Leia também:

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