domingo, 12 de outubro de 2014

"Aingohegei" e "Dedilhar" - um encontro entre dois mundos (série: Educação e comunicação transcultural III)



Era a minha primeira semana de aula na aldeia com meu povo.
 
"Vem cá. Senta aqui", disse, indicando com o dedo o novo lugar para Tali sentar. Contudo, quando acabei de dizer essas palavras, insistindo que ele saísse lá de trás e viesse sentar mais próximo de mim, todos na sala riram. Eu dizia o nome "Tali" e apontava para o seu novo lugar na sala de aula. Fazia gestos com a mão, chamando-o para frente e indicando ao lado de quem ele deveria se sentar agora. Assim, tinha certeza que meus alunos todos estavam me entendendo... Mas eles riam. "Vem, Tali, senta aqui ao lado da Kassi", eu insistia, batendo com a palma da mão aberta sobre o banco vazio ao lado da Kassi.

Comecei a perceber que alguma coisa constrangedora estava acontecendo. Tali passava a mão pela cabeça várias vezes e começou a tentar me dizer que não, não viria. Toda essa situação deve ter durado uns vinte segundos apenas, mas para mim já se estendia numa eternidade de risos nervosos.

- Professor - finalmente socorria-me o Professor indígena que entrava para me ajudar nesses momentos, mas que até ali não se manifestara porque também estava rindo desse caraíba engraçado - Professor, o Tali não pode sentar aí. A Kassi é esposa dele...
- Ah... Ele não pode sentar ao lado da esposa!?
- Não. Disse-me o Professor indígena. Então, diante desse irremediável fato cultural, lá se ia minha ideia de fazer um "trabalho em grupo". Vi que não poderia simplesmente reunir os alunos uns aos outros, porque eles não sentariam, por exemplo, perto de suas esposas.

Mas havia outras questões que fui descobrindo por causa da Escola. Uma delas é que ao tentar fazer um exercício oral de "esquerda, direita, atrás, na frente", surgiu novo momento de risadas. Perguntei a um deles quem estava sentado à frente:
- Professor, é esse aqui. Respondeu-me apontando para o colega da frente.
- Sim, mas qual o nome dele?
- Professor, não posso dizer. Ele é meu cunhado.
- Ah...!

A Escola sempre foi um momento mágico de aprendizado e creio que essas "gafes culturais" nos aproximaram muito uns dos outros. Ríamos e aprendi a rir com eles esse riso transcultural gostoso pelo estranhamento com o outro. O outro é outro mundo. Um mundo rico, bonito e cheio das suas coisinhas que precisam ser descobertas para que se possa alcançar uma comunicação efetiva. Assim, como não foi imensa minha alegria quando, ao terminar a aula um pouco mais cedo, vi que eles não saíam da escola. Disse a palavrinha de todos os dias na língua deles para o encerramento, mas meus alunos fecharam seus cadernos e ficaram ali, perto de mim, já mais à vontade: eles não queriam sair. Um dos alunos, Terri, se aproximou e disse uma palavra que eu havia ensinado naquele dia em português: "dedilhar". E enquanto ele repetia aquela palavra, fazia o gesto de "dedilhar" os dedos sobre a minha mesa. Ele havia gostado daquela palavra. "Dedilhar". Percebi que realmente era uma palavra gostosa de se dizer e fiquei encantado com o encantamento dele com uma palavra nova do português. Olhando nos olhos dele, eu disse sorrindo: "aingohegei". Também repeti várias vezes para ele a palavra "aingohegei", que era a segunda palavra que eu havia aprendido na língua (a primeira fora "saudade"). E ficamos assim por um tempo, um dizendo ao outro essas palavras novas e significativas para nós: "dedilhar" e "aingohegei". Vi que, de maneira muito delicada, estávamos fazendo um encontro entre dois mundos que desejavam muito aprender um  com o outro. Os outros alunos começaram também a dizer palavras na língua deles e apontavam para os objetos aos quais elas se referiam.

Naquela tarde, minha primeira semana de aula na aldeia, ficamos ali, eu e meus professores, que riam de mim esse riso gostoso que aprendi tanto a amar: o riso da graça de um caraíba (homem branco) tentando acertar o passo com a língua deles. Por um momento, enquanto me ensinavam as cores do mundo deles, recostei na cadeira e fechei os olhos pelos segundos suficientes para dizer em oração a Deus: "Aingohegei", que quer dizer "muito obrigado".  

