sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A falácia do “Ide” e suas consequências para a obra evangelística e missionária da Igreja


     Há tempos que temos ouvido pregadores nos púlpitos de nossas igrejas locais expondo que o “ide” da Grande Comissão em Mateus 28 não é um imperativo, mas, segundo o texto grego, um gerúndio. Então não há nada de novo em repetir esta ideia: a ênfase não está na ação do verbo ir, mas no seu sujeito. Todavia, a questão não é tão simples assim e a tradução equivocada de um verbo, palavra ou mesmo expressão na Bíblia pode surtir efeitos danosos à caminhada da Igreja. Em outras palavras, as falácias criadas em torno da cristalização do “ide” refletem-se tanto nos frutos imaturos como nos espinhos e abrolhos colhidos pelo povo de Deus nestas últimas décadas.

Quanto ao verbo “ide”, temos encontrado algumas traduções usando o gerúndio, mas, mesmo assim, ainda escapa o que está em jogo no uso do aoristo do verbo πορευθεντες (“ir”, “seguir”, “fazer uma jornada”, “caminhar”, etc). A dificuldade nossa em compreender e mesmo em traduzir o aoristo adequadamente decorre do fato de que o aoristo é inexistente nas línguas filhas do latim.  O tradutor da Bíblia deve compreender que o aoristo expressa um acontecimento de natureza pontual: o importante não é quando (ontem, hoje ou amanhã), mas se a ação verbal se deu e se tal ação deu-se de uma vez por todas. Além disso, não é apenas de aoristo que o verbo πορευθεντες vive, mas, ali no verso 19, ele está na “voz média” e isto também soma novas informações (e dificuldades) sobre ele. O que temos, então, sobre o verbo mais usado em Missões Mundiais? Primeiro, ele não está no modo imperativo; segundo, ele participa de um tempo verbal chamado aoristo de características muito inusitadas para nós falantes da língua portuguesa; e, terceiro, a voz, que é o que indica como o sujeito se relaciona com o verbo, é a voz média. A voz média na língua grega acentua o agente e não a ação. Se tudo isso não bastasse, a ênfase da perícope está no verbo “ensinar”, que é o próximo verbo da Grande Comissão: μαθητευσατε (“fazer discípulo”, “fazer aluno”, “fazer um pupilo”, “fazer ouvinte a alguém”). O problema é que esse tipo de desvio de ênfase trouxe (e tem trazido) consequências negativas para o trabalho missionário no contexto contemporâneo. Gostaria de apresentar aqui esse assunto que merece um destaque muito maior do que simples notas de rodapé ou curiosidades do grego para uma exposição bíblica em púlpitos de igrejas.

     Cabe relembrar que a Grande Comissão sustenta-se na autoridade recebida por Jesus mediante sua obra redentora e sua morte e ressurreição. Ele é a razão, o fundamento e o que detém os direitos inalienáveis sobre o espalhamento de sua história por todo o globo terrestre. Isto está explícito no uso do verbo “ir”, não no imperativo, mas na voz média. A voz média em grego designa também que não foram os discípulos que deram início à Grande Comissão, mas outro foi quem empreendeu a causa e nós, tão somente, fomos enxertados nessa obra já iniciada e sem tempo certo para findar. A voz média ainda chama a atenção para o fato de ser a Igreja e não outra entidade a cumprir a Grande Comissão. O sujeito do verbo são os discípulos e esta é a ênfase do verbo que se encontra na voz média!

       Esclarecido estes primeiros dois pontos: um, a autoridade e razão e fundamento da Grande Comissão está em Jesus e, dois, é a Igreja e ninguém mais o responsável pela Grande Comissão, precisa-se agora perceber que esta Grande Comissão não se realiza no verbo “ir”, mas no “ensinar” (fazer discípulos). O que se quer dizer com isso é que de nada importará aonde a igreja vá, se a prioridade não for cumprir sua missão de fazer discípulos. Do contrário, a Igreja incorrerá no erro de se ver como uma entidade que leva a si mesma, autogeradora de sua missão, cujo intento seria o de levar o seu próprio projeto de poder a todos os povos. Depreende-se disso que, não estando a ênfase no “ir”, mas no “ensinar”, cabe a igreja não esquecer qual o conteúdo da Grande Comissão, porque isso é muitíssimo mais importante que plantar igrejas mundo afora vazias e ocas das doutrinas do Evangelho. Sendo ainda mais específico, não há conteúdo em ações sociais e assistencialistas, até porque, como a própria exegese da Grande Comissão revela, entre os que “vão”, muitos fariam assistência social melhor do que a Igreja, todavia, atente, ninguém poderá realizar a Grande Comissão a não ser a Igreja. O que Jesus está dizendo é que ninguém poderá ensinar o que só a Igreja pode e deve por direito conquistado para ela na cruz e ressurreição! Só a constatação deste imenso privilégio deveria ser suficiente para que olhássemos o texto de Mateus 28 com atenção redobrada.

