terça-feira, 26 de agosto de 2014

Entorpecimento grupal (Charles Swindoll)

Diga-me: onde é que você estava na manhã de 16 de março de 1968? Ah, tampouco eu me lembro! Entretanto, há um grupo de homens que não conseguem esquecer. Ainda que jamais se reúnam outra vez, nunca mais se esquecerão daquela manhã.

Esses camaradas tinham uma tarefa dura... receberam uma daquelas missões tipo "descubra-e-destrua", uma célula de combate pertencente à Brigada Operacional Barker, incumbida de invadir um pequeno grupo de aldeias, conhecidas coletivamente como MyLai, na província de Quang Ngai, no Vietnã do Sul. Treinados e agrupados muito às pressas, a maioria desses homens era inexperiente em batalha. Durante um mês inteiro, anteriormente a MyLai, não haviam tido sucesso algum nas campanhas militares. Embora não houvessem conseguido que o Vietcongue se engajasse numa guerra verdadeira, as tropas americanas vinham sofrendo, todavia, algumas baixas desmoralizantes, por causa de algumas minas terrestres e armadilhas tolas, mas traiçoeiras. Acrescente-se a isso uma alimentação deficiente, grandes enxames de insetos, calor opressivo, chuva e umidade tropicais, mais a falta de sono, e você terá um quadro da origem da loucura. A confusão quanto à identidade do inimigo tampouco ajudou em alguma coisa. Vietnamitas e vietcongues tinham a mesma aparência. Visto que pouquíssimos usavam uniformes, distinguir os combatentes dos não-combatentes era mais do que difícil. Você acreditaria que isso seria, na verdade, impossível?

Olhando para trás, ao longo dos anos, a partir de 1968, com a calma objetividade que o tempo e a história proveem, não é exagerado afirmar que as instruções dadas tanto aos homens recém-recrutados, quanto aos oficiais subalternos, na noite anterior que precedeu o ataque, foram pelo menos incompletas e ambíguas. Supunha-se que a tropa toda estivesse familiarizada com a Convenção de Genebra, segundo a qual é crime hostilizar qualquer não-combatente (e, no que concerne à convenção, até mesmo o combatente) que largou suas armas devido a ferimentos ou doença. Provavelmente alguns soldados desconheciam, também, a "Lei da Guerra Terrestre", exarada no Manual de Campo do Exército dos Estados Unidos, segundo a qual quaisquer ordens que violam a Convenção de Genebra são ilegais e não devem ser obedecidas. Ponto final.

Quando a companhia "Charlie" esgueirou-se nervosamente pela região de MyLai, naquela manhã, não descobriu um único combatente sequer. Ninguém estava armado. Ninguém atirou nos americanos. Só havia ali mulheres, crianças e velhos desarmados.

O que ocorreu, em seguida, não ficou devidamente esclarecido. Ninguém consegue reproduzir a ordem exata dos acontecimentos; e ninguém nega, todavia, os resultados trágicos: Entre quinhentos e seiscentos vietnamitas foram mortos de várias maneiras. Em alguns casos, os soldados pararam à porta de uma cabana e a retalharam com fogo de armas automáticas e semi-automáticas, matando todos quantos estavam lá dentro. Outras pessoas foram alvejadas quando tentavam fugir, algumas das quais seguravam bebês nos braços. O morticínio de maior escala ocorreu na aldeia de MyLai 4, onde o primeiro pelotão da companhia "Charlie", sob o comando de um jovem tenente chamado William L. Calley, Jr., reuniu os habitantes como gado, em grupos de vinte, ou quarenta, ou mais, e liquidou-os a rifle, metralhadora ou granadas.

A matança levou bastante tempo, algo como toda a manhã. O número de soldados envolvidos só se consegue estimar. Talvez uns poucos, algo como cinquenta, de fato puxaram os gatilhos e pinos de granadas; mas é razoavelmente certo presumir-se que cerca de duzentos deles testemunharam de modo direto a matança. Poderíamos supor que, dentro de uma semana, pelo menos quinhentos soldados da Brigada Operacional Barker sabiam que alguns crimes de guerra haviam sido cometidos.
No fim, se você se lembra bem, consideraram-se acusações contra vinte e cinco soldados, dos quais só seis foram ao tribunal. Finalmente, apenas um deles foi condenado, o te­nente Calley... embora, se quiséssemos ser bem específicos, muitos outros também fossem culpados. Devo lembrá-lo de que deixar de comunicar um crime em si mesmo também é crime. Durante o ano que se seguiu, imagine quantos membros da Brigada Operacional Barker tentaram relatar a matança. Nenhum.