Leia também: 

A arte de fazer omeletes sem quebrar os ovos (série: Educação e comunicação transcultural II)

terça-feira, 7 de outubro de 2014

O preconceito do preconceito do preconceito


Antes que você me acuse de preconceito, o que, na verdade, só revelaria o seu próprio preconceito, gostaria de fazer uma pergunta: já ocorreu a você que o que chamamos de "preconceito" poderia ser, tão somente, uma mentalidade diferente da sua, uma maneira diversa de enxergar as coisas e encarar a vida? Por que pergunto isso? Vou tentar me explicar.

Por causa do meu trabalho, aprendi a olhar com mais cuidado o outro. Ver suas ações, mas tentar compreendê-las sob o véu da superficialidade, tentar encontrar as razões que levam alguém a pensar, agir ou crer de uma maneira diferente da minha. Sei que somos ágeis em julgar levianamente o próximo: é mais fácil rotular do que compreender. É essa necessidade de inserirmos o outro em grupos - esta mania humana de biotaxonomia - tentando, assim, dominar a realidade brincando nesse tabuleiro do jogo das etiquetas. Ao contrário, acredito que deveríamos defender o espaço em que a pessoa pudesse expressar os seus pensamentos com liberdade e sem medo de ser acusada de um crime que, na verdade, ela sequer cometeu. Somos intolerantes com aqueles que achamos ser intolerantes. Somos preconceituosos com os que julgamos ser preconceituosos. Esta é a verdade.

Vou trazer dois exemplos. Um é histórico e todos conhecemos bem: a estigmatização do indígena sob a pecha de ser preguiçoso. Todavia, quem trabalha com esses povos e suas culturas entende bem a índole libertária deles. Povos acostumados à vida sem cercas e sem muros não poderiam mesmo jamais se deixar subjugar pelo chicote do senhor. O outro exemplo é uma oportunidade para que você olhe pelo outro lado: é o preconceito com o preconceito do sulista. E este é alimentado, principalmente, por dois fatores. Primeiro, o próprio Estado tem incentivado uma cultura de vitimismo por meio de programas sociais que não preveem a autonomia, mas apenas a dependência do cidadão. Segundo, o preconceito com o suposto preconceito do sulista é realçado pelo próprio preconceito de quem julga o sulista. É um ranço histórico ensinado desde a escola às crianças, misturado a uma cultura de pessoas ofendidas pelo mérito do sucesso alheio e soma-se a isso uma ideologia em que o modelo de herói nacional ainda continua a ser Macunaíma!

Deixe-me explicar um pouco mais. Aqui na cidade em que moro, fundada por sulistas que saíram de seus lugares de origem, desbravando o interior do Brasil, buscando para suas famílias condições melhores de vida, encontro muito desse preconceito ao preconceito deles. Entretanto, outra mentalidade, outra maneira de encarar as vicissitudes da vida é o que pode estar presente debaixo do rótulo simplista de "preconceituoso". Esta semana conheci mais uma família de imigrantes sulistas de origem italiana e que veio trabalhar nessas terras daqui. Arrendaram, prepararam o chão, suaram de sol a sol pais e filhos juntos. É uma família de trabalhadores rurais que possuem uma renda econômica acima da média geral, uma boa casa, um ótimo carro e uma agradável qualidade de vida, fruto de seu esforço, a despeito de serem pessoas muito simples. Contudo, enquanto muitos se acomodam na ociosidade há anos, orgulhosos de um rei que sequer reside em suas barrigas, vivendo à custa de tantos programas sociais, essa família que conheci levou seu filho adolescente para trabalhar de empacotador num supermercado da cidade! Alguma coisa de indigno nisso? Não! A indignidade está em quem não se submete a determinados trabalhos para continuar mamando nas tetas do governo.

Não sou contra programas sociais. Sou contra programas de dependência. Não sou contra quem precisa e recebe assistência social. Sou contra quem se encosta e não dá a volta por cima para mudar a história da própria vida. Sou contra o preconceito de quem diz que o indígena é vagabundo e preguiçoso. Sou contra o preconceito que transforma em vilã uma cultura como a sulista que se orgulha de fazer brotar das próprias mãos os frutos que irão alimentar muitas outras famílias nesta terra.


