quarta-feira, 30 de julho de 2014

Confissões de um ex-grande imbecil (ou "As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários" de JP Coutinho)

O conservadorismo, portanto, deve começar por respeitar a natureza dos homens. E isso significa observar a vontade destes em participar num sistema em que são as escolhas naturais e livres dos indivíduos, e não a imposição autoritária de um padrão único de preferências ou comportamentos, que devem ser soberanas - JP Coutinho.


Já votei no PT! Confesso... Mas, indubitavelmente, já fiz coisa muito pior do que isso: já votei mais de uma vez no PT! E não é só isso: levantei bandeirinhas, vesti camisas, fui às ruas, chorei. Idiota que era, caí diversas vezes no discurso messiânico petista, porque, antes de tudo, acreditava que o PT era a encarnação do Evangelho social. Daí, nada mais justo, nada mais lógico do que votar, lutar e militar pela legenda. Houvera, muito antes, sido embriagado pela Teologia da Libertação nos arraias do Seminário Católico progressista, que frequentara na minha adolescência. 

Parece, porém, que há algum adágio que alerta para o fato de que nada é tão ruim que não possa ficar ainda pior. E ficou! Certa manhã de algum dia qualquer do ano de 2007, vi aberta, escancarada a mandíbula do totalitarismo petista. O animal, que eu acariciava e que permitia dormir dentro da minha própria casa, voltou-se contra mim e a crise abateu-se, virando tudo de cabeça para baixo. Qual a saída? A via lógica seria migrarmos para o PSOL de Heloísa Helena... Eu não disse que o que era ruim podia ficar ainda pior? A crise instalada faria apenas que nos arrastássemos ainda mais à esquerda no espectro político. Até que, surpreendentemente, aconteceu uma avalanche de pequenas coincidências que mudaram drasticamente a minha vida. Chamo esse momento de “minha segunda conversão”!

Protestante, Presbiteriano, Petista – tudo isso misturado ao caldo empático das palavras do Rev. Caio Fábio, que se encontrava mergulhado até o pescoço como o “Pastor das esquerdas” no Brasil. Até que ele se afogou nas águas tenebrosas do escândalo das Ilhas Cayman. Somado a este escândalo veio o caso do adultério e, então, tudo desabou para o presbiterianismo light brasiliense, uma Igreja que também se envolvera até o pescoço com o esquerdismo tendo, até mesmo, o seu Presidente, em programa eleitoral de TV, apoiado o candidato da esquerda ao Governo do DF. Estávamos todos mergulhados e comprometidos com aquilo que hoje é um projeto de poder monomaníaco muito mais extenso do que a maioria gostaria de aceitar e que já vem, por exemplo, reconstruindo o STF há mais de 20 anos (que é um período de tempo muito maior do que o que você pensava). 

Até que, como disse, tudo mudou repentinamente. Parece que o ano de 2007 já vinha pegando fogo com o início da campanha “Brasil sem homofobia” e a divulgação da PL 122. Foi o ano também em que o Presidente Lula tratou de enfiar na cabeça o boné gay dado pelos militantes da causa LGBT. O Rev. Roberto Brasileiro, presidente da IPB, manifestou a posição oficial da Igreja contra a lei da homofobia e contra o aborto, ambos defendidos pelo PT. Todavia, foi pela corrupção do mensalão que nos afastávamos do PT rumo ao PSOL. Naquele momento, a internet teve seu papel fundamental, porque já começara a receber os artigos do Julio Severo. Em 2007, li o fundamental “Verdade Absoluta” da Nancy Pearcey, que, pela primeira vez, colocava-me diante do espelho, fazendo-me ver a incoerência entre o que eu pregava e as teorias do esquerdismo que eu vivia. De Julio Severo até Olavo de Carvalho foi um caminho natural. E o castelo das minhas insossas conveniências acabaram por se desmanchar no ar com a leitura do “Imbecil Coletivo”. Sim, encerrei o ano de 2007 constando (antes tarde do que nunca) que eu era um grande imbecil! 

De 2007 para cá, foram muitas leituras, livros, artigos. Um novo círculo de amigos cercou-me e uma nova bibliografia foi sendo construída, a saber: todos os livros de Olavo de Carvalho, dando atenção especial ao “Imbecil coletivo I e II”, “O jardim das aflições” e “Maquiavel, ou a confusão demoníaca"; “O Trivium” da Irmã Miriam Joseph; “Ameaça pagã” e “O Deus do sexo”, ambos de Peter Jones; “A Era de T.S. Eliot” de Russel Kirk; “O mundo em desordem” de Demétrio Magnoli e Elaine Barbosa; “Reflexões Autobiográficas” de Eric Voeglin; “A origem da linguagem” de Eugen Rosenstock-Huessy, “Maquiavel Pedagogo ou o Ministério da Reforma Psicológica” de Pascal Bernardin e muitos outros livros e autores sem os quais não você jamais dará conta sozinho de emergir do mar de lama e mentiras que se instalou em nossa cultura. 