O povo norte-americano só soube dos acontecimentos de MyLai por causa de uma carta que Ron Ridenhour escreveu a diversos congressistas três meses após seu retorno à vida civil, no final de março de 1969... mais de um ano após o massacre.

Basta de 16 de março de 1968. Aconteceu e pronto. Acabou-se. Não alimento o desejo de eleger-me juiz e júri, e apontar um dedo acusador na direção de mais alguns soldados que tentam refugiar-se num fio de navalha. Esses homens não precisam de condenações suplementares (francamente, eu os admiro até mesmo por terem ido lá, para tentar cumprir suas obrigações); entretanto, todos nós podemos beneficiar-nos de uma avaliação breve.

Para mim, MyLai é uma ilustração clássica daquilo que determinado profissional denominou de "entorpecimento psíquico" que com frequência ocorre num grupo.... à semelhança de certa forma de anestesia emocional auto-induzida. Nas situações em que nossos sentimentos, nossas emoções são tremendamente dolorosos ou desagradáveis, o grupo auxilia na capacidade de anestesiar-se mutuamente, uns aos outros. A pessoa se sente bastante encorajada por estar no meio de outros que fazem a mesma coisa. Em vez de pensar com precisão, sobrepesando com exatidão o que é certo e o que é errado, a pessoa acha que é possível — e até mesmo fácil — jogar a responsabilidade moral em cima de alguém do grupo. Dessa maneira, não só o indivíduo abandona sua consciência, mas a consciência do grupo, como um todo, se torna tão fragmentada e diluída que é quase como se não existisse. O Dr. Scott Peck descreve o caso com muita vivacidade, em seu livro "People of the Lie" (Povo da Mentira): "A coisa é bem simples... o horrível se torna normal, e perdemos nosso senso do horror. Simplesmente o desligamos."

Isso explica porque a pressão grupal dos companheiros é tão poderosa, tão potencialmente perigosa. Torna-se a motivação mais importante por detrás das experiências que envolvem drogas, promiscuidade sexual, auto-entrega grupal a algum tipo de seita religiosa, ou procedimento financeiro ilegal. O sorriso amarelo, ou os gritos da maioria, conseguem intimidar a integridade. Se tal fato pode acontecer a soldados no sudeste da Ásia, pode acontecer também a pessoas como você e eu. Por isso, mantenha-se alerta! Quando surge a pressão que vem empurrando, procure pensar de maneira independente. Pense biblicamente. Faça o máximo possível para conduzir-se segundo sua cabeça, e não segundo suas emoções. Se você fracassar nesta decisão, vai perder sua bússola ética nalgum ponto entre seu desejo de ser amado e o de proceder corretamente.

"Não vos enganeis", adverte o apóstolo que, com frequência, via-se sozinho, "as más companhias corrompem os bons costumes" (1 Coríntios 15:33). O entorpecimento grupal apresenta a possibilidade de pairar quase indefinidamente num padrão de conduta destituído de consciência e comprometido com o mal.

Será que você duvida disso? Pense em Jonestown. Ou em Watergate. Ou nas experiências com LSD patrocinadas pela CIA. Ou no Holocausto. Ou na Inquisição. Ou no grupo que clamava: "Crucifica-o!"


Diga-me: será que existe algum grupo tentando entorpecê-lo?

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Soneto à índia branca do Xingu*


Índia da terra mágica do Morená,
A tua história trágica quero cantar.
Tua tez cor de beiju e de mel de pequi,
Fruta deste teu cheiro escondido em ti...

Branca Takitakinalo, índia doirada
Vestida de ulurí - peça de buriti -
De teu cocar despida, tu foste enterrada
Porque tocaste a flauta, irando Jacuí!

Narrativa contada em todo Alto-Xingu,
Desde os antigos, é temor e triste sina:
Este pífaro indígena - deles tabu.

Tua flor aberta ao sol, mito colorido:
- Que tu fujas comigo, amor de urucum,
  Antes que o teu colar de ti seja rompido! 