Não sou contra o bem, sou contra o mal. Não sou contra a verdade, deploro a instigação marxista que promove uma luta de classes e de raças em nosso país. Precisamos valorizar mais a diversidade nacional que faz do Brasil um país colorido. Aprender com a qualidade do outro é o que irá fazer deste um país melhor: aprender sobre liberdade com os povos indígenas e sobre a dignidade do trabalho com o sulista é uma faixa de esperança na nossa luta contra as mentiras usadas por muitas pessoas do mal para nos jogarem uns contra os outros.   

Liberte-se do seu preconceito contra o suposto preconceito do outro! Está na hora de você ranger menos os dentes para tudo o que lhe pareça diferente e ser mais tolerante consigo mesmo.

Alguns conselhos para aqueles que genuinamente querem ajudar os pobres (Hans F. Sennholz)

Se você está preocupado com a 'justiça social' e quer genuinamente ajudar os pobres a subir na vida de maneira permanente e independente, há alguns procedimentos que você pode seguir.

Sua primeira e imprescindível obrigação para com os pobres é: não se torne um deles e não faça com que outros se tornem um deles.  Será muito mais difícil ajudar pessoas pobres se você ou seu vizinho se tornar pobre.  Assim como você não deve se tornar pobre, você também não deve defender políticas que levem ao empobrecimento de ricos na crença de que isso levará ao enriquecimento dos pobres.  Para o pobre, não interessa se foi você ou o seu vizinho que empobreceu por meio de medidas do governo; a situação dele não melhorará.  Um rico empobrecido não cria um pobre enriquecido.  A economia não é um jogo de soma zero.

Não sendo pobre, você tem uma escolha: você pode dar o peixe para os pobres comerem ou você pode lhes arrumar um emprego e ensiná-los a pescar o peixe por conta própria — isto é, ensiná-los a serem seres humanos produtivos.

O que nos leva à sua segunda obrigação: se você quer ensinar os pobres a serem independentes e capazes de se auto-ajudar, comece dando o exemplo ainda dentro de sua própria casa.  Crie seus filhos de maneira austera.  Filhos independentes e não-mimados se tornam mais produtivos, mais solícitos, mais realistas e menos propensos a roubar ou a ser desonestos.  No futuro, seu filho poderá servir de exemplo comportamental para aquelas pessoas que você está preocupado em ajudar.

Dado que todos vivemos no mesmo planeta (e não há como fugir dele — vivos), todos enfrentamos o mesmo problema sobre como alocar recursos escassos da maneira mais eficiente possível do modo a satisfazer desejos cada vez maiores (já são quase 7 bilhões de pessoas na terra).  Há duas maneiras de se alocar recursos: 1) por meio da força, ou seja, por meio de decretos e coerções governamentais; ou 2) voluntariamente, por meio do sistema de preços fornecido pelo mercado. 

Esta segunda maneira é mais duradoura e, logo, preferível para ser adotada com o intuito de sustentar a vida de um enorme número de pessoas.  Por isso, é também sua obrigação explicar às pessoas — principalmente aos seus amigos igualmente sedentos por 'justiça social' — como funciona uma economia de mercado e por que apenas ela pode criar a maior quantidade possível de bens e serviços para os mais pobres, melhorando seu padrão de vida.  Todo e qualquer sistema econômico socialista sempre culmina em escassez e em racionamento de recursos, exatamente o contrário do que você quer para os mais pobres.

Sua terceira obrigação para com os pobres é dar bons exemplos, de modo que eles se sintam estimulados a emular seu sucesso.  Não minta, não roube, não trapaceie e não tome dinheiro das pessoas, tampouco utilize o governo para fazer isso por você.  Não enriqueça por meio de políticas governamentais.  Não aceite dinheiro nem privilégios do governo — dado que o governo nada cria, tudo o que ele lhe dá foi adquirido coercivamente de terceiros (na esmagadora maioria dos casos, contra a vontade de seus legítimos proprietários), uma medida que gera apenas ressentimento destes pagadores de impostos.  Uma civilização que é erigida sobre o roubo e sobre privilégios não pode ser duradoura.  Dê o exemplo não contribuindo para o perpetuamento deste arranjo.

Em um futuro muito próximo, será cada vez mais difícil para um indivíduo preservar sua riqueza.  Governos falidos ao redor do mundo — consequência econômica inevitável de estados assistencialistas e inchados — estarão sedentos para confiscar quaisquer ativos remanescentes em uma desesperada tentativa de prolongar sua sobrevivência (mas sempre em nome do "bem público").  Os direitos individuais serão abolidos em nome do 'bem comum' e várias leis serão criadas com o intuito de tornar ilegal qualquer medida que vise a proteger a riqueza dos indivíduos mais ricos — e aí sim veremos uma verdadeira caça às bruxas.

