quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Ao mestre com carinho – uma antipática reflexão para este 15 de outubro

…o sistema atual de ensino não tem por objetivo realmente educar, mas somente distribuir socialmente os indivíduos, por meio do ritual de certificados e diplomas. A escola formal (…) não é um meio de educação, mas um meio de “promoção” social, fato que as pessoas humildes revelam perceber quando insistem com o Joãozinho: estude, meu filho, estude…
José Monir Nasser, Prefácio do Trivium
Hoje eu sei que tive pouquíssimos professores. Nesta minha caminhada, foram raros os mestres que encontrei. E não é por falta de conhecer professores! Todavia, que tristeza confirmar que muitos são aventureiros e mercenários nesta profissão: carregam um título e, às vezes, um diploma, pensando ser isso o que outorga a alguém o “ser professor”.
A verdade é que “ser professor” é algo para qualquer um nestes tempos modernos. Em Brasília, por exemplo, conheci muitos que eram veterinários, farmacêuticos, advogados, etc. Eles eram pessoas que não deram certo em suas profissões, estavam desempregados ou, simplesmente, precisavam aumentar o orçamento familiar e, por isso mesmo, terminaram optando por uma sala de aula. Faziam parte dos chamados “contratos temporários”.
Nem quero lembrar o dia em que, passando em frente de uma sala de aula de 4ª série, vi um desses “professores” sentado na cadeira de sua mesa, com o jornal aberto bem em frente do seu rosto para esconder que estava dormindo, enquanto seus alunos – crianças com 9 anos de idade – subiam nas mesas e se matavam uns aos outros…
Ou para que relembrar os “professores” que foram transferidos das suas escolas de origem para outras mais distantes “só porque” vinham mantendo relações sexuais com alunas menores de idade. E aqui, perplexo, vi que tais professores nunca sofreram as devidas penas por seus comportamentos criminosos, ainda que os pais os denunciassem.
Evidentemente, sempre há aqueles cheios de boas intenções (mas, como diz minha mãe, de boa intenção o inferno está cheio). Esses são os esforçados, os sonhadores, os peões de obra, a carne numa máquina que os mói e os gasta ao máximo até o ponto de suas falências emocionais e espirituais. Contudo, boas intenções não fazem de alguém um mestre de verdade. Esse grupo é muito bom para ser usado pelo Governo. São aqueles sempre dispostos a aplicar aquelas tais pedagogias modernosas (as ideias inovadoras de educadores de gabinete) com suas aulas cheias de dinâmicas em grupo e vazias de conteúdo. Tudo muito visível para poder aparecer no jornal local da cidade, tudo bem maquiado com seus projetos mirabolantes e suas apoteoses de fim de ano. Acho que esse grupo se identifica com aquela pecha chamada sacerdócio, uma mentira diabólica contada para fazer do professor alguém muito parecido com um profissional masoquista de alguma loja de sex shop ou casa de prostituição, essas estranhas pessoas que recebem dinheiro para ter (ou fingir) prazer em sofrer.
Nem vou perder tempo com aquele outro nefasto grupo de vagabundos que usam a profissão para fazer política partidária. Esses pareciam mais agentes sindicalistas infiltrados: falavam sobre a opressão capitalista, organizavam greves e piquetes, bradavam frases de “ordem”, saíam para encher a cara com os alunos e comiam as aluninhas alienadas e feministas. Porém, algo muito maior caracteriza tal grupo: faziam da escola o seu trampolim político! Depois de todo movimento grevista (sempre em época de eleição), os que se destacavam na luta por maiores salários eram eleitos pelos seus pares vestidos com camisas de che guevara.
Diante desse quadro, pergunto: cadê os tais professores? Por onde andam aqueles mestres que deveriam alterar o curso de nossas vidas, revelando os valores de uma verdadeira educação? Os homens de cultura invejável, os homens detentores de um profundo saber e dispostos (e preparados) a compartilhar com seus pupilos o mundo das grandes tradições milenares: as filosofias, as matemáticas, as estéticas, as culturas, as religiões, as literaturas. Cadê estes tais professores? Que deveriam nos arrancar do mesmismo de nossas vidas encaixotadas e mostrar que o mundo não é este meu umbigo e nem a realidade pífia do dono da boca de fumo do bairro em que eu moro.
Mestres que se empolgam em ensinar que houve gigantes antes de nós e que, na verdade, temos ainda muito que aprender antes de pensarmos em questionar alguma coisa. Porém, há um delírio nas novas pedagogias, a crença dogmática de que a criança traz da sua casa, da rua, do mundo em que ela vive, um saber que precisa ser ensinado e validado na escola.
E pior, o professor tornou-se essa coisa comum, o semelhante, o tão igual a mim a ponto de não ter nada a acrescentar à minha vida: o meu professor é igual ao meu colega, gosta das mesmas coisas que eu gosto, ouve as mesmas músicas que eu ouço, fala as mesmas gírias que eu falo e ainda compartilha das mesmas referências sexuais de “intelectuais” como os apresentadores do CQC ou do “Porta dos fundos” ou, ainda, de algum artistazinho global. Enfim, a maioria das escolas, públicas e particulares, tornou-se esse lugar-comum de pessoas-comuns cuja grande inovação educacional é sistematizar mais do mesmo. E só.
Cadê os tais professores? Sim, eu os conheci na minha trajetória estudantil. A grande ironia é que pouquíssimos desses mestres foram encontrados por mim em um ambiente de Escola, mas foi fora dela que eu tive o privilégio de me deparar com a maior parte deles. E é a esses que eu dedico esta minha antipática reflexão sobre este 15 de outubro. A eles e apenas a eles, os meus mais sinceros parabéns!

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