domingo, 23 de novembro de 2014

"Eu lutei por você e o faria de novo"! (O lado "B" da vida missionária)

Porque tudo na vida tem dois lados...
Infelizmente, o Brasil está longe, muito longe de compreender e de honrar a liberdade e aqueles que lutaram e morreram para garanti-la a nós e aos nossos filhos.

E é impressionante como que, por não entendermos nada e nem a História (ou apenas por nos contentarmos com "a versão oficial" vendida pela Escola e pela Mídia emparelhadas nestas últimas décadas), elegemos democraticamente ideologias que foram refutadas à custa do sangue derramado pelas gerações anteriores, homens e mulheres muito mais corajosos do que somos hoje.

Nossos bravos pracinhas foram lutar com os aliados contra o fascismo e o nazismo durante a 2ª Guerra, mas muitos outros homens e mulheres, em todo o mundo, já derramaram seu sangue, suor e lágrimas, famílias perderam para sempre seus filhos, que lutaram contra as mesmas ditaduras que hoje o PT apoia.

Além desses bravos soldados da liberdade, há também militares de uma natureza diferente, forças armadas de um outro Reino. São marinheiros, aviadores e infantes que se colocaram bem na linha de frente de uma guerra que não é contra a carne ou o sangue. Estes, porém, estão desarmados, ou melhor, a única e poderosa arma que eles têm é a Palavra de Deus empunhada em suas mãos... Esses soldados lutam na batalha contra os principados e potestades deste mundo tenebroso e são chamados de "missionários".

Os missionários brasileiros, sejam católicos ou protestantes, que estão sendo perseguidos no mundo inteiro em países cujas ditaduras o PT apoia, viram perplexos muitos irmãos de suas igrejas votarem no PT. O mesmo PT que confraterniza e defende na ONU as mesmas ditaduras que perseguem e assassinam católicos e evangélicos no mundo inteiro!

Então, como ouvi alguém dizer: "Por favor, se você votou no PT, não seja hipócrita de assinar a Revista Portas Abertas"!

Sei também de muitos missionários que pagaram um alto preço, porque escreveram o que pensavam sobre as contradições de suas igrejas. A lista de mantenedores decaiu assustadoramente no correr dos anos. Muitos de seus mantenedores foram se fastando silenciosamente e outros tantos solicitaram, abertamente, que não queriam mais receber os informativos do trabalho, porque esses missionários tentaram chamar a atenção para as contradições do que se fazia dentro de suas próprias igrejas.

Se o soldado tiver que morrer pela liberdade que acredita, ainda que morra só, ele morrerá com a consciência tranquila de que é preferível obedecer a Deus do que aos homens: os verdadeiros e maiores heróis morrem anonimamente... Eu penso naqueles soldados que foram para o Irã, a Coreia do Norte ou qualquer outra ditadura apoiada pelo PT, um partido eleito pelos irmãos da Igreja...

Como também já ouvi dizer por aí: "A Igreja é o único exército que atira no próprio soldado". E, infelizmente, já vi soldados serem abandonados nas trincheiras pelos mais diversos motivos: mudança de liderança nas igrejas locais, que não tinham mais visão missionária; construção de muros nas igrejas locais, decidindo-se por cortar na parte "menos interessante", que é logo missões; projetos missionários "mais interessantes" ou emblemáticos para se apoiar em detrimento de outros que, aos olhos da igreja, não "rendem" tanto assim; a igreja que esquece do missionário enviado; etc. Quem acompanha "missões" sabe que são diversas as razões apresentadas por uma igreja para deixar ou nem começar a se comprometer com a obra missionária. Entretanto, somado a quaisquer dessas razões, vi surgir mais um item nessa triste relação: a razão ideológico-partidária.