Algumas pessoas acreditam que poderão evitar problemas caso voluntariamente entreguem seu dinheiro para o governo (ou peçam para que o governo o tribute).  Pode ser, mas o fato é que durante a hiperinflação da França nos anos 1790, os ricos que não fugiram foram decapitados.  Talvez a França tenha sido um caso extremo, mas a história mostra que sempre que os ricos foram pilhados por políticos populistas, os resultados não foram bonitos.  Portanto, não empreste sua retórica e nem dê seu apoio a políticos ou movimentos políticos que defendam o confisco direto da riqueza dos mais ricos.  Além de os pobres nunca terem sido beneficiados por tais medidas (algo economicamente impossível), você estará apenas aumentando o número de pobres.

Portanto, sua quarta obrigação para com os pobres é assegurar parte da sua riqueza para as gerações futuras.  Dado que você genuinamente quer ajudar os pobres, acumule o máximo possível de ativos, trabalhe bastante e produza muita riqueza durante seu tempo de vida.  Ao produzir riqueza, você não apenas estará empregando pessoas e enriquecendo-as também, como estará produzindo para toda a humanidade uma maior quantidade de bens e serviços.  É assim que você fará com que as pessoas subam na vida. 

Caso prefira o assistencialismo puro, você também tem a opção de distribuir toda a sua riqueza quando se aposentar ou quando morrer.  Quanto mais riqueza você produzir, mais você poderá distribuir.  Você tem liberdade de escolha.  Em vez de folgadamente defender o esbulho da riqueza alheia, crie você próprio a sua riqueza e então a distribua para os pobres — ou, melhor ainda, empregue-os neste processo de criação de riqueza.

Durante este processo, você terá de saber manter seus ativos a salvo do perigo, evitando que sejam confiscados pelo governo ou que simplesmente sejam esbanjados e dissipados.  É neste quesito que você terá seus maiores problemas, muito embora várias famílias já tenham demonstrado ser possível manter sua riqueza ao longo de gerações.  Sua riqueza provavelmente estará na forma de ativos produtivos que são difíceis de serem movidos de um país para o outro.  Isso tornará mais difícil se proteger do governo doméstico, que estará ávido para confiscar sua riqueza quando ele precisar do dinheiro.  Conclusão: você terá de diversificar seus ativos ao redor do mundo, de modo que, quando o governo de um país se tornar muito ganancioso (sempre para ajudar os pobres), você terá outra base de operações da qual operar.  Isso irá garantir que você se mantenha fiel à sua primeira obrigação para com os pobres.  Quem disse que é fácil concorrer com o amor do governo pelos pobres?

Caso continue preferindo ensinar a pescar em vez de dar o peixe, sua quinta e última obrigação para com os pobres é legar em herança sua riqueza para alguém (ou para um grupo de pessoas) que irá dar continuidade ao seu trabalho de fazer deste mundo um lugar melhor para os pobres viverem, com uma maior produtividade e uma mais eficiente alocação de ativos.  Esta poderá ser a tarefa mais difícil de todas. 

Ser caridoso com a riqueza dos outros é uma delícia. Arregaçar as mangas e produzir por conta própria aquilo que você quer ver distribuído já é um pouco mais trabalhoso.  Mas seu amor genuíno aos pobres servirá de estímulo todas as manhãs.  Boa sorte!

Hans F. Sennholz - (1922-2007) foi o primeiro aluno Ph.D de Mises nos Estados Unidos.  Ele lecionou economia no Grove City College, de 1956 a 1992, tendo sido contratado assim que chegou.  Após ter se aposentado, tornou-se presidente da Foundation for Economic Education, 1992-1997.  Foi um scholar adjunto do Mises Institute e, em outubro de 2004, ganhou prêmio Gary G. Schlarbaum por sua defesa vitalícia da liberdade.

Tradução de Leandro Roque

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A arte de fazer omeletes sem quebrar os ovos (série: Educação e comunicação transcultural II)

Abstracionismo
Quase todos os dias recebo a visita de meus alunos "estrangeiros" aqui em casa. São jovens com seus 15, 16 , 17 anos e que se encontram, por força das circunstâncias, lançados numa Escola estrangeira, que é a brasileira, num curso noturno de ensino público.
Cubismo

Imagine como é heterogênea essa sala de aula frequentada por esses indígenas: homens e mulheres bem mais velhos que eles, brasileiros falantes do português e que retornaram aos estudos depois de seus casamentos desfeitos, depois de seus arrependimentos tardios e ansiando muito ter seus sonhos recuperados. Além dessa miscelânea nacional de frustrações e expectativas, meus alunos têm como companheiros de sala outros jovens iguais a eles, também estrangeiros, não falantes de português, mas, imaginem, cujas línguas diferem das línguas desses meus alunos também. São outros indígenas de outros povos!

