domingo, 30 de outubro de 2016

Por que ainda sou católico?

Não faz muito tempo, um amigo admirou-se com minha afirmação de que eu professava a fé católica. Escreveu-me, então, pedindo explicações, as quais, generosamente, eu compartilhei com ele e agora com você, caro leitor.
Escrevi a ele que minha fé assentava-se sobre os chamados 4 atributos da Igreja. Aliás, estes 4 atributos são compartilhados pela Igrejas Católica Romana, Ortodoxa, Nestoriana, Não Calcedoniana e pelo protestantismo histórico. Os 4 atributos (ou marcas da Igreja) estão expressos pelo Credo Niceno-Constantinopolitano de 381.
Em outras palavras, eu creio na Igreja una, santa, católica e apostólica. Todavia, seria muita ingenuidade imaginar que, passados tantos séculos da instituição do Credo, essas 4 palavras, marcas, atributos, ainda conteriam os mesmos conteúdos daquela época ou expressariam um mesmo conteúdo para tantas confissões diferentes.
A unidade da Igreja Cristã deve ser compreendida sob o aspecto já apresentado no Antigo Testamento sobre a unidade de Israel, o povo de Deus. Nem todo que participa da nação de Israel, nem todo que é circuncidado, nem todo que descende de Abraão é de fato israelita. Deus sempre trabalhou com outro critério: o toco, o resto, o remanescente fiel, a circuncisão do coração que, muitas vezes, passa despercebida dos eventos megalomaníacos de muitas denominações.
Nos anos que antecederam a Reforma Protestante, a ideia da unidade da Igreja também era algo impossível de se aceitar: o cisma da Igreja Ortodoxa e os três papados simultâneos são apenas dois exemplos que mostram a que ponto havia chegado a situação.
A doutrina da predestinação foi pregada por Wycliffe (1320-1384) diante de uma Igreja visivelmente despedaçada. Evidentemente, diante do caos da Igreja, a unidade jamais poderia ser entendida como algo visível e institucional. Por isso, pregou John Huss (1369-1415), reverberando na Boêmia os ensinos de Wycliffe:
“A unidade da Igreja Católica reside no vínculo da predestinação, visto que cada um de seus membros está unido ao outro pela predestinação, e na meta da bênção, visto que todos os seus filhos estão, no fundo, unidos em bênção” .
Esta unidade, que não se identifica com o caos que podemos estar assistindo hoje nisso que aí se apresenta como “Igreja de Jesus”, ensina que a verdadeira Igreja não pode ser confundida com a Cristandade. Então, é no meio do que se vê nas denominações, nas instituições e na própria Cristandade espalhada por sobre a terra que podemos encontrar o toco, o resto, o remanescente fiel.
Ou, citando novamente os pré-Reformadores, diante da corrupção moral e espiritual da Igreja, era óbvio que não importava sua filiação à igreja institucional e nem ter um cargo nessa instituição, ou mesmo as alegações de “milagres” que justificariam a instituição, nada disso garantiria que você fizesse parte da igreja invisível.
O que homens como Wycliffe e Huss nos alertam até nos dias atuais é que você pode estar na igreja sem ser da igreja! Se a unidade não depende da igreja visível, tão pouco a santidade e a catolicidade. A igreja são os predestinados eleitos de Deus em Cristo Jesus, relembrou Wycliffe. A verdadeira Igreja nunca foi todo o povo visível, mas os eleitos de Deus, assim como nem todo descendente de Abraão era israelita de fato.
O que os pré-Reformadores relembraram é que esta Igreja Santa é separada não apenas dentre todos os povos, línguas e nações, mas de dentro também da própria Igreja Católica Romana de seu tempo. Hoje em dia, a doutrina da predestinação nos ensina que os santos são aqueles que foram escolhidos de dentro dos nossos templos e jamais porque fazem parte de nossas denominações.
Eis a natureza real do ensino do nosso catolicismo. O nosso catolicismo é universal não apenas porque é feito da união dos eleitos espalhados por sobre toda a terra, mas, os eleitos de todos os tempos! Por isto a verdadeira Igreja do Senhor é invisível.
Mas essa invisibilidade não é um sinônimo de falta de obras, de boas obras. Ao contrário, ela se faz sentir quando os verdadeiros crentes, os eleitos do Senhor, reagem a tudo aquilo que é contra o Evangelho. Os eleitos do Senhor, regenerados na cruz de Cristo, reagem à corrupção, à imoralidade, a todo tipo de pecado da Cristandade que insiste em macular, manchar a Verdadeira Igreja de Cristo.
Enfim, minha fé é católica porque ela se assenta no ensino dos Apóstolos Pedro e Paulo e de todos aqueles escolhidos por Jesus como testemunhas de tudo o que viram, aprenderam e viveram no dia a dia com o Mestre.
Homens como Wycliffe e John Huss não trouxeram nada de novo; não apresentaram doutrinas estranhas e nem outra fonte de autoridade que não fosse a Bíblia. Eram conservadores na melhor acepção do termo: eles foram católicos que queriam mudanças, reformas, cujas bases, porém, estivessem amarradas, tão somente, às Escrituras Sagradas.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A saída da crise da Educação – uma chamada à responsabilidade da Igreja

O governo também tem o claro dever de ajudar a cuidar dos doentes e dos velhos e de providenciar uma rede de proteção para todos aqueles que, sem culpa alguma, caem no desemprego, na pobreza e na privação – Margaret Thatcher.

Mesmo uma libertária como Gloria Álvarez sabe que seria uma irresponsabilidade romper de uma vez com o Estado inchado pela mentalidade totalitária e esquerdista das últimas décadas. Assim, uma das propostas imediatas dela é a da adoção dos vouchers escolares.

Voucher é um crédito financeiro dado pelo Governo para que os pais escolham a escola particular em que vão colocar seus filhos. Num primeiro momento, essa ideia é atraente por colocar na mão dos pais a escolha da escola que querem a seus filhos, mas, na realidade, a presença de um Estado que controla o valor financeiro das mensalidades e o currículo das escolas é o problema que permanece e tende a se aprofundar num sistema de vouchers.