O parágrafo acima descreve o "lado B" de missões. Para quem é muito novo e não lembra das antigas fitas cassetes ou dos bolachões pretos que comprávamos nas lojas de Disco, vou explicar: as melhores músicas (ou, pelo menos, as mais comerciais) ficavam do lado "A" do disco ou da fita. Reservava-se o "lado B" para aquilo que não era tão apelativo, tão instigante ou comercial no trabalho daquela banda. Até aquelas músicas de última hora, feitas às pressas para poder fechar o disco, eram encaixadas ali no lado B.

Nem sempre gostávamos das músicas do lado B. Mas elas vinham juntas. Elas soavam estranhas. Quase sempre comprávamos os LP's por causa de uma música que estava "estourando" na rádio. Aí aprendíamos a gostar das outras músicas do disco. Com "missões" fazemos a mesma coisa: selecionamos aquelas histórias que nos interessam mais, que são mais emocionantes pelos relatos de heroísmos e impactos emocionais que causam na igreja local. Mas poucos se dão conta de que há um lado B nessa história toda. Em geral, são os altos índices de missionários frustrados, que retornam magoados e feridos com a igreja local e sua liderança; missionários cujas famílias foram despedaçadas no Campo e, no fim, poucos se importaram; missionários cujas agências missionárias pra-eclesiásticas deram de ombro durante suas crises mais intensas; soldados que não "produziram" conforme o esperado ou que manifestaram suas doenças psicológicas e emocionais longe, muito longe de casa. Há muitas histórias que poderiam compor livros e livros de um lado B do campo missionário e de igrejas que viraram as costas para seus soldados. Este é o "lado B". E mesmo que você o ignore, Deus não esquece daqueles que estão no Campo.  

É óbvio que este texto foi motivado pelo vídeo que posto aqui, mas há uma diferença crucial e dramática entre os soldados do vídeo e os soldados-missionários que enfrentam duras realidades em países cujas ditaduras são apoiadas pelo PT e por vários outros partidos da esquerda brasileira: ao contrário dos soldados do vídeo, os missionários estão com suas famílias no campo de batalha! Os missionários são pessoas de carne e osso que expõem suas esposas e filhos ao perigo dessas ditaduras. Você já pensou nisso? E apesar de tudo o que foi dito aqui, o missionário é aquele que continua a dizer: "Eu lutei por você e o faria de novo"! Assista ao vídeo. Não permita que a história seja contada pela metade, esquecida ou manipulada. 

sábado, 1 de novembro de 2014

O clube, a democracia e a Reforma Protestante


 "A liberdade depende da divisão do poder. 
A democracia tende a unir o poder [...] o federalismo é o único controle possível sobre a concentração e o centralismo".
Lord Acton

Quero propor a analogia do clube. Vamos supor que você participe de um clube. Você é sócio fiel do clube, paga as mensalidades requeridas e participa de suas reuniões. Sempre presente ao clube, você veste a camisa e o defende de todos que falam mal dele. Afinal, o clube é você e você é o clube!

Desde que você “nasceu”, você sabe que pertence ao clube. Você foi àquele clube, podendo ter escolhido qualquer outro, mas foi àquele que você decidiu associar-se. Problemas começam a acontecer, porém, você pensa: “Em qualquer lugar que eu vá, terei problemas. Todos os clubes têm seus problemas”! Convencido, você segue adiante. Todavia, há problemas com determinadas pessoas, diretores e sócios majoritários do clube e você pensa: “O clube é uma coisa e aquela pessoa é outra. Ela não é o clube. Os problemas que estão acontecendo se devem ao maucaratismo ou à má administração da diretoria e o clube, a instituição, não pode ser responsabilizado por isso”. E o que você faz nesse momento? Para defender o clube dos maus elementos que o estão corrompendo, você procura a presidência e apresenta a ela a lista de erros que vêm sendo cometidos pela diretoria. Pronto! Agora, tudo irá se resolver. Ledo engano!