       A ordem do texto é esta: a autoridade é de Jesus e Ele comissionou a Igreja a ensinar. Neste ponto, para que ninguém tenha dúvida, a ideia de ensino está presente de três formas (estou trabalhando o texto grego): “ensinar” (fazer discípulos), “batizar” (ensinar) e “ensinar” (de novo?). Contudo, se a ideia educacional está tão presente no texto, porque não lemos isso com maior clareza? Vivemos numa cultura fortemente avessa ao estudo e também altamente pragmática. Enquanto o Apóstolo Paulo demorou dez anos para ser enviado às missões, hoje a Igreja não tarda em lançar mundo afora jovens neófitos com apenas dez meses de conversão (esta prática é resultado, certamente, da ênfase errônea no “ide” da Grande Comissão). Agora, veja: o verbo “discipular” é ensinar; o verbo “batizar” exige um ensino prévio (veja o caso de Felipe e o Eunuco); e, finalmente, o verbo “ensinar” (διδασκοντες). Mas por que Jesus queria ressaltar o caráter educacional da Missão da Igreja? Simples. A Igreja precisa continuar a ensinar os seus batizados! E esse talvez seja o maior erro da nossa investida evangelística e missionária, porque, uma vez arrolados em nossos relatórios que “três mil foram salvos”, não os ensinamos a colocar em prática na vida diária deles o ensino dado nos “evangelismos explosivos” e nas salas de catecumenato. O discípulo, segundo o texto de Mateus, é aquele aluno que é ensinado para o batismo e é ensinado a aplicar tal ensino às demais áreas de sua vida (cosmovisão). Contudo, ao priorizarmos o “ide”, vemos nascer uma legião de cristãos ateus, que vivem sem questionar as crenças de sua vida pregressa e as crenças de sua própria cultura.

     Quais as falácias do “ide” e suas consequências para Missões? Primeiro, a Igreja tende a depender de si ou de alguma outra coisa (Estado, Agência Missionária, Conselho de Missões, etc) como fonte da autoridade missionária; segundo, a Igreja tende a se tornar uma ONG ou apenas mais uma entidade beneficente sem revelar sua natureza singular; terceiro, a Igreja tende a reproduzir cristãos ateus, pessoas que não farão diferença em suas próprias culturas; quarto, Missões pode se tornar um projeto de expansão pessoal ou denominacional, plantando ministros personalistas, planos mirabolantes, placas, pedras, cimentos e tijolos; quinto, a natureza educacional tende a ser abandonada ou ser deficitária. Uma das consequências imediata dessa inversão dentro da natureza da Igreja se dá, por exemplo, na área financeira, em que poderíamos ver muito mais seminários, institutos e escolas cristãs construídas pelo mundo; investiríamos em professores mais bem remunerados e preparados nestas instituições cristãs; poderíamos ter muito mais Bíblias traduzidas para povos minoritários e também ter tradutores com muito mais condições materiais e intelectuais a seu favor no trabalho transcultural; enfim, só para citar alguns exemplos, utilizando mais recursos tecnológicos, poderíamos oferecer mais cursos de apoio ao Campo Missionário sem necessariamente retirar os obreiros de onde se encontram.