Mesmo vendo meu cristianismo finalmente ser liberto da gaiola cultural em que fora trancafiado, logo percebi que havia excessos e certas contradições entre aqueles que se denominavam (quando assim ousam se denominar) de “DIREITA”. Percebia que determinadas posturas eram inconformáveis com minha cosmovisão cristã, agora muito mais crítica e desperta do que quando vivia dopado e drogado por aquela época de petismo. Muito mais fácil foi perceber que entre os meus novos amigos havia os que eram “revolucionários de direita” e que possuíam uma mentalidade revolucionária tão doentia quanto aqueles que antes se expressavam como de “esquerda”. A diferença era apenas de direção, mas tanto esquerdistas como os “revolucionários de direita”eram utópicos e fariam de tudo para alcançar o paraíso na terra. 

E para esclarecer melhor a diferença existente na direita entre revolucionários, conservadores e reacionários (e antes mesmo que você queira emitir qualquer opinião infundada sobre este assunto), JP Coutinho escreveu o maravilhoso “As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários”. Entre tantas benesses, este pequenino (mas vasto) livro ajudará a que você saia deste simplista e velho maniqueísmo: direita e esquerda. Além disso, rompendo os preconceitos e caricaturas existentes, apresentará o Conservadorismo não só naquilo que ele realmente é, mas, principalmente, no que ele não é. O Conservadorismo não é fascismo. O Conservadorismo não é imobilismo. O Conservadorismo não pode ser confundido com a mentalidade revolucionária de determinados segmentos da própria direita e, muito menos, com qualquer aspecto de grupos reacionários. No fim das contas, há revolucionários em toda gama do espectro político desde a esquerda até a direita e é contra essa mentalidade revolucionária, que visa lançar ao chão toda e qualquer tradição e instituição para a instauração ou de um futuro utópico ou de um passado utópico, que o pensamento conservador levanta-se, ou melhor, reage. 

A tese do livro é apresentar o Conservadorismo em seu melhor viés, o Conservadorismo inglês de Edmund Burke, que se coloca como uma reação à Revolução Francesa. JP Coutinho mostrará que o conservadorismo de Edmund Burke é antirrevolucionário e não utópico. O Conservadorismo não impede que mudanças ocorram, mas mede se os danos seriam maiores que os ganhos para a sociedade. O Conservadorismo moderno, que difere das mentalidades revolucionária e reacionária, será apresentado como uma ideologia de emergência, acionada sempre que “os fundamentos da sociedade são ameaçados”. JP Coutinho é jornalista e cientista político, professor da Universidade Católica Portuguesa. Colunista da Folha de São Paulo e coautor do livro “Por que virei à direita”. Boa leitura!     
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domingo, 27 de julho de 2014

A FILOSOFIA ANTI-CONVENCIONAL DE OLAVO DE CARVALHO (Carlos A. Gomes)