De repente, você vai descobrir que a própria liderança apoiava e acobertava, e mais, também praticava os mesmos erros da diretoria! Havia um estatuto que deveria reger e regular as práticas e decisões do clube, mas o estatuto era terminantemente ignorado em razão da autoridade de alguns sócios. Ou traziam o estatuto apenas naqueles parágrafos em que o próprio estatuto era vago ou dava margem a favor da manutenção do próprio status quo. Não se tratava de um problema localizado, mas da própria estrutura, você descobre. E a presidência, para tentar colocar panos quentes sobre a situação, passa a prometer viagens e promoções a você. Entretanto, não era nada disso que você queria. Há erros e os erros são graves e é preciso que as coisas mudem. Para que a mudança ocorra, você começa a escrever e conversar com outras pessoas sobre o que está, de fato, ocontecendo. E é aí que o caldo entorna: o clube expulsa você!

Mas, por incrível que pareça, eu não estou me referindo à Reforma Protestante. Eu estou escrevendo sobre todo e qualquer indivíduo inserido em todo e qualquer grupo, seja este uma denominação eclesiástica, seja um partido político, seja uma associação de moradores e, até mesmo, um simples clube (ou mesmo um país). Lembro o caso daqueles dois parlamentares cristãos do PT que divergiam do partido quanto à questão do aborto e que terminaram sendo perseguidos e expulsos do “Clube”. Estas histórias são semelhantes umas às outras, porque, enquanto houver uma ideologia coletivista impondo-se sobre a individualidade, elas seguem um mesmo enredo (ainda que os atores sejam diferentes). A verdade que precisa ser enfrentada é que mesmo a democracia é tão somente um instrumento para alimentar a ilusão de liberdade do indivíduo. A democracia serve para cegar e manipular o cidadão, porque, até matematicamente, o seu voto não faz diferença. 

Pelo menos no tempo da Reforma não havia democracia para legitimar as decisões por meio de referendos, plebiscitos e urnas. Imagine a cena: Lutero ali, todo revoltadinho, recebe a resposta de que o “povo” deveria, então, votar as Reformas por ele propostas. O que ocorreria? Os poderes temporal e espiritual estavam nas mãos de um grupo majoritário e que possuía centrais sindicais de comunicação popular – as igrejas - em cada cidade espalhada pela Europa (mera ilustração para que você continue acompanhando meu argumento). Se o PT faz o que faz hoje, pressionando com “bolsa família” e a teórica perda de outras “conquistas sociais”, naquele tempo, a vitória de Lutero, via voto popular, seria apresentada ao “povo” como uma passagem, sem direito à escala no purgatório, rumo a algum lugar entre o sexto e o nono círculo do inferno de Dante! Não há dúvida da derrota de Lutero, pois a Igreja Romana garantia ao povo segurança temporal e espiritual, o que, indubitavelmente, já é muito mais do que o PT pode oferecer hoje.

Pior ainda seria uma enfatuada proposta de democracia representativa na época de Lutero. Imagine a cena: o partido de Lutero eleito, sempre via popular (afinal, “a voz do povo é a voz de Deus”), para votar em favor das Reformas Protestantes no Congresso contra a base governamental romana. O problema é que a Democracia não é tão simples assim e, mesmo num sistema bipartidário, há as pressões de lobistas, de grupos que não se sentem representados no Congresso, a imprensa também já faria sua pressão com publicações sensacionalistas de última hora pregadas nas portas das melhores igrejas locais, etc. E os reis e os príncipes? Imagine a pressão e intervenção destes num processo “democrático”! Os artistas da Renascença, certamente, apareceriam em defesa das causas mais populares (ou, para não perder o seu direito à teta governamental da época, votariam com o mecenas que mais lhes garantissem benefícios financeiros)! Democracia é isto!