Expressionismo
Vocês acham que eles se intimidam? Nada disso! Religiosamente, meus alunos aparecem aqui em casa com suas dúvidas e perturbações. Eles são indígenas, que saíram de suas aldeias para acompanhar seus pais, que vieram por motivos de saúde ou financeiro. E, agora, na cidade, querem frequentar a escola que já vinham frequentando na aldeia. Estão quase todos na 8ª série. 

Fauvismo
Matemática, decididamente, não é obstáculo a nenhum deles. Dominam a linguagem dessa disciplina de uma maneira muito melhor do que eu dominava na idade deles. Todavia, a leitura, o mundo que os cerca, a escrita, as figuras de linguagem, a geopolítica, este mundo majoritário de signos e símbolos já é uma outra conversa. Há tantas coisas diversas e novas para eles! E, como disse, eles não se intimidam, ainda que estejam estudando numa Escola que não se encontra nem um pouco preparada para receber tamanha diversidade cultural em sua sala de aula. 

Futurismo
Eles chegam aqui e mostram seus cadernos, fazemos leituras e, com mais tempo que os professores da Escola, paro e vou me desdobrando para explicar algumas coisas que, sinceramente, as percebo quase que inexplicáveis. Por exemplo, as tendências modernas que assolaram a Europa na virada do século XIX para o XX. O professor passou, vai cair na prova, é matéria, tem trabalho para entregar. E fim de conversa!

Bem, por onde começamos? Nada melhor do que um mapa-múndi, acredito eu. É preciso mostrar que lugar é esse chamado Europa e seus povos e culturas tão dissemelhantes. No mapa, aponto tanto para lá como bem aqui, revelando de onde eles vieram. Arrisco iniciar minha aula explicando aos meus alunos que "os não-indígenas pensam que os índios são um povo só, mas não é verdade, vocês são mais de 200 povos diferentes só aqui no Brasil, que falam mais de 180 línguas diferentes, espalhados por esse país já tão diverso. Com o caraíba (homem branco) é a mesma coisa. Vocês já sabem que caraíba não é tudo igual: somos brasileiros, franceses, americanos, alemães...". Isto eles sabem bem, pois há muitos turistas visitando suas aldeias todos os anos para conhecer suas festas.

Surrealismo
Mas e as tais tendências modernas? Imagine! Estava ali, esforçando-me na língua deles, catando algumas palavras que pudesse trazer à mente algumas coisas próximas a eles, "tentando preparar aquela omelete sem precisar quebrar os ovos". Finalmente, disse que as tendências modernas eram como os povos indígenas, em que cada um tem a sua arte própria. Um povo era especialista em fazer panelas de barro, outro em fazer um famoso colar de caramujo; outro, ainda, era especialista em esculpir bancos de madeira (lindos!), então, com as tendências modernas da Europa seria melhor se eles percebessem dessa mesma maneira: cada escola era um grupo de gente diferente, com expressões artísticas (pintura, escultura, poesia) diferentes umas das outras. Iguais a eles. E assim continuei conversando e mostrando os quadros, as esculturas, as artes e suas diferenças. 

Naquela tarde, redescobri, junto com meus alunos, como somos todos tão diferentes e tão semelhantes uns dos outros. Esta é a diversidade criativa do meu Deus. Este texto é, tão somente, uma declaração de amor à multiforme sabedoria do meu Deus na Sua criação revelada, quem diria, num encontro com as vanguardas europeias...

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A Educação pela tradução (série: Educação e comunicação transcultural I)

domingo, 5 de outubro de 2014

Liberalismo: A abordagem consequencialista vs deontológica (Lourenço Vales)

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Intervenção na 1ª Conferência do Liberalismo Clássico, Novembro, 2011


A maior parte de nós chega ao Liberalismo pela via da Economia mais do que pela via da Filosofia (lato sensu) – e eu sou uma dessas pessoas. Para muitos de nós, a Economia é indissociável do Liberalismo, e a sua vertente filosófica é menosprezada. Não me parece que isso faça muito sentido.

