segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Morrer é pior do que a morte

Ele me contou que o filho da sua irmã havia sido enterrado vivo. Fora o próprio pai dele – avô da criança – que a enterrara. Lembrou-se também que sua mãe e sua irmã choraram muito naquele dia na aldeia, enquanto seu pai sumia mata adentro com aquele bebezinho.
Lembrei-me das crianças assassinadas ainda na barriga de suas mães na cidade: os fetos que são esmagados, perfurados, picotados, envenenados, sugados, etc. Percebi que a morte não respeita a cultura. A crueldade humana também não.
Há muito, porém, que a morte já não é mais o summum malum. Habituamo-nos à irmã de Hipnus, talvez porque a morte esteja banalizada pela excessiva exposição diária da mídia dentro de nossas casas ou talvez porque já estejamos morrendo há tempos demais.
A linguagem médico-forense é que nos traz a diferença entre a morte e o morrer, sendo aquela um conceito abstrato difícil de ser aplicado (mesmo em pleno século XXI), enquanto este é uma experiência que pode ser acompanhada por todos nós, por exemplo, no leito de um moribundo antes de sua morte.
Se já não pesa ao homem moderno o medo da morte, ainda lhe atemoriza a possibilidade de uma morte violenta, este morrer que não permite que a morte chegue de uma vez por todas, aliviando a dor de um câncer que corrói ou findando logo a tortura de algum martírio infindo.
A morte de Jesus perturbara-o já no Getsêmani e depois na dor daquele terrível estertor na cruz, que se expandiu além do limite suportável. Ele carregou em si o nosso medo de uma morte que parece não chegar ao fim, quando enfrentou o cálice da Ira de Deus até a última gota.
Jesus não apenas enfrentou a morte, mas, enfrentando-a na cruz, conheceu também esse pavor tão humano de um morrer que parece não querer encontrar-se finalmente com a morte. Morrer é pior do que a morte. E até nisso Jesus tornou-se semelhante a nós.

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