Autor: Wanderley Dantas

*Soneto inspirado em mitos indígenas

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Estilhaços do Belo (Sidney Silveira)

Professores Sérgio Pachá e Sidney Silveira
Na dimensão estética do homo liberalis, há uma fratura entre ser e conhecer, entre a inteligibilidade dos entes e a inteligência humana, entre o Belo ontológico e o Belo gnosiológico — pois, ao encerrar-se na pseudo-autonomia da sua consciência individual, a pretexto de ser “livre”, o liberal escravizou-se no reino da sensibilidade, onde a beleza não consegue ultrapassar, na medida e no nível em que humanamente poderia e deveria, a região dos sentidos: tanto dos sentidos externos, que captam a materialidade das coisas; como do sentido interno da imaginação, cuja capacidade de associar e dissociar imagens (e orientá-las à vis cogitativa da alma) sofreu um déficit fundamental, dado o patológico anseio de “autonomia”, de liberdade absoluta, em que o liberal está tristemente arrojado. Em suma, tal anseio exacerbado é causa próxima da imensa dificuldade que o liberal tem de hierarquizar ações e sensações e ordená-las a fins necessários extra mentis, dificuldade de vislumbrar nas coisas uma beleza além da de suas formas externas. Analogamente, é como um jogador de xadrez que, ao ver um tabuleiro com as peças em determinada posição, só enxergasse a beleza da disposição material delas, mas fosse cego à contemplação de sua beleza inteligível, ou seja: a da variante do jogo, com todas as implicações e possibilidades da posição.

Na prática, dado o seu radical despojamento do que é mais importante (na captação e conseqüente valoração dos entes, pelo homem), o liberalismo, no decorrer dos últimos duzentos anos, produziu, teorizou e disseminou pelo mundo:

Uma beleza sem dimensão teleológica.
Uma beleza sem verdade. Sem o horizonte orientador do verum.
Uma beleza sentida e/ou percebida, que não alcança plenamente a região do inteligível.
Uma beleza sem bem e, portanto, sem moral.
Uma beleza da mera justaposição dos materiais usados.
Uma beleza sem ética — sem dever-ser. Indutora da revolução dos costumes, de uma permanente e nunca assaz satisfeita quebra de códigos.
Uma beleza do simples artesanato.
Uma beleza sem sublime.
Uma beleza sem ‘noesis’ e, portanto, sem ordem, em sentido próprio.
Uma beleza da imanência e, portanto, incapaz de proporcionar verdadeiro êxtase.
Uma beleza da “autonomia” do Belo em relação às dimensões transcendentais do Ser.
Uma beleza sem a presença do sagrado, ou seja: sem a sombra de Deus.
Uma beleza sem os arquétipos da condição humana.
Uma beleza do devir em detrimento do ser.
Uma beleza do tipo l’art pour l’art.
Uma beleza da inversão dos meios e dos fins.

Emancipada do seu alcance metafísico, teológico, gnosiológico e ético, como acontece no liberalismo, a arte (e toda a presumível beleza que seja capaz de produzir) se esvai em jogos formais vazios. Não lhe restará senão ser mistificadora, totêmica, fantasiosa, espectral, formalista, voluntarista, imoralista, “conceitual”, etc. Em síntese, restam tão-somente estilhaços do Belo — cuja fragmentação teórica e prática é proporcional à fragmentação do homem que a teoria liberal, artificiosamente, criou: um ente cindido por potências entre as quais não existe uma hierarquia relativa aos bens que cada uma é capaz de atualizar, mas apenas a liberdade “absoluta” da vontade.

Nesta configuração, a arte se transforma em um tipo de ação humana totalmente desprovido e/ou alheio ao reino do supra-sensível. E, ainda que, em tal perspectiva, se consigam identificar certos aspectos isolados do Belo — como proporção e harmonia — jamais será uma beleza elevada, jamais edificante, jamais extasiante, jamais íntegra. Será, isto sim, uma beleza avessa à excelência espiritual a que o homem (dadas as suas potências distintivas) é vocacionado, individual e socialmente. E ai de quem apontar limites gnosiológicos ou morais para tal tipo de beleza...

Este, senhores, é o admirável mundo forjado pela cosmovisão liberal. Um mundo no qual a beleza (podada de suas reais dimensões, reduzida a uma casca superficial) torna-se, cada vez mais, um chamado ao abismo, à queda, ao erro, à mentira, às paixões mais loucas. Um mundo no qual a beleza torna-se um chamado a prazeres tão intensos quanto angustiosos e lancinantes, pois cauterizam em nós o que há de mais elevado: a imagem e a semelhança divinas. 

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