Existem centenas senão milhares de definições de filosofia. Todas quase tão numerosas quanto foram os pensadores ao longo dos séculos, pois cada filósofo tende a definir a filosofia à sua imagem e semelhança. No seu monumental ‘Diccio­nario de Filosofia’, o filósofo espanhol José Ferrater Mora (1912-1991), citando Josef Pieper, observava que, “enquanto perguntar ‘Que é a física?’ não é formular uma pergunta pertencente à ciência física, mas uma pergunta prévia; perguntar ‘Que é a filosofia?’ é formular uma pergunta filosófica — uma pergunta eminentemente filosófica”. Dessa forma, conclui Ferrater Mora, “cada sistema filosófico pode valer como uma resposta à pergunta acerca do que é a filosofia e também acerca do que a actividade filosófica representa para a vida humana”.
Todavia, como sustenta o filósofo italiano Nicola Abbagnano (1901-1990), também autor de um ‘Dicionário de Filosofia’, a despeito da disparidade de significações de “filosofia”, é possível reconhecer nelas algumas constantes, entre as quais, segundo ele, “a que mais se presta a relacionar e articular os diferentes significados desse termo é a definição contida no ‘Eutidemo’ de Platão: filosofia é o uso do saber em proveito do homem”.
Ao contrário dos filósofos académicos, que se limitam a ‘fazer leitura’ e ‘trabalhar conceitos’, geralmente de um só autor, Olavo de Carvalho volta a sua atenção para problemas reais e tenta solucioná-los à luz de uma inegável erudição filosófica, sem medo de ser acusado de ecletismo. Natural de Campinas, onde nasceu em 1947, é autor de uma vasta obra filosófica, que inclui ‘O Jardim das Aflições’, talvez sua obra-prima, publicado já em forma de livro e não como colectânea de artigos dispersos. É ainda autor, entre outras obras, da ‘Coleção História Essencial da Filosofia’, publicada pela Editora É Realizações em 32 volumes, acompanhados de DVD com palestras do autor de cerca de 120 minutos, cada uma. Mas, para o bem ou para o mal, Olavo de Carvalho é mais conhecido a partir dos seus polêmicos artigos de combate, reunidos primeiramente no livro ‘O Imbecil Coletivo’, que deu fama ao autor quando publicado em 1996, seguido de um segundo volume.
Escrevendo com um estilo ligeiro, sarcástico e incomodativo, ironiza os adversários e ri de si mesmo, Olavo de Carvalho ficou conhecido como um polemista imbatível na década de 90. Houve um momento em que escrevia regularmente nos jornais ‘O Globo’, ‘Zero Hora’ e ‘Jornal da Tarde’, colaborava com a ‘Fo­lha de S. Paulo’ e publicava nas revistas ‘Bravo’ e ‘Primeira Lei­tu­ra’. Actualmente reside nos Es­ta­dos Unidos e colabora com alguns periódicos brasileiros.
Considerado por muitos o maior representante da intelectualidade neo-conservadora brasileira, Olavo de Carvalho afirma que o capitalismo foi criado por religiosos   protestantes baseados na ideia da prática coletiva de valores cristãos no  comércio. Afirma também que o  marxismo não é uma teoria original pois muitas das ideias já teriam sido antecipadas por outros pensadores de épocas anteriores e que o mesmo não surgiu de nenhum estudo econômico científico e que a maior parte da obra de  Karl Marx incluindo os conceitos tradicionais de luta de classes, revolução proletariado e meios de produção, já teriam sido formuladas projectivamente por doutrinas protestantes e reformistas.
Olavo critica fortemente o chamado movimento globalista, ou globalizante que na sua visão não visa a simples defesa de abertura de mercados, mas sim a “introdução de regulamentações em escala mundial que transferem a soberania das nações para organismos internacionais”, procurando o estabelecimento de uma Nova Ordem Mundial. Tal ordem estaria associada à uma “uniformização econômica do planeta”, e traria “como objectivo as sementes de uma neo-religião híbrida, semi ecológica, semi ocultista (…) e cuja implantação resulta pura e simplesmente na destruição completa do cristianismo e judaísmo e outras tradicionais. Os principais agentes do globalismo seriam as fundações multi e trans-internacionais como a Ford, Rockefeller e também George Soros , o Clube Bildeberg, etc. Segundo Olavo, esses chamados agentes globalistas financiam a esquerda política latino-americana, visando obter um instrumento para enfraquecer a resistência americana, facilitando a implantação do governo mundial que a ONU já declarou ser seu objetivo prioritário para as próximas décadas.
Na sua opinião essa elite globalista nada tem a ver com o capitalismo liberal antes promove veículos de destruição da ordem convencional das sociedades. Olavo aponta que essas elites formam quadros de elite para influenciar as coisas desde cima, em vez de organizar movimentos de massa. O seu momento de glória teria surgido com a administração keynesiana de Roosevelt que, a pretexto de salvar o capitalismo, estrangulou a liberdade de mercado e criou uma burocracia estatal infestada de burocratas. Com essa linha de raciocínio, afirma que a Guerra Fria “foi, em grande parte, puro fingimento: a elite Ocidental concorria com o comunismo sem nada fazer para destruí-lo. Ao contrário, ajudava-o substancialmente. (…) A concorrência entre “capitalismo” e “socialismo” foi um véu ideológico para uso das multidões, mas a luta entre Oriente e Ocidente é para valer”.
Nesse sentido Olavo encontra como elementos actuantes para essa Nova Ordem Global, três grandes “projetos de dominação global“: além do movimento acima mencionado (globalização ‘ocidental’), estariam em ação os “globalistas islâmicos” que visariam a unificação de Estados muçulmanos num “grande projeto universal do Califado, como também um bloco “russo-chinês” cuja classe dominante seria oriunda da Nomenklatura comunista tradicional, e composta “essencialmente de burocratas, agentes dos serviços secretos e oficiais militares”, classe essa que, uma vez que teria admitido “a derrota do comunismo, (…) reagiu e criou do nada uma nova estratégia independente, o eurasianismo, mais hostil a todo o Ocidente do que o comunismo jamais foi”.
Deste modo, Olavo de Carvalho, independentemente das simpatias ou desconforto que possa causar, afirma-se como um filósofo ‘diferente’, anti-convencional, bastante crítico do status quo institucional e político, levando a filosofia para lá dos horizontes tradicionais, ‘de laboratório’, para se aventurar nas teorias da conspiração próprias de um pensamento marginal e anti-sistema. Pode-se dizer que Olavo de Carvalho é um ‘filósofo’ na verdadeira acepção do termo. Honra lhe seja feita!

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Por quais razões NÃO defendo Israel!