De certo modo, há uma separação artificial entre Filosofia e Economia. Poucos (ou nenhuns) são os cursos de Economia que têm cadeiras que se relacionem minimamente com a Filosofia, e poucos são os Filósofos que se debruçam especificamente sobre a Economia. Nenhum economista, nos dias que correm, parece preocupado em pensar sobre os problemas de fundo da economia – quando foi a última vez que ouvimos um economista a falar dos problemas epistemológicos da Economia? (quantos de vós sequer conhecem Epistemological Problems of Economics do Mises?). O último grande debate ético que envolve directamente a economia foi, provavelmente, a parelha Rawls-Nozick. E eu pergunto-me qual é a ideia disto – que sentido faz falar da Equação de Slutsky se não se discute o método de adquirir conhecimento na Economia; porquê falar da formação de preços se não se questiona o princípio da procura do lucro; que adianta falar de mercado se poucos são os que questionam e fundamentam a propriedade privada.

Esta palestra versa, essencialmente, sobre o modo como justificamos as nossas preferências liberais, como isso influencia a nossa visão do Liberalismo e que problemas ou inconsistências é que essas posições podem trazer para o Liberalismo.

A Economia parece ser influenciada essencialmente por autores que, conscientemente ou não, perfilham uma ética consequencialista. A argumentação a favor do Liberalismo, muitas vezes assente na teoria económica, tem a mesma característica. Quando nos perguntam “Porque é que os impostos devem ser baixos”, uma questão muitas vezes defendida pelos Liberais, quase sempre a resposta é “Porque a produção irá aumentar e isso é benéfico para as pessoas; traz boas consequências”. Aqui, obviamente, a Economia serve para “provar” que determinada acção redundará no maior benefício para o maior número; e portanto, o princípio liberal é eticamente justificável, tendo em conta a teoria utilitarista. E, no fundo, a ideia da maximização da utilidade está mais que presente na economia mainstream, como objectivo mais que normal e justificado da acção humana.

No entanto, há uma forte componente deontológica – e não necessariamente a deontologia Kantiana – em todo o Liberalismo. Se confortarmos algum liberal com a sua posição relativamente à pena de morte, o mais provável é que ele nos diga que a vida, a par com a liberdade e a propriedade privada, serão invioláveis, e portanto é contra qualquer acção que ponha fim à vida de outrem – no fundo, a adesão à regra da inviolabilidade da vida. Muito provavelmente, o princípio mais famoso e mais recorrente em todo o Liberalismo é o “Princípio da Não-Agressão”, que diz que a iniciação da força é sempre ilegítima, excepto em casos de auto-defesa.

A verdade é que estas duas diferentes posições éticas podem ser usadas para justificar os mesmos princípios: um adepto da ética deontológica diria que os impostos deveriam ser mínimos (ou inexistentes) porque a sua cobrança constitui uma violação ao princípio da propriedade privada; em comparação, um consequencialista diria que a pena de morte não é uma medida que maximize a utilidade já que pode existir o risco de haver uma execução injusta e isso é prejudicial para o maior número.

Assim sendo, o que separa as duas posições? Se realmente podemos chegar à mesma resposta por caminhos diferentes, será que faz sentido haver uma diferenciação entre ambas?

A ética consequencialista, dependendo obviamente dos resultados da acção, é consideravelmente mais elástica – no sentido em que pode ser usada para defender mais facilmente pontos de vista diferenciados. Já a vimos a ser usada para defender as teorias Liberais, Comunistas, Conservadoras, e as demais. Mesmo dentro do espectro liberal, tanto pode ser usada para defender o liberalismo social de Mill, como o minarquismo de Mises e o anarco-capitalismo de David Friedman.

Aqui parece útil remeter para a epistemologia – e não me querendo alargar muito – lembrar as dificuldades em achar as relações entre causa e efeito; que a correlação não implica causalidade; a impossibilidade de estabelecer alguns limites; e tudo mais. Pense-se nas variáveis “ter isqueiro em casa” e “ter cancro do pulmão” e certamente que se encontrará uma correlação positiva muito significativa entre ambas; no entanto, não parece sensato dizer que ter um isqueiro em casa é a causa de ter cancro do pulmão. Pode-se também perguntar porque ou como é que se chega à conclusão que o limite de impostos sobre o rendimento que mais beneficia a população é 5% e não 6% ou 1% ou 50% e igualmente sobre a validade dos critérios analisados e por aí além. E não será a dependência das consequências pouco amiga da liberdade? – isto é, se fosse possível provar que o propriedade colectiva dos meios de produção produz realmente os “melhores” resultados, então um consequencialista não seria obrigado a tornar-se socialista?