Outra proposta é o sistema de parceria entre o público e o privado chamado charter. É um sistema em que as escolas são administradas por um colegiado que inclui a participação dos pais e iniciativa privada – recebem verbas públicas e funcionam gratuitamente. Este modelo possui um alto grau de exigência de notas e comportamento dos alunos, enquanto daria em troca uma escola de qualidade com uma estrutura física diferenciada.

O problema com as escolas charter é ainda o mesmo que ocorre com a simples adoção dos vouchers: um Estado que gerencia o currículo e o livro didático continua inabalável. Há uma experiência sueca chamada de “escola autônoma” (ou “Escolas Livres”), que também recebe verba governamental, mas que não possui a presença dos pais na sua administração e não é obrigada a seguir o currículo estatal.

Indubitavelmente, a qualidade da Escola Pública deveria passar pela nada populista ação de se acabar com a estabilidade do funcionalismo público na área de educação, que tem servido de guarita a aventureiros, incompetentes e docentes que se acomodam num sistema que, além de não exigir do aluno, também não exige e nem cria uma política real de incentivo para a formação acadêmica do professor (aqui).

Todavia, essas saídas – vouchers, charter e fim da estabilidade do funcionalismo público na área de educação – são paliativas e mascaram o real problema que tratamos por toda esta série de artigos: a ingerência estatal.

Não há como falar de liberdade com a presença de um Estado que controla o currículo e o livro didático do Oiapoque ao Chuí. O ENEM é um escândalo de onipresença estatal! Num país de dimensão geográfica continental e de diversidade cultural como o nosso, a formatação educacional é um atentado, um verdadeiro estupro contra as diferenças do nosso povo.

O mais surpreendente é termos uma Igreja Evangélica totalmente submissa até mesmo à ingerência estatal no currículo e na administração de seus seminários, correndo que estão agora para “validarem” seus diplomas.

A própria palavra “validar” é um desrespeito com a liberdade do Evangelho, que deveria permanecer independente de quaisquer correntes ideológicas, partidos políticos e decisões do MEC. A validação do profissional do ensino deve ser o Mercado e não o Estado, assim como a verificação das qualidades de uma liderança pastoral, sejam estas acadêmicas ou não, compete à Igreja e não ao MEC!

Há uma cilada na validação de diplomas de seminários cristãos. Muitas das instituições “aprovadas pelo MEC” e que hoje validam os diplomas de graduação e pós-graduação de nossos pastores e obreiros são instituições religiosas totalmente comprometidas com a TMI (Teologia da Missão Integral) e que estão encontrando uma maravilhosa oportunidade para doutrinar nossas lideranças sob a base do seu evangelho marxista (é o caso da Faculdade Teológica Sul Americana).

Ora, por isso que, mesmo em escolas religiosas, não encontramos mais o espírito cristão: como contar com um quadro docente que foi formatado nas últimas décadas em teorias e filosofias contrárias ao Evangelho?!

Enfim, não sou adepto a nenhuma mudança revolucionária no âmbito da gestão escolar (nem eu e nem a libertária Gloria Álvarez). É preciso que haja um fundo de emergência, governamental, porém não populista para o socorro de pessoas que, de alguma forma, estão ou foram alijadas para a periferia da dignidade humana (e parece que nisso concordamos Gloria Ávarez, Margaret Tatcher e eu).

Por outro lado, é importantíssimo o apoio ao homeschooling. É preciso garantir, defender, lutar por essa liberdade dos pais em dar a educação que entenderem melhor aos seus filhos. O homeschooling não é também uma solução mágica. Não estamos aqui tratando de “soluções”, mas de liberdade!

É preciso, sim, diminuir a ingerência estatal na Educação. Todavia, não é essa ação que mudará um dos pontos tratados nesta série: a cosmovisão barroca, confusa e sacerdotal, que é um dos elementos da nossa cultura brasileira.
Se queremos maior liberdade, é preciso que a Igreja Evangélica mude. É preciso que a Igreja Evangélica passe por uma reforma e exorcize de si não apenas sua alma barroca, mas, essa necessidade de líderes personalistas e de estruturas eclesiásticas dominadoras e corporativistas, que são, tão somente, projetos de expansão denominacional.

Infelizmente, desde meados do século passado, a Igreja Evangélica abriu mão em todo o Ocidente da sua responsabilidade com a educação e a transferiu ao Estado em troca de comodidade, poder e proteção. Não basta o fim do MEC. É preciso mais, muito mais.

É preciso uma igreja que assuma a proclamação do Evangelho como sua prioridade e razão de existir. Só o Evangelho será capaz de mudar e transformar a cosmovisão que impera e depõe contra a própria igreja cristã. É inacreditável que, até meados do século XX, a educação fosse responsabilidade da Igreja, da família e da pequena comunidade em quase todo o mundo Ocidental e que hoje estejamos tão escandalosamente dependentes do Estado.

E por que não terminar esta série de artigos sobre Escola e Educação com a famosa frase do Padre Antonio Vieira, mas aplicando-a a cada um de nós: “Antigamente batizavam-se os convertidos. Hoje é preciso converter os batizados”.


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Dois livros e uma indagação – A crise da Educação Ocidental (III)

Neste penúltimo artigo desta série sobre Escola e Educação, é preciso trazer mais alguns subsídios para que você possa se conscientizar de que estamos diante do grande palco do mundo.

Estamos assistindo a uma peça que se encaminha para o clímax dos últimos eventos e a Escola é o agente da promoção de tudo isso que está sendo preparado bem diante de nós: a desconstrução da cultura judaico-cristã, o fim da cristandade, o advento do homem da iniquidade.