    
    Confusão nasce do preconceito de julgar o outro pelas ideias e características de um grupo ao qual você supõe que esse outro pertença. Alguém deu a nós um manual, um roteiro, um mapa pelo qual devemos seguir e chegar a algum lugar, mas o manual, o roteiro, o mapa estão profundamente equivocados, porque o mundo não é um brinquedo ou um jogo fácil de montar, como se tudo se resolvesse num simples “siga as instruções”! É bem verdade que para uma maioria há um contentamento, um acomodamento, uma satisfação no simplismo de resumir o mundo a uma moeda de apenas dois lados: um sujo e o outro limpo; um branco e o outro negro; um rico e o outro pobre; o patrão e o empregado; o explorador e o explorado; o bem e o mal; o mocinho e o bandido. Precisamos emergir deste mar de ingenuidade que insiste em nos afogar a todos.


Há muita confusão e preconceito (e até mesmo delírio) na defesa das ideias sobre temas delicados e polêmicos como, por exemplo, o da causa de Israel. Confusão e preconceito não em relação aos judeus ou palestinos, mas às razões do outro, do debatedor, daquele que apresenta, ou tenta apresentar, as razões pelas quais defende esta ou aquela posição. E por vivermos em uma sociedade acostumada ao pensamento coletivista e entranhada numa cultura que molda o pensar, o raciocinar, o "inteligir" em direção ao grupo, com o grupo, de acordo com o grupo, as pessoas tendem a começar quaisquer debates encaixotando o interlocutor e definindo-o segundo algum grupo “de pensamento”, ao qual se creia que este deva pertencer. Nada mais tolo e nada mais propício de nos afastar totalmente de uma discussão racional do que esse estratagema de colocarmos o outro dentro de algum saco ideológico. Seria como se insistíssemos em apresentar Camões como um poeta classicista mesmo que nos deparemos com um poema como o “O amor é fogo que arde sem se ver...”. Fica evidente que entendermos o mundo por um manual que nos foi dado pela Escola, pela Mídia ou por um grupo apenas levará nossa avaliação ao fracasso e à perplexidade infantil de quem não mediu bem as consequências de seus atos, mas que agora já é tarde demais para voltar atrás. 


Feita a introdução, pergunto: por quais razões NÃO defendo Israel? Há pelo menos três importantes respostas que encontramos nos debates sobre Israel e Palestina e das quais quero me desvencilhar.  E, quem sabe, mostrar a você que há mais razões para fundamentar o apoio à paz entre israelitas e palestinos do que a nossa vã filosofia de manual pretende nos convencer. É o que apresento a seguir.


     Por qual razão NÃO defendo Israel? Não o defendo usando o argumento do Holocausto. Embora compreenda o valor desse argumento que pretende saldar uma dívida histórica com Israel, pois é do conhecimento de todo o mundo a tragédia de mais de seis milhões de judeus mortos durante a Segunda Guerra Mundial. Muito mais do que uma tragédia foi um crime e, como tal, deve ser julgado. É preciso que seja dada a punição aos que cometeram tal atrocidade, além de se precaver de que isso não ocorra novamente. Todavia, perceba bem, não acredito que o crime dos pais deva ser punido nos filhos. Não creio que a dívida histórica seja mais do que um argumento apelativo, mas profundamente injusto ao repassar a terceiros uma conta da qual esta geração não é responsável. Portanto não posso usar o Holocausto para defender a causa de Israel, assim como não defendo as cotas raciais, que são justificadas pelo mesmo argumento falacioso da dívida histórica.    


Por qual razão NÃO defendo Israel? Não o defendo usando do argumento do antissemitismo. Concordo com a filósofa judia Hannah Arendt de que o antissemitismo alegado pela causa sionista é uma criação moderna que, por atender aos apelos do povo judaico, foi cooptado por este. Mas é uma causa moderna, como ela explica no ótimo “A origem do totalitarismo”, e que encarna a crença do povo judaico de que eles são o “bode expiatório” do mundo. Uma crença que os próprios judeus têm de si mesmos e que os levou não apenas a viver segundo esta crença como também a reinterpretar a sua história segundo a ótica do vitimismo. Hanna Arendt percebe que essa “vocação eterna” que os judeus atribuem a si mesmos está na raiz dos males perpetrados  contra o próprio povo durante a Segunda Guerra Mundial. Hannah viu a passividade de milhares que caminharam sem reagir às estações de trem para dentro dos vagões como se cada um crê-se nessa espécie de predestinação do povo ao próprio sacrifício. Não é à toa que a filósofa que desnudou a alma de cordeiro do seu próprio povo passou a ser tão odiada por diversos grupos judaicos, principalmente após a publicação dos artigos que depois deram origem ao livro “Eichmann em Jerusalém”. 