Já a ética deontológica, podendo levantar acérrima discussão sobre os princípios, parece de aplicação mais pacífica. Nozick (baseada nos imperativos categóricos de Kant), Rothbard (que vai buscar a ideia de lei natural a Locke) e Hoppe (que parte da ideia da ética da argumentação de Habermas e Apel para chegar ao princípio da não agressão) contribuem para o Liberalismo chegando a conclusões semelhantes: o primado do indivíduo, da liberdade, da vida, da propriedade – diferindo apenas no âmbito da existência do Estado, que será inexistente para Hoppe e Rothbard e mínimo para Nozick. Talvez a mais honrosa excepção nesta hegemonia minarquista ou anarquista presente nas abordagens deontológicas ao Liberalismo será John Rawls, que cria os dois princípios de Justiça – o da liberdade e o da igualdade – para apresentar um Estado mais “musculado”.

Levantam-se então outros problemas: será que a ética da argumentação hoppeana não sofrerá de “begging the question” – o ponto que se procura provar já estará implícito nas premissas? Será que a teoria de Nozick não sofrerá de uma inconsistência interna no que concerne ao confronto entre o princípio de self-ownership levado ao extremo e os imperativos categóricos de Kant? Será que a ética Rothbardiana se apoia simultaneamente nos princípios da lei natural, bem como na suposta evidente superioridade dos mercados livres no que concerne à eficiência na utilização dos recursos?

Contudo, e entrando num campo ligeiramente mais flexível (deixando um pouco de lado uma certa rigidez filosófica), o maior problema que se encontra é o seguinte: se para um consequencialista, as boas consequências fazem a justiça, para um preponente da deontologia os princípios é que fazem a justiça. Para um consequencialista, os fins justificam os meios, lato sensu; para um deontologista, só os meios, as intenções, é que são relevantes. E esta aparente incompatibilidade entre ambos poderá ser perniciosa para o Liberalismo, criando confusão. No entanto, será que é possível existirem princípios justos e a aplicação desses princípios redundar em boas consequências? Afinal de conta, se fizermos uma listagem de acções orientadas por princípios justos e acções com boas consequências, pouca (se é que alguma) diferença existirá entre ambas – “não matar” será um bom princípio, e cuja consequência será boa; “não roubar” será igualmente um bom princípio, e as consequências parecem igualmente ser boas. O problema da justificação do Liberalismo estaria então resolvido: bastava que nos orientássemos por princípios liberais sólidos que as consequências seriam igualmente satisfatórias.

Mas será que isto realmente acontece?

Hayek, com recurso à praxeologia, argumenta que sim, e aponta uma razão para isso acontecer: a Economia, enquanto ciência positiva (“o que é” ao invés de “o que deve ser), deriva aprioristicamente verdades conceptuais que nos ajudam a entender acção humana. E a não ser que compreendamos o significado das acções dos agentes, então qualquer conjunto de regras, enquanto explicação da acção humana, estará condenado ao falhanço.

Se, por exemplo, assistirmos a um acto em que dois nativos de uma terra há muito perdida trocam um pedaço de carne por uma concha, e depois outros dois trocam uma enxada por uma concha, e por aí adiante, então é óbvio que a concha será o equivalente aos nossos discos de metal – ou seja, será a moeda usada. O conceito “discos de metal” ou “concha” ou as propriedades físicas do objecto em questão nada nos dizem sobre o conceito de “moeda”, mas o significado que atribuímos à acção dos agentes é que nos é util para chegar a essa concepção. A acção, o sujeito, o objecto, tudo terá um objectivo. E é precisamente esse objectivo, esse significado, que nos permite descrever a acção humana. E é a derivação aproriorística que nos permite então construir as tais verdades conceptuais que terão a mesma validade que os conceitos da lógica e da matemática – se faz sentido perguntar o que é o conceito de “moeda”, não parece fazer muito sentido perguntar porque é que o conceito de “moeda” não é algo completamente diferente, pela mesma razão que não fará sentido perguntar porque é que 2+2 não pode ser igual a 5.

