segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A alma barroca da escola no Brasil

“O que a cosmovisão teísta cristã conseguiu fazer no Brasil em prol do professor e da Escola?”, foi a pergunta que deixei no artigo anterior desta série sobre Escola e Educação.
O primeiro ponto do qual devemos tomar consciência, se é que queremos levar essa discussão às vias de fato, é que nossa cultura é fortemente romana, católico-romana. Se escavarmos a cosmovisão reformada, que é aquela forjada a partir da Reforma Protestante como resgate de uma maneira bíblica de ver o mundo, não encontraremos nela nada que justifique essa mentalidade do professor como sacerdote.
Ao contrário, a cosmovisão cristã reformada tem como um dos seus postulados que o sacrifício de Cristo é suficiente não cabendo mais o papel messiânico, salvador, sacrificial a mais ninguém, só a Jesus. Pessoa alguma deve receber impositivamente sobre seus ombros a responsabilidade da redenção de outra pessoa ou de sua intercessão, do mesmo modo, nem o Estado, nem a Escola ou professores – braços do Estado – podem encarnar a opção de serem agentes de transformação e implantação do céu na terra.
Na cosmovisão reformada, fica evidente que professor algum deve ser tratado por quem quer que seja como um sacerdote, ainda que, por livre vontade, um sacerdote possa ser um professor. Mas esta segunda proposição é de natureza bem diferente da primeira.
A compreensão do Brasil, portanto, passa pelo romanismo. Ainda que nas últimas décadas possamos constatar um forte e contínuo crescimento das denominações evangélicas, a maioria dessas “novas denominações” não participaram dos 4 séculos anteriores da formação do espírito nacional.
No caso das denominações históricas, as igrejas protestantes não tiveram uma influência marcante e decisiva como foi, indubitavelmente, a presença jesuítica, que se estendeu do “Oiapoque ao Chuí” deste Brasil com fortíssima ênfase educacional. Até que Marquês de Pombal expulsasse a Companhia de Jesus, os primeiros 200 anos de história do Brasil tiveram a marca desse grupo, que dominou o campo religioso e educacional no país.
Sabemos da presença dos huguenotes, enviados por João Calvino ao Brasil na segunda metade do séc. XVI, tanto para apoiar os franceses na Baía de Guanabara como para evangelizar os Tupinambás.
Eles fazem parte da História da Missão não só por terem escrito a Primeira Confissão de Fé das Américas, A Confissão de Fé da Baía de Guanabara (a Confissão Galicana, a Confissão Belga, o Catecismo de Heidelberg e a Confissão de Fé de Westminster foram todas escritas depois da nossa Confissão da Guanabara), mas também por terem sido os primeiros mártires que derramaram o seu sangue em defesa do Evangelho no Brasil, constando que a morte de um desses huguenotes teve a participação do jesuíta Padre José de Anchieta.
Assim, condenados pelos jesuítas, a presença dos huguenotes franceses entre nós foi curta. Logo após, durante a União Ibérica (1580-1640), novos protestantes calvinistas, vindos agora da Holanda, deixaram a marca de sua modernidade e evangelização, principalmente entre os povos indígenas e em cidades do Nordeste como, por exemplo, Recife.
Com a abertura dos portos, no século XIX, muitos outros protestantes viriam ao Brasil, porém, por meio da primeira Constituição do Império de 1824, foi proibido quaisquer sinais externos que identificassem os templos evangélicos por aqui. Por tudo isso, podemos perceber nesses exemplos que nada se compara com a presença jesuítica.
Surpreendentemente, a influência da Igreja Católica Apostólica Romana na nossa cultura é tão proeminente que levou o Rev. Augustos Nicodemus, ministro da IPB, a escrever o artigo intitulado: “A alma católica dos evangélicos no Brasil”, para explicar o fenômeno do poder da cosmovisão romana dentro das Igrejas Evangélicas no Brasil.
E isso, por fim, faz-nos encontrar a raiz da confusão entre o professor e o sacerdote na mentalidade brasileira dominada tão fortemente pela figura do sacerdote católico jesuíta.
Se você, caro leitor, quiser se aprofundar ainda mais nessa minha tese acerca dessa “cosmovisão barroca”, sugiro não apenas a leitura do artigo do Rev. Augustus Nicodemus, mas também do meu artigo “Eu quero fugir da lógica do negociador”, no qual trato desta “alma católica” como sendo o espírito da própria Contra-Reforma, espírito esse encarnado pelos jesuítas, que, no Brasil, moldou nossa cultura por meio da arte barroca (ambos os artigos podem ser lidos a partir daqui).
No nosso país, nessa “cosmovisão barroca”, encontramos a motriz que alimenta a visão do professor-sacerdote, que é apenas um dos problemas que enfrentamos aqui. Na verdade, há um tripé que marca a destruição da Escola no Brasil. Os outros dois elementos são outras duas maneiras de ver o mundo, a mentalidade revolucionária e a mentalidade estatizante. E elas vão situar o Brasil num quadro maior, encaixando-o num programa de destruição da sociedade ocidental que vai muito além das nossas fronteiras.
É sobre elas que pretendo tratar nos próximos artigos, antes de finalizar esta série com as possíveis soluções para a Escola e a Educação brasileiras.

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