Um livro que nos dá a dimensão da mudança ocorrida nas últimas décadas na sociedade e na Escola é o “Reflexões Autobiográficas” de Eric Voegelin, publicado pela É Realizações.  O livro é uma “história da formação intelectual de Voegelin” contada por ele mesmo. O segundo capítulo fala sobre a imensa formação dele no ensino secundário e não há como ler aquelas páginas sem ficar com uma estranha sensação de assalto.
dois
Sim, assalto. Aquela certeza de que os discursos enjoados da Nova Pedagogia, dos Parâmetros Curriculares Nacionais, dos Temas Transversais, das Dinâmicas Educacionais, enfim, todo esse ensino que visa o aluno como ator principal no palco da escola, esse “ensino por meio de projetos”, essa educação que supervaloriza o que o aluno traz de casa e da rua, na verdade, todos esses discursos enjoados encobrem o fato de estarmos sendo enganados, roubados, lesados nas oportunidades intelectuais que deveriam oferecer aos nossos jovens, mas não estão oferecendo.

Durante sua escola secundária, Eric Voegelin diz que frequentou um Real-Gymnasium e ali teve oito anos de latim, seis de inglês e, como matéria opcional, dois anos de italiano. Não fosse isso suficiente, os pais de Voegelin ensinaram francês em casa para ele! Realmente, estamos diante de um outro mundo. Mas, veja, Voegelin não nasceu durante a Idade Média e nem tão pouco viveu o Iluminismo do Século XVIII. Estamos falando de uma realidade de apenas um século atrás e que, como se percebe, foi rapidamente corroída pelo advento da Nova Escola no mundo Ocidental.

Aliás, sinceramente, não sei se tivemos no Brasil alguma escola na qual “um dos pontos altos” do ensino secundário tivesse sido o estudo de Hamlet, durante todo um semestre, interpretado segundo a psicologia da Geltung de Alfred Adler! Nem sei se tivemos professores que, durante a oitava série de alguma escola brasileira, ensinaram tão bem matemática e física que, ao final do ginásio, “éramos capazes de nos interessar pela Teoria da Relatividade, que se tornara célebre havia pouco tempo”, segundo o testemunho de Eric Voegelin.

Por fim, ainda há um último livro sobre o papel da Escola nas mãos do Estado numa sociedade cristã que se permitiu alienar-se da esfera pública, entregando-se à bancarrota intelectual da sua própria formação humana: “Maquiavel Pedagogo” de Pascal Bernardin, originalmente de 1995.

O livro foi publicado em 2013 pelas editoras Ecclesia e Vide Editorial trazendo o revelador subtítulo de “O Ministério da Reforma Psicológica”. Essa obra mostra que a “crise” da escola ocidental é uma imensa orquestração que visa uma revolução “ético, cultural, social, comportamental, e até mesmo político e espiritual” com o fim de plantar uma nova sociedade.

Para que essa mudança ocorra é preciso que a Escola seja usada para a modificação de valores e comportamento das pessoas, aumentando a interferência do Estado sobre a vida dos alunos e diminuindo a autoridade das famílias sobre eles. Nada diferente do que têm sido feito no Brasil nas últimas décadas.

Mas como isso ocorre? Com tudo muito bem documentado (para que nenhum cético venha alegar “teoria da conspiração”), Bernardin mostra a participação de organizações globalistas como a UNESCO na condução de uma agenda mundial. Ele mostra como que a Escola foi um lugar de aplicação de métodos de lavagem e manipulação cerebrais descobertos e comprovados pela ciência para alcançar a mudança de pensamento e comportamento das pessoas.

Bernardin revela as técnicas desenvolvidas e que estão sendo usadas nos currículos de nossa Escola para atingir essa reengenharia social. Um livro que nenhum cristão deve se furtar a ler, caso queira alertar a Igreja sobre o que subjaz aos ideários de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” da Nova Escola, do Construtivismo radical e das Filosofias marxistas e revolucionárias que moldam nossos cursos de Pedagogia e Magistério.

Há saídas? Há alguma saída? No caso brasileiro, além do caos escolar da sociedade ocidental submetida à reengenharia social nos bancos de suas escolas, soma-se uma cultura que enxerga o professor como um sacerdote que deve purgar os pecados de todos nós e uma escola que é vista, pela maior parte da nossa população, como a única maneira legítima e possível de alguma ascensão social.

Será que, nesse quadro, haveria alguma alternativa diante de um Estado que usa do poder democrático para impor seu ideário anticristão a todos nós? Nosso último artigo pretende dar uma resposta a essa indagação.


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Dois filmes e uma revolução – A crise da Escola Ocidental (II)