Por qual razão NÃO defendo Israel? Não o defendo pelos argumentos do Holocausto e do alegado antissemitismo, mas há ainda um terceiro argumento que aparece nos debates sobre a causa de Israel. O terceiro argumento é de natureza religiosa e domina o pensamento da maioria da direita religiosa americana (e no Brasil muitos religiosos também seguem este argumento): Israel é o povo escolhido por Deus! Por mais anacrônico que pareça esse talvez seja o argumento mais popular nos debates dentro da Igreja cristã. Ele se baseia em que Deus não revoga sua eleição e nem seus dons. Assim, mesmo com o advento da Igreja, Israel ainda é o alvo de bênçãos especiais de Deus por causa da Aliança. Os fatos de que Israel, milagrosamente, ainda esteja de pé e de que grandes gênios da humanidade (mesmo que para o mal) são judeus são apresentados como prova de que essa “eleição” não caducou. Todavia, seguir esse caminho é optar por uma interpretação hermenêutica da Bíblia da qual eu não coaduno. Não fui convencido da validade dessa eleição ou promessas, porque compreendo que Jesus é o Israelita perfeito e que nEle se cumpriu todas as promessas que Deus fez ao povo de Israel, promessas que traziam em si mesmas exigências que o próprio povo de Israel jamais pode cumprir satisfatoriamente. Jesus, o judeu, o israelita, não apenas foi o Filho perfeito, o que jamais seríamos, como também foi o israelita perfeito que nunca eles conseguiram ser. Jesus inaugura a Igreja, que é o Israel Espiritual, cumprindo por nós e recebendo em si todos os direitos e deveres da Aliança de Deus. Evidentemente, a Teologia bíblica do Pacto se desenvolve muito além do que apenas as três linhas nas quais tentei aqui sintetizá-la para o leitor, então, a quem se interesse debruçar sobre o assunto, indico esta ótima introdução: “Cristo dos Pactos”, de O. Palmer Robertson.


 Por qual razão NÃO defendo Israel? Embora respeite e compreenda, não tomo para mim os argumentos da dívida histórica, do antissemitismo e das bênçãos que ainda poderiam existir sobre o atual Israel. O que me leva ao “quase último argumento” em debates acalorados sobre a causa israelita e palestina: o argumento da democracia. Porém o argumento da democracia deve ser visto com extremo cuidado, porque, afinal, o que é democracia? Quando vemos e estudamos sobre a democracia a fundo, descobrimos que ela pode ser tão falha ao ponto de dar todas as condições necessárias ao advento legítimo (porque seria pelo voto popular) de um tirano ao poder. Quando vemos que a democracia no Brasil, por exemplo, tem sido usada como instrumento para a perpetuação de um projeto de poder de um grupo, passa a ser muito compreensivo que comecemos a duvidar da própria democracia, que se vê incapaz de proteger-se a si mesma. Porque já é chegada a hora de compreendermos que a democracia não tem sido (e não é) 'a vontade do povo', mas a vontade dos políticos. E, dito isto, não é de surpreender que regimes e partidos totalitários exibam a palavra democracia em seus governos. É o caso non sense do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que diz lutar por uma Palestina democrática! Ora, a democracia em si é um argumento frágil para apoiarmos quaisquer causas que se nos apresentem diante de nós. Mas é porque a própria democracia talvez seja uma farsa ou, pelo menos, um instrumento que pode ser facilmente usado por governos farsescos, mas isso é um assunto longo para outro artigo, cabe aqui apenas fazer a ressalva de que a democracia e a liberdade não são sinônimas e que mesmo o casamento entre ambas pode ser um dos maiores engodos desde a Revolução Francesa.

 Descartados o Holocausto, o antissemitismo, o “Israel de Deus” e a própria democracia, haveria, então, alguma razão para que eu pudesse defender Israel? Há muitas sim! Mas é apenas com uma dessas que gostaria de encerrar este texto: a razão pela qual defendo Israel é exatamente por aquele valor inalienável e inato de todo e qualquer ser humano, seja judeu ou palestino, valor que a democracia tem se mostrado incapaz de defender: a liberdade! Embora creia que a liberdade não seja um valor absoluto, mas, indubitavelmente, é inato ao ser humano. E Estado algum tem o direito de solapar a liberdade do seu cidadão, porque a liberdade não é um direito oferecido pelo Estado, mas nascido com o ser humano. E a Constituição deveria ser, e digo isso sobre o Brasil também, a carta que limita a ação do Estado sobre a liberdade do indivíduo (e jamais o contrário). Daí, enquanto houver palestinos fugindo para Israel ou para quaisquer outros países nos quais haja a liberdade que eles não encontram no lugar em que vivem, disponho-me em favor destes palestinos e em favor de Israel. Assim como fugiam alemães do lado oriental para o ocidental antes da queda do Muro de Berlim, assim como ainda hoje fogem cubanos para a América (ou para o Brasil, mas que são deportados pelo governo do PT), assim como coreanos do norte fogem para a Coreia do Sul, ironicamente, podemos constatar que não há palestinos refugiando-se em países islâmicos, assim como não há judeus fugindo da opressão do Governo de Israel. Por tudo isto é que cada um de nós, os que amamos a liberdade, precisamos convidar nosso próximo a repensar as razões por que ele não defende Israel.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Os jogadores de xadrez - Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

    Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
    Tinha não sei qual guerra,
    Quando a invasão ardia na Cidade
    E as mulheres gritavam,
    Dois jogadores de xadrez jogavam
    O seu jogo contínuo.

