segunda-feira, 31 de março de 2014

Love is a Losing Game...



O amor é um jogo de azar

Para você eu fui um caso
O amor é um jogo de azar
Cinco andares se incendiaram quando você veio
O amor é um jogo de azar
Como eu queria nunca ter jogado
Oh, que estrago que nós fizemos
E agora o lance final...
O amor é um jogo de azar

Desgastado pela banda
O amor é uma aposta perdida
Mais do que eu poderia aguentar
O amor é uma aposta perdida
Declarado... intenso
Até o encanto se quebrar
Notar que você é um jogador
O amor é uma aposta perdida

Apesar de estar bastante cega
O amor é um resignado destino
Lembranças frustram minha mente
O amor é um resignado destino
Acima de inúteis expectativas
E ridicularizado pelos deuses
E agora o lance final
O amor é um jogo de azar


Será o amor então um jogo de azar? O “jogo”, esta palavra que marca insistentemente toda essa música de Amy Winehouse, expressa o velho modelo do amor como um campo de batalha. Uma disputa em que ele e ela se veem como adversários e, armados de suas estratégias e mentiras, precisam se impôr ao outro como o melhor jogador.


Será o amor então um jogo de azar? Um jogo entre duas pessoas que se desejam, mas que não se entregam, antes, elas marcam suas áreas de ação, lançam seus dados, fazem suas apostas e aguardam o resultado. Distâncias que se queriam próximas, entretanto há um jogo que não se pode perder, há uma diferença que não pode ser transposta...

Por mais estabelecida que esteja a premissa errada do amor como um jogo, a trama se complica ainda mais no fato de ambos aceitarem que o amor seja um jogo de azar, um lance de sorte. Ambos aceitam o fato infeliz de estarem esperando o resultado dos dados que foram lançados sobre a mesa. E seguirão assim até o lance final!

O que há de comum nestas velhas histórias de amor? A certeza tardia de que, em algum momento, houve a chance de decidir-se não jogar. Aquele mesmo momento que foi dado a Caim de não sucumbir ao turbilhão das emoções: “Cabe a ti dominar-se”, ouviu Caim. Estamos falando agora da paixão como aquele fogo que vem e incendeia os 5 andares do prédio. A paixão tem muitas acepções, mas trato aqui da acepção grega, ligada à história da palavra, que nos coloca a todos numa condição passiva. Assim, a paixão será sempre aquela que nos atropela, que está à espreita de nós, escondida atrás da porta, e pronta para desestruturar todas as nossas convenções...


A confusão entre amor e paixão está no cerne da decepção na música. Porque é do amor a característica da racionalidade, da perseverança, do planejamento, mas é da paixão o impulso, a pulsão, o instinto, o momento. Daí ela se arrepender de ter entrado nesse jogo, de ter cometido esse estrago ao lado dele e, tarde demais, só agora perceber que, para ele, ela sempre foi apenas um caso, uma chama, uma brincadeira. O arrependimento é, enfim, de quem cedeu à paixão em braços alheios, sabendo que houve um momento em que poderia ter decidido não continuar. A belíssima voz de Amy embala toda essa frustração de perceber tarde demais que, ao final de tudo, ela fora apenas um jogo para ele - este é o momento da quebra do encanto.

E qual o destino final disso tudo? A resignação. Aqui, há uma triste ironia na letra da música, porque resignação é o contrário da paixão. Se paixão é fúria, resignação é exatamente renunciar ao desatino do destino. Todavia a resignação não vem mais por decisão (esta já fora desperdiçada quando ainda poderia ter sido tomada), a resignação vem pela constatação de que tudo não passou de inúteis expectativas. Dizer que o amor é um resignado destino é compreender que toda aquela paixão foi uma aposta perdida - e ela confessa isso agora, apesar de estar bastante cega. E toda aquela sensação de onipotência e de que "tudo no universo conspirava em favor dos amantes", percepções ilusórias que nos são dadas pela paixão, “os deuses”, enfim, riem-se de todas essas tolices.

Mas há como evitar tudo isso? Há como se proteger do turbilhão que se anuncia ainda antes que você se abandone sobre a mesa de apostas desse cassino dos desejos irrefreáveis? Sim, do contrário Deus não teria dito a Caim sobre sua responsabilidade moral:  é a vitória de José diante da mulher de Potifar; é a vitória de Daniel diante das iguarias da Babilônia. Mas o que mais demonstra a nossa oportunidade como seres morais é o tempo. O tempo é o precioso presente que Deus nos dá para tomarmos consciência de todas as coisas antes que seja tarde demais e decidirmos, assim, se daremos ou não o passo seguinte.

A paixão é um sentimento natural tanto para homens como para mulheres. Mas cabe a cada um de nós controlá-la e canalizá-la para retirar dela toda a possibilidade de uma experiência positiva, construtiva, criativa, artística e bela.  E enfim direcioná-la, toda a nossa paixão, a quem prometemos amar até que a morte nos separe. Pense nisso!

terça-feira, 18 de março de 2014

What the world needs now is love...

