terça-feira, 27 de setembro de 2016

A Igreja sem parede do Evangelho Total

O madeiro em que Cristo foi pendurado formava-se de duas traves de madeira cruzadas uma sobre a outra e, obviamente, sem uma delas, jamais poderíamos dizer que aquilo fosse de fato uma cruz. Semelhantemente, o próprio Jesus resumiu toda a lei dos antigos em apenas duas – amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo – e não podemos dizer que há ensino completo se subtraímos qualquer um desses dois mandamentos. Quando Cristo morreu fora de Jerusalém, o véu que nos separava foi rasgado dentro do Templo, fazendo com que, finalmente, tivéssemos livre acesso ao Pai. Todavia, não apenas o véu, mas também a parede que separava judeus e gentios, parede em que havia inscritas ameaças de morte aos gentios que entrassem no Santo dos Santos, foi derrubada na Cruz de Cristo. Este é o Evangelho Total pregado por Paulo em sua carta aos efésios.
Deus havia levantado Abraão para abençoar todas as famílias da terra e não apenas as famílias israelitas. Israel recalcitrava em não compreender o ensino duplo de Deus: a nação de Israel havia sido escolhida para ser “luz para os gentios” e não somente para gozar a salvação gratuitamente oferecida na Aliança. E muitos cristãos do Novo Testamento – judeus convertidos – estavam repetindo o mesmo erro com os gentios agora trazidos ao Evangelho de Jesus. O ensino completo que Paulo expõe em sua carta é que, do mesmo modo que o véu foi rasgado para todos – judeus e não judeus – a parede da separação também fora derrubada naquela mesma cruz. Em Cristo Jesus, os que outrora eram dois povos agora foram feitos apenas um único povo. Este é o grande segredo revelado em Jesus. No Evangelho Total é que encontramos a glória de Deus, do contrário, “Missões” desintegra-se nas mãos de uma igreja claudicante. Infelizmente, a despeito da clareza desse duplo ensino, ao longo da sua história, a Igreja cristã errou muitas vezes.
A Igreja de Jesus deveria ser o lugar da comunhão dos santos, mas o que temos visto são alguns celeiros que reproduzem o discurso de ódio racial, de uma teologia sectária de gueto, de uma ojeriza ao estrangeiro, etc. Ensinos de homens e ensinos de demônios – ideologias espúrias ao Evangelho – ocupam o vácuo deixado por uma pregação que falhou em não apresentar o Evangelho Total, promovendo um sincretismo nefasto entre o puro e simples Evangelho com filosofias mundanas.
Os cristãos terminam por absorver o discurso de segregação promovido pelo Estado e, por isso, a resistência dentro de nossas igrejas ao trabalho missionário torna-se ainda maior, pois, onde o Evangelho Total deveria trazer reconciliação, a interferência impositiva do Estado promove a divisão. A Igreja de Jesus não pode cair na armadilha de não alcançar os povos indígenas do Brasil, “porque eles já são muito protegidos pela FUNAI”; “porque o índio é uma minoria privilegiada sob a tutela do Estado”; “porque é muita terra para pouco índio”; “porque eles cobram pedágio aos que passam de carro em suas terras”; “porque eles vendem nossas riquezas aos estrangeiros”, “porque índio é igual criança: já está salvo”, etc.
Estes são alguns dos argumentos (muitos fabricados levianamente) que tenho ouvido dentro das próprias igrejas cristãs e que impedem estas de obedecerem ao trabalho missionário entre os indígenas. Não é de surpreender que muito mais se faça pelos povos fora do Brasil do que o que tem sido feito no quintal de nossa própria casa. Entretanto, quero que você saiba: são 258 povos indígenas no Brasil e 195 línguas diferentes faladas por eles no nosso território e, envergonhemo-nos, 120 desses povos ainda não conhecem o Senhor Jesus! Dos 258 povos indígenas no Brasil, apenas 40 possuem o Novo Testamento em suas línguas e outros 5 possuem o Velho Testamento.
Além disso, enquanto nos últimos 13 anos o número de missionários transculturais trabalhando no exterior quintuplicou, passando de 400 para 2.000, houve um crescimento insignificante de brasileiros trabalhando com missões indígenas: em 13 anos, o número foi de 400 para apenas 600 missionários!
A parede que nos separava uns dos outros já foi derrubada, mas muitos líderes da Igreja Evangélica Brasileira desconhecem a realidade da existência de uma Igreja Indígena no Brasil. Uma igreja que precisa ser apoiada, discipulada, amada e receber o nosso investimento espiritual e financeiro. Se a Igreja Brasileira não abraçar e compreender a questão indígena, outros o farão. E, assim, condenaremos muitos desses povos a continuarem manipulados tanto pelo Estado como por outros grupos que, não apenas se alimentam das trevas em que esses povos se encontram, mas querem mantê-los nessas trevas para sempre.
Jesus é tudo para todos e nossas Igrejas precisam resplandecer essa verdade, esse ensino total. É na pregação do Evangelho Total que a paz deve ser instaurada em relação ao estrangeiro, ao gentio, ao outro. O Evangelho Total deve integrar a reconciliação de Deus com os homens e a comunhão entre todos os que têm vindo dos mais diferentes povos da terra, “pois foi Cristo quem nos trouxe a paz, tornando judeus e não judeus um só povo. Por meio do sacrifício do seu corpo, ele derrubou o muro da inimizade que separava judeus dos não judeus” (Ef 2.14).
Publicado originalmente no GospelPrime

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