    À sombra de ampla árvore fitavam
    O tabuleiro antigo,
    E, ao lado de cada um, esperando os seus
    Momentos mais folgados,
    Quando havia movido a pedra, e agora
    Esperava o adversário.
    Um púcaro com vinho refrescava
    Sobriamente a sua sede.

    Ardiam casas, saqueadas eram
    As arcas e as paredes,
    Violadas, as mulheres eram postas
    Contra os muros caídos,
    Traspassadas de lanças, as crianças
    Eram sangue nas ruas...
    Mas onde estavam, perto da cidade,
    E longe do seu ruído,
    Os jogadores de xadrez jogavam
    O jogo de xadrez.

    Inda que nas mensagens do ermo vento
    Lhes viessem os gritos,
    E, ao refletir, soubessem desde a alma
    Que por certo as mulheres
    E as tenras filhas violadas eram
    Nessa distância próxima,
    Inda que, no momento que o pensavam,
    Uma sombra ligeira
    Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
    Breve seus olhos calmos
    Volviam sua atenta confiança
    Ao tabuleiro velho.

    Quando o rei de marfim está em perigo,
    Que importa a carne e o osso
    Das irmãs e das mães e das crianças?
    Quando a torre não cobre
    A retirada da rainha branca,
    O saque pouco importa.
    E quando a mão confiada leva o xeque
    Ao rei do adversário,
    Pouco pesa na alma que lá longe
    Estejam morrendo filhos.

    Mesmo que, de repente, sobre o muro
    Surja a sanhuda face
    Dum guerreiro invasor, e breve deva
    Em sangue ali cair
    O jogador solene de xadrez,
    O momento antes desse
    (É ainda dado ao cálculo dum lance
    Pra a efeito horas depois)
    É ainda entregue ao jogo predileto
    Dos grandes indif'rentes.

    Caiam cidades, sofram povos, cesse
    A liberdade e a vida.
    Os haveres tranqüilos e avitos
    Ardem e que se arranquem,
    Mas quando a guerra os jogos interrompa,
    Esteja o rei sem xeque,
    E o de marfim peão mais avançado
    Pronto a comprar a torre.

    Meus irmãos em amarmos Epicuro
    E o entendermos mais
    De acordo com nós-próprios que com ele,
    Aprendamos na história
    Dos calmos jogadores de xadrez
    Como passar a vida.

    Tudo o que é sério pouco nos importe,
    O grave pouco pese,
    O natural impulso dos instintos
    Que ceda ao inútil gozo
    (Sob a sombra tranqüila do arvoredo)
    De jogar um bom jogo.

    O que levamos desta vida inútil
    Tanto vale se é
    A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
    Como se fosse apenas
    A memória de um jogo bem jogado
    E uma partida ganha
    A um jogador melhor.

    A glória pesa como um fardo rico,
    A fama como a febre,
    O amor cansa, porque é a sério e busca,
    A ciência nunca encontra,
    E a vida passa e dói porque o conhece...
    O jogo do xadrez
    Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
    Pesa, pois não é nada.

    Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
    Com um púcaro de vinho
    Ao lado, e atentos só à inútil faina
    Do jogo do xadrez
    Mesmo que o jogo seja apenas sonho
    E não haja parceiro,
    Imitemos os persas desta história,
    E, enquanto lá fora,
    Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
    Chamam por nós, deixemos
    Que em vão nos chamem, cada um de nós
    Sob as sombras amigas
    Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
    A sua indiferença.

    Ricardo Reis, 1-6-1916
    Ouça o poema:

Matemágica?!


Por causa do meu trabalho, venho estudando matemática para ajudar melhor aos meus alunos estrangeiros. Tenho lido muitos livros da área, mas quero indicar um, em especial, do qual parte deste post se baseia, nutrindo algumas informações históricas: "O romance das equações algébricas". E como não sei estudar sem escrever, pois aprendo melhor quando escrevo, então segue o post de hoje com as minhas devidas elucubrações e pesquisas.

No princípio, houve a equação: 3y – 9 = 3 e, como que num passe de mágica, alguém disse que, se passássemos o -9 para o outro lado do sinal de igual (lembram?), o sinal mudaria de -9 para 9 (3y = 3 + 9, o que daria como resposta: y = 12/3, logo y = 4)!

Até que, um dia, alguém perguntou: “Por quê”? Quem havia criado essa regra (e tantas outras da "matemágica") que se impunham sobre mim e exigiam a minha total subserviência. Quem decidira que, uma vez passado para o lado de lá, ocorreria uma mudança tão radical de sinal?