Segue-se que estas verdades conceptuais poderão ser usadas para a construção de um conjunto de regras. O princípio da não-agressão será um exemplo de uma dessas regras – o ser humano, reconhecendo intrinsecamente a propriedade do seu “eu” (self-ownership) e, por extensão, a propriedade dos outros “eu”s, percebe que seria incoerente, de um ponto de vista lógico, atentar através da agressão contra outros. Daí que a regra “a utilização da agressão contra outros, excepto em caso de auto-defesa, não é moralmente justificável” seja um bom princípio (é derivado aprioristicamente da acção humana) e irá redundar em boas consequências (não me parece que se possa considerar bom a situação em que um ser humano detenha direitos de propriedade sobre outro).

Então, se isto for realmente verdade, o nosso problema parece encaminhar-se para uma solução: se a Economia e as restantes disciplinas que lidam com a acção humana seguirem este método, então será possível construir regras (princípios) que, simultaneamente sejam justos (no sentido em que seguem princípios sustentáveis do ponto de vista lógico) e que obviamente redundam em boas consequências (por exemplo, a defesa e aplicação do princípio liberal do mercado livre trará boas consequências).

sábado, 4 de outubro de 2014

A Educação pela tradução (série: Educação e comunicação transcultural I)

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, e até o canário ficou mudo. Para não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam e eu ficava só, sem o perdão de sua presença e todas as aflições do dia, como a última luz na varanda.
E comecei a sentir falta das pequenas brigas por causa do tempero na salada – o meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? As suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa, calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolhas? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.

Eles vieram com o texto acima. Texto de Dalton Trevisan, "Apelo". Escrito em forma de carta, já começa a complicar aí. Não para você, caro leitor, mergulhado em nossa cultura desde os primeiros suspiros de vida. Carta ou bilhete, a cultura oral deles não prevê essas nuances. Estou falando deles. Os meus “alunos estrangeiros" que não dominam a nossa língua e, muito menos, nossa cultura literária (aliás, do mesmo jeito que a maioria dos alunos brasileiros em nossas escolas). O professor deles havia entregue esse texto seguido de dez perguntas para que respondessem. Mera autoilusão.

Tenho auxiliado nas matérias da Escola a alguns alunos indígenas. Ao ler o texto de Dalton Trevisan, percebi como era intocável aquela realidade textual para meus alunos: aquela realidade na qual o texto estava submergido. "Vocês sabem o que é apelo?", perguntei. "Não", responderam. Fui lendo aos poucos e traduzindo algumas palavras e frases para a língua materna deles, quando, então, percebi que havia algo mais do que palavras não compreendidas ou estrangeiras. Era algo muito mais profundo e escondido sob o manto dos simples significados diretos das palavras: era a cultura.

Meus "jovens estrangeiros" não apenas falam uma outra língua, como sua cultura é outra, diametralmente outra cultura. Assim, ainda que traduzisse todo texto para eles, havia algo distante, intocável. Estávamos ali diante de um mundo de palavras que traziam a cultura da vida cotidiana de um casal urbano, que não estava escrita, mas, ao mesmo tempo, estava inscrita fortemente ali a partir das palavras que não haviam sido escritas! E sem esse texto não escrito (muito maior em extensão e significados do que o texto escrito), jamais compreenderíamos satisfatoriamente a história naquela folha de papel.

Há um lugar-comum: "a língua é a chave para entendermos a cultura". Nada mais limitado e deformado do que essa sentença. A língua é UM elemento da cultura. E a cultura de cada um é muito maior do que nossas palavras. Ou, ainda, segundo o mestre Rosenstock-Huessy: "A língua vivente do povo sempre sobrepuja o pensamento do homem individual que pressupõe dominá-la".

Dois momentos fascinantes na tradução do nosso mundo ao mundo deles: explicar a pergunta "Acaso é saudade, Senhora?" e o surgimento inesperado daquele terceiro personagem "nós", que é revelado ao leitor somente no final.

Todo texto escrito guarda em si muito mais textos ocultos. O problema não se resumia em saber uma palavra equivalente à "apelo" na língua deles, mas, na cultura deles, encontrar o sentimento de abandono e esse desejo de que a Senhora volte. E mais, encontrar a razão da ausência de alguém ser tão presente ao ponto de se manifestar em objetos simples da vida cotidiana.

Traduzir é o ministério da (re)conciliação entre duas ou mais culturas, dois ou mais universos. Traduzir é aspergir algo possível da poesia de uma cultura sobre outra, acreditando que todos podemos ser convertidos e nos converter à cultura do outro.

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