sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Quem é o seu samaritano?

Em Lc 10: 25ss, a partir da resposta do homem da Lei sobre a vida eterna, surge uma segunda pergunta: se a vida eterna está relacionada ao amor que devo ter a Deus e ao próximo, então, quem é o meu próximo? E, nesse ponto, sempre achei insuficiente a explicação de muitos comentaristas à resposta dada por Jesus. Veja.
Jesus responde contando uma história, que é a “Parábola do Bom Samaritano”. E, segundo Jesus, o “problema” da Bíblia reside em como o leitor a interpreta. A passagem em questão, por exemplo, já foi usada para criticar a igreja, para justificar a salvação pelas obras e, até mesmo, como base para a esquerda religiosa defender o conceito de “justiça social”.
A questão é “quem é o meu próximo a quem eu devo amar”? Resposta: a vítima dos salteadores amará o próximo dela, que é um samaritano. Vendo a atitude do samaritano, que venceu todo preconceito e todo ódio étnico, a vítima também fará o mesmo e se desarmará diante do samaritano, que a ajudou.
Agora faz sentido a resposta de Jesus ao homem da Lei: “Vá e faz o mesmo”. Fazer o mesmo o quê? As obras de misericórdia do samaritano? Não é esse o foco da passagem. O contexto surge da necessidade do homem da Lei em querer se justificar diante de Jesus, mas as obras de misericórdia nunca foram base da nossa salvação. “Até um samaritano faz melhor do que você”, estaria Jesus espezinhando o homem da Lei.
O que se espera como fruto de uma vida que ama a Deus é o amor ao próximo e não, simplesmente, obras de misericórdia que até um impuro samaritano – que adora o que não conhece (Jo 4:22) – faz melhor do que pessoas que se apresentam como povo de Deus. A mensagem que não excede a prática das boas obras é tudo menos o Evangelho Total, que devemos pregar aos samaritanos.
Portanto, vença seus preconceitos e ódios raciais e, quebrado o muro da separação dentro da igreja, ame o seu “samaritano”, que pode ser alguém, eticamente falando, muito melhor do que você. Deus escolhe samaritanos para nos envergonhar, porque devemos fazer as obras que eles fazem e muito mais: devemos apresentar o verdadeiro Deus a eles.

Publicado originalmente no GospelPrime.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Por que devemos sair às ruas?

O homem é um animal social. Todavia, já identificava Aristóteles, outros animais também são sociais. As abelhas, por exemplo. A questão é: como pode o homem, dentre tantas formas de vida, ter se sobressaído de maneira tão singular ao ponto de alterar o modo de viver e transfazer o mundo em que vive?
O homem, muito mais do que o reduz a nossa vã antropologia moderna, é um ser que transcende. O próprio Aristóteles dirá que, ao contrário de outros animais sociais, o homem é o ser que fala e isso o distingue dos demais animais que se veem controlados por instintos.
No livro I, A Política, Aristóteles dizia que “a fala tem a finalidade de indicar o conveniente e o nocivo, e portanto, também o justo e o injusto; a característica específica do homem em comparação com outros animais é que somente ele tem o sentimento do bem e do mal, do justo e do injusto e de outras qualidades morais, e é a comunidade de seres com tal sentimento que constitui a família e a cidade”.
Eugen Rosenstock-Huessy defende que fomos moldados, impressos ou estampados pela linguagem. A fala moldou o ser humano. Mas a fala de quem? A fala de Deus. Eugen escreveu que “o Homem está reverberando a Palavra… [Deus] é o poder que nos faz falar”. O homem foi “falado pela linguagem”. Eugen considerava “a linguagem o campo privilegiado de manifestação do Espírito Santo”.
Porque o nosso Deus é um Deus da fala – pois desde o princípio era o Verbo – é que falamos também. Queremos falar e registrar essa fala na escrita, produzindo cultura. Esta é a nossa herança: o que aprendemos e a maneira como aprendemos devem ser repassados aos nossos descendentes. Este é o nosso direito natural. Por isso, devemos ir às ruas.
O espaço público é o areópago da língua e é por meio desta que podemos transmitir memória e acúmulo de sabedoria às futuras gerações. A língua, a fala, o discurso sairá sempre às ruas, porque as ruas não são monopólio de um partido ou de um governo: a praça é da palavra!