Neste quadro ficcional de realidades incômodas que exponho, os acordos e as cisões ocorreriam e surgiriam os novos partidos que montariam o espectro político daquele momento à época da Reforma. Por causa de detalhes na proposta da Santa Ceia, surgiriam, pelo menos, além do partido de Lutero, o de Zwínglio e o de Calvino. Porém, estes três grupos acabariam representando uma parcela muito intelectualizada e prestigiada da sociedade (seriam acusados de ser a “elite branca paulista”). Para suprir os apelos dos camponeses, surgiriam os partidos mais radicais: os de Menno Simon e tantos outros que se multiplicariam a partir daí. O fato é que para cada desavença teológica um novo partido irá surgir e, portanto, uma necessidade maior de trocas e acordos precisaria ocorrer para garantir a governabilidade. Isto se fosse uma democracia, claro. Mas, se a democracia fosse o regime na época de Lutero, ela teria inviabilizado o impacto religioso, cultural e político da Reforma e a secularização do Cristianismo teria ocorrido de forma muito mais acelerada (como depois ocorreu desde o advento da democracia representativa). Enfim, a democracia é um mito se eu não posso escolher não viver debaixo dela!

Agora, sinceramente, no quadro ilustrativo descrito no parágrafo anterior, você realmente crê na tese da “alternância de poder”? Imagine que tenhamos um Governo religioso ora romano, ora puritano, ora romano de novo... Foi o que aconteceu na Inglaterra à custa de muito sangue derramado. Mas, ainda que democraticamente, imagine os puritanos ou os anabatistas com um projeto semelhante de poder do PT: 20 anos no trono da Inglaterra (ou melhor, “aparelhando” a Casa dos Comuns)! Ainda que houvesse “alternância de poder”, tese mais defendida pelos que queriam mudança nas últimas eleições, esta proposta democrática só daria certo numa alternância entre semelhantes (esquerda hard e esquerda soft, como era o caso) e jamais entre opostos (esquerda e uma direita mesmo), por isso que, na verdade, o PSDB e o PT não são tão diferentes como muitos gostariam que fossem, assim como os Democratas e Republicanos estão cada vez mais parecidos um com o outro. A democracia representativa, que necessita do apoio popular para justificar-se, leva a isto com o tempo: a vinda de uma longa noite em que todos os gatos são pardos...

Enfim, o que é a tão defendida democracia? E eu sei que corro um sério risco de ser queimado na fogueira por dizer isto (“queimar na fogueira” seria no tempo de Lutero, desculpa, hoje, na democracia, a estratégia é a “queima das reputações”): a democracia é uma tirania legitimamente eleita, em que 51% dos eleitores repassaram o direito ao governo de suprimir o direito dos outros 49%, parafraseando Thomas Jefferson. Mas nem é tão simples assim, pois, na vida real, ainda houve os votos brancos e nulos, que são a indiferença e o descaso de muitos que, no fim, servem apenas para a manutenção do que aí está.

A Democracia representativa não é a única alternativa, ela não pode ser apresentada como o ápice da história, muita coisa pode ser debatida para o bem do indivíduo. Precisamos abrir espaços para que outras propostas sejam apresentadas sem que haja acusações de preconceito, racismo ou heresia. Devemos derrubar o mito terrorista de que a única alternativa à democracia é a tirania. Ao contrário, a história mostrou que tiranos chegaram ao poder democraticamente eleitos. Se não começarmos a rever a idolatria social pela Democracia, que sobrevive graças à aura de sacralidade que não permite que possamos exigir mudanças reais, será indubitável que nossos filhos continuem a confundir democracia com liberdade e contraiam uma altíssima dívida pela ausência de alternativas viáveis a tudo isso que tem sido a democracia nestes últimos 200 anos.


Eu queria terminar chamando sua atenção para a razão da imperfeição na minha analogia do clube: ainda que o indivíduo tenha a “liberdade” de escolher outro clube, há um Estado legitimamente eleito que impõe as mesmas regras a todos os clubes, do Oiapoque ao Chuí. Não há nem como fugirmos de São Paulo para o Acre, porque não existe essa opção. Está aí um bom começo de conversa: menos democracia e mais federalismo (de fato)!                        

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