A maioria das pessoas acredita que o problema da Escola é um problema econômico. Numa sociedade materialista, essa abordagem marxista, sociológica, é sempre a resposta mais simples, mais imediata, porém é também a mais equivocada.
Não somos seres econômicos. Antes de tudo, somos seres religiosos. Assim, o que fazemos, o que escrevemos, os prédios que construímos, as florestas que derrubamos são resultado daquilo que cremos. E a Escola é, na verdade, resultado imediato de nossas crenças. Abordei isso aqui e aqui.
O Estado não tem alma, sua Escola também não. Não é meramente uma discussão sobre laicismo, pois, se professores, pais e alunos possuíssem os valores sobre os quais, um dia, a sociedade ocidental foi construída, mesmo diante de uma escola laica e hipocritamente asséptica (como a nossa se propõe a ser), ainda assim haveria uma alma.
O filme Detachment, que pode ser traduzido por “destacado” ou “aquilo que não se encaixa”, “fora do lugar”, “desapegado”, no Brasil recebeu o título de “O substituto”, tem sua tese ilustrada nesta frase, apresentada logo no início do filme, do filósofo Albert Camus: “E eu nunca me senti tão imerso e ao mesmo tempo tão desapegado de mim e tão presente no mundo”.
“O substituto” é um filme que mostra que essa Escola que está sendo impingida a todos nós é resultado da crise de nossa própria sociedade. As pessoas estão cansadas e sobrecarregadas e se encontram indo de um lado para o outro como ovelhas sem pastor. Esta é a verdade. Mas, indubitavelmente, não é o Estado quem tem a resposta para a derrocada espiritual em que o mundo ocidental se encontra.
O mundo Ocidental está naufragando nos problemas que ele mesmo criou, mas, alienadas de si mesmas, as pessoas estão muito distantes do Pastor e totalmente desapegadas umas das outras: “Estamos fracassando. Fracassamos. Fracasso no sentido de que deixamos todo mundo na mão, incluindo nós mesmos”, desabafa um dos personagens do filme “O substituto”.
A nossa Escola nada mais é do que um defunto, um corpo, que, por estar vazio, por ter sido abandonado, foi possuído por um Estado que não tem alma.
Filmes.
Filmes.
Outro filme sobre a crise da educação ocidental é “Entre os muros da escola”, que vai explorar a situação recente de uma França que, de maneira irresponsável, se abriu ao multiculturalismo.
O filme expõe muito bem, principalmente para quem tem uma visão romântica do que seja a relação com o imigrante num mundo politicamente correto, o perigo dessa usina atômica que se tornou a sala de aula e a Escola.
Só para exemplificar com uma cena do filme, ao tentar estabelecer a ordem numa sala de jovens imigrantes e negros, o professor tem que, veja só o absurdo, se justificar como quem está pisando sobre ovos, como quem dá aula pedindo desculpas: “Só quero lembrar a todos que isso não é sinal de submissão e nem de humilhação, mas educação”. Estamos perdidos!
Outra cena: o professor está tentando ensinar aos alunos a conjugação do verbo “crer” e, depois de todo esforço em vão, ficamos com a indagação em mente: como “crer” na educação escolar se os alunos não sabem sequer conjugar o verbo “crer”?
Entretanto, o nascedouro de toda essa mentalidade surgiu na própria França, na chamada Revolução Francesa e nos ideais utópicos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, infligidos ao peso da guilhotina de uma política revolucionária.
Assim, filmes como “O substituto” e “Entre os muros da escola” (ambos estão disponíveis no youtube) são demonstrações do resultado da crise da Educação ocidental, que tem se agravado nas últimas décadas. Uma “educação” imposta pelo Estado e que tem na Escola a sua mais eficiente máquina para nos modelar nos desvalores revolucionários de uma sociedade sem alma. E sem Cristo.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O Eduquês em discurso directo – A crise da Escola Ocidental (I)

Embora o Brasil, devido a sua influência jesuítica (aqui), manifeste esta característica tão peculiar do professor como o “novo sacerdote”, a crise da educação rompe as barreiras do nosso país.
Há, portanto, dois outros ingredientes externos que, somados a nossa “cosmovisão barroca”, ajudam a desenhar o quadro do caos educacional no qual nos encontramos: a mentalidade esquerdista e a mentalidade estatizante.
Nuno Crato é professor no Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa, e Doutor em Matemática Aplicada nos Estados Unidos. Seu livro já anuncia em seu título o desafio que nos aguarda: O ‘Eduquês’ em seu discurso directo – Uma crítica da Pedagogia Romântica e Construtivista (editora Gradiva).
Em sua contra-capa, lemos a seguinte apresentação: “O Eduquês em Discurso Directo disseca com rigor e impiedade os lugares-comuns em educação, mostra o vazio dos conceitos que têm dominado a pseudopedagogia do laxismo e da irresponsabilidade e explica a ideologia frouxa que está por detrás da linguagem mole e palavrosa a que se tem chamado ‘eduquês’”.
Embora o livro faça uma avaliação das teorias e práticas pedagógicas em Portugal, é assombroso (e triste) vermos que o “eduquês” é idioma universal. Por isso mesmo, encontrei neste livro muito da minha própria história de submissão cega à pedagogia romântica e (ainda bem) de minha posterior reação consciente ao que vi como prática exagerada de certos luminares construtivistas e suas ideias revolucionárias.
A discussão de Nuno Crato irá focar a mentalidade construída e imposta pela pedagogia romântica, que tem deixado como legado um ser humano alienado dos melhores e mais tradicionais valores da Educação judaico-cristã e, ao mesmo tempo, preso cada vez mais ao mundinho imediatista do aqui e agora que sua vida fugaz oferece.
Todas estas ideias são expostas e discutidas por Nuno Crato em seu livro: a escola à mercê de “reformulações drásticas e reviravoltas pedagógicas revolucionárias”; uma máquina que não oferece condições reais e dignas para a formação científica do professor e nem se concentra “no ensino das matérias básicas, na avaliação constante e na valorização do conhecimento, da disciplina e do esforço”; um modelo de ensino que se tem furtado ao dever de desenvolver nos estudantes de forma sistemática e progressiva o espírito de disciplina, trabalho, esforço, persistência e concentração; e, enfim, que a Escola não deve abster-se de “adotar expectativas exigentes para os estudantes e seus trabalhos”.
Ler o livro do professor Nuno Crato foi uma oportunidade ímpar de exorcizar de vez quaisquer resquícios que me foram embutidos ao longo dos meus 20 anos de professor.
O livro do Nuno Crato nos presenteia com um questionamento profundo sobre isso que tem sido imposto à Escola Ocidental como sendo “o mais moderno das últimas novidades pedagógicas”. Além disso, o que também salta aos nossos olhos ao lermos Nuno Crato é o problema político e filosófico por trás da Escola Pública. E, indubitavelmente, constata-se que esse problema é ressaltado mais ainda no Brasil, porque unimos à pedagogia ideológica uma política também ideológica em favor de transformar a Escola num palanque, laboratório e máquina de ideias progressistas.
Nos próximos artigos desta série, veremos que esse caos educacional do mundo Ocidental segue a uma agenda, cujo propósito é operar uma reengenharia social para uma nova era.
PS – Enquanto você lê este artigo, o Governo programa uma nova reorganização da rede escolar estadual, que ameaça fechar várias escolas no Brasil e superlotar outras. É o Estado fazendo mais um desserviço pela educação do seu filho. E o que a Igreja Evangélica Brasileira tem a ver com isso, não é mesmo?