Por trás das equações algébricas como a apresentada, há uma história fascinante de fanatismo, conquistas, perdas e resgates. Pela terceira vez, a Biblioteca de Alexandria espalhava suas cinzas por sobre o céu e o negrume daquele momento parecia anunciar os terríveis agouros que sucumbiriam a humanidade no terrível e atrasado mundo muçulmano. O califa Omar, no ano de 641 d.C., fazia arder novamente a resistente cidade de Alexandria. Omar compreendia que os papiros ali ocultados ou repetiam as palavras do Corão ou eram contrários a ele, assim, sendo um ou outro, a biblioteca se fazia desnecessária ao novo Império Muçulmano que se estendia da fronteira da Espanha com a França, no Ocidente, e à Índia no Oriente.

Contudo, muito antes de Omar, a Biblioteca já sofrera nas mãos de Júlio César e, depois, com o Bispo cristão Teófilo e seus seguidores fanáticos. Júlio César ateara fogo em seus próprios navios na ânsia de impedir uma fuga e o fogo acabou atingindo a Biblioteca. Por seu lado, Teófilo a incendiou por compreender que ali se instalara o ensino do paganismo perverso.

Muitas outras vezes, antes e depois do Cristianismo, contam alguns historiadores modernos, a Biblioteca (que era mais de uma com seus prédios espalhados na cidade) foi sendo destruída aos poucos. Mas, para além da sua importância histórica e cultural, faço dela um símbolo da verdade que quero apresentar como tema principal deste meu texto.

Veja o que ocorreu com o Bispo Teófilo e a multidão de fanáticos que avançaram contra a Biblioteca em 391 d.C.. Embora detentora de grande sabedoria e conhecimento, tudo o que foi produzido e guardado na Biblioteca nunca foi transferido ao mundo em volta dela. O conhecimento da Biblioteca era para uma elite reduzidíssima e, certamente, essa foi uma das principais razões de sua derrocada: a multidão que a destruiu deveria tê-la protegido, se antes a tivessem ensinado sobre o real valor da sabedoria ali desenvolvida. Porém, aquela sabedoria toda nunca fora usada em benefício do povo, nunca melhorou as suas condições de trabalho e, muito menos, jamais questionou e derrubou o sistema de escravidão que regia a sociedade da época. A ignorância é o alimento que mais engorda o fanatismo, mas foi a histórica alienação dos seus cientistas, filósofos e estudiosos que, inegavelmente, consumiu a Biblioteca.

Agora, mais uma vez, a Biblioteca incendiava nas mãos de Omar. Entretanto, inesperadamente, o rumo da história veria algo fascinante: os árabes muçulmanos seriam conquistados pelo helenismo e passariam a investir na cultura da Biblioteca e ela renasceria mais uma vez. E os califas (sucessores de Maomé), fascinados com esse desenvolvimento das ciências em seu próprio Império, sonharam, então, em suplantar Alexandria e, finalmente, o califa Al-Mansur ergue, às margens do rio Tigre, a cidade de Bagdá, esperando torná-la uma nova Alexandria. A riqueza de Bagdá, sua arte, cultura, ciências e apogeu inspiraram os famosos contos das 1001 e uma noites, que tentaram retratar a cultura de Bagdá naquele período de ouro para os muçulmanos.

Enfim, os califas trouxeram, traduzidas para o árabe, muitas obras que estariam perdidas na antiga Alexandria. E, aqui, começa a se fechar a nossa história: muitos sábios se dirigiram para Bagdá e, entre eles, um homem chamado Abu-Abdullah Muhamed ibn-Musa al-Khwarizmi e que foi o primeiro matemático que, de maneira simples, explicou as tais equações algébricas. A palavra Álgebra vem exatamente do seu nome al-Khwarizmi, que deu origem à palavra algarismo.

Ao contrário dos sábios pagãos de Alexandria, que fizeram da Biblioteca uma ilha cercada de injustiças econômicas, políticas e religiosas sem nunca questionarem nada dessa situação a sua volta, al-Khwarizmi esforçava-se para se fazer entender e distribuir o conhecimento do qual dispunha a todos quanto quisessem. Para tanto, além de escrever um livro sobre equações matemáticas, introduziu o sistema hindu de numeração decimal, utilizado hoje em todo mundo.

Mas qual a verdade por trás daquela simples equação algébrica apresentada no início deste post? A verdade é exatamente o que estou tentando dizer aqui para você: não há mágica. A Biblioteca de Alexandria se tornou símbolo dessa magia, desse ensino oculto, do cientificismo e filosofia herméticos, das escolas esotéricas. Demorei muito para abandonar o sistema de ensino “alexandrino” e compreender o sistema exotérico proposto pelos califas de Damasco e Bagdá, que traduziram para o árabe, entre outras obras, as noções comuns de Euclides. E é por causa de Euclides que podemos compreender a verdade por trás da equação aqui tratada.