   Enfim, a Igreja recebeu poder em Atos 2 para ser testemunha de Cristo e não para ir! Parece herético, mas é apenas bíblico, pois, na verdade, o “ide” de Deus já havia sido dado ao homem e à mulher em Gênesis 1.28.  Uma vez resgatado aquele mandato cultural (“por toda a terra”), cabe à Igreja fazer discípulos ensináveis e ensinadores, que coloquem em prática tudo o que Jesus ensinou. Quando entendemos o contrário, o desperdício de mão de obra (e olha que os trabalhadores já são poucos) e o desperdício financeiro são enormes. A Igreja recebeu poder para ser testemunha de Jesus, mas precisamos saber exatamente a que viemos, o que temos a ensinar e o que queremos como resultado desse ensino. Se pensarmos que o poder recebido é para “ir” e não para SER, mais uma consequência que encontramos dessa falácia será que muitas igrejas locais, mesmo que sejam referência em Missões Mundiais, falharão no trabalho de fazer discípulos em sua própria cidade. É preciso considerar que o lugar mais difícil da terra para alcançarmos sempre será o coração da pessoa que está bem ali do nosso lado, seja em Jerusalém, seja em Samaria, seja nos confins da terra... E aqui, mais uma vez, poderemos aprender com o uso do verbo πορευθεντες no tempo aoristo: não há, nesse tempo verbal, qualquer foco no detalhamento ou nos passos de como essa ação continuará a ser empreendida pelos discípulos. Em outras palavras, para o Dono da Igreja, o caráter santo do missionário ainda é requisito imprescindível diante de qualquer propaganda ativista que possamos insistir em colocar sob os holofotes que criamos.       

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

10 fatos inconvenientes sobre a relação entre a democracia moderna e o cristianismo


O Cristianismo nunca dependeu da Democracia; 

 nascimento do Cristianismo não se deu em um ambiente democrático;
 
O crescimento do Cristianismo, a expansão da Igreja e até mesmo sua fixação nas mais diversas culturas, povos, línguas, nestes 2.000 anos, deu-se a despeito do fato de que a Democracia, como a temos hoje, é uma invenção recente, muitíssimo recente;
 
É assombroso que a Constituição Americana, fundada sob bases cristãs, foi redigida por republicanos que não citaram uma única vez sequer a palavra "democracia";
 
A Igreja jamais cresceu tanto como em lugares em que a democracia nunca se fez presente, assim como nunca tivemos um Cristianismo tão frouxo, covarde e acomodado como este que tem sido gerado em países democráticos como o Brasil;
 
O casamento entre o Estado e a Igreja é algo pernicioso, perigoso e diabólico. Mas o que poucos têm se dado conta é que o casamento da Democracia com o Cristianismo tem alimentado um messianismo utópico, revelado na figura funesta do "salvador da Pátria", que ora se apresenta como um Barrabás cristianizado, ora como um Jesus zelote;
 
Paulo, Pedro e o próprio Jesus puderam interceder, orar por seus reis e imperadores, ainda que estes não fossem cristãos. E mais: pediram a Deus que aqueles pagãos pudessem proporcionar a paz e a segurança necessárias à sociedade;
 
A Democracia representativa e a maneira como ela é tratada (como a melhor e mais legítima solução para todos os problemas do povo), e também como ela é relacionada por muitos com o Cristianismo revela que ela é um ídolo moderno;
 
A Democracia representativa é uma tirania ocultada numa espécie diferente de coletivismo;
 
A Democracia Moderna é a grande ilusão herdada da revolução francesa, uma revolução de filósofos maçons e anticristãos.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Maracutaia, Marina e PT

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A mística do vício - Dostoiévski

            Alieksei morre. Não a morte de todos os homens, mas a que se impinge sobre todos aqueles que caem nas armadilhas da mística de quaisquer vícios que tenta nos ludibriar.
           
            Alieksei se entrega às ganas do pano verde. Entre os números vermelhos e os pretos da roleta, nosso personagem encanta-se pela mística do jogo. Esta é um fervor, um fanatismo, uma concupiscência dos olhos, da carne, do espírito... Em algum momento, há em nós esse desejo de nos tornarmos deuses; controlarmos o que está totalmente fora do nosso controle. As mãos tremem, a boca seca, o músculo do rosto se contrai e algo em nossos estômagos se lança sobre o altar de sacrifício, à mesa de pedra, à roleta do jogo: “que fisionomias ávidas e transtornadas”! - analisa Alieksei, observando os jogadores.

            Criatura semelhante ao seu criador, Alieksei - protagonista de “O Jogador” - nos revela o mundo que aprisionava Dostoiévski: a roleta, o jogo, os cassinos alemães do século século XIX. Dostoiévski se rendeu à mística das noites e dias insones daqueles templos. Dívidas e mais dívidas soterraram nosso genial romancista russo que esvaziava suas burras diante do croupier. Nosso protagonista chega ao fim do livro, repetindo aquilo que é a frase comum aos que sucumbem à qualquer vício: “Amanhã, amanhã, tudo isso terá terminado”!