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A alma barroca da escola no Brasil

“O que a cosmovisão teísta cristã conseguiu fazer no Brasil em prol do professor e da Escola?”, foi a pergunta que deixei no artigo anterior desta série sobre Escola e Educação.
O primeiro ponto do qual devemos tomar consciência, se é que queremos levar essa discussão às vias de fato, é que nossa cultura é fortemente romana, católico-romana. Se escavarmos a cosmovisão reformada, que é aquela forjada a partir da Reforma Protestante como resgate de uma maneira bíblica de ver o mundo, não encontraremos nela nada que justifique essa mentalidade do professor como sacerdote.
Ao contrário, a cosmovisão cristã reformada tem como um dos seus postulados que o sacrifício de Cristo é suficiente não cabendo mais o papel messiânico, salvador, sacrificial a mais ninguém, só a Jesus. Pessoa alguma deve receber impositivamente sobre seus ombros a responsabilidade da redenção de outra pessoa ou de sua intercessão, do mesmo modo, nem o Estado, nem a Escola ou professores – braços do Estado – podem encarnar a opção de serem agentes de transformação e implantação do céu na terra.
Na cosmovisão reformada, fica evidente que professor algum deve ser tratado por quem quer que seja como um sacerdote, ainda que, por livre vontade, um sacerdote possa ser um professor. Mas esta segunda proposição é de natureza bem diferente da primeira.
A compreensão do Brasil, portanto, passa pelo romanismo. Ainda que nas últimas décadas possamos constatar um forte e contínuo crescimento das denominações evangélicas, a maioria dessas “novas denominações” não participaram dos 4 séculos anteriores da formação do espírito nacional.
No caso das denominações históricas, as igrejas protestantes não tiveram uma influência marcante e decisiva como foi, indubitavelmente, a presença jesuítica, que se estendeu do “Oiapoque ao Chuí” deste Brasil com fortíssima ênfase educacional. Até que Marquês de Pombal expulsasse a Companhia de Jesus, os primeiros 200 anos de história do Brasil tiveram a marca desse grupo, que dominou o campo religioso e educacional no país.
Sabemos da presença dos huguenotes, enviados por João Calvino ao Brasil na segunda metade do séc. XVI, tanto para apoiar os franceses na Baía de Guanabara como para evangelizar os Tupinambás.
Eles fazem parte da História da Missão não só por terem escrito a Primeira Confissão de Fé das Américas, A Confissão de Fé da Baía de Guanabara (a Confissão Galicana, a Confissão Belga, o Catecismo de Heidelberg e a Confissão de Fé de Westminster foram todas escritas depois da nossa Confissão da Guanabara), mas também por terem sido os primeiros mártires que derramaram o seu sangue em defesa do Evangelho no Brasil, constando que a morte de um desses huguenotes teve a participação do jesuíta Padre José de Anchieta.
Assim, condenados pelos jesuítas, a presença dos huguenotes franceses entre nós foi curta. Logo após, durante a União Ibérica (1580-1640), novos protestantes calvinistas, vindos agora da Holanda, deixaram a marca de sua modernidade e evangelização, principalmente entre os povos indígenas e em cidades do Nordeste como, por exemplo, Recife.
Com a abertura dos portos, no século XIX, muitos outros protestantes viriam ao Brasil, porém, por meio da primeira Constituição do Império de 1824, foi proibido quaisquer sinais externos que identificassem os templos evangélicos por aqui. Por tudo isso, podemos perceber nesses exemplos que nada se compara com a presença jesuítica.
Surpreendentemente, a influência da Igreja Católica Apostólica Romana na nossa cultura é tão proeminente que levou o Rev. Augustos Nicodemus, ministro da IPB, a escrever o artigo intitulado: “A alma católica dos evangélicos no Brasil”, para explicar o fenômeno do poder da cosmovisão romana dentro das Igrejas Evangélicas no Brasil.
E isso, por fim, faz-nos encontrar a raiz da confusão entre o professor e o sacerdote na mentalidade brasileira dominada tão fortemente pela figura do sacerdote católico jesuíta.
Se você, caro leitor, quiser se aprofundar ainda mais nessa minha tese acerca dessa “cosmovisão barroca”, sugiro não apenas a leitura do artigo do Rev. Augustus Nicodemus, mas também do meu artigo “Eu quero fugir da lógica do negociador”, no qual trato desta “alma católica” como sendo o espírito da própria Contra-Reforma, espírito esse encarnado pelos jesuítas, que, no Brasil, moldou nossa cultura por meio da arte barroca (ambos os artigos podem ser lidos a partir daqui).
No nosso país, nessa “cosmovisão barroca”, encontramos a motriz que alimenta a visão do professor-sacerdote, que é apenas um dos problemas que enfrentamos aqui. Na verdade, há um tripé que marca a destruição da Escola no Brasil. Os outros dois elementos são outras duas maneiras de ver o mundo, a mentalidade revolucionária e a mentalidade estatizante. E elas vão situar o Brasil num quadro maior, encaixando-o num programa de destruição da sociedade ocidental que vai muito além das nossas fronteiras.
É sobre elas que pretendo tratar nos próximos artigos, antes de finalizar esta série com as possíveis soluções para a Escola e a Educação brasileiras.

sábado, 8 de outubro de 2016

“Tudo, menos ser professor”!