terça-feira, 27 de setembro de 2016

A Igreja sem parede do Evangelho Total

O madeiro em que Cristo foi pendurado formava-se de duas traves de madeira cruzadas uma sobre a outra e, obviamente, sem uma delas, jamais poderíamos dizer que aquilo fosse de fato uma cruz. Semelhantemente, o próprio Jesus resumiu toda a lei dos antigos em apenas duas – amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo – e não podemos dizer que há ensino completo se subtraímos qualquer um desses dois mandamentos. Quando Cristo morreu fora de Jerusalém, o véu que nos separava foi rasgado dentro do Templo, fazendo com que, finalmente, tivéssemos livre acesso ao Pai. Todavia, não apenas o véu, mas também a parede que separava judeus e gentios, parede em que havia inscritas ameaças de morte aos gentios que entrassem no Santo dos Santos, foi derrubada na Cruz de Cristo. Este é o Evangelho Total pregado por Paulo em sua carta aos efésios.
Deus havia levantado Abraão para abençoar todas as famílias da terra e não apenas as famílias israelitas. Israel recalcitrava em não compreender o ensino duplo de Deus: a nação de Israel havia sido escolhida para ser “luz para os gentios” e não somente para gozar a salvação gratuitamente oferecida na Aliança. E muitos cristãos do Novo Testamento – judeus convertidos – estavam repetindo o mesmo erro com os gentios agora trazidos ao Evangelho de Jesus. O ensino completo que Paulo expõe em sua carta é que, do mesmo modo que o véu foi rasgado para todos – judeus e não judeus – a parede da separação também fora derrubada naquela mesma cruz. Em Cristo Jesus, os que outrora eram dois povos agora foram feitos apenas um único povo. Este é o grande segredo revelado em Jesus. No Evangelho Total é que encontramos a glória de Deus, do contrário, “Missões” desintegra-se nas mãos de uma igreja claudicante. Infelizmente, a despeito da clareza desse duplo ensino, ao longo da sua história, a Igreja cristã errou muitas vezes.
A Igreja de Jesus deveria ser o lugar da comunhão dos santos, mas o que temos visto são alguns celeiros que reproduzem o discurso de ódio racial, de uma teologia sectária de gueto, de uma ojeriza ao estrangeiro, etc. Ensinos de homens e ensinos de demônios – ideologias espúrias ao Evangelho – ocupam o vácuo deixado por uma pregação que falhou em não apresentar o Evangelho Total, promovendo um sincretismo nefasto entre o puro e simples Evangelho com filosofias mundanas.
Os cristãos terminam por absorver o discurso de segregação promovido pelo Estado e, por isso, a resistência dentro de nossas igrejas ao trabalho missionário torna-se ainda maior, pois, onde o Evangelho Total deveria trazer reconciliação, a interferência impositiva do Estado promove a divisão. A Igreja de Jesus não pode cair na armadilha de não alcançar os povos indígenas do Brasil, “porque eles já são muito protegidos pela FUNAI”; “porque o índio é uma minoria privilegiada sob a tutela do Estado”; “porque é muita terra para pouco índio”; “porque eles cobram pedágio aos que passam de carro em suas terras”; “porque eles vendem nossas riquezas aos estrangeiros”, “porque índio é igual criança: já está salvo”, etc.
Estes são alguns dos argumentos (muitos fabricados levianamente) que tenho ouvido dentro das próprias igrejas cristãs e que impedem estas de obedecerem ao trabalho missionário entre os indígenas. Não é de surpreender que muito mais se faça pelos povos fora do Brasil do que o que tem sido feito no quintal de nossa própria casa. Entretanto, quero que você saiba: são 258 povos indígenas no Brasil e 195 línguas diferentes faladas por eles no nosso território e, envergonhemo-nos, 120 desses povos ainda não conhecem o Senhor Jesus! Dos 258 povos indígenas no Brasil, apenas 40 possuem o Novo Testamento em suas línguas e outros 5 possuem o Velho Testamento.
Além disso, enquanto nos últimos 13 anos o número de missionários transculturais trabalhando no exterior quintuplicou, passando de 400 para 2.000, houve um crescimento insignificante de brasileiros trabalhando com missões indígenas: em 13 anos, o número foi de 400 para apenas 600 missionários!
A parede que nos separava uns dos outros já foi derrubada, mas muitos líderes da Igreja Evangélica Brasileira desconhecem a realidade da existência de uma Igreja Indígena no Brasil. Uma igreja que precisa ser apoiada, discipulada, amada e receber o nosso investimento espiritual e financeiro. Se a Igreja Brasileira não abraçar e compreender a questão indígena, outros o farão. E, assim, condenaremos muitos desses povos a continuarem manipulados tanto pelo Estado como por outros grupos que, não apenas se alimentam das trevas em que esses povos se encontram, mas querem mantê-los nessas trevas para sempre.
Jesus é tudo para todos e nossas Igrejas precisam resplandecer essa verdade, esse ensino total. É na pregação do Evangelho Total que a paz deve ser instaurada em relação ao estrangeiro, ao gentio, ao outro. O Evangelho Total deve integrar a reconciliação de Deus com os homens e a comunhão entre todos os que têm vindo dos mais diferentes povos da terra, “pois foi Cristo quem nos trouxe a paz, tornando judeus e não judeus um só povo. Por meio do sacrifício do seu corpo, ele derrubou o muro da inimizade que separava judeus dos não judeus” (Ef 2.14).
Publicado originalmente no GospelPrime