O que o mundo precisa é de amor, mas de todo o amor que Deus já ofertou em Seu Filho Jesus... O que eu e você precisamos é do amor de Deus, o doce amor de Deus, que é Cristo Jesus. A música abaixo é lindíssima e de uma melodia simples e cativante, mas a letra é uma oração que necessita de uma resposta: o Amor, o doce amor de Deus, é um Verbo e Deus já O entregou a nós!
O Que o Mundo Precisa Agora É de Amor

O que o mundo precisa agora é de amor, doce amor
É a única coisa da que tem pouco
O que o mundo precisa agora é de amor, doce amor
Não, não apenas para alguns, mas para todos
Senhor, nós não precisamos de outras montanhas
Há montanhas e ladeiras bastante para escalar
Há oceanos e rios bastante para cruzar
O suficiente para durar até o fim dos tempos
O que o mundo precisa agora é de amor, doce amor
É a única coisa da que tem pouco
O que o mundo precisa agora é de amor, doce amor
Não, não só para alguns, mas para todo o mundo
Senhor, nós não precisamos de mais campos
Há campos de milho e campos de trigo bastante para crescer
Há raios de sol e luz da lua suficiente para brilhar
Oh, escuta Senhor, se você quer saber
O que o mundo precisa agora é de amor, doce amor
É a única coisa da que tem pouco
O que o mundo precisa agora é de amor, doce amor
Não, não só para alguns, mas para todo o mundo
Não, não só para alguns
Oh, mas muito para poucos
Mas para todo o mundo

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque todo aquele que faz o mal aborrece a luz e não vem para a luz para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus (João 3: 16-21).

quarta-feira, 12 de março de 2014

Escravo da alegria

 

Composição: Mutinho e Toquinho

E eu que andava nessa escuridão
De repente foi me acontecer
Me roubou o sono e a solidão
Me mostrou o que eu temia ver
Sem pedir licença nem perdão
Veio louca pra me enlouquecer

Vou dormir querendo despertar
Pra depois de novo conviver
Com essa luz que veio me habitar
Com esse fogo que me faz arder
Me dá medo e vem me encorajar
Fatalmente me fará sofrer

Ando escravo da alegria
E hoje em dia, minha gente, isso não é normal
Se o amor é fantasia
Eu me encontro ultimamente em pleno carnaval


Ah! Esse violão!... O que dizer? Como não ser convulsionado por essa paixão que atropela, que se manifesta inesperada e poderosa e avança sobre mim, que, catártico, deixo-me na platéia do teatro dessa vida...

Logo eu, que nada sei sobre música, mas sei que há alguma coisa aí nesse dedilhar, nessa melodia, no solo magoado desse violão. O que será? E eu, que nada sei sobre técnicas musicais, partituras ou composições, sou apenas um apreciador intuitivo, passivo...

Você sabia que as palavras "paixão" e "passivo" possuem a mesma raiz grega? E um dos significados é exatamente o de permanecer imóvel, sofrer pacientemente a ação de algo que não se consegue definir, que não se pode compreender. Esta "passividade" faz parte da experiência religiosa de muitas tradições místicas, cristãs e não cristãs. É também a mesma paixão que subjaz a catarse da tragédia grega, que, evidentemente, é uma experiência religiosa, espiritual, existencial! Tanto o personagem da tragédia quanto o espectador da peça de teatro viam-se involuntariamente passivos, impotentes, incapazes para a autodeterminação diante disso tudo que fatalmente os fará sofrer!

Sempre me surpreendeu a linguagem religiosa dessa letra do Mutinho, mas ele não é um caso isolado, muitos compositores fazem um jogo religioso-profano para expressar o amor entre um homem e uma mulher. A letra acima é um bom exemplo de como a música popular brasileira foi profundamente influenciada por uma linguagem que bem poderia ser aplicada à experiência religiosa num momento de paixão, de passividade, que é perplexidade, que é essa abdicação forçada da vontade livre e racional: o apoderamento divino sobre nossas vidas!   

É muito interessante lembrar que uma das diferenças fundamentais do profetismo pagão e do profetismo judaico-cristão é que naquele o profeta entrava nessa confusão, nesse  êxtase, enquanto neste "os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas". Esta diferença, por quê? Porque Deus não é de confusão, e sim de paz (I Cor 14: 32-33a).  

A busca pelo Outro - essa saudade da qual já nos falava Santo Agostinho - pode, sim, levar-nos a caminhos de solidão, quando, equivocadamente, insistimos em depositar nossas esperanças num simples ser humano, numa criatura semelhante a nós, sujeita aos mesmos sentimentos. Esse anseio pelo divino - esta semente da religião plantada no homem - é uma semente delicada, que facilmente se vê aviltada por nossa natureza caída.

"Escravo da Alegria" é uma música capaz de captar essa experiência religiosa da busca pelo Outro, enquanto uma procura desfocada, perdida, idólatra. Porque, dentro de nós, essa procura pode corromper-se, depravar-se e, como mostra a música, essa busca termina nos versos finais de um carpe diem, ressaltado ainda mais pela fatalidade apregoada pelos compositores na consciência de fantasia, de ilusão, que é a vida - tese acentuada também, e principalmente, na parceria de Toquinho com Vinícius em tantas outras músicas.

Há pinceladas nesse violão que traduzem muito bem uma dor, uma frustração machucada de que tudo isso - essa alegria - não passa de vento, vaidade. Uma alegria que é escapismo das mazelas da vida ("hoje em dia, minha gente, isso não é normal"). 

Lindíssimo, mas triste. Para esse carnaval cantado por eles, impõe-se a certeza trágica de uma inescapável quarta-feira de cinzas!

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