Qual não foi minha surpresa ao assistir à comédia romântica americana “Virando a página”, com Hugh Grant e Marisa Tomei, e ver que o enredo do filme tratava de um escritor de roteiro para filmes hollywoodianos, mas que há 10 anos não escrevia nenhum sucesso e, assim, não chamava mais nenhuma atenção dos produtores. Diante desse histórico de fracasso, qual a saída que o personagem principal encontra? Ser professor.
E essa visão sobre o professor estende-se por todo o Ocidente. Ou você pensava que era só no Brasil que encontramos pais que orientam seus filhos na hora da escolha da faculdade, dizendo: “Tudo, menos ser professor”?
Os movimentos de esquerda, desde o fim dos anos 50, têm sido vitoriosos na desconstrução da autoridade, seja na Escola, na Família e na Igreja. Não são casuais as caricaturas do professor Girafalis, do Fred Flinstones e do Tim Tones (isso para ficar em apenas alguns exemplos) invadindo nosso imaginário em nossa infância por meio do entretenimento.
Veja a citação a seguir:
“Diferentemente do ocidente, no oriente o budismo ensinou o caminho da salvação pela razão (iluminação). Na cultura desse povo, tudo ligado ao conhecimento e ao aprimoramento da alma, é respeitado e venerado: as escolas, os professores, os livros, os santuários, os templos, os monges, os artistas, as obras de arte. Na hierarquia social, o professor terá sempre ascendência sobre seus ex-alunos indiferentemente da posição social que ocupem no futuro, pois na gênese cultural do xintoísmo – religião primitiva do Japão – está a perfeição do lado divino do ser humano e cabe ao educador apenas saber extraí-lo – como a escultura Pietá de Michelangelo, cuja extrema perfeição, ao ser elogiada, ouviu-se do artista que a perfeição já estava lá. Ele retirara apenas os excessos. A gratidão a esse trabalho do professor é eterna. Os japoneses têm um nome para a tarefa educacional, quer seja do professor ou dos pais: “shin-sei kaihatsu” (shin = Deus, sei = natureza, kaihatsu = desenvolver, manifestar), fazer manifestar o lado divino e perfeito de cada um. A grande vergonha de um professor é o fracasso do aluno”.
O parágrafo acima é sobre o maravilhoso filme de Akira Kurosawa, “Madadayo”, essa citação revela para nós o poder da cosmovisão (saiba mais sobre o filme aqui fonte) , como que uma cosmovisão pode moldar e construir uma sociedade sobre bases firmes, saudáveis e reverentes. Indico que você assista a Madadayo para que, então, possamos enfrentar, de verdade, o problema em que se tornou a Escola no mundo Ocidental de cosmovisão cristã.
Cresci ouvindo que o Japão, após a Grande Segunda Guerra, investiu em Educação e o Brasil, infelizmente, em estradas. Evidente que esse tipo de análise é reducionista e preguiçosa. Como se a diferença entre o Japão e o Brasil fosse apenas uma questão de “erro de aposta”.
Nada distorce mais a realidade do que quando fazemos uma análise meramente econômica da sociedade (coisa que marxistas e socialistas adoram fazer). Há mais, há muito mais  por baixo do manto das aparências de uma cultura – e é a esse “muito mais” que chamamos de cosmovisão.
Como vimos na citação, o Xintoísmo e o Zen-Budismo fornecem mais elementos que findam por destruir o mito de uma simplista escolha japonesa pela educação. Uma escolha com consequências sociais, políticas, morais, econômicas indubitavelmente, todavia, antes de tudo, a cosmovisão animista foi a base de pressupostos que conseguiu gerar uma moral da educação (o que, sinceramente, não encontro no Brasil).
No caso do Brasil, ao contrário do mundo Oriental, a nossa cosmovisão tem gerado essa perversa visão do professor como sacerdote, e essa cosmovisão tem sido usada habilmente pelo Estado como justificativa para perpetuar o problema da Escola no Brasil.
Conclusão de tudo isso: temos gerado, para felicidade do Estado, uma profissão que, no imaginário nacional, tem servido para abrigar fracassados.
A pergunta que vou deixar para ser respondida no próximo artigo é: o que a cosmovisão teísta cristã conseguiu fazer no Brasil em prol do professor e da Escola?

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Professor não é sacerdote – um artigo para depois do porre do Dia 15 de Outubro

Gostaria de pedir desculpas pelo meu último artigo (aqui). Um artigo que, como o próprio título já confessava, era muito antipático mesmo. Afinal, quem que no dia do aniversário do próprio casamento gostaria de saber da traição do cônjuge ou mesmo da conta que terá de pagar pelos festejos da festa? Há certas coisas que não se faz…
Gosto muito de “expressões idiomáticas”. Há uma em inglês que diz assim: “I’m gonna rain on your parade”. Traduzida ao pé da letra ficaria “eu vou chover no seu desfile”. E, como ocorre a toda boa expressão idiomática, não se pode traduzir “ao pé da letra”.
Na verdade, essa expressão equivale a uma que temos em português: “eu vou colocar um caroço de azeitona na sua empada”! A ideia é de “melar o seu jogo”, estragar com sua festa, frustrar a sua alegria e foi exatamente o que eu fiz com meu último artigo para muitos.
Todavia, após as comemorações do Dia dos Professores, quem sabe você já não esteja mais sob o efeito narcótico da data e possa enfrentar a realidade de um modo menos passional? Pois, venhamos e convenhamos, querido professor, é sempre muita purpurina que jogam sobre a classe para um único dia, não? E, como diz minha mãe, “esmola demais o santo desconfia”.
E você? Ainda não desconfiou? O seu Dia passou, mas o ano sequer terminou e os problemas continuam os mesmos: bibliotecas inexistentes, prédios decadentes, alunos desobedientes, pais ausentes, projetos pedagógicos inexplicáveis que o farão, no fim deste ano, passar alunos que nunca se esforçaram e nem fizeram por merecer, ao contrário, riscaram o seu carro, furaram seu pneu, ameaçaram sua integridade física…
Mas as homenagens do Dia 15 foram lindas, não foram? Você finalmente recebeu o que lhe faltou o ano todo: aquela caixinha de bombons ornamentada de sorrisos amarelos e aquele mesmo discurso que o capataz da fazenda, aquele capitão do mato, que pode ser o Diretor da Escola, o Coordenador da sua Regional de Ensino ou o Secretário de Educação do seu Estado, qualquer um deles expressando o que todos queremos que você acredite: “o professor é um sacerdote”!
Mas quem disse que o masoquismo faz parte desse sacerdócio? Sacerdócio?! Ora, tenham a santa paciência! Justificar o “dom” de ensinar com essa linguagem sagrada é querer maquiar uma realidade infernal na maioria das escolas do Brasil. Relembre o caos em que nos encontramos (aqui).
A quem serve esse discurso religioso nos lábios de um Estado que exige do cidadão comum a laicidade (quando ao Estado convém)? O sacerdote, diz a crendice popular, é o santo. E você sabe muito bem para que serve o santo, não?
O santo é aquele que sofre para abrir caminho para o povo. O sacerdote é aquele que trabalha de graça, recebe sobre seus ombros toda dor do mundo, sacrificando-se para que todos possam ter acesso ao céu. O sacerdote, o santo, é aquele que purga na terra para que o pecado de outros seja perdoado pelos méritos conquistados por esse “santo”.
Ora, caros amigos evangélicos, como vocês podem concordar com essa cosmovisão?
Se o indivíduo quer se “sacrificar” pelos seus alunos ou pela instituição ou partido (ou, quem sabe, pelo sindicato) isso deve ser feito por haver, de fato, escolha, porque nenhum sacerdote deve ser forçado pelo Estado a continuar sua romaria.
A verdade, entretanto, é que o Estado brasileiro usa e abusa dessa cosmovisão de “sacrifício sobre o altar” para justificar e manter os professores debaixo de uma gestão incompetente e corrupta moral e ideologicamente. Enquanto isso, toda sociedade, inclusive os próprios professores, acha lindo ver a categoria como sacerdotes "pobre-coitadinhos".
Queridos, “ser professor” é uma profissão e precisa ser tratada como tal. Se você a encara como algo “sagrado” isso é uma questão pessoal, mas que não pode ser usada para manter outras pessoas trabalhando em condições humilhantes e totalmente improdutivas.
Professor, valorize-se! Você não é o bode expiatório e nem o cordeiro que tira o pecado do mundo. E, por favor, entenda que aqui na terrinha brasilis não vai ter imperador japonês nenhum para ficar se curvando diante de você! Você é apenas uma peça na engrenagem de um Estado que trabalha para moer você e seus alunos.
As homenagens passaram, o dia 15 se foi, a caixinha de bombom está vazia e as flores que você ganhou e colocou naquela jarrinha de vidro na sala dos professores – vai lá ver – já estão murchas, mas a realidade trágica da educação no Brasil continua a mesma. Precisamos conversar mais sobre isso. Até o próximo artigo.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Ao mestre com carinho – uma antipática reflexão para este 15 de outubro