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

"Nem tanto ao mar, nem tanto à terra" - ponderações à reportagem da Folha de São Paulo

Ponderações sobre a reportagem “Bolsa Família altera rotina de indígenas na região do Xingu” da Folha de São Paulo do dia 04/09/2016 

Jornalistas e antropólogos, em geral, sofrem de um mesmo mal: tomar a parte pelo todo e também o todo pela parte. Por isso, já li livros de antropologia que descreviam povos indígenas específicos, mas com características gerais que, na verdade, não lhes pertenciam. Do mesmo modo, já li em livros sobre a “cultura indígena” como se esta fosse única e onipresente do Oiapoque ao Chuí e como se todas as aldeias fossem um único e mesmo povo. Isso explica bem a linha de raciocínio encontrada na reportagem aqui em questão da Folha de São Paulo: uma reportagem que ora toma a situação específica (e já multicultural e complexa) do Xingu e a usa para fazer uma leitura do todo e ora toma o todo como se este pudesse explicar a especificidade do Parque Indígena do Xingu.

Assim, partindo de uma realidade singular, a saber, o caso de uma indígena e sua família que se deslocaram da aldeia para a cidade, o autor da matéria logo atribui a mudança ao Bolsa Família. O que a reportagem não aponta é que o Bolsa Família foi quem possibilitou a sua saída, porém, deveria ser óbvio, não é a causa da saída. A reportagem não diz quais os motivos que levaram à saída e acaba confundindo o meio usado para sair com a razão que, verdadeiramente, ocasionou a saída. As razões reais que estão por trás do êxodo indígena das aldeias para as cidades são fortes o suficiente para que, mesmo percebendo que só o Bolsa Família não é capaz de sustentar a vida na cidade, ainda assim as famílias preferem ficar do que voltar, como a própria reportagem mostra, mas não questiona. Não seria o caso de fazer uma reportagem sobre o porquê de famílias terem usado o Bolsa Família para sair das aldeias? E o porquê delas não voltarem mesmo diante de dificuldades vividas na cidade?

Um acerto da reportagem: o Bolsa Família foi um programa implantado às diversas realidades de um país de dimensões continentais e multicultural sem as necessárias adaptações para cada região. Um erro da reportagem: atribuir a causa do deslocamento às cidades aos programas sociais do Governo, quando, em boa parte das aldeias Brasil afora, esse movimento já se dá intensamente há décadas. Por que não se buscar as razões reais que geram a saída dessas famílias indígenas de suas aldeias? Vou responder: porque o próprio Estado e suas fracassadas e irresponsáveis políticas públicas vem, há mais de meio século, condenando os povos indígenas a situações de risco nas aldeias. Porém, é muito mais fácil culpar o “Bolsa Família” do que enfrentar décadas de políticas de tutela impostas sobre esses povos. 

Hoje em dia, a maioria (senão todas) das aldeias do Xingu possuem pista de pouso. Além disso, as estradas de terra, a presença das balsas, os barcos com motor, os caminhões e as motos facilitaram o trânsito às principais aldeias num tempo de 12 horas até 3 dias no máximo. Dizer que os indígenas dentro do Xingu demoram 20 dias (?!!!) para chegar na cidade mais próxima de suas aldeias são casos muito inusitados e que não representam o todo do Parque. É querer criar para aquela Região uma falsa ideia de isolamento. Acredito que é uma estratégia de impacto emocional da reportagem que reforça o argumento de que o “Bolsa família” é a causa do deslocamento de famílias em busca do dinheiro nas cidades e que o tempo longo desse deslocamento afeta a vida na aldeia. Porém, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. 