            A alma humana, toda alma humana, diz-nos Dorian Gray (Oscar Wilde), pode ser vendida, trocada, barganhada. “O jogador” é uma ilustração dessa sentença. Os personagens que rodeiam Alieksei interagem entre si como num jogo. Todos arriscam seus lances, blefam, recuam, avançam, ganham, perdem no pano verde da vida. Todos têm seu preço.

            O general que aguarda ansioso a morte de babuschka para receber a herança desta. Mlle. Blanche, que domina o general (e os homens) com suas promessas de fazê-los ver estrelas, aguarda um que lhe dê a segurança financeira que necessita. Des Grieux empresta à juros e controla vários viciados por detrás da cortina da história, inclusive era credor do general. Babuschka mesmo sabe dos abutres que só esperam vê-la morrer para se apoderarem de sua fortuna; mas ela, então, vem ao Cassino e arrisca todos os seus florins para o desespero dos que, de alguma forma, dependiam da herança dela.

            Mas havia também Paulina com quem Alieksei estabelecera uma relação de servilismo. E esta é a bancarrota do protagonista de Dostoiévski: sucumbe ao jogo e não à amada. Pois o amor é apenas um lance de sorte, mais um item a ser manipulado sobre o pano verde. Pauline não se entrega ao nosso personagem, embora o ame também, por ter ela também seus próprios interesses e dívidas a resolver. Assim, nessas tramas da vida, que se torna o croupier de todos os personagens, eles se apresentam como jogadores: alguns com seus caderninhos nas mãos, fazendo cálculos matemáticos na tentativa de adiantar o próximo lance; outros, como Alieksei, são impetuosos e irresponsáveis, arriscando o próprio coração. Na mesa de jogo, todos escondem suas verdadeiras intenções e motivações; na vida, também.

            Dostoiévski teve sorte melhor do que seu personagem. Aliéksei sonha com uma ressurreição que não acontece; Dostoiévski, embora mergulhado na mais terrível miséria por causa das dívidas de jogo, amargando mesmo a pobreza e a quase demência, vê-se resgatado pelo amor de Ana Grigorievna e pelos romances que escreveu às pressas “tendo os credores a bater em sua porta”. Na verdade, Ana era uma jovem estenógrafa de apenas 21 anos de idade e que o ajuda datilografando os livros que ele dita para ela. As dívidas são exorbitantes e o tempo para a entrega dos livros exíguo. A nova contratada, admiradora da obra do escritor russo, encanta-o. Assim, Dostoiévski aproxima-se de Ana expondo a ideia de um novo romance a ser escrito. Dostoiévski diz que gostaria de escrever “sobre um romancista velho e doente, que deseja casar-se com uma jovem cheia de vida. “Mas”, pergunta ele a Ana, “não será inverosímel dizer que essa jovem o ama?” Ao que Ana responde ao escritor russo: “Eu lhe diria que o amo e vou amá-lo a vida inteira”. Foi o modo como ele, 25 anos mais velho do que ela, propôs casamento à mulher que andara buscando a vida toda e finalmente encontrara”.

10 lições sobre democracia que aprendi nesta Campanha Eleitoral de 2014

1. As pessoas que cometeram um erro (ou dois) no passado são capazes de fazê-lo de novo e quantas vezes for necessário, desde que você saiba convencê-las de que o velho é novo;

2. A coletividade é passional e messiânica;

3. Nada é moralmente correto ou justo só porque recebe o apoio da maioria;

4. A democracia representativa é incapaz de representar-me, porque a democracia também é coletivista assim como o comunismo e o nazismo;

5. O meu voto não vale nada e mesmo que valesse (o que matematicamente não é verdade) há sérias dúvidas sobre a integridade das urnas eletrônicas que as pessoas fingem não ver;

6. A democracia representativa é a forma legalizada em que a maioria diz sim à expropriação de seus bens por minorias que a assaltarão através do Estado;

7. Não há moralidade na democracia. O que há na democracia são políticos de carreira, lobistas profissionais, grupos de interesse, ativistas e, principalmente, marqueteiros;

8. A liberdade, a fraternidade e a igualdade democráticas são uma farsa;

9. Poucos são os seres humanos que, de fato, fazem oposição. O que os grupos fazem é ADEQUAÇÃO para que não percam tanto assim, quando percebem que o candidato vencedor não é o seu;

10. A maior mentira que eu ouvi na Escola: "A democracia é o melhor dos piores sistemas de governo que temos". A democracia é simplesmente a pior coisa que já inventamos até agora. A democracia é o sistema adotado para colocar o Anticristo no poder, mediante o apoio popular. Não é de se estranhar que o próprio Karl Marx disse: "A democracia é o caminho para o socialismo". Todos sabemos o ponto final desse caminho. 
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"A democracia ilimitada, assim como a oligarquia, é uma tirania espalhada por um grande número de pessoas" - Aristóteles.