…o sistema atual de ensino não tem por objetivo realmente educar, mas somente distribuir socialmente os indivíduos, por meio do ritual de certificados e diplomas. A escola formal (…) não é um meio de educação, mas um meio de “promoção” social, fato que as pessoas humildes revelam perceber quando insistem com o Joãozinho: estude, meu filho, estude…
José Monir Nasser, Prefácio do Trivium
Hoje eu sei que tive pouquíssimos professores. Nesta minha caminhada, foram raros os mestres que encontrei. E não é por falta de conhecer professores! Todavia, que tristeza confirmar que muitos são aventureiros e mercenários nesta profissão: carregam um título e, às vezes, um diploma, pensando ser isso o que outorga a alguém o “ser professor”.
A verdade é que “ser professor” é algo para qualquer um nestes tempos modernos. Em Brasília, por exemplo, conheci muitos que eram veterinários, farmacêuticos, advogados, etc. Eles eram pessoas que não deram certo em suas profissões, estavam desempregados ou, simplesmente, precisavam aumentar o orçamento familiar e, por isso mesmo, terminaram optando por uma sala de aula. Faziam parte dos chamados “contratos temporários”.
Nem quero lembrar o dia em que, passando em frente de uma sala de aula de 4ª série, vi um desses “professores” sentado na cadeira de sua mesa, com o jornal aberto bem em frente do seu rosto para esconder que estava dormindo, enquanto seus alunos – crianças com 9 anos de idade – subiam nas mesas e se matavam uns aos outros…
Ou para que relembrar os “professores” que foram transferidos das suas escolas de origem para outras mais distantes “só porque” vinham mantendo relações sexuais com alunas menores de idade. E aqui, perplexo, vi que tais professores nunca sofreram as devidas penas por seus comportamentos criminosos, ainda que os pais os denunciassem.
Evidentemente, sempre há aqueles cheios de boas intenções (mas, como diz minha mãe, de boa intenção o inferno está cheio). Esses são os esforçados, os sonhadores, os peões de obra, a carne numa máquina que os mói e os gasta ao máximo até o ponto de suas falências emocionais e espirituais. Contudo, boas intenções não fazem de alguém um mestre de verdade. Esse grupo é muito bom para ser usado pelo Governo. São aqueles sempre dispostos a aplicar aquelas tais pedagogias modernosas (as ideias inovadoras de educadores de gabinete) com suas aulas cheias de dinâmicas em grupo e vazias de conteúdo. Tudo muito visível para poder aparecer no jornal local da cidade, tudo bem maquiado com seus projetos mirabolantes e suas apoteoses de fim de ano. Acho que esse grupo se identifica com aquela pecha chamada sacerdócio, uma mentira diabólica contada para fazer do professor alguém muito parecido com um profissional masoquista de alguma loja de sex shop ou casa de prostituição, essas estranhas pessoas que recebem dinheiro para ter (ou fingir) prazer em sofrer.
Nem vou perder tempo com aquele outro nefasto grupo de vagabundos que usam a profissão para fazer política partidária. Esses pareciam mais agentes sindicalistas infiltrados: falavam sobre a opressão capitalista, organizavam greves e piquetes, bradavam frases de “ordem”, saíam para encher a cara com os alunos e comiam as aluninhas alienadas e feministas. Porém, algo muito maior caracteriza tal grupo: faziam da escola o seu trampolim político! Depois de todo movimento grevista (sempre em época de eleição), os que se destacavam na luta por maiores salários eram eleitos pelos seus pares vestidos com camisas de che guevara.
Diante desse quadro, pergunto: cadê os tais professores? Por onde andam aqueles mestres que deveriam alterar o curso de nossas vidas, revelando os valores de uma verdadeira educação? Os homens de cultura invejável, os homens detentores de um profundo saber e dispostos (e preparados) a compartilhar com seus pupilos o mundo das grandes tradições milenares: as filosofias, as matemáticas, as estéticas, as culturas, as religiões, as literaturas. Cadê estes tais professores? Que deveriam nos arrancar do mesmismo de nossas vidas encaixotadas e mostrar que o mundo não é este meu umbigo e nem a realidade pífia do dono da boca de fumo do bairro em que eu moro.
Mestres que se empolgam em ensinar que houve gigantes antes de nós e que, na verdade, temos ainda muito que aprender antes de pensarmos em questionar alguma coisa. Porém, há um delírio nas novas pedagogias, a crença dogmática de que a criança traz da sua casa, da rua, do mundo em que ela vive, um saber que precisa ser ensinado e validado na escola.
E pior, o professor tornou-se essa coisa comum, o semelhante, o tão igual a mim a ponto de não ter nada a acrescentar à minha vida: o meu professor é igual ao meu colega, gosta das mesmas coisas que eu gosto, ouve as mesmas músicas que eu ouço, fala as mesmas gírias que eu falo e ainda compartilha das mesmas referências sexuais de “intelectuais” como os apresentadores do CQC ou do “Porta dos fundos” ou, ainda, de algum artistazinho global. Enfim, a maioria das escolas, públicas e particulares, tornou-se esse lugar-comum de pessoas-comuns cuja grande inovação educacional é sistematizar mais do mesmo. E só.
Cadê os tais professores? Sim, eu os conheci na minha trajetória estudantil. A grande ironia é que pouquíssimos desses mestres foram encontrados por mim em um ambiente de Escola, mas foi fora dela que eu tive o privilégio de me deparar com a maior parte deles. E é a esses que eu dedico esta minha antipática reflexão sobre este 15 de outubro. A eles e apenas a eles, os meus mais sinceros parabéns!