Indo ao ponto: querer responsabilizar o Bolsa Família pelo êxodo indígena é, na minha opinião, um fetichismo ridículo. Prova disso é que, na reportagem, a falta de dinheiro não ocasiona o retorno à aldeia. Em outras palavras, os indígenas estão saindo das aldeias com ou sem Bolsa Família. Cito mais abaixo os dados do IBGE de 2010 para que se perceba que a saída dos indígenas do Xingu (saída que se dá também em outras aldeias e na sociedade não-indígena) para as cidades se dá bem antes da “popularização dos programas sociais”, que, segundo é dito na reportagem, deu-se entre os anos 2012 e 2013. 

Por que eles estão saindo das aldeias? Sinceramente, não é difícil perceber que eles estão saindo não é pelo que eles têm agora (dinheiro), mas eles saem das aldeias pelo que eles não encontram nelas: qualidade de vida, escolas melhores, saúde e segurança (sim, os indígenas também sofrem com esses problemas em suas aldeias, por exemplo,  em determinadas culturas, quando um indígena é acusado de feiticeiro e de ter sido o responsável pela morte de alguém, ele e sua família tem que fugir para não serem mortos: é a economia do xamanismo).

Contudo, não se deve tentar encontrar as razões das saídas dos povos indígenas para as cidades apenas sob aspectos negativos. Muitos desses povos, culturalmente, são nômades. A própria criação de um Parque que os fechou num universo limitado vai contra a natureza de buscar sempre um melhor lugar e, sob essa perspectiva, para muitas dessas famílias a cidade tem se apresentado como uma alternativa. 

A reportagem tenta, claramente, culpar o Bolsa Família por todo o mal que existe décadas antes da chegada do programa nas aldeias. O fato de acusar o Bolsa Família de acelerar problemas como obesidade, hipertensão e diabetes nas comunidades indígenas, mais uma vez, serve apenas para distrair a opinião pública dos verdadeiros problemas enfrentados por esses povos.

 Programas sociais como o Bolsa Família trazem sempre a sua cota de benefícios e malefícios, que são distribuídos a curto, médio e longo prazo. Poderia, por exemplo, repetir aqui o óbvio: programas assistencialistas de longo prazo são danosos à economia do país e à formação do caráter das pessoas que se beneficiam desses programas. Sim, se há males que vêm para o bem, há também bênçãos que, usadas de maneira incorreta, tornam-se maldições para seus detentores.

  A curto prazo, programas sociais resolvem aqueles problemas que necessitam de resposta imediata. Contudo, tais intervenções estatais precisam de planejamento que se preveja levar o beneficiário à conquista da independência desses mesmos programas.

Se na sociedade majoritária a implantação do Bolsa Família gerou críticas e criou problemas que imploram por uma política de autonomia do cidadão em relação ao Estado, imagine quando tratamos de povos minoritários e, mais especificadamente, povos indígenas!

O maior erro no retrato traçado de grupos sociais é enquadrá-los como se fossem exatamente aquilo que é dito sobre eles na nossa rápida pesquisa no google ou em trabalhos acadêmicos que insistem em recriar e projetar a todos uma visão que é específica de determinada comunidade local e que, portanto, não passa de recorte de uma realidade muito limitada. 

      Afinal, no Brasil, segundo dados do IBGE de 2010, há mais de 240 povos indígenas e eles somam 896.917 pessoas. Destes, 324.834 vivem em cidades e 572.083 em áreas rurais, o que corresponde aproximadamente a 0,47% da população total do país. A maioria desses povos são de línguas e culturas diferentes e vivem em condições sociais também diferentes uns dos outros. Qualquer programa social que não considere essa diversidade sociocultural representa uma violência do Estado contra a dignidade e cultura deles.

       Por um lado, o Bolsa Família tem resolvido problemas de fome e desnutrição de povos indígenas que viviam à margem da sociedade e estavam condenados a não sobreviver devido ao surto de epidemias, mudanças drásticas do meio ambiente, invasão de suas terras, queimadas ilegais, etc. Um outro ponto muito positivo na aplicação de programas sociais nas aldeias é que, onde se praticava o infanticídio, houve uma mudança nessas práticas graças ao apoio financeiro dado pelo Governo para a chegada dessas novas crianças. O problema é que, sendo o infanticídio indígena ainda um tabu acadêmico, pouco se sabe desse impacto positivo na vida dessas crianças como eu mesmo já pude testemunhar.

