sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Professor não é sacerdote – um artigo para depois do porre do Dia 15 de Outubro

Gostaria de pedir desculpas pelo meu último artigo (aqui). Um artigo que, como o próprio título já confessava, era muito antipático mesmo. Afinal, quem que no dia do aniversário do próprio casamento gostaria de saber da traição do cônjuge ou mesmo da conta que terá de pagar pelos festejos da festa? Há certas coisas que não se faz…
Gosto muito de “expressões idiomáticas”. Há uma em inglês que diz assim: “I’m gonna rain on your parade”. Traduzida ao pé da letra ficaria “eu vou chover no seu desfile”. E, como ocorre a toda boa expressão idiomática, não se pode traduzir “ao pé da letra”.
Na verdade, essa expressão equivale a uma que temos em português: “eu vou colocar um caroço de azeitona na sua empada”! A ideia é de “melar o seu jogo”, estragar com sua festa, frustrar a sua alegria e foi exatamente o que eu fiz com meu último artigo para muitos.
Todavia, após as comemorações do Dia dos Professores, quem sabe você já não esteja mais sob o efeito narcótico da data e possa enfrentar a realidade de um modo menos passional? Pois, venhamos e convenhamos, querido professor, é sempre muita purpurina que jogam sobre a classe para um único dia, não? E, como diz minha mãe, “esmola demais o santo desconfia”.
E você? Ainda não desconfiou? O seu Dia passou, mas o ano sequer terminou e os problemas continuam os mesmos: bibliotecas inexistentes, prédios decadentes, alunos desobedientes, pais ausentes, projetos pedagógicos inexplicáveis que o farão, no fim deste ano, passar alunos que nunca se esforçaram e nem fizeram por merecer, ao contrário, riscaram o seu carro, furaram seu pneu, ameaçaram sua integridade física…
Mas as homenagens do Dia 15 foram lindas, não foram? Você finalmente recebeu o que lhe faltou o ano todo: aquela caixinha de bombons ornamentada de sorrisos amarelos e aquele mesmo discurso que o capataz da fazenda, aquele capitão do mato, que pode ser o Diretor da Escola, o Coordenador da sua Regional de Ensino ou o Secretário de Educação do seu Estado, qualquer um deles expressando o que todos queremos que você acredite: “o professor é um sacerdote”!
Mas quem disse que o masoquismo faz parte desse sacerdócio? Sacerdócio?! Ora, tenham a santa paciência! Justificar o “dom” de ensinar com essa linguagem sagrada é querer maquiar uma realidade infernal na maioria das escolas do Brasil. Relembre o caos em que nos encontramos (aqui).
A quem serve esse discurso religioso nos lábios de um Estado que exige do cidadão comum a laicidade (quando ao Estado convém)? O sacerdote, diz a crendice popular, é o santo. E você sabe muito bem para que serve o santo, não?
O santo é aquele que sofre para abrir caminho para o povo. O sacerdote é aquele que trabalha de graça, recebe sobre seus ombros toda dor do mundo, sacrificando-se para que todos possam ter acesso ao céu. O sacerdote, o santo, é aquele que purga na terra para que o pecado de outros seja perdoado pelos méritos conquistados por esse “santo”.
Ora, caros amigos evangélicos, como vocês podem concordar com essa cosmovisão?
Se o indivíduo quer se “sacrificar” pelos seus alunos ou pela instituição ou partido (ou, quem sabe, pelo sindicato) isso deve ser feito por haver, de fato, escolha, porque nenhum sacerdote deve ser forçado pelo Estado a continuar sua romaria.
A verdade, entretanto, é que o Estado brasileiro usa e abusa dessa cosmovisão de “sacrifício sobre o altar” para justificar e manter os professores debaixo de uma gestão incompetente e corrupta moral e ideologicamente. Enquanto isso, toda sociedade, inclusive os próprios professores, acha lindo ver a categoria como sacerdotes "pobre-coitadinhos".
Queridos, “ser professor” é uma profissão e precisa ser tratada como tal. Se você a encara como algo “sagrado” isso é uma questão pessoal, mas que não pode ser usada para manter outras pessoas trabalhando em condições humilhantes e totalmente improdutivas.
Professor, valorize-se! Você não é o bode expiatório e nem o cordeiro que tira o pecado do mundo. E, por favor, entenda que aqui na terrinha brasilis não vai ter imperador japonês nenhum para ficar se curvando diante de você! Você é apenas uma peça na engrenagem de um Estado que trabalha para moer você e seus alunos.
As homenagens passaram, o dia 15 se foi, a caixinha de bombom está vazia e as flores que você ganhou e colocou naquela jarrinha de vidro na sala dos professores – vai lá ver – já estão murchas, mas a realidade trágica da educação no Brasil continua a mesma. Precisamos conversar mais sobre isso. Até o próximo artigo.

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