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

"Entendes o que lês?" - As consequências danosas de uma Igreja que não lê

Há alguns anos (20 anos para ser mais preciso), entro em salas de aula para trabalhar interpretação de texto. Os meus alunos vão desde o Ensino Fundamental, passando pelo EJA, até alunos já com algum curso superior ou de outras línguas e culturas. E confesso que não é nada fácil.
Ler, compreender, interpretar e explicar a outro aquilo que foi lido são os grandes desafios que têm impingido derrota à Escola brasileira nas últimas décadas.
O Brasil aparece em rankings mundiais de leitura (aqui) sempre nos últimos lugares, atrás até mesmo de países como o Irã e o Uruguai. Outros relatórios mundiais, como o Pisa, colocam o país na 55ª posição do ranking de leitura, abaixo de países como Chile, Uruguai, Romênia e Tailândia!
Obviamente, como interpretação é tudo, não só a disciplina de português, mas todas as demais também naufragam nesse oceano de símbolos, signos e códigos. Veja a última aqui:  pouco mais de 56% dos estudantes do 3º ano do Ensino Fundamental de escolas públicas não conseguem, por exemplo, sequer ler as horas!
Por tudo isso e muito mais, não é de surpreender que o MEC assine o próprio atestado de incompetência, quando divulga tragédias como a de que uma em cada cinco crianças de oito anos não sabe ler frases (veja aqui). O que me intriga é ver que ninguém percebe que as informações não publicadas são muito mais estarrecedoras do que essas que vêm a público.
O que nunca está dito nessas reportagens é sobre o imenso número daqueles que até sabem ler (pois isso é uma atividade mecânica), mas não compreendem o que leem: são aqueles “leitores” que não entendem que há significado no texto. E, só para piorar, se eu ainda somar esses que leem, mas não entendem, aos que não conseguem comunicar ao outro a informação lida, como é que ficariam essas tais estatísticas?
Viu agora como o problema da leitura no Brasil é muito pior do que o que vêm a público?
Na maioria das escolas brasileiras, faça a experiência você mesmo, temos crianças no quinto ano do Ensino Fundamental que, lendo bem, ao serem chamadas a explicarem o que leram, hesitam e não dão conta.  A consequência disso é uma Escola que “vai passando” esse aluno de ano até que o êxodo universitário seja outro índice vexatório entre nós.
Graças a Deus por vivermos num sistema capitalista em que o mercado nos livra de sermos obrigados a nos submeter aos péssimos profissionais que foram “formados” por faculdades que “baixaram” o nível de exigência para mascarar o fracasso de nossa educação.  E os que não tem outra solução a não ser aceitar a “imposição democrática” da prestação de serviços estatais de saúde e educação?
O que quero neste artigo é chamar a sua atenção para as consequências danosas de uma Igreja que não lê e eu não estou aqui me referindo apenas à leitura da palavra escrita, mas até mesmo à compreensão de textos orais e visuais. Eu estou falando de interpretação. Portanto, entre esses que leem, mas não entendem, como esperar que preguem com fidelidade? Lembrou de alguma coisa? Eu lembro do texto de Romanos:
Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: “Como são belos os pés dos que anunciam boas novas!” (Romanos 10:14,15).
O fato é que a Igreja precisava investir mais nas ovelhas e nos pastores que não têm entendido o que leem. Somos o “povo do Livro”, mas, vergonhosamente, muitos sequer leem o Livro. E, quando leem, leem mal. E entre esses que leem mal  estão os que vão sair para evangelizar. Assim, não é de surpreender que milhares no Brasil têm sido engolidos pelos falsos mestres, lobos vorazes de ovelhas que não conseguem examinar suas próprias Bíblias (Atos 17:11) .
Antigamente, havia denominações evangélicas no Brasil que, ao lado da Igreja que plantavam, erguiam um hospital e uma escola para atingir a sua comunidade. Hoje em dia – um escândalo! – boa parte das novas igrejas sequer oferece Escola Bíblica Dominical e aquelas que oferecem, infelizmente, encontram-se vazias…
Num país com tão graves problemas educacionais, é óbvio que a Igreja também seria atingida. Acredito que é responsabilidade da Igreja – responsabilidade minha e sua – ajudar as ovelhas (e pastores) para que todos possamos aprender a ler e escrever melhor. A Igreja precisa (re)assumir a sua missão educacional.

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