    Por outro lado, é preciso que se denuncie o estado de povos indígenas que se veem escravizados pela prostituição, pelas drogas, pela dívida financeira, pelo vício do álcool, entre outras perversidades, uma vez que os programas sociais do Governo têm possibilitado acesso ao dinheiro por meio das aposentadorias, auxílios-maternidade, Bolsa família, etc. Em outras palavras, há dinheiro (e o dinheiro não é um mal), mas não houve a menor preocupação governamental de orientar educacionalmente sobre a utilização responsável do dinheiro. Eu mesmo sei de casos em que as banquinhas de venda de bebidas já se colocam bem na frente das agências do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal para que possam abordá-los e ali mesmo extorquir e escravizá-los. Enfim, o Governo deu o peixe, mas não a arma para que esse indígena pudesse se defender do ataque dos predadores.

     As culturas mudam. E as culturas indígenas já têm mudado muito antes de existir o Bolsa Família. Problemas como obesidade, pressão alta, diabetes e todos os que eu citei no parágrafo acima, sinto muito dizer, não foram causados pelo Bolsa Família e muito menos pelo dinheiro. Obesidade e hipertensão começaram desde o contato com o primeiro não-indígena que colocou os pés na Região do Xingu, desde as primeiras entradas daquelas que foram as últimas das bandeiras: as expedições Roncador-Xingu criadas por Getúlio Vargas ainda em meados da década de 40. São males que vieram juntamente com os benefícios que os indígenas também desejam usufruir do mundo não indígena, como, por exemplo, roupas, tvs, celulares, o motor para o barco, a moto, o carro, o caminhão, a antena parabólica, o computador e a internet. 

    Muito antes do Bolsa Família existir já havia as doenças do homem branco, os grileiros, os garimpeiros, o álcool, as drogas, a prostituição, a invasão de terras, o descaso do Governo e da sociedade brasileira, a manipulação e doutrinação marxista por ONG’s e pelo CIMI, e o uso da política indigenista para coloca-los em permanente tensão e conflito com a sociedade que os envolve. Nada disso tem como causa o Bolsa Família. 

     Na realidade do Xingu, não foi o Bolsa Família que criou a existência do dinheiro na aldeia. Os povos cobram dos turistas para conhecerem suas terras, principalmente, durante as festas do Kuarup. Desde a entrada na aldeia para participar das festas como também pelo direito de tirar fotos, tudo é cobrado pelos indígenas da Região. E eu acredito que eles devam cobrar mesmo. São as festas deles! É a terra deles! É a cultura deles! Assim como os turistas estrangeiros e nacionais pagam para estar na festa do Carnaval brasileiro, os indígenas estão no seu direito também. 

     O que eu acho uma canalhice intelectual e pragmática é atribuir ao Bolsa Família e ao dinheiro o que, na verdade, é culpa de uma política governamental que aplica arbitrariamente suas decisões à revelia das realidades multiculturais e multilinguísticas dos povos. E não há como negar que a culpa é também de parcelas da sociedade não indígena que, infelizmente, não se importam com os indígenas brasileiros, não se importam com sua integridade física, moral e cultural, enquanto o Estado continua a manipulá-los como massa de manobra para interesses ideológicos.

    Não será o corte abrupto dos programas sociais que solucionarão problemas muito mais antigos que as implementações desses mesmos programas. O Governo errou em aplicar sobre os povos indígenas programas sociais sem adequá-los às diversas realidades culturais. Contudo, um erro muito mais grave ocorrerá com o corte desses programas. Do mesmo modo, é preciso que o encontro inevitável com o dinheiro seja tratado como uma questão educacional. É preciso que nossos indígenas aprendam a se relacionar com o dinheiro e com a sociedade majoritária. O Estado precisa parar de trata-los como crianças que não conseguem dar conta de si mesmos. 

     O objetivo da reportagem é dar à opinião pública uma justificativa para um corte nos programas sociais. Se o Governo fizer algo assim, ele criará um caos sem precedentes para a vida desses povos que dependem desse sustento e de cidades que estão no entorno do Parque do Xingu, cujos comércios dependem da vida econômica de tantos indígenas que compram nessas cidades. E não tenha dúvida que uma vez instaurado o caos, mais uma vez, o Estado aparecerá para dar “novas soluções” e aumentar cada vez mais a dependência e escravidão desses povos ao paternalismo vicioso do Estado brasileiro. A solução do problema, definitivamente, não passa pelo fim dos programas sociais. Uma reportagem como essa da Folha nada mais é do que o Estado, novamente, preparando você para ser enganado por ele.  

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