Veja, a regra de Euclides é simples e irá revelar o que de fato acontece na nossa equação algébrica: se iguais forem somados a iguais, os resultados serão iguais e, do mesmo modo, se iguais forem subtraídos por iguais, os resultados serão iguais. Assim, retorno à equação: 3y – 9 = 3, torna-se 3y = 3 + 9 não por um passe de mágica que professores alexandrinos insistem em nos ensinar na Escola, mas, porque: 3y – 9 + 9 = 3 + 9. Logo, se eu estou dizendo que um lado é igual ao outro na equação, então, segundo Euclides, se eu somar (ou diminuir) iguais, o resultado confirmará a minha equação. Portanto, não é o -9 que muda de sinal e vira +9. Na verdade, o número não vai para o lado de lá do sinal de igual e nem troca o seu próprio sinal. O que se faz, mas quase ninguém ensina (pelo menos nunca haviam me demonstrado isso), é que, na verdade, estão sendo somados valores iguais tanto de um lado como de outro da equação. Simples, não?

Imagine que quase que eu não poderia escrever este texto hoje, se nas inúmeras vezes em que a Biblioteca fora queimada tivessem alcançado êxito. Muito menos poderia escrever isto, se os muçulmanos não tivessem resgatado as obras de Alexandria, traduzido-as para o árabe e as ensinado ao mundo Ocidental. Esta é a verdade por trás da álgebra... Graças a Deus!
 
FONTE:

Matemágica?!

domingo, 6 de julho de 2014

BOCAGE NO FUTEBOL (Nelson Rodrigues)

Manchete Esportiva, 14/1/1956

Quando eu tinha meus cinco, meus seis anos, morava, ao lado de minha casa, um garoto que era tido e havido como o anticristo da rua. Sua idade regulava com a minha. E justiça se lhe faça: — não havia palavrão que ele não praticasse. Eu, na minha candura pânica, vivia cercado de conselhos, por todos os lados: — “Não brinca com Fulano, que ele diz nome feio!”. E o Fulano assumia, aos meus olhos, as proporções feéricas de um Drácula, de um Nero de fita de cinema. Mas o tempo passou. E acabei descobrindo que, afinal de contas, o anjo de boca suja estava com a razão. Sim, amigos: — cada nome feio que a vida extrai de nós é um estímulo vital irresistível. Porexemplo: — os nautas camonianos. Sem uma sólida, potente e jucunda pornografia, um Vasco da Gama, um Colombo, um Pedro Álvares Cabral não teriam sido almirantes nem de barca da Cantareira. O que os virilizava era o bom, o cálido, o inefável palavrão.

Mas, se nas relações humanas em geral, o nome feio produz esse impacto criador e libertário, que dizer do futebol? Eis a verdade: — retire-se a pornografia do futebol e nenhum jogo será possível, Como jogar ou como torcer se não podemos xingar ninguém? O craque ou o torcedor é um Bocage. Não o Bocage fidedigno, que nunca existiu. Para mim, o verdadeiro Bocage é o falso, isto é, o Bocage de anedota. Pois bem: — está para nascer um jogador ou um torcedor que não seja bocagiano. O craque brasileiro não sabe ganhar partidas sem o incentivo constante dos rijos e imortais palavrões da língua. Nós, de longe, vemos os 22 homens correndo em campo, matando-se, agonizando, rilhando os dentes. Parecem dopados e realmente o estão: — o chamado nome feio é o seu excitante eficaz, o seu afrodisíaco insuperável.

Exagero? Nem tanto, nem tanto. A propósito, vou citar aqui o caso de Jaguaré.* No seu tempo, os clubes não tinham Departamento Médico e um jogador podia andar com a boca em petição de miséria, desfraldando cáries gigantescas. Assim era Jaguaré: — não tinha dentes, só cáries. E seu riso sem obturações, docemente alvar, era largo, permanente e terrível. E acontece o seguinte: — a época de Jaguaré coincidiu com a infância do profissionalismo. Morria-se de fome no futebol. O sujeito que tinha para a média, para o pão com manteiga, podia se considerar um Rockefeller, de tanga, mas Rockefeller.

Até que, um dia, apareceu por aqui o emissário de um clube estrangeiro. E o homem esfregou na cara de Jaguaré propostas dignas de um rajá. A princípio, o nosso patrício opôs uma recusa inexpugnável. Não queria aceitar nem por um decreto. Acabou cedendo. Andou pela Espanha e até por Paris. Mas era outro, como homem e como craque. Como jogar sem a pornografia lusobrasileira? Sem as expressões obscenas que dinamizam, que transfiguram, que iluminam os jogadores? Traduzi-las seria uma
traição. E Jaguaré vivia sob a persistente, a dilacerada nostalgia dos nomes feios intransportáveis. Finalmente, não pôde mais: — voltou correndo para o Brasil. Aqui, agonizou e morreu na mais horrenda miséria. Mas feliz, porque pôde soltar, no idioma próprio, seus últimos palavrões terrenos.

[Manchete Esportiva, 14/1/1956]
* Jaguaté foi um folclórico goleiro do Vasco no começo dos anos 30.

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