"A democracia não é nada mais do que a tirania da multidão, onde 51% das pessoas podem tirar os direitos dos outros 49%." - Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos.

 "A democracia são dois lobos e um cordeiro votando sobre o que comer no almoço. A liberdade é uma ovelha armada contestando o voto" - Benjamin Franklin (estadista, cientista, filósofo e um dos fundadores dos Estados Unidos).

domingo, 7 de setembro de 2014

A Bíblia rosinha e minhas filhas - uma breve reflexão paterna sobre tradução bíblica!

“Ensine a evangelizar...
Evangelize para ensinar”.
J. Irvin Overholtzer
Fundador da Aliança Pró-Evangelização das Crianças


Com todo entusiasmo de um pai que quer ver o crescimento espiritual de sua pequenina, comprei uma Bíblia rosinha que minha filha tanto queria! Contudo, logo percebi os problemas que ela já está enfrentando em suas leituras devocionais.

Primeiro, não conseguimos encontrar a Bíblia rosa na versão ARA (Revista e Atualizada), usada pela nossa denominação. Assim, minha pequena fica tentando “achar” as palavras lidas no púlpito e na Escola Dominical. Bem, como todo bom pai criativo, já sei como resolver isso: vou rasgar a Bíblia (ai, my Gosh!) e colar à capa rosa na versão que usamos. Pronto, primeiro problema resolvido.

Segundo problema. Ainda assim, é um texto de difícil acesso às crianças de 7 anos e 9 anos de idade. No caso em particular, os pais professores aqui, eu e minha esposa, ajudam na “tradução” do texto. Quero crer que esse esforço de leitura delas será positivo para o seu crescimento intelectual. Todavia, sei que a maioria das crianças não têm dois "tradutores" ao seu lado que se esforçam em redesenhar contextos, significados e sinônimos. O que me leva a um terceiro problema: o problema da tradução da Bíblia para línguas minoritárias. A língua das crianças é uma língua minoritária, não por extensão numérica, mas por valor político, claro. A linguagem infantil é um desafio aos missionários tradutores, evangelistas e editores bíblicos. Alternativas? A Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH).

Embora eu use a versão NTLH em diversos contextos de ensino, sei que devo ter certo cuidado, pois ela tem, em alguns trechos, uma exegese confusa num texto de fácil compreensão. O que, inevitavelmente, a torna perigosa. Só como exemplo dessa exegese: leia Jo 17: 24. Na NTLH (e essa ideia se repete umas duas ou três vezes no capítulo) coloca-se Jesus falando de uma “natureza divina” que foi dada (!) a ele, porque o Pai o amou. Bem, natureza divina “dada”, “entregue” a Jesus?... Quando foi isso?! Não é à toa que esse texto foi tão bem aceito pelos TJ (Testemunhas de Jeová). Confusão gerada por terem trocado a palavra “glória” (doxa, no grego), já tão bem cristalizada em nossa cultura, por uma expressão aberta, perigosamente aberta, como “natureza divina”. "Doxa" poderia ter sido traduzida por dignidade, honra, ou mesmo glória, que estaria no mesmo campo semântico do texto-fonte. Mas não vou detalhar essa discussão agora. O assunto deste parágrafo mereceria posts dedicados só a ele.

A Bíblia para crianças enfrenta vários desafios, mas quero citar apenas dois: o primeiro é interno, pois há uma massa de pessoas incrivelmente dominada por uma teologia meritória que insiste em ver as crianças como “indígenas inocentes que serão salvos pelo simples fato de que Deus é bom”. Ledo engano, as crianças precisam ouvir o Evangelho da salvação simplesmente porque a Bíblia nos ensina que a salvação pertence a Deus. A Igreja tem que parar de selecionar quem “merece” o esforço dela em ouvir ou não a exposição das Sagradas Escrituras, porque o fato é que TODOS pecaram e CARECEM da glória de Deus e segue a isto, ainda, a ordem de que se deve pregar a TODA criatura.

O outro desafio é de natureza puramente pedagógica, mas de consequências teológicas devastadoras: é preciso ensinar o que se lê. Isto parece óbvio, mas a Igreja ainda está caindo naquela conversa mole de que “a América Latina precisa produzir a sua própria Teologia”. Eu fico tentando imaginar Moisés entregando as tábuas da Lei e dizendo: “Então, seu bando de escravos ignorantes, se virem!” Ou ainda, Paulo escrevendo às Igrejas de Roma e de Efésios, dizendo: “Bem, muitas coisas eu deveria ensinar, contudo é Teologia Judaica e vocês gentios precisam produzir sua própria teologia, e como vocês já têm o Evangelho e os livros da Antiga Aliança, produzam alguma coisa que (de)leite”!

Nem Lutero e nem Calvino quiseram “produzir” uma teologia alemã, francesa ou suíça. Simplesmente acharam mais prudente seguir a cartilha estrangeira de Santo Agostinho, a “voz da África”. Lutero pregou o livre exame e não a livre interpretação das Sagradas Escrituras, disto todos já sabemos. Calvino, para que ninguém tivesse dúvida de que havia um esteio, escreveu as Institutas e comentou quase todos os livros bíblicos!

Não se pode passar dez, vinte anos traduzindo a Bíblia ao povo Pashtun e depois crer que eles vão produzir sua “teologia adaptada às necessidades culturais”. Não se pode fazer isso com ninguém: é crime! Assim fizeram os teólogos da Libertação, os Testemunhas de Jeová, os Mórmons, as seitas neopentecostais e os espíritas. Estes tinham o texto bíblico em suas mãos, mas por não conferirem as Teologias Sistemática, Bíblica e Histórica como referência e lastro, “produziram” o que aí está.

Ainda que haja uma “tradução mais domesticada”, como é o caso da versão NTLH (que o Reverendo Augustus Nicodemus lembra-nos ser uma paráfrase e não uma tradução), ou mesmo que sejam “traduções estrangeirizadas”, de qualquer forma, a presença do “tradutor/intérprete”, que deveria acompanhar essas leituras, tem sido negligenciada por pais, educadores, pastores e evangelizadores. As razões são muitas, mas cito duas: primeiro, a tendência moderna de se supervalorizar a autonomia do leitor e, segundo, a velha e triste constatação de que os trabalhadores para a seara do Senhor são poucos mesmo: precisa-se de tradutores, evangelistas, discipuladores, educadores, missionários, pastores, mestres, doutores, etc! Como disse Paulo aos Coríntios, uma igreja não "acontece" só de a semearem nalgum lugar: é preciso pessoas que vão regar, outras que vão colher; umas vão sorrir, e outras, certamente, chorar. E todos totalmente conscientes de que o crescimento vem do Senhor!

Não posso “largar” o texto bíblico nas mãos da minha filha. Não posso “largar” o texto bíblico nas mãos de ninguém! É parte do mandato da Igreja o que Jesus disse: “ensinando tudo o que vos tenho ensinado”! Precisamos de Filipes que sejam arrebatados pelo Espírito Santo e corram ao lado das carruagens e perguntem: “Entendes o que lês”? Não podemos ficar simplesmente esperando que os eunucos produzam suas próprias teologias etíopes como se nunca antes na história dessa igreja houvesse alguém ensinado alguma coisa.

Todo tradutor, sejam os pais dentro de casa, sejam os missionários numa aldeia indígena, sabemos que se deve ensinar o texto que se apresenta e, se formos responsáveis diante de Deus, vamos retornar à história, ao livro de catecúmenos, à Teologia Sistemática, a Spurgeon, às boas aulas da EBD, a confissão de fé das Igrejas Reformadas, Calvino, Lutero, Tomás de Aquino, Agostinho, etc. E, então, poderemos avaliar e ensinar a mesma teologia que tem sido ensinada sempre. A mesma teologia que a avó e a mãe de Timóteo ensinaram a esse. Por fim, se depois de todo o esforço educacional responsável da Igreja, e só depois disso, os gálatas de todos os tempos ainda assim quiserem produzir outro evangelho, então, que sejam anátemas. Enquanto isso não se estabelece, a responsabilidade e o amor paternos fazem-me lembrar que "pesa sobre mim essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho"!


PS – Todo ano escolho uma edição diferente da Bíblia para ler. No último natal, ganhei do meu sobrinho a “Bíblia de recursos para o ministério com crianças”. Gostaria de deixar aqui o que está impresso na dedicatória dessas Bíblias: “aos que trabalham em silêncio no maior e mais esquecido campo missionário do mundo. Que você cause impacto poderoso sobre as futuras gerações ao seu redor e em todo o globo”. A isto, eu digo: amém!

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